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sábado, 7 de dezembro de 2013

Sebastião Magalhães Lima – Um Idealista

Sebastião de Magalhães Lima foi uma das figuras emblemáticas do republicanismo português nas últimas duas décadas do século XIX e depois nas duas primeiras da centúria seguinte. Fez parte do Directório do Partido Republicano Português durante muitos anos, teve um papel destacado na propaganda na imprensa e na qualidade de prolífero publicista e conferencista.
Foi autor de uma vasta obra – uma trintena de títulos entre livros e folhetos – sem contar com uma intensa colaboração em revistas e jornais, incluindo os que dirigiu durante muito tempo, como O Século, Vanguarda e A Folha do Povo, e que ficaram célebres nessas décadas que antecederam a mudança e regime.

Poucos republicanos, como ele, alcançaram uma projecção internacional de tanto destaque, conferida, em larga medida, pela sua militância pacifista – foi co-fundador da Liga Portuguesa da Paz em 1899 – nas associações de imprensa e do livre-pensamento e também pela sua qualidade de Grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido Supremo, Conselho da Maçonaria Portuguesa. Essa notoriedade além-fronteiras facilitou a sua acção como «caixeiro-viajante da República», como foi designado, utilizando esse prestígio em benefício da consolidação da jovem República Portuguesa. Foi amigo de Anatole France, Vitor Hugo, Kropotkine, Frederico Passy, Gladstone, Jean Jaurés, Amilcare Cipriani, Millerand, Salmeron, Max Nordeau e Pi y Margal.

No entanto, tendo em conta um currículo de tal dimensão, a sua carreira política depois de 1910, foi modesta. Tomando assento na Assembleia Constituinte e depois no senado, até 1915, mas com raras presenças, entre cortadas com frequentes idas ao estrangeiro; ocupou por breves semanas a pasta da Instrução no governo saído da Revolução de 14 de Maio de 1915, que derrubou Pimenta de Castro. Bem pouco, afinal, para uma biografia tão extensa e relevante, embora ele próprio tenha declarado que só muito instado aceitou.
Para uma personalidade com os contactos internacionais que possuía, a Presidência da República não teria sido demais. No entanto, nas eleições presidenciais de 1911 teve um único voto em 217, e nas de 1919 também um voto solitário em 181. Nas de 1923, quando foi eleito Teixeira Gomes, chegou a formar-se uma comissão para promover a sua candidatura, animada por Teófilo Braga, Botto Machado e Alexandre Ferreira. Mas em vão: sem o apoio das forças partidárias, teve um voto num total de 197... Decididamente, os tempos não eram favoráveis aos idealistas.
É que Magalhães Lima foi, acima de tudo, um idealista com uma certa dose de ingenuidade.

O facto de ter sido republicano desde os tempos de estudante não toldou a sua capacidade crítica, fazendo diversas intervenções, durante a Primeira República, no sentido da pacificação do campo republicano e da correcção de erros que estevam a ser praticados. Republicano federalista, apesar de as suas ideias não terem sido consagradas na Constituição de 1911, nem por isso renunciou a elas, que também se incluíam uma constante preocupação social que lhe granjeava um enorme prestígio entre as classes trabalhadoras.
Ao longo da sua vida, Magalhães Lima foi um modelo de honestidade e de coerência em relação aos seus ideais. Numa entrevista de 1911, afirmava: «Se for preciso recomeçar a minha vida para defender a Liberdade fá-lo-ei sem a menor hesitação. Sempre com a Liberdade contra a Reacção, venha esta de onde vier! O que enfim lhe posso assegurar é que vigiarei de perto a marcha da República e que qualquer recuo ou estacionamento será absolutamente impossível, seja qual for o governo. Tenho de resto uma absoluta confiança no espírito republicano que hoje domina o país, e que, acredita, ninguém já hoje poderá sofrear. O meu temperamento foi sempre o de um propagandista e nessa situação me conservarei ao lado dos meus amigos com a mocidade espiritual e a dedicação republicana que felizmente não me abandonaram ainda...».

Ascendeu a Grão-Mestre da Maçonaria em 1907, num dos mais longos mandatos na história maçónica portuguesa, o qual apenas terminou com o seu falecimento em 1928. Sendo um dos maçons mais prestigiados internacionalmente, durante este período foi o grande impulsionador da republicanização da organização, conspirando activamente para a implantação do regime republicano em 1910, apoiando múltiplas tentativas revolucionárias durante as fases mais exaltadas da Primeira República Portuguesa. Foi nesse contexto que em 6 de Dezembro de 1918, teve a sede do Grande Oriente Lusitano assaltada por populares que acusavam a Maçonaria de estar por detrás do atentado frustrado à vida de Sidónio Pais ocorrida na véspera e que foi preso e maltratado no Governo Civil de Lisboa por alegadas relações com José Júlio da Costa, o jovem republicano que praticou aquele acto.

Foi Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito em 1919.
Em 1921 fundou a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem.
Faleceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1928, já sob o governo da Ditadura Nacional, mas ainda assim o seu funeral reuniu dezenas de milhares de pessoas.

Foi um dos maçons portugueses mais conhecidos e prestigiados fora de Portugal, e um dos Grão-Mestres com mais longo mandato na história maçónica portuguesa (1907 a 1928), coincidente com o período de maior apogeu da Maçonaria em Portugal. Na sua última mensagem como Grão-Mestre, em 1928, condenou a opressão que um regime ditatorial impusera ao seu país desde 1926, afirmando que os conceitos de Pátria e de Liberdade eram sinónimos!

Obras: Para além de uma vasta obra dispersa por periódicos vários e panfletos, é autor das seguintes monografias:
Martírio de um anjo; Amour et Champagne; Um drama íntimo; Fatalidade e o destino; Cambiantes da comédia humana; Estrelas e nuvens; A beira-mar; Um dia de noivado; A Actualidade (estudo económico-social); A Federação Ibérica, 1892 (edição francesa); A Guerra e a Paz (conferência); A Obra Internacional (edição portuguesa e edição francesa), 1897; A Questão do Banco Nacional Ultramarino, 1879; A Revolta (1.ª Parte), A Revolta (2.ª Parte); A Senhora Viscondessa (romance), 1875; Costumes Madrilenos, 1877; Da monarquia à república: história da implantação da república em Portugal, 1910; Episódios da minha vida: memórias documentadas, 1928; Miniaturas Românticas, 1871; O Centenário [de Camões] no Estrangeiro (conferência realizada na Sociedade do Geografia de Lisboa no dia 11 de Novembro de 1897), Lisboa, 1897; O Congresso de Roma, 1904; O Federalismo, 1898; O Livro da Paz, 1895; O Papa Perante o Século; O Primeiro de Maio, 1894; Os Estados Unidos da Europa, 1874; O Socialismo na Europa, 1892; Padres e Reis, 1873; Pela Pátria e Pela Republica, 1891; Paz e Arbitragem, 1897; Teoria da humanidade; Pena de morte; As subsistências.


Autor: Júlio Verne

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Frederico George - Um Humanista

In Memoriam de Frederico George pela passagem do 3.º ano que nos deixou e partiu para o Oriente Eterno. 

Sir Frederick George, foi aceite Lowton aos 14 anos de idade e recebeu a Luz Maçónica aos 19 na Resp. Loja New England, Or. de Oxford, no Rito de York. Ao atingir o Grau de Mestre Maçon solicitou a sua passagem para Rito Escocês Antigo e Aceite, momento em que se filiou na Resp. Loja Morning Star a Or. de Lisboa. Loja em que se manteve até ao final do caminho.

Em 1971 subiu ao Supremo Conselho Unificado para a Grã-Bretanha, em 1982 assumiu o Cargo de Grande Chanceler do mesmo Orgão. 
Na sua Resp. Loja a Or. de Lisboa ocupou todos os cargos no Colégio de Oficiais, tendo sido Venerável Mestre por três vezes. 

Por iniciativa do Grão-Mestrado foi agraciado com as mais altas insígnias da Ordem, mas recusou sempre aceitá-las argumentando que tais insígnias eram marcada por um valor profano e saiam do âmbito do trajecto iniciático da Franco-Maçonaria. 
No momento da sua partida para o Oriente Eterno tinha renunciado a todos os seus cargos, mantendo apenas a distinção dos seus Graus.

Ao nível profano, era arquitecto de profissão, sempre dedicado a projectos de urbanização de bairros sociais. Actividade que desenvolveu e prestigiou em Inglaterra, mas sobre tudo em Portugal. 

Desde os 26 anos de idade que integrava a tendência republicana do Partido Trabalhista Britânico. 
Devido às suas convicções republicanas, nunca aceitou nenhuma distinção da Coroa e dadas a sua condição de dupla nacionalidade também recusou distinções da República Portuguesa.

Em sua memória será realizada uma Missa Solene na Catedral de Westminster – Capela da GLUI, celebrada por Sua Eminência o Arcebispo de Cantuária. 

As suas cinzas serão depositadas na parcela da Grande Loja no Cemitério Britânico em Lisboa.

Por este decreto de luto, que todas as Lojas e Oficinas Filosóficas ajam em conformidade.

Aos dez dias do mês profano de Setembro de 2010

Sua Alteza Real, o Duque de Kent,
Gão-Mestre da Grande Loja Unida Inglaterra

terça-feira, 16 de julho de 2013

In Memoriam Irmão Gaudim Paes

Na hora em que o Sol beijou a Lua,
Um pelicano protegeu-o com as suas asas
Alimentou-o com o seu sangue
E com água do seu coração,
Partiu com ele e fê-lo Cristo.
 

Que o Grande Arquitecto do Universo
O receba entre os seus
O eleve pelos cinco pontos da Mestria
E o receba em sua Loja.



Autor: Jonátas

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Fernando Valle

Médico, maçon e político português, Fernando Baeta Cardoso do Valle nasceu a 30 de Julho de 1900, em Cerdeira, no centro de Portugal, e morreu a 27 de Novembro de 2004, em Coimbra, aos 104 anos.

Fernando Valle pertencia a uma família abastada, uma família de médicos com ideais republicanos, que, quando ele tinha dois anos, se mudou para Côja, no concelho de Arganil, onde iria passar toda a sua vida e a exercer medicina.
Aos 23 anos, tornou-se maçon ao entrar para o Grande Oriente Lusitano através da Loja "Revolta". Escolheu para nome de iniciado Egas Moniz, por este ser para si um exemplo de lealdade.
Após a instauração do Estado Novo tornou-se opositor do presidente António Oliveira Salazar, personalidade que considerava "uma coisa má" para Portugal. As suas opções políticas levaram a que, em 1949, fosse demitido do posto de médico municipal, tendo sido acusado de ser desafecto ao regime. Isto porque participou na campanha presidencial de Norton de Matos. Mesmo assim, em 1958, apoiou a candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República.
Ingressou ainda nas Juntas de Acção Patriótica, o que levou a que fosse preso, entre 27 de Abril e 29 de Junho de 1962, na Cadeia do Aljube.
Já em 1971, o regime, então liderado por Américo Thomaz e Marcello Caetano, tentou afastá-lo do Hospital da Misericórdia de Arganil. No entanto, uma manifestação de mulheres foi organizada para impedir que tal sucedesse e o afastamento de Fernando Valle foi evitado.

Da sua actividade cívica destaca-se, entre outras, a fundação da Sociedade Recreativa Argus, de que resultou mais tarde a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Argus, juntando todas as associações existentes em Arganil.

Fernando Valle manteve-se sempre ligado à política e, em Abril de 1973, participou, de forma clandestina, na reunião fundadora do Partido Socialista (PS). O encontro decorreu em Bad-Munstereifel, na Alemanha, e contou também com a presença de Mário Soares.
Apesar de ter continuado ligado ao PS até à data da sua morte, Fernando Valle recusou sempre cargos políticos. Só abriu uma excepção para ser governador-civil de Coimbra, um cargo que desempenhou entre 1976 e 1980 e logo após a «Revolução dos Cravos» foi presidente da comissão administrativa da Câmara Municipal de Arganil.

Fui galardoado com a Ordem da Liberdade (Grande Oficial) e Ordem de Mérito (Grã-Cruz).
 
Após falecer a 27 de Novembro de 2004, Fernando Valle foi sepultado em Côja, tendo assistido ao funeral várias personalidades das mais diferentes áreas culturais, cívicas e políticas.

Sentido voto de pesar aprovado por unanimidade na Assembleia da República

Após ter heroicamente resistido até aos 104 anos, faleceu o Dr. Fernando Valle. 

Deixou-nos um cidadão, um homem e um profissional que atravessou o último século e pôde testemunhar ainda os primeiros anos do século presente. Raros seres humanos terão deixado, após si, a imagem de bondade, solidariedade, amor pelo semelhante, nobreza de carácter, coragem cívica e dignidade em todos os actos da sua vida que Fernando Valle nos deixou.

Foi um médico distinto, que exerceu a medicina como um sacerdócio. Foi talvez o exemplo mais frisante, se não único, do médico que empobreceu a exercer medicina. Aluno brilhante da Universidade de Coimbra, renunciou à possibilidade de uma carreira académica para curar doentes em Arganil, Coja, e outras povoações da serra do Açor. De dia e de noite, chovesse ou soprasse o vento, a pé ou a cavalo, lá ia o Dr. Fernando Valle aonde o chamassem para curar doentes, fazer partos, pequenas cirurgias ou mesmo curar almas, que tudo isso tinha de saber fazer o médico de família de então. 
Não levava dinheiro a quem o não tinha. O mais das vezes prodigalizava os medicamentos. Se os não tinha, deixava, não raro, à cabeceira do doente o necessário para comprá-los.
 
Nos intervalos da profissão, exerceu sempre uma corajosa acção cívica de oposição à ditadura, batendo-se pela liberdade e pela democracia. Por isso foi preso e perseguido.

Membro do Grande Oriente Lusitano, do qual, por modéstia, nunca quis ser Grão-Mestre, era, ao morrer, o mais antigo maçon do mundo. E decerto um dos mais fiéis e permanentes intérprete dos valores por ele perfilhados. Viveu toda a sua vida, sincera e convictamente, em consonância com eles.

Fundador do Partido Socialista, e há alguns anos seu Presidente Honorário, viveu o socialismo como ele deve ser vivido: como um humanismo. E fez da sua vida uma das referências mais exemplares para quem busca a perfeição cívica e ética. Viveu verdadeiramente como um santo laico.
Deixa-nos uma maravilhosa recordação. Tentemos imitá-lo e merecê-lo.

Na sua reunião de 2 de Dezembro de 2004, a Assembleia da República aprovou um sentido voto de pesar, endereçando à família enlutada, ao Partido Socialista e à legião de admiradores do Dr. Fernando Valle o seu mais sentido pesar.


Autor: Júlio Verne

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Intervenção de António Arnaut na Homenagem Prestada na Sua Terra Natal

Saúdo-vos a todos e a cada um desta forma cordial, assim vos igualando na minha estima e apreço.
É meu dever, no termo deste almoço de confraternização, dirigir-vos breves palavras para os agradecimentos devidos, as explicações convenientes e para uma reflexão necessária.
Estou muito agradecido a todos: aos obreiros do Jornal Região do Castelo que tomaram a iniciativa deste convívio, à Câmara Municipal de Penela, que a patrocinou e a todos vós, amigos, companheiros e camaradas, que vieram de perto ou de longe para me manifestarem a vossa estima e me oferecerem o ouro da vossa amizade.....

Intervenção a ler na íntegra, na página: Pranchas

Ofereço-vos um poema em vez duma flor
em lembrança e gratidão: 
a flor murcha, o poema não 
se nele a palavra amor 
bater como bate o coração.

E assim vos reúno num abraço
à mesa redonda da fraternidade
para celebrar o futuro,
esse tempo solidário e sem redil
em que o Sol dissipará
as sombras que tecem a escuridão
e um pássaro cantará,
como no sonho de Abril,
o dia da libertação.                     

Penela, 21 de Abril de 2012 
António Arnaut - Past Grão Mestre Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Republicana Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo

Carolina Beatriz Ângelo nasceu na Guarda em 1877. Foi a primeira mulher a votar em Portugal em 1911; no ano anterior tinha sido implantada a República. O seu marido Januário Barreto era um activista republicano.

Após a sua conclusão do curso de medicina, foi a partir de 1906 que conseguiu conciliar a sua profissão com a sua actividade de defensora da igualdade, do direito das mulheres, da paz, do direito ao voto, pelo direito ao divórcio, alertou para a insuficiência das leis da família, do alargamento do serviço militar às mulheres, integrando movimentos femininos, da implantação da República, da Maçonaria.
Aderiu, com outras quatro médicas – Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Emília Patacho, Maria do Carmo Lopes, ao Comité Português da agremiação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes; Grupo Português de Estudos Feministas, Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Participou nos Centros Escolares Republicanos. Fez parte do I Congresso Nacional do Livre Pensamento, ocorrido em Abril de 1908. Fundou com Ana de Castro Osório a Associação de Propaganda Feminista, considerada a primeira organização sufragista portuguesa.
O ambiente político a partir de 5 de Outubro de 1910 inspirado por valores da Revolução Francesa oferecia agora uma maior liberdade e um contexto propício para a luta por direitos que até então tinham sido abafados pela Igreja e pela Monarquia.

A republicana Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, tornou-se neste ambiente uma defensora de causas nobres pela liberdade e pela igualdade. Pode-se bem imaginar o esforço acrescido de uma mulher em conseguir não só uma licenciatura em medicina e primeira cirurgiã portuguesa (3), constituindo uma das profissões masculinas da altura, como também pela luta de direitos numa época em que as mulheres não tinham voz.
É assim neste contexto em que vivia Carolina Beatriz que fez despertar a sociedade em que vivia nos seus primeiros passos de República para a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, não fosse ela Maçom adoptada pela Loja Humanidade.
Neste ambiente político ou social conturbado desta época, importa exactamente referir que a Carolina é uma excepção deste ambiente e fora do seu tempo histórico. E isto porque ao lutar pelo direito ao voto das mulheres não o fez somente pela luta por um direito como também contra um preconceito. Possivelmente hoje lutaria pelos direitos dos homossexuais à igualdade por exemplo. E porque não, lutar também, por uma voz mais expressiva da Maçonaria.
Importa agora referir na sua vida curta, alucinante e activa, alguns momentos de luta e de conquista, numa altura em que a VOZ da mulher não se ouvia. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objectos. De facto pertencia a um grupo necessariamente minoritário não no sentido numérico mas no sentido do sexo fraco com menores direitos e deveres na sociedade.
Desta actividade podemos aferir que Carolina Beatriz lutou pela liberdade e defesa dos direitos de todas as pessoas: à educação, mas sobretudo pela igualdade entre o homem e a mulher pelos direitos e deveres iguais para ambos os sexos.
Esta actividade que Carolina conseguiu conciliar com a sua carreira médica e com sucesso, para mim o que mais se destaca foi o fato de ter conseguido o direito a voto, sendo esse direito retirado logo depois e que só veio a recuperar-se em condições de igualdade mais de 60 anos depois.

Vale a pena ler o seu requerimento efectuado no dia 4 de Abril de 1911 com o seu pedido de inclusão nos cadernos eleitorais na Comissão de Recenseamento. As suas alegações foram remetidas para o ministro do Interior, António José de Almeida, responsável pela legislação eleitoral:
“Carolina que enviuvou cedo, essencialmente justificava no seu requerimento os seguintes requisitos previstos na lei:”
(…) Não só sabe ler e escrever, mas é chefe de família, vivendo nessa qualidade com uma filha menor, a cujo sustento e educação prevê com o seu trabalho profissional, bem como aos demais encargos domésticos (…)”
- Em sequência de indeferimento, apresentou recurso, entregue em 24 de Abril de 1911 no Tribunal da Boa-Hora e invocava quer o decreto, com força de lei, de 14 de Março de 1911, quer artigos do Código Civil.” .

Em 28 de Abril, numa decisão histórica, João Baptista de Castro (pai de Ana de Castro Osório), Juiz da 1.ª Vara Cível de Lisboa, proferiu sentença favorável à médica, mandando incluí-la nos cadernos eleitorais. Eis o considerando final da sentença, citado por Magalhães Lima numa entrevista ao jornal A Vanguarda, poucos dias após o acto eleitoral:
“Considerando que excluindo a mulher, apesar de ser uma ilustração, como a reclamante, de ser eleitora e ter intervenção nos assuntos políticos – só por ser mulher, como se diz a folhas n.º 6, verso – é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano, porquanto desde que a reclamante tem todos os predicados para ser eleitora não pode arbitrariamente ser excluída do recenseamento eleitoral, porque onde a lei não distingue não pode o julgador distinguir; por isso, em obediência aos verdadeiros princípios da moderna justiça social: Julgo procedente e provada a presente reclamação e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral em preparação no lugar e com os requisitos precisos. Intime-se”.

Foi assim que Carolina Beatriz se tornou a primeira mulher a exercer o direito de voto em Portugal, ou em qualquer outro país da Europa do Sul. Segundo a Revista Alma Feminina (Janeiro-Fevereiro de 1922): «Não foi uma vitória feminista, mas foi um ato de rebeldia contra o preconceito da superioridade de sexo.» No entanto esse direito, que ainda por cima era restrito, foi-lhe mais tarde negado assim como a todas as mulheres:
“A lei foi alterada a 3 de Julho de 1913 e ratificada em 1 de Julho de 1915. Deste modo, foi eliminada radicalmente do sufrágio universal a possibilidade de voto aos analfabetos e aos cidadãos portugueses do sexo feminino.”
Em 1916, o Senado defendeu o voto para as mulheres diplomadas, o que foi recusado pela Câmara dos Deputados. Nova insistência em 1918, pelo deputado Jacinto Nunes, teve igual fim. Só em 1931, o direito de voto foi concedido a algumas mulheres, as que possuíssem um curso secundário ou superior”. Mais tarde o Estado Novo viria a quebrar os sonhos dos portugueses e os ideais da democracia. Deixou de existir a igualdade e com ela a liberdade.

A República comprovou ser sinónimo de liberdade e de igualdade, sem a qual muito possivelmente hoje não poderia proferir estas palavras, no entanto, a história continua a mostrar-nos que um preconceito se sobrepõe aos princípios adquiridos pela própria República, e parece que ignoramos todos os momentos da nossa história em que conseguimos vence-lo.
É importante lembrar neste ano em que se celebra o centenário da República que a revolução republicana defende os valores democráticos e de igualdade e de cidadania para todos.

Esperamos que a Carolina Beatriz Ângelo continue a ser lembrada como uma maçon que lutou pela liberdade das mulheres, e pelos caminhos de luta que abriu pela igualdade, e consigamos que a humanidade seja uma! Sem ser dividida em preconceitos, em raças ou sexo.

In "A Republicana Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, a Liberdade, a Igualdade, ou só um Quadro na Parede? G. R. G. Rodrigues"

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

In memoriam José Joaquim Pascoal Gomes

No quadro, da evocação da memória do José Joaquim Pascoal Gomes, quero associar-me a tão justificada homenagem e, traçar esta singela mas sentida evocação.
Conheci o Pascoal Gomes na infância, pois era amigo dos meus pais, e a sua influência foi tal que adoptei o nome simbólico, de Pascoal Gomes.
Durante a minha adolescência, marcada por incessantes conflitos familiares, foi frequentemente o meu “advogado de defesa”, tendo sempre manifestado uma cúmplice tolerância e uma grande compreensão perante os excessos e exageros a que uma revolta mais sentida do que pensada frequentemente me conduziu.
Abril chegou e, por entre afazeres e responsabilidades múltiplas, conseguiu sempre preservar a nossa relação, que intensificou ainda, depois da morte de meu pai: ele e sua esposa Maria Teresa passaram a ser os mais próximos amigos de minha mãe – e assim se mantiveram até ao fim.
Os caprichos da vida trouxeram-me para Paris, onde durante mais de duas décadas ele veio regularmente forjar armas para combater o polvo que o tinha enlaçado: fui a testemunha privilegiada do titânico combate que, com o amor, o desvelo e a total solidariedade da Maria Teresa, travou contra a besta. E que venceu, depois de ter assistido às obsequias de Salazar e de Franco, o Pascoal Gomes condenado aos 50 anos, faleceu com quase 80, levado por doença distinta do cancro linfático que o queria vitimar.

Todos conhecemos o percurso exemplar do antifascista, que o levou aos calabouços da PIDE. Todos estamos cientes da rota Maçónica que seguiu, atravessando décadas de clandestinidade, transformando a sua casa, ele, o ex-preso político, em sede de reunião e arquivo do Grémio Lusitano. Todos conhecemos o papel inestimável que desempenhou, na preservação da memória e das instituições Maçónicas e Para-Maçónicas de Portugal.
Não é minha intenção transformar esta curta evocação numa “apologia da vida exemplar de São Pascoal Gomes”: o Zé Pascoal não era santo nenhum, e as velas que aqui ardem são as chamas da Luz. Tinha uma personalidade complexa e, até, polémica: era um homem de convicção, inteiro e impulsivo, que não recuava perante um confronto. Exigente consigo próprio e detestando a complacência, não era homem de compromissos: para falar maçónicamente, era uma Pedra de denso minério, talhada a direito pela percussão repetida do Malhete da Razão sobre o Cinzel da Vontade, com ângulos rectos, ásperos e rugosos.
Todos conhecemos episódios em que ele se exaltou, tendo nalguns casos chegado a ser acintoso e, mesmo, injusto: era um Maçom formado pelos nossos antepassados da Primeira República, que não praticavam compromissos, e nunca foi “politicamente correcto”.

Quero testemunhar da existência de uma outra faceta, apenas conhecida dos seus íntimos: a contínua vigilância e a inquietação que o assolava quando alguém atravessava dificuldades. Posso, podemos, assegurar que o Pascoal Gomes ajudou, intercedeu e até apoiou financeiramente todos os carentes, inclusive aqueles com quem estava zangado, graças à fraternal intersecção de terceiros.
Recordo-me de um caso concreto, em que indirectamente auxiliou um Irmão com quem tinha deixado de falar há vários anos, comentando, perante a minha perplexidade, que a eventual diferença das mães em nada altera a obrigação de Fraternidade: diga-se em abono da verdade e respeitando-lhe a memória, que a formulação era mais abrupta, mas a ideia era esta!

Lembremo-nos de que foi o antifascista e socialista histórico, o homem das tomadas de posição abruptas, das rupturas assumidas e das intervenções acutilantes, que decisivamente contribuiu para que muitos regressassem ao Grémio Lusitano, restabelecendo assim a pluralidade das sensibilidades que deve caracterizar uma Obediência.
Essa mesma Fraternidade levou-o a passar sob silêncio episódios menos gloriosos de certos membros, durante o anterior regime e, principalmente, após a queda deste.
Daí um certo desencanto, característico de quem, em situação de grande desconforto, sonhou com um mundo melhor e com uma Maçonaria composta por homens perfeitos. Ele sabia não o ser, mas nunca aceitou que nós também não o fossemos.
O nosso Pascoal Gomes foi um Pedreiro-Livre da clandestinidade, iniciado por membros que privilegiavam o “ser” ao “parecer”, para os quais o critério de ingresso era a excelência do Homem e não o seu estatuto social, a sua escolaridade, ou a sua fluência discursiva. Era um homem de acção e não um retórico, cuja perspicácia foi frequentemente subestimada entre estas paredes, por ouvidos que confundem palavreado e a Palavra do Mestre, escutar e entender. Curiosamente, nos últimos anos, as suas tomadas de posição Maçónicas tinham mais impacto em Paris, não obstante não falar o francês, do que em Lisboa.
Acontece que foi pela mão do nosso Pascoal Gomes que fui iniciado há mais de vinte anos no e foi sob a sua insistência que me disponibilizei para ocupar o cargo de Garante de Amizade.

Foi este o homem que perdemos, mas é esta a Luz que nos ilumina. E tu, Meu Querido Zé, se afinal nos enganámos e sempre houver um Deus qualquer, não te prives de Lhe dizer o que pensas da injustiça, da miséria e do sofrimento, das trevas, em que mantém este mundo mergulhado.

Choremos, Choremos….e Esperemos !

Autor: Pascoal Gomes

terça-feira, 15 de abril de 2008

Gonçalves Ledo

Fazer a interiorização deste nome, não me foi difícil pois, como disse estou a falar de sangue do meu sangue, nas suas virtudes que se superiorizam, pelo carácter, pelo agente libertador de certezas, pelo agente libertador do seu povo, pela sua brilhante frontalidade com actos e palavras, com o seu carácter de homem de bons costumes, pela sua lisura e transparência, mas sempre amigo do amigo. É isso que me faz sentir perto deste homem, que de forma marcante lutou pela libertação do seu povo da opressão da monarquia, que tanto escravizou um povo notável como o povo brasileiro irmão. Muito me honra falar deste homem, responsabilizando-me ainda mais sobre esta querida sociedade maçónica, passando-me o seu legado para dele fazer aqui fazer jus.
Traçar linhas acerca de Gonçalves Ledo é uma tarefa agradável, tendo em vista a importância deste estadista e Maçom na Independência do Brasil. Nome esquecido nos meios académicos, não podemos deixar de render-lhe estas homenagens e dar-lhe, na História do Brasil, o papel que lhe é devido. As datas que aqui transmito podem não ser as exactas, porque na pesquisa histórica levada a cabo, elas são contraditórias, peço por isso desculpa caso exista alguma imprecisão.

A 11 de Dezembro de 1769, nasce no Brasil, Joaquim Gonçalves Ledo, filho de comerciante abastado e já destinado a ser doutor em Leis. Em 1800, parte para Portugal, para estudar em Coimbra, sendo que, por força da morte de seu pai, volta ao Brasil, interrompendo os seus estudos. Em 15 de Novembro de 1817 é instalada no Rio de Janeiro a Loja Maçónica Comércio e Artes, sendo certo que, em 1818, havia enviado uma carta a seu irmão, que estudava medicina em Londres, afirmando a sua intenção de fundar no Brasil a primeira Loja, "que será o centro de propaganda liberal do Brasil". Gonçalves Ledo foi iniciado na Loja Comércio e Artes, a Primaz do Grande Oriente do Brasil, não podendo haver uma precisão de datas em virtude da destruição de documentos à época. Em 30 de Março de 1818, D. João VI, por Decreto, proíbe a existência das "sociedades secretas" e, com isso, são encerradas as actividades da Loja.
Relativamente à participação de Gonçalves Ledo no processo de independência do Brasil e na Maçonaria, narra-se o seguinte: «…F. Soares, representante da Maçonaria em São Paulo, descreve a "Joaquim Gonçalves Ledo, Venerável da Loja Comércio e Artes", os acontecimentos, daquele dia, quando os Maçons paulistas depuseram João Carlos Augusto Oyenhausen, presidente de São Paulo, que representava o governo português: "A confiança que V. S. depositou no Conselheiro, e nos Coronéis Lázaro, Lobo, Inácio e outros, foi imerecida. O novo governo já começou, como primeiro acto, a perseguição aos maçons que não concordaram com o Conselheiro José Bonifácio. Reunimo-nos na casa do patriota José Inocêncio Alves Alvim. Tanto ele, como o irmão Ledo, foram fiéis até o último instante e, por isso são alvos dos outros que são traidores…”
Apesar de problemas nacionais e outros envolvendo Irmãos, a 24 de Junho de 1821 é reinstalada a Loja Comércio e Artes, tendo como Venerável Mestre o Irmão Ledo. Até a Proclamação da Independência do Brasil, Ledo teve em mente esta ideia, podendo, sem dúvida alguma, ser considerado um dos principais responsáveis por este facto histórico. Em Julho de 1821, trocava ele correspondência com o Cónego Januário da Cunha Barbosa, afirmando a necessidade de lançar o “Revérbero Constitucional”, que seria o clarim das ideias de liberdade nacional. O primeiro número do periódico, quinzenal, surge em 15 de Setembro deste mesmo ano, com redacção de Ledo e do Cónego Januário. Foi este periódico que em muito contribuiu para a Independência do Brasil. Em 16 de Fevereiro de 1822 Ledo é nomeado Conselheiro e Secretário de Estado e, a 30 de Abril, novo exemplar do “Revérbero Constitucional” é lançado, elogiando Dom Pedro e clamando pela independência.
Em 01 de Junho é eleito Procurador Geral pela Província do Rio de Janeiro e, no dia seguinte, instalado o Conselho de Estado, fazendo parte dele Ledo. Em 17 de Junho de 1822 é fundado o Grande Oriente Brasiliense, tendo sido seu Grão Mestre José Bonifácio, por nítida influência de Ledo, que seria seu 1º Grande Vigilante e verdadeiro dirigente da Instituição. Ledo foi atacado, por diversas vezes, de conspirar contra a Monarquia, porque a desejava constitucional. No entanto, não sabem os historiadores informar, se por ciúmes ou vinganças pessoais, atacavam-no de republicano.
Em 14 de Outubro D. Pedro oferece a Ledo o título de Marquês da Praia Grande, mas este recusa a honraria, posto entender que não poderia aceita-lo, mas aceitaria de grande prazer o título de patriota brasileiro. Dom Pedro, como era de costume em momentos de ira, desferiu palavras ásperas a Ledo, afirmando que o mesmo não tomaria assento na Câmara. Diversos factos fazem com que Ledo seja obrigado a embarcar para Buenos Aires com uma ligeira passagem por Portugal e refugia-se uns meses no Alentejo, porque a "tarja" de republicano poderia levar-lhe a própria vida.

Absolvido das acusações impostas, Ledo retorna ao Brasil, em 1833, é agraciado, em 17 de Fevereiro de 1834, pelo Imperador, com a Ordem do Cruzeiro do Sul, mas, assim como tinha recusado o título de Marquês, ele recusa. Em 1845 consta entre os Deputados da Assembleia Provincial do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano abandona a política e a Maçonaria, indo recolher-se na sua fazenda, em Sumidouro, vindo a falecer, a 19 de Maio de 1867, de ataque cardíaco.

Autor: Gonçalves Ledo

quarta-feira, 12 de março de 2008

Quem foi Albert Mackey

Nascido em 12 de Março de 1807 na cidade de Charleston no estado americano da Carolina do Sul, Albert Mackey graduou-se com honras na faculdade de medicina daquela cidade em 1834. Praticou a sua profissão cerca de vinte anos, após o que dedicou quase que completamente a sua vida à obra maçónica. Recebeu o 33.º, o último grau do Rito Escocês Antigo e Aceite, e tornou-se membro do Supremo Conselho onde serviu como Secretário-Geral durante anos. Foi nesta época que manteve uma estreita associação com outro famoso maçon americano, Albert Pike.
Participou como membro activo em muitas Lojas, inclusive na lendária “Solomon's Lodge N.º 1", fundada em 1734, que é, ainda hoje, a mais famosa e mais antiga Loja a trabalhar continuamente na América do Norte. Ocupou inúmeros cargos de destaque nos mais altos postos da hierarquia maçónica do seu país. Pessoalmente o Dr. Mackey foi considerado encantador por um círculo grande de amigos íntimos. Sempre que se interessava por um assunto era muito animado na sua discussão, até mesmo eloquente. Generoso, honesto, leal, sincero, mereceu bem os elogios e qualificações que recebeu de inúmeros maçons de destaque.

Um revisor da obra de Mackey disse que, como autor de literatura e ciência maçónica, trabalhou mais que qualquer outro na América ou na Europa. Em 1845 publicou o seu primeiro trabalho, intitulado “Um Léxico de Maçonaria” depois, seguiram-se: “The True Mystic Tie” 1851; The Ahiman Rezon of South Carolina,1852; Principles of Masonic Law, 1856; Book of the Chapter, 1858; Text-Book of Masonic Jurisprudence, 1859; History of Freemasonry in South Carolina, 1861; Manuel of the Lodge, 1862; Cryptic Masonry, 1867; Symbolism of Freemasonry, and Masonic Ritual, 1869; Encyclopedia of Freemasonry, 1874; and Masonic Parliamentary Law 1875.

Mackey esteve até o fim da vida envolvido com a produção de conhecimento maçónico. Além dos livros citados contribuiu com frequência para diversos periódicos e também foi editor de alguns. Por fim, publicou uma monumental “History of Freemasonry”, em sete volumes. Um testemunho da importância e popularidade que os livros escritos por Mackey têm, é o facto de que muitos deles são editados até hoje e estão à venda em livrarias, inclusive pela Internet. Dos muitos trabalhos que o Dr. Mackey legou à posteridade, um julgamento quase universal identifica a “Encyclopedia of Freemasonry” como a obra de maior importância. Anteriormente à publicação deste livro não havia nenhum de igual teor e extensão em qualquer parte do mundo. Esta obra teve muitas edições e foi revista várias vezes por outros autores maçónicos.

A contribuição de Mackey para o pensamento e leis maçónicas, produto da sua mente clara e precisa, é tida como de fundamental importância. Praticamente toda a legislação maçónica fundamental é hoje interpretada com base em alguns de seus escritos. É verdade que algumas de suas obras contêm enganos, mas o conjunto é de extremo valor e, em particular, um trabalho tem especial destaque no mundo todo. A compilação feita por ele dos marcos ou referenciais básicos da maçonaria, que é adoptada como fundamento em vários ritos e obediências. Os tão mencionados e conhecidos “Landmarks”. Os Landmarks, que podem ser considerados uma "constituição maçónica não escrita", longe de serem uma questão pacífica, constituem uma das mais controvertidas demandas da Maçonaria, um problema de difícil solução para a Maçonaria Especulativa. Há grandes divergências entre os estudiosos e pesquisadores maçónicos acerca das definições e nomenclatura dos Landmarks. Existem várias e várias classificações de Landmarks, cada uma com um número variado deles, que vai de 3 até 54.

Facto é que o grande trabalho de Mackey em jurisprudência, sobreviveu ao teste do tempo. Ainda hoje é frequentemente citado como uma autoridade final. As suas contribuições tiveram, e ainda têm, um efeito profundo e permeiam grande parte do pensamento maçónico moderno. Ao criar a sua obra, este autor, estava na realidade a criar os marcos sobre os quais foi possível edificar grande parte do conhecimento maçónico que se produziu posteriormente.

Albert Gallatin Mackey passou ao oriente eterno em Fortress Monroe, Virgínia, em 20 de Junho de 1881, aos 74 anos. Foi enterrado em Washington em 26 de Junho, tendo recebido as mais altas honras por parte de diversos Ritos e Ordens. Hoje existe nos Estados Unidos uma condecoração, a “Albert Gallatin Mackey Medal”, que é a mais alta condecoração concedida a alguém que muito tenha contribuído para a causa maçónica.

Autor: Júlio Verne, Baseado In "The Grand Lodge of Free and Accepted Masons of the State of California"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dia Internacional do Maçom

Nos dias 20, 21 e 22 de Fevereiro de 1994, realizou-se em Washington, nos Estados Unidos, a Reunião Anual dos Grão-Mestres das Grandes Lojas da América do Norte (Estados Unidos, Canadá e México). Na ocasião, estiveram presentes como Obediências Co-Irmãs, a Grande Loja Unida da Inglaterra, a Grande Loja Nacional Francesa, a Grande Loja Regular de Portugal, a Grande Loja Regular da Itália, o Grande Oriente da Itália, a Grande Loja Regular da Grécia, a Grande Loja das Filipinas, a Grande Loja do Irão, no exílio e o Grande Oriente do Brasil, como observador. No encerramento dos trabalhos, o Grão-Mestre da Grande Loja Regular de Portugal, Ir.'. Fernando Teixeira, apresentou uma sugestão apoiada pelos Grão-Mestres das Grandes Lojas dos Estados Unidos, do México e Canadá, no sentido de fixar o dia 22 de Fevereiro como o DIA INTERNACIONAL DO MAÇOM, a ser comemorado por todas as Obediências reconhecidas, o que foi totalmente aprovado.

E porquê 22 de Fevereiro? Porque foi no dia 22 de Fevereiro de 1732, em Bridges Creek, na Virginia (EUA), que nasceu GEORGE WASHINGTON, o principal artífice da independência dos Estados Unidos. Nascido pouco depois do início da Maçonaria nos Estados Unidos – o que ocorreu em 23 de Abril de 1730, no estado de Massachussets - Washington foi iniciado a 4 de Novembro de 1752, na "Loja Fredericksburg nº 4", de Fredericksburg, no estado da Virgínia; foi elevado ao grau de Companheiro em 1753 e exaltado a Mestre em 4 de Agosto de 1754. Representante da Virgínia no 1º Congresso Continental (1774) e Comandante-Geral das forças coloniais (1775), dirigiu as operações durante os cinco anos da Guerra de Independência, após a declaração de 1776. Ao ser firmada a paz em 1783, renunciou à chefia do Exército, dedicando-se então aos seus afazeres particulares. Em 1787, reunia-se, em Filadélfia, a Assembleia Constituinte para redigir a Constituição Federal e Washington, que era um dos Delegados da Virgínia, foi eleito, por unanimidade, para presidi-la. Depois de aprovada a Constituição, havendo a necessidade de se proceder à eleição de um Presidente, figura na nova política norte-americana, Washington, pelo seu passado, pela sua liderança e pelo prestígio internacional de que desfrutava, era o candidato lógico e foi eleito por unanimidade, embora desejasse retornar à vida privada e dedicar-se às suas propriedades. Como Presidente da República norte-americana, nunca olvidou a sua formação maçónica. Ao assumir o seu primeiro mandato, em Abril de 1789, prestou o seu juramento constitucional sobre a Bíblia da "Loja Alexandria nº 22", da qual fora Venerável Mestre em 1788; em 18 de Setembro de 1783, como Grão-Mestre pro-tempore da Grande Loja de Maryland, colocou a primeira pedra do Capitólio – o Congresso norte-americano – apresentando-se com todos os seus paramentos e insígnias de alto mandatário Maçom. Falecido em 14 de Dezembro de 1799, o seu funeral ocorreu no dia 18, na sua propriedade de Mount Vernon, numa cerimónia fúnebre Maçónica, dirigida pelo Reverendo James Muir, capelão da "Loja Alexandria nº 22" e pelo Dr. Elisha C. Dick, Venerável Mestre da mesma Oficina.

In Revista "O Prumo" nº 84, Artigo do Ir.'. José Castelanni

Como se pode verificar, a criação do DIA INTERNACIONAL DO MAÇOM representou uma mais do que justa homenagem ao um grande maçom, e embora não seja considerado por todas as Obediências e Potências maçónicas mundiais é historicamente pertinente.

Autor: Júlio Verne