sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Evocação Zeca Afonso

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (02-08-1929...23-02-1987)

Evoquemos com emoção o Grande Zeca Afonso na celebração dos 20 anos da sua morte!

Grande porque foi um Grande Português, que marcou a nossa recente história pátria, como exemplo maior de uma entrega generosa, altruísta, às grandes causas cívicas, ao amor pela democracia, pelo povo, à luta pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade !

Grande porque foi o maior e o mais rico dos cantores-autores que fez da canção uma “Ética, uma Estética e uma Poética” ao serviço dos grandes ideias cívicos !

Grande porque foi o maior criador artístico da história da música popular portuguesa e um dos maiores do mundo !

Grande porque nos deixou um legado musical que é uma inesgotável e eterna fonte onde toda a música popular pode continuar a beber inspiração, por tão talentosa ser a sua obra, plena de ensinamentos harmónicos, rítmicos, melódicos e poéticos !

Grande porque a modernidade do seu discurso musical e poético mantém uma constante actualidade que nos interroga, interpela e inspira para termos sempre presente o seu exemplo na procura de uma sociedade mais justa !

Grande porque nos recordará sempre que a vigilância cívica e democrática não pode nunca baixar a guarda !

Grande porque nos ensina que a arte só é plena quando cumpre uma missão humanista de elevação do Belo, do Bem e do Justo !

Autor: Damião de Gois

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Ambiente no Século XXI

Dizia Almada Negreiros: “Quando eu nasci, todas as formas de salvar o mundo estavam descobertas, só faltava... salvá-lo”.

Ao sucesso do documentário “Uma verdade inconveniente” de Al Gore veio juntar-se uma projecção mediática da questão das emissões de CO2, tema de debate, já não nos fóruns alternativos como tinha acontecido em 92 no Rio, mas em Davos entre os grandes e poderosos do planeta. Quem leia os jornais fica com a sensação que de tanto se falar do tema este se encontra em vias de resolução, parece-me de algum optimismo tal reacção, já que até agora, e mal grado o tempo já passado, os Estados Unidos não rectificaram o velho Protocolo de Kioto e as economias emergentes estão de fora assim como estranhamente as emissões provocadas pelos aviões que parece que por estarem no ar estão isentos de carga poluidora.
Veio recentemente citada na imprensa uma pertinente questão, perguntaram na época a Gandhi se pretendia que a Índia, uma vez independente, se viesse a tornar tão desenvolvida como a Grã-Bretanha. A resposta foi uma negativa peremptória. “Se, para chegar onde chegou, a Inglaterra teve de devastar meio mundo, de quantos mundos precisaria a Índia?” Sábia resposta que põe em causa o modelo de desenvolvimento capitalista da altura e que hoje mais questionável se torna. Na realidade também Portugal depois de 74 poderia ter aproveitado o atraso que tinha para dar o salto para um país mais moderno sustentável e no entanto cometeu todos os erros que outros tinham cometido anteriormente deixando-nos à entrada do século XXI à beira do caos ambiental e económico. Tinha Portugal melhores condições que os novos países emergentes, já que se encontrava num espaço geográfico mais favorável, tenho dúvidas que se os países ditos mais desenvolvidos não fizerem eles mesmos as transições para modelos sustentáveis que sejam as novas economias a realizá-lo.

Mas colocar o problema só nas alterações climáticas e nas emissões de CO2 é absolutamente redutor, já que estas são apenas uma das alíneas de uma parte do problema que poderíamos elencar como os impactos da industrialização e que se podem dividir em três áreas.
Os impactos no meio ambiente, tratados pela ecologia, e que não são apenas o problema do efeito de estufa, mas também a exaustão dos recursos, da poluição e as alterações do meio não derivadas do clima.
Os impactos proximais do objecto industrial, tratados pela ergonomia, e que estão em regressão com o aparecimento de objectos mais baratos mas menos cuidados, veja-se o caso dos brinquedos das lojas ditas dos trezentos que testados apresentam riscos para os utilizadores, e de todo um mundo de contrafacções a que nem os medicamentos escapam.
O terceiro vértice deste triângulo que estuda os impactos da industrialização é muito menos referido mas não menos importante trata dos impactos distais ou psicológicos onde entra o tão conhecido stress, e dá pelo nome de eutifrónia. A saber o antagonismo entre a afirmação da individualidade na natureza e a repetição ou seriação na produção industrial, o antagonismo entre o ritmo fisiológico do ser humano e a crescente velocidade que a técnica imprime à vida, o antagonismo nas trocas de energia entre o organismo e o meio derivado da sedentarização da vida enquanto o metabolismo fisiológico se mantém e por último a perca da capacidade de resolução de problemas em relação aos quais nos sentimos impotentes ou seja a desumanização da vida.

O século XX veio dar o primado à economia sobre o homem, tendo para tal contribuído uma crescente fé na ciência em detrimento da vertente humanista pretendendo tornar igual o que é diferente e sob a capa da globalização e do livre comércio produzir a aberração de fazer aumentar de forma gritante as desigualdades.
Temos que reverter este desequilíbrio e por isso é importante revermo-nos no espírito maçónico e do seu mito fundacional da “palavra perdida” acreditam os maçons que aquando do assassinato do Mestre Hiran a “palavra” se perdeu e assim sendo o que todos têm que procurar é a verdade com a consciência que esta, é sempre uma verdade incompleta. Este principio da humildade lembra-me uma frase de António Sérgio que dizia “quando não sei, pergunto, quando sei, pergunto na mesma” e deve-nos nortear a procurar o saber, a tolerância e a generosidade em busca de soluções por oposição à ignorância, ao fanatismo e à ambição que infelizmente medram neste planeta cada vez menos azul.

Espírito sem razão é especulação pura, razão sem espírito é trabalho vão.


Autor: Éolo

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A areia e a pedra

Diz uma lenda árabe que, quando dois amigos viajavam pelo deserto, num determinado ponto da viagem discutiram acaloradamente, até que um esbofeteou o outro.
O ofendido, sem pronunciar palavra, escreveu na areia: “Hoje, o meu melhor amigo bateu-me no rosto.”

Seguindo viagem, chegaram a um oásis, onde resolveram banhar-se. Imprevidente, o que havia sido esbofeteado quase se afogava, quando foi salvo pelo amigo.
Ao recuperar, pegou num estilete e escreveu numa pedra: “Hoje, o meu melhor amigo salvou-me a vida.”
Intrigado, o amigo perguntou: “Por que é que depois de te bater escreveste na areia e agora escreves na pedra?
Sorrindo, o companheiro de viagem respondeu: “Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia, para que o vento do esquecimento e do perdão se encarreguem de apagar. Porém, quando nos faz algo de sublime, devemos gravar na pedra, que é a memória do coração, onde nenhum vento chega para apagar a gravação.


É evidente a analogia entre esta lenda e aquele que configura ser o comportamento de um maçom. A agressão é algo de profano, que deve ficar registado na areia, isto é, que deve ser deixado à porta do Templo. Ao contrário, os valores da harmonia, da paz, da beleza, da fraternidade e da solidariedade são cultivados e multiplicados, de dentro para fora. De dentro do Templo para a sociedade que nos rodeia. De dentro de nós para os nossos familiares, para os nossos amigos, para os nossos conhecidos e até para os nossos adversários. Devem, em suma, ser gravados na pedra, para que nada os apague e para que ninguém os esqueça. Trata-se, no fundo, de utilizar convenientemente os instrumentos que ajudam a desbastar a pedra bruta, procurando dar-lhe a forma da perfeição.

Em síntese, o verdadeiro maçom “escreve na areia” tudo quanto seja de irrelevante e de profano. Porque a areia está no exterior do Templo e porque é também no exterior do Templo que sopra o vento – inexistente no interior, uma vez que nem é ele que apaga as velas, símbolos das luzes que orientam os trabalhos.

Ao contrário, o verdadeiro maçom “escreve na pedra” tudo quanto contribua para o seu aperfeiçoamento e para o aperfeiçoamento da irmandade em que se insere. Porque, ao “escrever na pedra” estará, também e assim, a trabalhar a pedra bruta e a contribuir, lenta mas seguramente, para a polir, até que a mesma tenha a perfeição suficiente para fazer parte integrante e indissociável do Templo Supremo da Maçonaria Universal.


Autor: Álvaro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu o Prof. Dr. A. H. de Oliveira Marques
Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento do Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques no dia 23 de Janeiro.
Irmão maçon e uma das figuras mais proeminentes da maçonaria portuguesa, Oliveira Marques foi iniciado Maçon em 1973, ainda durante o período da clandestinidade da maçonaria em Portugal, tendo desempenhado cargos de grande importância tanto ao nível do Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa, de que chegou a ser Grão-Mestre Adjunto, como nos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite, de cujo Supremo Conselho foi Soberano Grande Comendador.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do Prof. Oliveira Marques e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Oriente Lusitano, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.

Breve biografia de António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques
Nasceu em São Pedro do Estoril a 23 de Agosto de 1933.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com a tese "A Sociedade em Portugal nos Séculos XII a XV" (1956), tendo estagiado na Universidade de Würzburg (Alemanha).
Doutorou-se na Universidade de Lisboa com a tese "Hansa e Portugal na Idade Média" (1970), onde passou a leccionar.
Durante a ditadura do Estado Novo, Oliveira Marques foi afastado da universidade por motivos políticos, por ter participado na "Crise académica" de 1962 promovida pelos estudantes contra o regime. Viu-se por isso, obrigado a exilar-se, a partir de 1965, nos Estados Unidos da América, onde leccionou em várias instituições, como a Universidade do Alabama, da Flórida, Columbia e Minnesota (1970), entre outras.
É considerado um dos melhores historiadores portugueses, em especial no que diz respeito à Idade Média.
Em 1970, durante a "primavera marcelista", regressou a Portugal, reingressando na universidade portuguesa depois da Revolução do 25 de Abril, em 1974.
Foi director da Biblioteca Nacional de Lisboa entre 1974 e 1976.
Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor catedrático (1976) e presidente da comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Dedicou o seu trabalho a estudos sobre duas épocas da História portuguesa: História Medieval e História da Primeira República.
Em 1982, em comemoração dos 25 anos sobre a publicação do seu primeiro estudo histórico, foram editados dois volumes com colaboração de historiadores portugueses e estrangeiros e intitulados Estudos de História de Portugal: homenagem a A. H. de Oliveira Marques.
Maçon desde 1973, foi eleito Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-1994).
O número total das suas obras de tomo ultrapassa 60 volumes. A colaboração, com artigos, em revistas, dicionário e enciclopédias ultrapassa o milhar, tendo proferido numerosas conferências em universidades da Europa, Estados Unidos, Brasil e Argentina.
Em 1998 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade atribuida pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.
Faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, em Lisboa.
Homem ímpar, as suas obras são instrumentos de grande relevância para os estudiosos da História de Portugal.
Nota maçónica:
Oliveira Marques era um admirador do escritor e historiador Alexandre Herculano, de quem adoptou o nome simbólico, sendo do seu particular agrado o poema seguinte:

D. Pedro
Pela encosta do Líbano, rugindo,
O noto furioso
Passou um dia, arremessando à terra
O cedro mais frondoso;
Assim te sacudiu da morte o sopro
Do carro da vitória,
Quando, ébrio de esperanças, tu sorrias,
Filho caro da glória.
Se, depois de procela em mar de escolhos,
A combatida nave
Vê terra e vento abranda, o porto aferra,
Com júbilo suave.
Também tu demandaste o Céu sereno,
Depois de uma árdua lida:
Deus te chamou: o prémio recebeste
Dos méritos da vida.
Que é esta? Um ermo de espinhais cortado,
Donde foge o prazer:
Para o justo ela existe além da campa:
Teme o ímpio o morrer.
Plante-se a acácia, o símbolo do livre,
Junto às cinzas do forte:
Ele foi rei - e combateu tiranos -
Chorai, chorai-lhe a morte!
Regada pelas lágrimas de um povo,
A planta crescerá;
E à sombra dela a fronte do guerreiro
Plácida pousará.
Essa fronte das balas respeitada,
Agora a traga o pó:
Do valente, do bom, do nosso Amigo
Restam memórias só;
Mas estas, entre nós, com a saudade
Perenes viverão,
Enquanto, à voz de pátria e liberdade.
Ansiar um coração.
Nas orgias de Roma, a prostituta,
Folga, vil opressor:
Folga com os hipócritas do Tibre;
Morreu teu vencedor.
Envolto em maldições, em susto, em crimes
Fugiste, desgraçado:
Ele, subindo ao Céu, ouviu só gueixas,
E um choro não comprado:
Encostado na borda do sepulcro,
O olhar atrás volveu,
As suas obras contemplou passadas,
E em paz adormeceu:
Os teus dias também serão contados,
Covarde foragido;
Mas será de remorso tardo e inútil
Teu último gemido:
Do passamento o cálix lhe adoçaram
Uma filha, urna esposa:
Quem, tigre cru, te cercará o leito,
Nessa hora pavorosa?
Deus, tu és bom: e o virtuoso em breve
Chamas ao gozo eterno,
E o ímpio deixas saciar de crimes,
Para o sumir no Inferno?
Alma gentil, que assim nos hás deixado,
Entregues à alta dor,
Anjo das preces nos serás, perante
O trono do Senhor:
E quando, cá na Terra, o poderoso
As Leis aos pés calcar,
do teu sepulcro irá o opresso
Seus males deplorar:
Assim, no Oriente, de Albuquerque às cinzas
O desvalido indiano
Mais de urna vez foi demandar vingança
De um déspota inumano.
Mas quem ousará à pátria tua e nossa
Curvar nobre cerviz?
Quem roubará ao lusitano povo
Um povo ser feliz?
Ninguém! Por tua glória os teus soldados
Juram livres viver.
Ai do tirano que primeiro ousasse
Do voto escarnecer!
Nesse abraço final, que nos legaste,
Legaste o génio teu:
Aqui - no coração - nós o guardámos;
Teu génio não morreu.
Jaz em paz: essa terra, que te esconde,
O monstro abominado
Só pisará ao baquear sobre ela
Teu último soldado.
Eu também combati: nus pátrias lides
Também colhi um louro:
O prantear o Companheiro extinto
Não me será desdouro.
Para o Sol do Oriente outros se voltem,
Calor e luz buscando:
Que eu pelo belo Sol, que jaz no ocaso,
Cá ficarei chorando.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Rituais e Simbolismos

A questão da necessidade dos rituais é das que mais surpreende não só quem não pertence à Maçonaria, mas também muitos recém-chegados. Não é fácil aceitar essa importância e menos ainda será compreender até que ponto a intensidade e perfeição com que os maçons se entregam à sua prática é determinante para a criação de um verdadeiro espírito de corpo.
De facto a realização conjunta dos diversos rituais conduz a uma forte união entre os Irmãos. Não se trata de nada de mágico ou metafísico. Há estudos estatísticos que mostram os benefícios para a saúde de quem participa regularmente em cerimónias de tipo religioso, sejam elas de que religião forem, ou mesmo não religiosos mas em que há um envolvimento colectivo. Do mesmo modo, já foram realizadas experiências científicas de considerável complexidade, que demonstram uma evidente estimulação de zonas de específicas do cérebro durante práticas de rituais ou de meditação profunda.
Em qualquer dos casos essa actividade é benéfica para o funcionamento saudável do organismo de cada um dos intervenientes e para o desenvolvimento de um espírito de união entre as pessoas que neles participam.
Por outro lado, os próprios rituais estão carregados de alegorias e simbolismos que se impõe desvendar e assimilar.

Passemos assim para o tema das simbologias usadas pela Maçonaria.
Por mais que se pretendam explicar, dificilmente se poderá conseguir que quem esteja de fora consiga abarcar o seu significado profundo. Não é fácil explicar o sabor de uma laranja a alguém que nunca a tenha provado.
Os símbolos usados pela Maçonaria têm origens muito diversas, mas em síntese há dois tipos principais: os que tiveram origem na Maçonaria Operativa e os que foram introduzidos a partir de crenças ocultistas que se integraram na Maçonaria Especulativa quando esta começava a ganhar forma. Mas todos os símbolos traduzem ideias mais ou menos abstractas e são essas ideias que devem ser apreendidas pelos maçons de acordo com a sua inteligência, a sua maneira de ser e de sentir. Convirá assinalar que apesar de recorrer a símbolos de diversas crenças, isso não implica que os maçons partilhem dessas mesmas crenças, pois na Maçonaria a razão sobrepõe-se ao misticismo.
A pouco e pouco, essas noções serão interiorizadas e passarão a fazer parte de cada maçon, dando-lhe a consistência ética que lhe permitirá enfrentar os desafios da vida pessoal e colectiva, mas sem nunca lhe impor quaisquer dogmas ou doutrinas. Ou seja, é graças à participação nos rituais e ao estudo da simbologia maçónica que nós maçons vamos progredindo na interiorização dos conceitos que a Maçonaria nos transmite e que vamos sentir individual e colectivamente uma espiritualidade que nada tem a ver com crenças religiosas ou de qualquer outro tipo. Mas é essa espiritualidade que nos permite sentir de uma forma mais intensa e profunda a beleza de uma trilogia muito famosa e que define bem os grandes valores da humanidade: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É quando chegamos a esta fase em que, ao mesmo tempo, fomos construindo o nosso templo interior e estabelecemos fortes laços de união com os nossos Irmãos, que estaremos realmente aptos a influenciar positivamente a evolução da humanidade e a defender todos os seus grandes valores.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Uma questão de "fé"

Paulo Macedo, Director-Geral dos Impostos (DGCI), encomendou uma missa de acção de graças pela sua Direcção-Geral e pelos funcionários dos Impostos na Sé Patriarcal de Lisboa e convidou os funcionários daquela Direcção Geral a acompanhá-lo na celebração.
“O Estado é laico. Respeita-se a liberdade religiosa das pessoas, ninguém é obrigado a ir”, justificou fonte oficial do gabinete do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.

Ora bem, o actual Director-Geral da DGCI é um homem de fé. Mais ainda, é um homem que se preocupa espiritualmente com a DGCI e até pelo governo que lhe paga o salário, que se diga que pelo valor auferido, indicia que as orações pessoais de Paulo Macedo devem ser ouvidas com sucesso, não só por todas as entidades divinas como até pelas profanas.

No entanto, embora a convicção religiosa de cada um, deve ser tolerada, no mais simples espírito maçónico, e disso nenhum membro de qualquer organização profana ou estatal não deve ser excepção, a verdade é que a actuação em causa do DG da DGCI não se configura como inocente, quer ao expor-se nela publicamente, como o “convite” formulado aos seus subordinados pode ser entendido também como forma de “coacção” perante os mesmos.

Se sobre a informação veiculada publicamente, adicionarmos o facto de que o Estado português é laico, ou afirma-se como tal e se for verdade que Paulo Macedo é membro de conhecida organização religiosa, então o seu acto de fé, pode ser tomado como uma acção que coloca incontornavelmente em causa a inocência do acto.

Não nos move a nós maçons, qualquer sentimento contra a fé religiosa de ninguém, nem contra qualquer organização a que supostamente Paulo Macedo possa pertencer, mas move-nos a defesa efectiva da liberdade religiosa, a laicidade de facto, do Estado português e a inexistência de qualquer forma encapotada de coacção sobre funcionários públicos para que se prestem a acções concertadas, cujo objectivo deixa de ser uma questão de fé, para se tratar de um acto político.

Assim, mais importante que a nossa Augusta Ordem se pronuncie publicamente sobre este incidente, o que decerto iria reduzir a sua venerável imagem à dimensão do acto, importa que o mesmo seja comentado pelos meios adequados, maçons ou profanos, além de permitir e incitar que as instituições existentes para o efeito actuem em conformidade, na defesa dos direitos e liberdades que nos devem assistir e assim, pronunciarem-se sobre este caso, procurando que o mesmo não se repita.

Casos como este, vêm reforçar o sentimento que nós maçons devemos ter, da necessidade de reforçar o nosso empenho no trabalho que devemos realizar e a que nos propusemos no acto da Iniciação e da importância da estratégia de actuação da nossa Augusta Ordem, que esta deve ter, na mobilização e efectivação na Sociedade, dos nobres princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade que nos caracterizam.

Autor: Asa

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

As Lojas de S. João

- Meu Irmão, de onde vindes?
- Da Loja de São João, Venerável Mestre.
- Que se faz na Loja de São João?
- Levantam-se Templos à virtude e cavam-se calabouços para os vícios.
As lojas dos primeiros graus da Maçonaria são frequentemente chamadas de “Lojas de São João” em que a expressão “Loja de São João” deriva do título usado durante a Idade Média pelas corporações de construtores, designadas por “Confrarias de São João”.

As festas de São João Evangelista e de São João Batista, a primeira das quais é celebrada a 27 de Dezembro, no solstício de Inverno, e a segunda a 24 de Junho, no solstício de Verão, são celebradas na Maçonaria em Assembleias especiais.
As opiniões dividem-se sobre o santo ao qual a Maçonaria honra com maior ênfase sob o nome de "São João". Contudo, ambos os santos são muitos importantes do ponto de vista da simbologia maçónica.

São João Evangelista, deixou-nos no prólogo do seu Evangelho, um verdadeiro monumento esotérico:

“No começo era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava, no começo, com Deus. Tudo era feito por ele e, sem ele, nada se fez de tudo o que foi feito. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilhava nas trevas, e as trevas não o receberam.”
Em certas Lojas maçónicas onde a Bíblia é assumida como texto de reverência, o Evangelho de São João é qualificado frequentemente como o “Evangelho do Espiríto”.
Quanto ao São João Baptista, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, prima da Virgem Maria, foi chamado de “Precursor” porque preparou os caminhos de Jesus. Ele foi chamado de “Baptista” porque baptizava no Jordão. Herodes Antipas, irritado com as suas advertências por causa da sua união com Herodíades, sua sobrinha e a mulher do seu irmão, lançou-o na prisão de Maqueronte para, onde mais tarde, veio a ser decapitado. Comemora-se a sua “degolação” no dia 29 de Agosto.

Os pequenos edifícios, outrora construídos junto das catedrais eram habitualmente dedicados a São João Baptista e chamados “batistérios” em razão da sua destinação.

João, o Precursor pregava a renúncia e o arrependimento. Por sua vez, a A Ordem Maçónica desempenha, ela também em muitos casos, o papel de precursora e pode fazer-nos lembrar o combate espiritual que João, o Baptista, travou contra os publicanos e a multidão. João, o Precursor, que dividia a sua comida e as suas roupas com os infelizes, era considerado perigoso, e foi pelas suas ideias de fraternidade e de justiça que Herodes o condenou, por se tratar de uma postura "politicamente perigosa" pelo seu impacte na população.

O nome "João" está ligado também a outras referência históricas, nomeadamente à misteriosa lenda do “Padre João” dos séculos XII e XIII, que seria um soberano tártaro e ainda ao facto de que muitos imperadores da Abissínia assim se chamavam.
Diz-se, ainda, que os Templários celebravam as suas festas mais importantes no dia de São João, no verão, e que a Maçonaria perpetuou o costume e tradição da Ordem do Templo.
Há ainda, quem relacione o nome "João" a "Janus", o deus latino de dois rostos: um jovem, outro velho, simbolizando o passado e o futuro, o ano que termina e o ano que começa.
A festa de São João, no verão, a 24 de Junho, é marcada por “fogos”, que ainda são queimados em muitas regiões e o folclore tradicional é rico de tradições relacionadas com esta festa.
Assim, a Maçonaria ao ser inspirada em dar o nome de "Lojas de São João" às suas Lojas, agrupou de algum modo, os múltiplos sentidos e símbolos que lhe podem ser atribuídos.

Autor: Júlio Verne

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Um conto de Natal

Pegadas na neve

O céu cinzento cor de chumbo tomara a cor branca como se fosse o tecto de uma sala imensa do tamanho do horizonte, toda atapetada com um espesso manto de neve alva onde enquanto caminhava em passos lentos e firmes, uma figura encolhida do frio imprimia os passos que dava.

Dirigiu-se à janela da primeira das muitas casas que ladeavam a avenida, onde luzes trémulas de Natal enfeitavam as árvores que dançavam ao som do vento, que lhes arremessava pequenos flocos brancos, saturando-lhes as pernadas que sacudia em golpes de tempestade.
Espreitou pela vidraça. Um sorriso ondulou-lhe os lábios confundindo-os com os longos cabelos brancos que se fundiam na barba da mesma cor. Lá dentro uma criança brincava junto à lareira, iluminada por esta, a que se juntavam os olhares dos pais como que a acariciá-la.

Aquecido na alma com aquele quadro familiar, seguiu adiante onde através de uma janela pequena, uma luz ténue fazia-se sentir num apelo que atravessava a vidraça embaciada. Uma figura pequena e dobrada pela idade aconchegava-se envolta por um xaile de lã que denunciava os anos de uso, mal cobrindo o magro corpo que se aninhava junto ao braseiro. Este solidário, aquecia a cafeteira de café, que lhe servia de consolo e de companhia. Os olhos daquele homem, que antes sorriam, agora juntavam-se tristes à solidão. As mãos dedilhavam os botões que lhe fixavam o manto do corpo, que agora retirava e colocava na maçaneta da porta daquela casa, onde batera antes de se afastar.

Continuou o caminho, no mesmo silêncio dos que caminham sós, até que um barulho de vozes lhe interrompeu o pensamento. Dirigiu-se aonde vinham as vozes, que mais perto, denunciavam uma discussão. Um casal sentado à mesa, mantinha os pratos vazios apesar da mesa farta, anunciando que era a alma a quem faltava o alimento que o desentendimento recusava. Ao lado da janela por onde assistia, num pequeno jardim resistiam as últimas rosas onde gotas de orvalho se transformaram em pequenos diamantes que o frio fabricara. Rapidamente colheu duas delas, deixando-as junto da porta do casal com dois pequenos bilhetes de papel que escrevera de improviso na soleira da porta. Tocou a sineta e regressou apressado ao caminho, enquanto as vozes se calaram na surpresa do toque.

De volta ao silêncio da caminhada, continuou lento, olhando para uma janela, esta um pouco mais iluminada que as restantes. Espreitou furtivo para o candelabro que iluminava intensamente um pequeno oratório, onde uma mãe ajoelhada erguia as mãos, como se buscasse a toalha de linho invisível que lhe enxugasse as lágrimas que lhe corriam pelas faces. Adiante, sentado estava um pai de cabeça tombada que encostava às mãos, que tomara nas suas, de um filho enfermo e febril. Cá fora a expressão do rosto daquele homem fazia coro com as daqueles pais que observava, enquanto colocava as palmas das mãos abertas sobre as vidraças, como se projectasse a bênção que a sorte desconhecera até então e que o sorriso inesperado da criança anunciava agora discreto.

A volta ao trilho por onde viera fez-se serena, como mansa era a neve que cobria tudo por onde passara e seguia agora. Um choro baixo mostrava-se discreto, escutado talvez, apenas por aqueles ouvidos treinados pela experiência de ouvir os que clamam em silêncio. Assomou à janela que só ouvindo se apercebia da pouca luz que as vidraças teimavam em deixar ver. Dois rostos ladeavam uma mesa vazia onde uma jarra de flores tomava digna, o lugar que a refeição não ocupava, deixando espaço a dois pares de mãos que pousavam solidárias sobre a toalha branca como a neve. As vestes eram simples e os remendos gritavam mudos de orgulho os cuidados que recebiam apesar do uso, agora menos intenso na actividade, provavelmente por falta de trabalho que atormentava quem aquelas vestiam. Apressado, o homem retirou dos bolsos um embrulho enrugado, onde guardava a refeição seguinte que contava como sua e que o corpo agora recusava. Juntou-lhe algumas moedas que recebera como pedreiro livre e pedinte e deixou no parapeito da janela onde batera no momento de se afastar.

Continuou a caminhar, agora dirigindo-se a um vulto que o acaso lhe fizera encontrar, encolhido na soleira de uma porta, por onde o calor se deixava escapar sorrateiro sob a porta pesada duma casa igualmente imponente e aquecida, reforçando o calor que pedaços de cartão a custo asseguravam delicadamente, como se embalassem o mais frágil dos seres. Com o cuidado de não acordar o homem que dormia quase inconsciente no frio, tirou-lhe as roupas velhas e o calçado roto que rápida e furtivamente trocou pelas suas, como se na troca ganhasse o melhor dos tesouros.

Voltou ao caminho que tomara antes, apoiado num bordão feito de madeira de acácia, perseguindo os passos que agora eram mais leves enquanto a iluminação de Natal se inclinava diante do brilho que levava nos olhos e o sorriso dos lábios calava o silêncio na noite e as mãos abertas acalmavam o vento e o frio. Olhava para si mesmo, feliz com os braços abertos de contentamento que a parca indumentária que agora tinha tomava lugar em vez das vestes vermelhas que usara como uniforme na noite de Natal. Não ia de trenó nem eram as renas que o transportavam. Era felicidade o que sentia enquanto a dava também aos outros. Era isso que o fazia sentir-se o verdadeiro Pai Natal em gestos e sinais que só ele entendia.

Autor: Sheikh

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

A excomunhão da Maçonaria


VOZ DO PASTOR
D. Eugênio de Araújo Sales26/01/2001
Desde o Papa Clemente XII, com a Constituição Apostólica “In eminenti”, de 28 de abril de 1738 até nossos dias, a Igreja tem proibido aos fiéis a adesão à Maçonaria ou associações maçônicas. Após o Concílio Vaticano II, houve quem levantasse a possibilidade de o católico, conservando a sua identidade, ingressar na Maçonaria. Igualmente, se questionou a qual entidade se aplicava o interdito, pois há várias correntes: se à anglo-saxônica ou à franco-maçonaria, a atéia e a deísta, anti-clerical ou de tendência católica. Para superar essa interrogação, o Documento da Congregação para a Doutrina da Fé, com data de 26 de novembro de 1983, e que trata da atitude oficial da Igreja frente à Maçonaria, utiliza a expressão “associações maçônicas”, sem distinguir uma das outras. É vedado a todos nós, eclesiásticos ou leigos, ingressar nessa organização e quem o fizer, está “em estado de pecado grave e não pode aproximar-se da Sagrada Comunhão”. Entretanto, quem a elas se associar de boa fé e ignorando penalidades, não pecou gravemente. Permanecer após tomar conhecimento da posição da Igreja, seria formalizar o ato de desobediência em matéria grave.
A Congregação, no mesmo Documento de 26 de novembro de 1983, declara que “não compete às autoridades eclesiásticas locais (Conferência Episcopal, Bispos, párocos, sacerdotes, religiosos) pronunciarem-se sobre a natureza das associações maçônicas, com um juízo que implique derrogação do quanto acima estabelecido”. O texto faz referência à Declaração de 17 de fevereiro de 1981, que reservava à Sé Apostólica qualquer pronunciamento que implicasse em derrogação da lei canônica em vigor. Tratava-se do cânon 2335 do Código de Direito Canônico de 1917, que previa excomunhão “ipso facto” a quem ingressasse na Maçonaria.
Reconhecer uma incompatibilidade doutrinária não implica fomentar um clima de hostilidade. Preservar a própria identidade e defendê-la, não significa incentivar atritos. Aliás, somente o respeito à Verdade facilita a paz e a busca da concórdia entre os indivíduos.
O novo Código de Direito Canônico assim se expressa: “Quem se inscreve em alguma associação que conspira contra a Igreja, seja punido com justa pena; e quem promove ou dirige uma dessas associações, seja punido com interdito” (cânon 1374). No dia seguinte à entrada em vigor do novo Código, isto é, 26 de novembro, é publicada a citada Declaração com a aprovação do Santo Padre. Diz o Documento que a Maçonaria não vem expressamente citada por um critério redacional e acrescenta: “Permanece, portanto, inalterado o parecer negativo da Igreja, a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a Doutrina da Igreja e, por isso, permanece proibida a inscrição nelas. (...

... ) Eu fazia parte da Comissão do novo Código, na parte final da elaboração. Recordo-me bem. Houve uma emenda para fazer permanecer, de modo explícito, a condenação à Maçonaria, como foi obtido para o aborto, com excomunhão “latae sententiae”. A votação, no caso do aborto, alcançou os dois terços requeridos e foi incluído o termo. No que se refere à Maçonaria, houve maioria em favor da explicitação da mesma associação, mas não com o índice requerido. Nos debates prévios foi alegado não ser necessário, pois o texto já continha uma proibição implícita. (...

... ) Permanecendo a proibição no ensinamento da Igreja, houve nesse período pós-conciliar uma profunda modificação no relacionamento entre pessoas, entre católicos e maçons. Embora permanecendo separadas, existe um clima de respeito mútuo que permite um diálogo. O exemplo foi o aparecimento de reuniões entre católicos e maçons para estudo como o de uma Comissão das Grandes Lojas reunidas da Alemanha e a Conferência Episcopal Alemã, de 1974 a 1980. A Declaração final do Episcopado alemão evidencia a incompatibilidade, pois a maçonaria não mudou em sua essência. A pesquisa acurada sobre rituais e os fundamentos dessa instituição demonstra a existência de doutrinas que se excluem. Entre as causas dessa separação, enumera: a ideologia dos maçons, o conceito de Verdade, de Religião, de Deus, a Revelação, sobre a tolerância, os ritos, a perfeição do homem e a espiritualidade. De outro lado, a realidade alemã vê a possibilidade de colaboração pastoral na área da Justiça Social e Direitos Humanos.

O facto de existirem eclesiásticos na maçonaria prova que há falhas na disciplina. São dadas explicações, não justificativas, baseadas em situações históricas, como no caso da Independência do Brasil. Dom Boaventura Kloppenburg, em sua obra examina o assunto e o reduz a dimensões reais
O respeito mútuo e a fidelidade aos ensinamentos da Igreja nos possibilitam uma convivência pacífica com os irmãos maçons.

Este site foi obtido no site da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, Brasil e assinado pelo autor indicado.
Pode o texto ser lido na íntegra em: http://www.arquidiocese.org.br/paginas/v26012001.htm

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

As quatro estações

As estações do ano:
A Terra possui vários movimentos, dos quais merecem destaque dois por serem os mais evidentes. Assim, temos o movimento de rotação que a leva a dar uma volta sobre si mesma em 24 horas e um movimento em volta do Sol em que demora 365,25 dias a fazer o percurso completo.
Como se sabe o movimento de rotação leva à sucessão dos dias e das noites e realiza-se em torno de um eixo, o eixo de rotação. Aos pontos onde esse eixo de rotação toca na superfície terrestre damos o nome de pólos.
Se imaginarmos esse eixo prolongado no espaço para norte e para sul, vamos ter aos pólos da esfera celeste. Junto ao pólo norte celeste está a famosa Estrela Polar. Aliás, a estrela tem esse nome por estar perto do pólo. No hemisfério sul, não há nenhuma estrela brilhante junto ao respectivo pólo, por isso não há uma «estrela polar do sul».
Ao longo de todo o ano vemos a Estrela Polar quase na vertical do nosso pólo norte, ou seja, não há uma modificação significativa da direcção do eixo de rotação da Terra em relação ao céu num período de um ano. (Para períodos bastante maiores há uma mudança chamada precessão, mas essa não importa para esta explicação.)
Mas é em relação ao Sol que as coisas “aquecem” mais.
Para começar, ao girar em torno da nossa estrela, a Terra “desenha” um plano. Ora acontece que o eixo de rotação tem em relação a esse plano da órbita da Terra uma inclinação de cerca de 23,5º. (Ver figura anexa)
É essa inclinação a causa das estações do ano. Assim, nas datas dos equinócios o Sol aparece na vertical do equador ao meio-dia e por toda a Terra nasce rigorosamente a este, tendo o seu ocaso a oeste.
Uma vez passado o dia do equinócio, o Sol vai ser visto cada vez mais afastado, seja para norte, seja para sul do equador. Entre 21 de Março e 21 de Junho aparece cada vez mais a norte. Cerca deste último dia, atinge o solstício de Verão do hemisfério norte, pelo que ao meio-dia está na vertical do trópico de Câncer e ilumina generosamente o hemisfério norte. Nesta época do ano, os dias são maiores do que as noites (na região do pólo norte é sempre dia). Estando mais horas acima do horizonte e mais alto no céu, causa uma subida acentuada da temperatura. Em compensação, nessa época no hemisfério austral os dias são curtos, e no pólo sul é sempre noite.
Depois do solstício de Junho, o Sol vai aparecer cada vez mais para sul, até que cerca de 21 de Setembro fica na vertical do equador, tal como seis meses antes.
A partir dessa altura, os dias no hemisfério sul são cada vez maiores do que as noites (e ao contrário no hemisfério norte). Nessa fase o Sol é visto cada vez mais a sul. Assim, cerca de 21 de Dezembro o Sol é visto na vertical na latitude do trópico de Capricórnio ao meio-dia.
O ciclo prossegue com o Sol a surgir cada vez mais para norte até que, chegados ao equinócio de Março, temos de novo o Sol sobre o equador e os dias a terem a mesma duração que as noites em toda a Terra. Bem… há uma excepção: nas datas dos equinócios, nas regiões polares o Sol anda “sobre” o horizonte durante as 24 horas do dia.

Curiosidades: Se o eixo de rotação da Terra fosse perpendicular ao plano da órbita, todos os dias do ano seriam dias de equinócio, ou seja, não haveria estações do ano.
Pelo contrário se aquele eixo fosse paralelo ao plano orbital (a Terra giraria deitada na sua órbita como acontece com o planeta Úrano) teríamos estações do ano muito acentuadas e, de seis em seis meses, o Sol ficaria na vertical de cada um dos pólos.

Relação entre a distância ao Sol e as estações do ano: O momento em que a Terra se aproxima mais do Sol é cerca do dia 4 de Janeiro, ou seja, em pleno Inverno no hemisfério norte.
A variação da distância, embora em termos de quilómetros seja significativa, em termos de percentagem é pouco importante (apenas 1,7%), pelo que o seu impacto no clima é discreto. Mais concretamente a variação da distância da Terra ao Sol é da ordem dos 2,5 milhões de quilómetros, mas a distância média é de cerca de 150 milhões de quilómetros.
Ainda assim, essa diferença de distância explica o Inverno menos frio (e o Verão menos quente) no hemisfério norte do que no sul. Mas onde o impacto é mais notório é na duração das estações do ano. Enquanto que o Verão do hemisfério norte conta com 92 dias o do hemisfério sul não ultrapassa os 90. A razão é simples: quando a Terra está mais próxima do Sol, no periélio, a sua velocidade orbital é maior.

Autor: Carl Sagan (gentil colaboração de Irmão de outra obediência maçónica)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

Os porquês de uma escolha

Fazer parte de uma organização como a Maçonaria implica alguns compromissos assumidos livremente pelos maçons. Um dos primeiros é não revelar a identidade dos seus Irmãos.
Poderá haver quem pense que isso seja um sinal de que na Maçonaria se levem a cabo actos sinistros ou ilegais. Pelo contrário, a Maçonaria é uma escola de aperfeiçoamento dos seus membros para melhor servirem a sociedade em que estão inseridos e de uma forma geral toda a humanidade. Os valores pelos quais os maçons se batem são os mais belos que o homem alguma vez criou. Queremos um mundo onde reinem a Paz e a Justiça para todos, onde a Tolerância e a Liberdade sejam coisas banais e onde a Fraternidade e a Igualdade façam parte integrante do quotidiano. Ansiamos por um mundo onde não haja ninguém a morrer de fome, onde a tortura seja coisa do passado e a cultura esteja ao alcance de todas as pessoas.
Se tivéssemos algo de sinistro a esconder, os mais altos responsáveis por cada uma das Obediências não iriam dar entrevistas aos órgãos de informação.
O que se passa é que a Maçonaria não pretende ser iluminada pelos holofotes nem ser capa de revistas. Os maçons procuram trabalhar em sossego no aperfeiçoamento de si mesmos e ajudar, sem alaridos, à construção de um mundo melhor. Não é fácil estudar, meditar e trocar ideias no meio da confusão.
Há ainda outro aspecto que deve ser sublinhado. Ao longo da sua história, a Maçonaria deve ser das organizações mais caluniadas e perseguidas por todos os inimigos da liberdade de pensamento. Em Portugal essas perseguições foram não só frequentes como de grande violência. Por esse motivo, em muita gente há ainda um forte preconceito antimaçónico, ou no mínimo alguma desconfiança em relação aos maçons. Embora tal não tenha o menor fundamento, temos de ser compreensivos.
Nestas condições, o uso de um nome simbólico na assinatura de textos parece-me não só conveniente como perfeitamente lógico.

Quando se me colocou a questão da escolha de um nome simbólico, senti-me dividido. Poderia optar por um nome sem qualquer significado especial, do género "Zé das Botas". Mas achei que poderia aproveitar para homenagear alguém que me tivesse influenciado pessoalmente ou cuja personalidade tenha sido marcante para a sociedade humana. Pensei em vários nomes, todos dignos dessa homenagem. Por fim escolhi o de alguém que muito me inspirou em vários aspectos da minha vida: "Carl Sagan".
Não faço a menor ideia se Sagan pertenceu à Maçonaria, mas por tudo quanto ouvi dito por ele e pelo que está escrito nas suas numerosas obras, tenho a certeza de que os seus ideais humanistas em tudo se identificam com os da nossa Augusta Ordem.
Sempre gostei de ver o céu, apreciar o brilho das estrelas, observar a estranha dança dos planetas ao longo do ano. Mas só depois de ver o «Cosmos» na televisão me apercebi de como o Universo é imenso em beleza e em extensão, de como o seu estudo é fascinante e acessível a qualquer pessoa e como o infimamente pequeno está tão ligado ao infimamente grande.
Mas Sagan fez mais do que isso nas suas muitas obras. Tanto nos livros como na série televisiva, não se limitou a levar-nos consigo de visita a galáxias distantes e a planetas desconhecidos a bordo da sua “nave da imaginação”. Sagan fê-lo sempre de forma a integrar os diversos ramos do conhecimento, da astrofísica à neurologia, da história à botânica, da geologia à bioquímica, da arqueologia à psicologia. Ou seja, demonstrou claramente que os muitos ramos da ciência devem comunicar entre si.
Numa época em que a todo o momento se poderia desencadear o inferno nuclear, bateu-se contra os «falcões», fazendo ver a quem tivesse um mínimo de inteligência que numa guerra nuclear só há vencidos. Em plena Guerra-Fria, apesar de todos os obstáculos levantados por ambos os lados da «cortina de ferro», associou-se a cientistas soviéticos e publicou obras conjuntas.
Nunca o vi assumir posições facciosas em termos de ideologia ou de religião. Pelo contrário, é fácil encontrar nas suas obras um constante apelo à tolerância a ao bom senso. No seu livro «Um Mundo Infestado de Demónios» mostra bem o quanto o fanatismo e a ignorância grassam no mundo e como estamos longe de os conseguir erradicar. Era bom que todas as pessoas lessem esse livro notável.
E que dizer da beleza que nos transmite em «Sombras dos Antepassados Esquecidos», ou o realismo do seu romance de ficção (realmente) científica «Contacto»?
O problema que se me levanta não é se Sagan merece ser homenageado. O meu receio é não estar à altura de o homenagear.

Autor: Carl Sagan (gentil colaboração de Irmão de outra obediência maçónica)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

ASA - "Voar" em Liberdade

O meu nome simbólico de ASA assenta em 3 pilares fundamentais, que sustentam a forma da minha forma de ser, de estar e por fim a minha razão de existir e que se traduzem na justiça, na honra e na verdade. Estes três pilares foram cimentados ao longo dos meus trinta e nove anos de existência e particularmente construídos durante vinte e nove anos no Mundo Profano.

A escolha feita em reflexões, em adoptar o nome simbólico de ASA, não tem nada de filosófico, mas muito de emocional e sentimental. Ao entrar na escuridão, e perante as responsabilidades que se deparavam a partir daquele momento, não me poderia esquecer do Homem, e que ao mesmo tempo era meu Pai, que me formou e que a ele fui beber todos os conceitos atrás descritos.
Espero portanto, com os ensinamentos que “Ele” me deu e com a ajuda de todos os demais, possa trabalhar a pedra com o objectivo de me tornar num homem ainda mais justo, mais fraterno e defensor acérrimo da Verdade neste Ideal Maçónico.

No dicionário Texto Editores:
ASA - " é um membro guarnecido de penas que serve às aves para voar" e é precisamente este último termo “voar” sinónimo de Liberdade; no sentido figurado ASA é definido por “protecção” no plural “ligeireza”;
Estes dois termos definem, por um lado a aplicabilidade do nome simbólico nesta grande família e por outro lado representa com uma grande amplitude a minha visão do Mundo Maçónico.

No dia 6 de Dezembro do ano passado passei a ser um novo Homem. Renasci

Autor: ASA

Curiosidade: ASA, foi Rei de Judá, filho de Abias, neto de Roboão e Bisneto de SalomãoRei de Israel. Trouxe a paz para Judá e reinou quarenta e um anos. Lutou com Zerá Rei Etíope e venceu, não obstante a força militar deste de um milhão de homens e trezentos carros, na Batalha que teve lugar noVale Zefata em Maressa. Os seus assuntos ficaram escritos no Livro dos Reis de Judá e de Israel. Foi sepultado na terra de Davi, tendo sido feita uma queima fúnebre extraordinarimente grande. Cr.14:2

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Homenagem a meu pai

Na remota década de 50 do século transacto, Álvaro vivia em Queluz com sua mulher, Aurora, e o filho de ambos, Francisco, este ainda a dar os primeiros passos. As dificuldades eram mais que muitas e as perspectivas menos que poucas. Ouviu-se, então, o chamamento africano, e Álvaro rumou, com mulher e filho, para a então remota cidade de Luanda, que ficava a 17 dias de barco, numa viagem em que não escassearam as atribulações.
Francisco foi crescendo num ambiente em que os pais – sobretudo Álvaro, sempre mais interventivo e assertivo – lhe transmitiam um conjunto de princípios e de valores que só mais tarde começaram a ser entendidos na verdadeira plenitude do seu significado intrínseco.

Para não vos incomodar mais com historietas estéreis, invoco então apenas três dos incontáveis momentos que retenho das conversas com meu pai. Elenco-os por ordem cronológica, não pela hierarquia da importância que possam encerrar.

Numa conversa a três – mãe, pai e filho –, Álvaro disse a Francisco não recear que este andasse com más companhias, porque a obrigação de Francisco seria a de trazer os maus exemplos para os caminhos do bem. Falou então em coisas à época tão herméticas para mim, como a missão que estava cometida a todos os homens livres para apontarem o rumo dos bons costumes aos seus semelhantes, em ordem a que pudesse ser construído um Templo no seio do qual cada um pudesse encontrar-se consigo próprio e com os outros, no respeito pela fraternidade. E lá foi acrescentando, perante a perplexidade de Francisco, que tinha aprendido aquilo com um homem de estatura intelectual invulgar, chamado Norton de Matos que, ao que fiquei a saber, era tio de uma tia minha.

Um ou dois anos volvidos, Francisco começou a fumar, buscando assim uma forma de afirmação perante os pais de sua namorada, que o consideravam imaturo. Mas Francisco escondia ciosamente de Álvaro as provas do vício, até que um dia, inadvertidamente, entrou em casa com um maço de cigarros no bolso transparente de uma camisa.
Quando Francisco reparou no lapso, tentou emendá-lo e dirigiu-se com celeridade à casa de banho. No momento em que escondia no bolso opaco das calças a “prova do crime”, Álvaro disse-lhe, do outro lado da porta: “Não vale a pena esconderes os cigarros. Comecei a fumar com a tua idade. Estou arrependido, mas não consigo voltar atrás. E por isso não tenho moral para te condenar. Os exemplos transmitem-se por acções concretas e não por palavras vadias. Fuma e fica em paz.”.
Abrindo receosamente a porta da casa de banho, por recear que aquelas palavras encerrassem uma cilada, Francisco estacou frente a Álvaro, que lhe sorria, dizendo: “Meu filho, devemos contribuir para a construção de um mundo mais tolerante, aceitando as diferenças, mas teimando para que o nosso exemplo possa ser seguido e multiplicado. Sabes quem me ensinou isto? Norton de Matos.”. Foi a segunda vez que ouvi aquele nome.

Mas Álvaro, apesar das suspeitas de Aurora, de quando em vez, à noite, pegava numa linha e em anzóis e anunciava que ia pescar. Claro que Aurora pensava que a pesca tinha mais a ver com carne do que com peixe, até porque meu pai raramente regressava com algo que pudesse constituir um álibi inquestionável. Numa dessas noites, Álvaro convidou Francisco a acompanhá-lo. E lá fomos para uma praia deserta, a duas vintenas de quilómetros de distância.
Álvaro iscou o anzol, arremessou a linha e distanciou-se. Permaneceu calado e exortou-me a não quebrar o silêncio.
Mas, a certa altura, Francisco não aguentou mais. “Tenho fome!” – murmurou, timidamente. Álvaro foi ao farnel, retirou duas generosas postas de bacalhau e uma dúzia de batatas com casca, colocou tudo dentro de uma panela que encheu de água do mar, fez uma fogueira e a tão esperada refeição começou a ser cozinhada.
Todavia, Álvaro era uma caixa de surpresas. Foi buscar uma toalha de mesa cuidadosamente dobrada, que cuidadosamente desdobrou e colocou sobre a areia. Duas facas, dois garfos e dois guardanapos de pano completavam o cenário.

Era uma noite ferozmente tropical, em que a Lua fazia multiplicar, no espreguiçar remansoso das ondas, uma miríade de minúsculos corpos luminosos, símbolos da vida que o mar encerra. Atrás de nós erguia-se uma falésia rochosa, inclinada, de onde, de repente, começaram a surgir uns repugnantes e bem encorpados caranguejos brancos, cujo habitat era aquele. E, descaradamente, ignoraram a nossa presença, dirigindo-se para o local preparado para o repasto, apoderando-se dos talheres, que a custo removiam para os buracos onde habitavam.

Indignado, mas com medo daqueles seres que mais pareciam frutos de um filme de qualquer Spielberg de ocasião, revoltei-me com o furto e insurgi-me contra meu pai, por nada fazer para o evitar. Extasiado perante a cena, Álvaro retorquiu-me: “Deixa-os em paz. E admira a coragem deles, que enfrentam o perigo para conseguirem objectos de que provavelmente necessitarão para a construção da casa deles. Nós não precisamos dos talheres. Eles, pelos vistos, sim. Podemos comer à mão. É que também foi à custa de muita coragem que alguns homens conservaram até hoje símbolos que significam coisas que eu gostaria que tu um dia mais tarde conhecesses e de que te apercebesses. Norton de Matos ensinou-me alguns.”

Francamente, e aproveitando o facto de a cena se desenrolar na praia, permitam-me que desabafe: era muita areia para a minha camioneta. E mais ainda quando, logo de seguida, ao sentir a linha de pesca a mexer-se convulsivamente, anunciei a meu pai que, por fim, havia pescado algo, ele se lhe dirigiu, recolheu o imprevidente peixe, desembaraçou-o do anzol e devolveu-o à água.

Por instantes temi que Álvaro tivesse ensandecido. Com o mesmo sorriso, adiantou-se: “Julgavas que eu vinha à pesca? Não! Este é apenas um pretexto para sublimar o silêncio, para comungar com a natureza, para apreciar a sua perfeição e para me aperceber das minhas imperfeições.”. Pretensiosamente irónico, murmurei entre dentes: “Se calhar esse tal Norton de Matos também era pescador!...”
- Não – elucidou Álvaro. Era construtor.
- Da construção civil? – perguntei, incrédulo.
- Não. Da construção de coisas de que talvez um dia possas aperceber-te.

Assim se encerra este tríptico. Um triângulo traçado com linhas talvez metafóricas, mas nem por isso menos reais.

Autor: Álvaro

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Gomes Freire de Andrade (27-1-1757...18-10-1817)


Gomes Pereira Freire de Andrade e Castro nasceu em Viena, Áustria, a 27 de Janeiro de 1757, filho de Ambrósio Pereira Freire de Andrade e Castro, e da Condessa Elisabeth von Schaffgotsch.
Iniciado antes de 1785, provavelmente em Viena na Loja Zur gekrönten Hoffnung, à qual também veio pertencer Wolfgang Amadeus Mozart.
Em 1801, reúne-se em sua casa a assembleia que levou à organização definitiva da Maçonaria portuguesa, com a posterior criação do Grande Oriente Lusitano em 1802, vindo a ocupar o cargo de Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano de 1815 a 1817.

Defensor dos princípios de liberdade e do nacionalismo, veio a ser acusado de liderar uma conspiração liberal e nacionalista contra a monarquia absoluta de João VI, instrumentalizada em Portugal continental pela Regência, em conluio com o governo militar britânico de William Carr Beresford.

Assim, Gomes Freire de Andrade foi detido como traidor nacional junto com outras onze pessoas: o coronel Manuel Monteiro de Carvalho, os majores José Campelo de Miranda e José da Fonseca Neves e mais oito oficiais do Exército.

Feitos os julgamentos, as execuções tiveram lugar a 18 de Outubro de 1817, sábado no Campo de Santa Anna (posteriormente Campo dos Mártires da Pátria), pouco depois do meio dia, com a saída dos presos do Limoeiro, descalços e vestidos com a “alva” acompanhados por membros do clero. A última vítima, foi executada às 9 horas da noite, tendo posteriormente, os corpos sido empilhados e deitado fogo, tendo as fogueiras ardido até às 11 horas da noite, ao que D. Miguel Pereira Forjaz, a propósito da morosidade das execuções terá dito “é verdade que a execução se prolongará pela noite, mas felizmente há luar”.
No mesmo dia, no Forte de São Julião da Barra, a execução de Gomes Freire de Andrade teve lugar às 9 horas por enforcamento, seguido de decapitação, tendo sido o seu corpo posteriormente queimado e lançados os restos mortais ao mar.

Após o julgamento e execução de Gomes Freire de Andrade em 1817 e outros, Beresford deslocou-se ao Brasil para pedir maiores poderes. Supostamente havia pretendido suspender a execução da sentença até que fosse confirmada pelo soberano português. Mas a Regência, "melindrando-se de semelhante insinuação como se sentisse intuito de diminuir-se-lhe a autoridade, imperiosa e arrogante ordena que se proceda à execução imediatamente".
Este procedimento brutal da Regência e de Lord Beresford, comandante em chefe britânico do Exército português e regente de facto do reino de Portugal, levou a protestos e intensificou a tendência anti-britânica, o que conduziu o país à Revolução do Porto e à queda de Beresford (1820), impedido de desembarcar em Lisboa ao retornar do Brasil, onde conseguira de D. João VI maiores poderes ainda.

Numa atitude contemplativa dos princípios que nortearam Gomes Freire de Andrade e demais mártires que com ele perderam a vida, durante a “Primeira Republica” o dia 18 de Outubro foi assumido com dia de feriado nacional, que ainda é recordado como um dia de luto para a maçonaria portuguesa.

Rende-se assim homenagem a Gomes Freire de Andrade como um dos maiores vultos da nossa História, enquanto português e como maçon do Grande Oriente Lusitano, que ajudou a edificar e a engrandecer na luta pela Liberdade e pelo Progresso.
Nota:
No ano de 2003 o Grande Oriente Lusitano ofereceu à cidade de Lisboa um monumento em homenagem a Gomes Freire de Andrade, colocado na rua com o seu nome, em frente à Academia Militar.
Referência ao livro:
"Gomes Freire de Andrade - um retrato do homem e da sua época" da autoria de António Lopes - Edição Grémio Lusitano
Autor: Júlio Verne