terça-feira, 29 de maio de 2007

Fábula do Camelo

A propósito das questões sobre o Conhecimento, que tão oportuna e judiciosamente aqui têm sido trazidas por alguns Irmãos, gostaria de reforçar a pertinência das mesmas, sobretudo no que concerne ao posicionamento dos Maçons, quer no seio da nossa Ordem Universal, quer enquanto agentes activos e actuantes no mundo profano.

É neste contexto que La Fontaine, se ainda estivesse vivo, poderia ter escrito aquilo a que chamo de “Fábula do Camelo”.

Com efeito, a mãe e o bebé camelo descansavam, quando, de repente, o bebé acomete:
- Mãe, mãe, posso fazer-te umas perguntas?
- Com certeza! Mas porquê, filho? Há alguma coisa que te preocupe?
- Não, mas por que é que os camelos têm bossas?
- Bem, filho, nós somos animais do deserto, precisamos de bossas para armazenar água. Somos conhecidos por sobrevivermos sem água.
- Okay. Então por que é que temos pernas compridas e pés arredondados?
- Filho: são apropriados para caminhar no deserto. Sabes, assim podemos deslocar-nos naquele meio melhor do que qualquer outro.
- Okay. Então por que é que temos pestanas tão compridas? Às vezes até me perturbam a visão!
- Filho: estas pestanas servem-nos de protecção. Ajudam a proteger os nossos olhos da areia e dos ventos do deserto.
- Não compreendo. Se as bossas servem para armazenar água quando estamos no deserto; se as pernas servem para caminharmos na areia; se as pestanas protegem os olhos das tempestades de areia… então que raio estamos nós a fazer aqui no jardim zoológico?
Se isto fosse uma história, poderia terminar aqui. Mas, como é uma fábula, termina com a moral da história: aptidões, saber, capacidade e experiência só têm utilidade se estivermos no lugar certo.

E pronto. É desta forma que pretendo exprimir a minha congratulação e o meu regozijo pelas pranchas que alguns Irmãos têm apresentado. Ao demonstrarem as suas aptidões para o desbastar da pedra bruta, ao evidenciarem o seu saber em questões que são do interesse comum, ao transmitirem a sua capacidade para o cabal desempenho das funções que estão cometidos, ao legarem a sua experiência como forma solidária de partilha e ao fazerem tudo isto entre nós e nos espaços que partilhamos, fazem-nos sentir que estamos, de facto, por opção e sem transigência, no lugar certo para a prossecução de um trabalho que nos conduz a mais elevados patamares de Conhecimento, quer em termos absolutos quer de nós próprios – afinal um dos primeiros e últimos objectos da Maçonaria.

É, aliás, a predisposição para trilhar com firmeza o caminho do Conhecimento, um dos maiores desafios que se colocam ao iniciado, até porque se trata de um combate sem tréguas contra o obscurantismo que pauta, ainda hoje, muitos dos actos que regem a sociedade em que vivemos e que conduzem, eles também, às mais diversas formas de fundamentalismos.

Por outro lado, o Conhecimento é o melhor conselheiro para que o recipiendário das luzes maçónicas enverede também pela senda da prudência que deve marcar as suas acções e os seus pensamentos, não se deixando conduzir pela irracionalidade dos ímpetos nem por juízos precipitados.

Perdoem-me, pois, se me socorri de camelos para falar do Conhecimento. É que são eles os principais habitantes dos desertos, onde cada grão de areia se junta aos outros em perfeita justaposição, todos semelhantes como irmãos que se unem num imenso espelho que reverbera a luz do Sol nascido no Oriente. E todos tão semelhantes como os bagos das romãs, que derramam a fraternidade à entrada dos templos onde o Conhecimento constitui o elo que liga os homens livres e de bons costumes por toda a face do universo. No lugar certo.

Autor: Álvaro

sábado, 12 de maio de 2007

Grande Oriente Lusitano 1802 – 2007 * 205 anos da Maçonaria Portuguesa

O Grande Oriente Lusitano (GOL) foi criado em 1802, tendo o tratado de reconhecimento sido assinado em 12 de Maio desse ano, pela Grande Loja de Inglaterra. Em 1806 foi possível aprovar a sua primeira Constituição.

Em Portugal, a Maçonaria teve sempre um papel muito importante na sociedade civil. Foi assim que esteve na linha da frente nas lutas liberais, no século XIX, e na fundação da Primeira República em 1910. Deve-se-lhe a criação das leis de separação das Igrejas do Estado, do Registo Civil, de um grande número de escolas, orfanatos, centros republicanos e muitas mais realizações de cariz sócio-cultural.

Em 1935, o ditador Salazar mandou votar a Lei n.º 1901 que proibiu as Sociedades Secretas, ou seja a Maçonaria, tendo confiscado os seus bens, assim como os das sociedades de beneficência criadas por ela. O Palácio Maçónico, sede do GOL, adquirido em 1869, pelo Grémio Lusitano, a face profana da Maçonaria, foi também ocupado pela Legião Portuguesa, a milícia do Estado Novo.

Depois de 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, a Junta Militar que ocupou provisoriamente o poder, restituiu as instalações do Grémio Lusitano. Na mesma linha, o Primeiro Governo Constitucional, chefiado por Mário Soares, fez votar a Lei n.º 929/76, de 31 de Dezembro, que atribui uma indemnização para reparação da destruição que ocorreu durante a ocupação.

O Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, designação oficial retomada em 1982, manteve sempre as luzes acesas, mesmo durante os períodos mais sombrios da história do país. O GOL orgulha-se também de ter dado a Portugal alguns dos nomes mais prestigiados da sua história em sectores tão diferentes como a política e a administração, a ciência, a religião, as forças armadas, a cultura, as artes e a música, o teatro, o movimento feminista, o desporto, o mundo económico e o movimento social e operário.

O regresso da democracia permitiu que algumas Lojas adormecidas tenham retomado a actividade e que muitas Lojas novas tenham erguido colunas. Actualmente, o GOL tem federadas cerca de sessenta Lojas, entre as quais uma em Macau (China). Os Ritos Escocês Antigo e Aceite e Francês ou Moderno são praticados com toda a fraternidade e harmonia.

O Museu Maçónico, sedeado no GOL, está aberto ao público e regista um crescente número de visitantes. Pela sua qualidade e prestígio estás prestes a integrar a rede nacional de museus.

Pautando o seu comportamento pelo rigoroso respeito do princípio de não ingerência nas lutas políticas partidárias e reconhecendo naturalmente aos irmãos a liberdade total de opinião, de espiritualidade e de religião, o Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa pode afirmar-se como sendo uma escola de valores éticos, que não esquece as tradições iniciáticas que constituem o cimento da nossa Obediência.

A Liberdade, a Igualdade e Fraternidade, bem mais que uma máxima, são a razão de trabalho permanente, que permite aos nossos Irmãos aperfeiçoarem-se, na procura de uma sociedade mais justa, que se paute pelo respeito dos Direitos Humanos, para instituir a harmonia na Humanidade.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 8 de maio de 2007

Homenagem aos Maçons na Clandestinidade

O Grande Oriente Lusitano, por altura da realização do 1.º Encontro Internacional de Lisboa e do 205.º aniversário da sua fundação, decidiu homenagear os 7 (sete) irmãos que restam neste momento em actividade e que foram iniciados durante o período em que a Maçonaria esteve forçada a trabalhar em clandestinidade, entre 1935 e o 25 de Abril de 1974.

Para o efeito, foi atribuído a estes 7 irmãos um título Honorário pelos serviços prestados à Ordem maçónica durante o período de clandestinidade, simbolizando nestes irmãos, todos os Irmãos que durante a ditadura, com perseverança, abnegação e risco da própria vida, mantiveram a Maçonaria activa, permitindo assim, que após o 25 de Abril de 1974, a Ordem fosse retomando força e vigor e se apresente hoje como uma pujante Potência Maçónica com expressão na vida nacional e plenamente integrada na Comunidade Maçónica Internacional.

Esta homenagem serve, também, para nos recordar que o nosso país viveu um período negro da sua História e com consequências nefastas para os Portugueses, bem como quão importantes e fundamentais são a Liberdade, os Direitos Humanos, a Justiça Social, os Direitos de Cidadania.

Obrigado, Queridos Irmãos, bem hajam!

Autor: Júlio Verne

sábado, 5 de maio de 2007

1.º Encontro Internacional de Lisboa - Religiões, Violência e Razão

Com mais de cem participantes inscritos, realizou-se no dia 5 de Maio, o 1.º Encontro Internacional de Lisboa, convocado pelo Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa e organizado pelo Grémio Lusitano, subordinado ao tema “Religiões, Violência e Razão”.
Estiveram presentes delegações dos seguintes países: França, Grécia, Brasil, Itália, Bélgica, Suiça, Estados Unidos da América, Turquia, Espanha e Portugal, representando as respectivas Potências Maçónicas.
Foram proferidas 25 intervenções, e confirmando a importância dos temas em debate, muitos credos religiosos fizeram-se representar: cristãos (católicos e protestantes), muçulmanos (sunitas e xiitas), judeus, budistas, bem como laicos.

Professor Doutor António Reis, Grão Mestre do GOL, deu as boas-vindas com o discurso de abertura do Encontro, seguindo-se a Comunicação do Professor Doutor Eduardo Lourenço.

Nos Painéis sobre “As Religiões e a Maçonaria no séc. XXI”, intervieram:
Claude Gueydan; Fernando Catroga; Ina Piperaky; Anselmo Borges; Michel Miaille; Luís Vaz; Paulo Mendes Pinto; Paulo Borges; Francisco Alves Teixeira; António Costa Pinto; Dimas de Almeida; Marco Oliveira e Durval de Oliveira.

Nos Painéis subordinados ao tema “As Religiões e a Violência”, intervieram:
Adelino Maltês; João Rocha Pinto; Luís Mateus; Olivier Maendly; Can Arinel; Abel Pinheiro; Sheik Munir; António Matos Ferreira; Faranaz Keshavjee; Joshua Ruah e Maria Belo.

Encerrou o Encontro o Grão Mestre do GOL.

“Embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados, em cada País, a ser da Religião, qualquer que ela fosse, desse País ou Nação, julga-se agora mais conveniente obrigá-los apenas àquela Religião com a qual todos os Homens concordam, deixando a cada um a sua opinião particular, isto é, serem Homens bons e verdadeiros, ou Homens de Honra e Honestidade, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir”. As Constituições dos Franco-Maçons, 1723.
Num mundo dramaticamente marcado por práticas de violência guerreira e mesmo terrorista, exercidas em nome de crenças de natureza religiosa entrecruzadas com objectivos de natureza política, e num tempo em que o racionalismo humanista herdado das Luzes sofre o assédio do relativismo pós-moderno, impunha-se, com efeito, uma reflexão aprofundada sobre um conjunto de questões que preocupam sobremaneira crentes e não crentes, profanos e maçons, no sentido de conseguir algumas respostas susceptíveis de nos orientarem no desbravamento dos caminhos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 1 de maio de 2007

Vitrúvio

Já se tem falado do séc. XX como de uma nova idade das trevas. Ao obscurantismo dogmático religioso medievo corresponderia o obscurantismo dogmático científico pelo qual tudo o que não tivesse cabal leitura científica não seria verdadeiro. Todos sabemos das grandezas e limitações da ciência, e que o que é verdade hoje pode não sê-lo amanhã, a própria formulação do principio de Heisenberg, prémio Nobel da física e um dos fundadores da mecânica quântica estabelece a incerteza ao afirmar que não é possível medir simultaneamente a posição e velocidade de um objecto quântico. Hoje como no passado o problema são as manipulações que se fazem a pretexto de um qualquer ideal e a visão redutora de se tomar a parte pelo todo. À desconsideração pela ciência veio opor-se a desconsideração pelo espiritual esquecendo que só no encontro do ser espiritual com o ser material se pode encontrar o equilíbrio.
Neste sentido é com satisfação e esperança que vejo um novo interesse pelas obras clássicas. Têm vindo a ser editadas obras cujas traduções nos honram pela consideração internacional que têm vindo a merecer e pelo acesso a fontes que nos têm vindo a proporcionar. Falo da Divina Comedia traduzida por Vasco Graça Moura, da Ilíada e Odisseia traduzidas por Frederico Lourenço, mas também das notáveis edições de Vitrúvio, tradução do original latino por Justino Maciel, e da tão esperada por nós tradução de ”As Constituições dos Franco Maçons” de James Anderson por Salvato Telles de Menezes.

“Utilitas, Firmitas, Venustas” são os três princípios enunciados por Vitrúvio como base para o primeiro tratado de arquitectura, os “Decem Libri” livro fundacional e sempre copiado.
Lembremo-nos que desde os Gregos o número três é o número associado à ciência, porquê? Porque o três é o número resultante da soma das duas proposições com a conclusão, princípio da lógica, ou misticamente a resolução da dualidade pelo seu equilíbrio, também o triângulo é a primeira das formas geométricas planas (que antecede o quadrado ou como o número está para o que se segue, as pirâmides egípcias não são tetraedros mas sim pirâmides de base quadrangular o que faz com tenham ainda cinco vértices ou faces).
Em maçonaria três são as colunas do Templo, (ou quatro...) ou indo às origens, na Bíblia as personagens ligadas à construção do Templo de Salomão personificariam as três colunas, Hiran Habif seria a Beleza, enquanto Hiran, rei de Tiro, seria a Força, e Salomão a Sabedoria (segundo notas de Salvato Menezes).
Vitrúvio não só foi referencial para todos os tratadistas desde o renascimento até ao neoclassicismo (quem não reconhece a interpretação feita por Leonardo das medidas Vitruvianas do homem) como esteve na base da renovação da arquitectura moderna iniciada em Paris e depois consagrada na “Carta de Atenas”.
Mas já agora o que sabemos de Vitrúvio? Pouco e essencialmente pelos seus próprios escritos nos preâmbulos dos dez livros, de resto não há certeza do seu nome completo Marco Vitrúvio Polião, que provavelmente se deve a confusões com outros Vitrúvios, já que só aparecem referidos em textos a partir do séc. XV. A redacção da obra terá acontecido entre 35 e 25 a.C. podendo a entrega ao Imperador Octávio César Augusto ter decorrido por volta de 20 a.C., tudo isto se depreende da leitura da própria obra que poderá não ter sido toda escrita ao mesmo tempo. Sabemos que terá estado ao serviço de Júlio César nas suas campanhas e seria protegido de Octávia irmã do Imperador. Os sete primeiros livros tratam da Arquitectura propriamente dita aos quais terá juntado mais três sobre Hidráulica, Astronomia e Mecânica para obter o número ideal Pitagórico de dez.
Mas citemos o próprio Vitrúvio. “O princípio da solidez estará presente quando for feita a escavação dos fundamentos até ao chão firme e se escolherem diligentemente e sem avareza as necessárias quantidades de materiais. O da funcionalidade, por sua vez, será conseguido se for bem realizada e sem qualquer impedimento a adequação do uso dos solos, assim como uma repartição apropriada e adaptada ao tipo de exposição solar de cada um dos géneros. Finalmente, o princípio da beleza atingir-se-á quando o aspecto da obra for agradável e elegante e as medidas das partes corresponderem a uma equilibrada lógica de comensurabilidade.”

Vitrúvio foi também o nome simbólico do irmão Joaquim Possidónio Narciso da Silva arquitecto e arqueólogo, fundador do Museu Arqueológico do Carmo, iniciado entre 1838 e 1842 numa das lojas Regeneração de Lisboa, do Grande Oriente Irlandês tendo vindo a ser Grão-Mestre desta obediência entre 1851 e 1853.

Para terminar, como comecei, com livros, homenagem a Bocage e Ovídio. Quem não se deleitou com a sua tradução das Metarmofoses, infelizmente interrompida por motivos de saúde, tão mais poética mas menos exacta que a finalmente tão esperada, se bem que ainda incompleta tradução, de Francisco Lucas (está para sair o segundo volume).

É que uma civilização que esquece o passado é uma civilização que hipoteca o futuro.

Autor: Éolo

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Alguns maçons e o 25 de Abril

A 17 de Março de 1974, estive de serviço na RTP. A então responsável pelas Relações Internacionais, Manuela Furtado apresentou-me três jornalistas da televisão pública holandesa que tinham vindo a Lisboa para cobrir, a então noticiada internacionalmente “intentona das Caldas”. Como pretendiam entrar em contacto com algum dos revoltosos, ainda a monte, lá fui num Alfa Romeo verde escuro de matricula suíça, que o meu irmão tinha. Chegados às Caldas o meu amigo José Carlos Nogueira, levou-nos a jantar para no dia seguinte, logo pela manhã irmos comprar meias de senhora de nylon preto, junto ao largo da Praça, do resto tratava ele Nogueira. Já no carro do Maldonado que entretanto se tinha juntado a nós, seguimos para o lado da lagoa, onde foi possível fazer uma entrevista com um dos militares revoltosos. Fiquei espantado com a pequenez dos equipamentos que os holandeses traziam. Captação de imagem e som, não ocupavam mais que três vulgares maços de cigarros. Depois regressamos a Lisboa mas à entrada da cidade percebi que estava a ser seguido. Disse aos holandeses para se segurarem e como o carro era muito rápido lá me consegui safar.

Passados dias deu-se o esperado 25 de Abril, às cinco da manhã o telefone toca em minha casa. Era o Maia Cadete que me pedia para ouvir o Rádio Clube Português. Daqui “Movimento das Forças Armadas, etc, etc, etc”. Percebi que era aquele o dia. Vim imediatamente para a rua, dei uma volta pequena pela cidade e decidi então ir para os estúdios do Lumiar, que tinham sido ocupados nessa noite pela Escola Prática de Administração Militar, comandava o então capitão Teófilo Bento. Às primeiras horas da manhã, encarregou o João Soares Louro de tratar de toda a logística referente à RTP. A mim encarregou-me da realização das emissões. À hora certa lá foi para o ar o Telejornal da noite, apresentado pelo Fialho e o Balsinha e mais adiante, também em directo, a proclamação da Junta de Salvação Nacional. Depois lá ficámos a descansar pelos cantos, à espera de chatices que acabaram por não acontecer. Trabalharam para esta emissão no local pelo menos quatro maçons.

Autor: O rebelde

sábado, 21 de abril de 2007

Liga Portuguesa dos Direitos do Homem

Esta Associação foi fundada em Abril de 1921, por iniciativa de Sebastião Magalhães Lima (Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa) à semelhança de organizações congéneres fundadas internacionalmente e destinava-se a “defender e fazer vingar os princípios de liberdade e justiça enunciados nas Declarações dos Direitos do Homem proclamados em 1789 e 1793”. Para o efeito, a Liga propunha-se “combater o abuso da autoridade, a ilegalidade, o arbítrio, a intolerância, o facciosismo e atentados à humanidade. O seu primeiro Directório foi composto por maçons e não-maçons, tendo assumido a Presidência Magalhães Lima. Teve os seus primeiros Estatutos em 21.04.1922.

A Liga Portuguesa dos Direitos do Homem como precursora dos Direitos do Homem, teve, posteriormente, outros documentos fundamentais que passaram a constituir outros pontos de referência, entre eles a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro de 1948.

A Liga exerceu uma acção importante de 1926 a 1974, mantendo bem alto o facho da Liberdade e Justiça, mau grado todas as dificuldades que lhe foram criadas pelos governos da Ditadura e do Estado Novo.
Mesmo depois de Abril de 1974 e ao longo de todos estes anos, e em vários contextos políticos, a Liga persistiu no seu objecto fundamental e contribuiu para melhorar a situação e a sensibilidade para os direitos humanos em Portugal.

Serve este artigo para lembrar que estamos a comemorar 85 anos da existência da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem e evocar os que nos antecederam, maçons e não-maçons, que com prejuízo da sua própria vida nos legaram esta Instituição que nunca se deixou abater ou baixou os braços na luta persistente pela Liberdade e Justiça.

Nunca é tarde, é antes um dever cívico de cada um, e de todos nós, evocar e contribuir em quanto em nós caiba para manter e elevar a Liga, pois não nos iludamos, a luta pelo objecto inicial (Direitos Humanos e Justiça) e que deu origem a esta fundamental Associção é constante e presente.

Autor: Júlio Verne

domingo, 1 de abril de 2007

Saúde, ou nem por isso


«Artigo 64.º da Constituição da República Portuguesa - Saúde.
1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
2. O direito à protecção da saúde é realizado:
a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;
b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.
3. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:
a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação;
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;
c) Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos;
d) Disciplinar e fiscalizar as formas empresariais e privadas da medicina, articulando-as com o serviço nacional de saúde, por forma a assegurar, nas instituições de saúde públicas e privadas, adequados padrões de eficiência e de qualidade;
e) Disciplinar e controlar a produção, a distribuição, a comercialização e o uso dos produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e diagnóstico;
f) Estabelecer políticas de prevenção e tratamento da toxicodependência.
4. O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.

O texto actual da Constituição da República Portuguesa foi aprovado pela Lei Constitucional n.º 1/2001, de 12 de Dezembro.»

«Aprovada pela Lei n.º 48/90, Lei de Bases da Saúde, de 24 de Agosto, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 27/2002, de 8 de Novembro.

A Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 164.º, alínea d), 168.º, n.º 1, alínea f), e 169.º, n.º 3, da Constituição, o seguinte:
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Base I - Princípios gerais

1 - A protecção da saúde constitui um direito dos indivíduos e da comunidade que se efectiva pela responsabilidade conjunta dos cidadãos, da sociedade e do Estado, em liberdade de procura e de prestação de cuidados, nos termos da Constituição e da lei.
2 - O Estado promove e garante o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.
3 - A promoção e a defesa da saúde pública são efectuadas através da actividade do Estado e de outros entes públicos, podendo as organizações da sociedade civil ser associadas àquela actividade.
4 - Os cuidados de saúde são prestados por serviços e estabelecimentos do Estado ou, sob fiscalização deste, por outros entes públicos ou por entidades privadas, sem ou com fins lucrativos. ...»
...
O Serviço Nacional de Saúde, foi concebido e criado com a finalidade de concretizar um dos princípios mais importantes da Sociedade, o de proporcionar os cuidados de saúde a todos os cidadãos, procurando que o seu acesso e prestação evolua no sentido da eficiência e da eficácia.
Sendo, a par da Educação, uma das pedras basilares de qualquer Sociedade que se pretenda justa, a Saúde constitui-se por isso, além do seu impacte social e financeiro, um dos maiores desafios para os Governos e Ministérios que a administram e uma área de apetência para grupos económicos e outras entidades empresariais.

Assim, e para melhor compreendermos o que se passa em termos de Saúde em Portugal, vejamos alguma informação muito simples:

- Há alguns anos, apareceram as "taxas moderadoras" supostamente para que os utentes comparticipassem directamente nos custos dos cuidados de saúde que lhes fossem prestados;
- Desde há anos que os "Seguros de Saúde" têm sido promovidos, teoricamente não como alternativa do Serviço Nacional de Saúde do qual não existe isenção contributória, mas como complemento àquele, no reconhecimento da sua real incapacidade de responder satisfatoriamente às necessidades;
- Desde há anos que os valores de comparticipação em medicamentos por parte do Estado têm diminuído;
- Hoje mesmo, entram em vigor as novas taxas moderadoras. Assim, os utentes do SNS vão começar a pagar as novas taxas moderadoras por internamento de 5€ por dia e de 10€ por cirurgia de ambulatório;
- Hoje mesmo, o ministério da saúde actualiza também o valor das restantes taxas moderadoras, acompanhando a inflação de 2006. Os utentes vão assim passar a pagar 4,30€ nas consultas nos hospitais centrais, 2,85€ nos hospitais distritais e 2,10€ nos centros de saúde. O atendimento nas urgências dos hospitais centrais passa a ter uma taxa de 8,75€, sendo de 7,75€ nos hospitais distritais, de 3,40€ nos centros de saúde e de 4,30€ no serviço domiciliário. Já nos exames radiológicos as taxas sofrem aumentos entre os 10 cêntimos para as ecografias (agora 4,50€) e os 60 cêntimos para as ressonâncias magnéticas (20,10€), enquanto que nas análises de sangue os valores mantêm-se inalterados.

Todos estes valores, podem parecer pequenos ou para muitos até ridículos, mas a realidade é que para os mais desfavorecidos, que por vezes são obrigatoriamente frequentadores dos serviços de saúde, aqueles valores são mais uma sobrecarga ao já magro orçamento com que sobrevivem. Assim, para quem aufira rendimentos a que lhe correspondam pouco mais de 10 euros diários e tendo em conta que muitos são obrigados a recorrer com frequência a cuidados de saúde com a compra necessária de medicamentos, pagar taxas moderadoras, torna-se a alternativa incontornável a outros bens essenciais, como a alimentação saudável ou a outros bens que contribuam para uma vida com o mínimo de conforto.

Se por um lado a Constituição consagra que todos têm direito à protecção da saúde através de um sistema tendenciamente gratuito, os Governos têm dito garantir o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde dentro dos limites humanos, técnicos e financeiros, sem que diga:

- Qual a prioridade de consciência política e social, de atribuição orçamental para a Saúde ?
- Qual a prioridade de consciência política e social, ao exigir comparticipação financeira no enquadramento das taxas moderadoras, enquanto atribui indemnizações na ordem de meio milhão de euros a gestores que por si são posteriormente recolocados em organismos, numa atitude financeira e socialmente difícil de entender e aparentemente imoral aos olhos de quem não a entenda ?

Estaremos a falar de Saúde, ou nem por isso, mas apenas estamos a ser incapazes de gerir e de relançar um Sistema Nacional de Saúde de facto, que resulte de atitudes de gestão concertadas e que sobreponham os objectivos nacionais aos políticos e pessoais ?
Autor: Sheikh

segunda-feira, 26 de março de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu o Dr. João Soares Louro

Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento do Dr. João Soares Louro no dia 26 de Março, aos 74 anos.

João Soares Louro, integrava o Conselho de Administração da Parque Expo desde 2006 como administrador não executivo.

Além de ter desempenhado o cargo de presidente do Conselho de Administração da RTP (1978-80), exerceu também funções de secretário de Estado da Comunicação Social e foi presidente da RDP.Considerado uma das personalidades mais marcantes da História da RTP, tendo sido responsável pela reestruturação da televisão pública e pela criação do "Canal RTP-2".

Dedicou quase toda a sua vida profissional à televisão, tendo promovido uma profunda transformação na estação em finais da década de 70, na passagem das emissões do preto e branco para cores. Enquanto presidente da RTP, João Soares Louro redimensionou e reequipou a televisão estatal, tendo também contribuído para o seu reequilíbrio financeiro, num mandato em que foram criados a Radiotelevisão Comercial e o Grupo Editorial da Empresa TV Guia.

Para além de presidente da televisão pública, João Soares Louro, para além de outros cargos que ocupou, foi ainda presidente da RDP no início da década de 90, numa altura em que se deu a privatização da Rádio Comercial.

João Soares Louro foi deputado entre 1976 e 1978 e subsecretário de Estado para a Comunicação no I Governo Constitucional, liderado por Mário Soares.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do Dr. João Soares Louro e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Oriente Lusitano, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.

sábado, 10 de março de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu a Dra. Manuela Margarido

Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento da nossa muito querida irmã, Manuela Margarido no dia 10 de Março aos 82 anos de idade.

Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido nasceu em 1925, na roça Olímpia, ilha do Príncipe, e desde cedo abraçou a luta pela independência do arquipélago, denunciando com a sua poesia a repressão colonialista e a miséria em que viviam os são-tomenses nas roças do café e do cacau.

Estudou Ciências Religiosas, Sociologia, Etnologia e Cinema na Sorbonne de Paris, onde esteve exilada.

Após a independência das colónias portuguesas, foi embaixadora plenipotenciária da República Democrática de São Tomé e Príncipe em diferentes países (Bélgica, Grã-Bretanha, Países Baixos, Dinamarca, Suécia, Grão Ducado do Luxemburgo, República Federal da Alemanha, República Italiana) e junto das principais organizações internacionais: FAO, FIDA, ACP e UNESCO.

Em Lisboa, onde viveu, Manuela Margarido empenhou-se na divulgação da cultura do seu país, sendo considerada, a par de outras individualidades da cultura, um dos principais nomes da poesia de São Tomé.

Entre outras funções, foi membro do Conselho Consultivo da revista Atalaia, do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL).
Personalidade marcante da luta anti-salazarista e dos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pertencia ainda à Maçonaria Feminina.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos da Dra. Manuela Margarido e o abraço fraterno às irmãs da Grande Loja Feminina de Portugal, em especial às irmãs da Respeitável Loja à qual aquela irmã pertencia.

Memória da Ilha do Príncipe

Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.

(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).

Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.

(poema da autoria de Maria Manuela Margarido)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Reflexão sobre o objectivo da Maçonaria

O objectivo da Maçonaria é o da procura da Verdade nos seus mais variados aspectos e utiliza como linguagem, fundamentalmente, a linguagem simbólica. Esta, que ainda há pouco parecia ultrapassada ganhou nova força e vigor devido ao reconhecimento por muitos (na literatura, na arte e até na ciência) da relatividade do conhecimento puramente racional.

O simbolismo maçónico mergulha as sua origens no esoterismo cristão (Joanista) mas, também, nas mais antigas fontes iniciáticas ( Caldaicas, Egipcias e Gregas). Para os antigos os instrumentos do seu conhecimento eram a Razão e a Fé, acreditavam que a primeira não pode alcançar tudo e sabiam dar lugar à intuição.
Na Idade Média os guardiões da tradição Esotérica foram os Judeus e os Árabes (sobretudo as seitas Fatimistas e Ismaelitas) exactamente na época em que os Templários estavam em contactos com eles...

O simbolismo permite, através do tempo e do espaço, estabelecer a relação adequada entre o sinal e as ideias e a iluminação que os símbolos provocam permite, simultaneamente, apreender os diferentes pontos de vista e unificá-los revelando a unidade que os transcende e fazendo passar do conhecido ao desconhecido, do visível ao invisível, do finito ao infinito. São os símbolos que ajudam à criação da iluminação intelectual que a Ordem tem por objectivo criar nas inteligências dos seus discípulos.

Por outro lado, a Verdade que todo o maçon persegue e que foi motivo da sua entrada na Ordem não poderá alcançar-se senão através da via do amor. Esta implica tolerância activa e humildade e faz compreender que é o conjunto que importa e que a razão individual vale só na medida em que participa no Absoluto, e é esta noção de amor, concebido como modo de apreensão do conhecimento, guiado pela tradição, que permite à razão individual alcançar a razão geral e a ideia universal, ou seja, a Verdade.

O esoterismo tradicional e os seus fins iniciáticos exerceram durante séculos uma influência considerável sobre as diversas formas de pensamento e as suas manifestações. Sabe-se desde Berger, que a razão didática não é a única forma de pensamento, e pela contribuição dada pelas grandes descobertas da ciência dilui-se a oposição simplista entre o materialismo e o espiritualismo. Assim, repõe-se hoje, em lugar de honra o princípio fundamental do Hermetismo: "A Unidade. Todo está em Tudo."

Por isso, a Maçonaria continua viva e, senão forem desvirtuados os seus objectivos, seguidas as vias que propõe, de forma corajosa e correcta, ela irá contribuir de forma importantíssima para o reencontro do Homem consigo mesmo, para a reintegração final do Homem na sua essência, tanto pelo intelecto como pelo coração.

Construamos pois a Maçonaria dentro e fora de cada um, Maçonaria que se posiciona como criadora de um homem novo, verdadeiramente irmão dos outros homens e que, com toda a propriedade, possa ser chamado de filho da Luz.

Autor: Albert Schweitzer, II

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Evocação Zeca Afonso

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (02-08-1929...23-02-1987)

Evoquemos com emoção o Grande Zeca Afonso na celebração dos 20 anos da sua morte!

Grande porque foi um Grande Português, que marcou a nossa recente história pátria, como exemplo maior de uma entrega generosa, altruísta, às grandes causas cívicas, ao amor pela democracia, pelo povo, à luta pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade !

Grande porque foi o maior e o mais rico dos cantores-autores que fez da canção uma “Ética, uma Estética e uma Poética” ao serviço dos grandes ideias cívicos !

Grande porque foi o maior criador artístico da história da música popular portuguesa e um dos maiores do mundo !

Grande porque nos deixou um legado musical que é uma inesgotável e eterna fonte onde toda a música popular pode continuar a beber inspiração, por tão talentosa ser a sua obra, plena de ensinamentos harmónicos, rítmicos, melódicos e poéticos !

Grande porque a modernidade do seu discurso musical e poético mantém uma constante actualidade que nos interroga, interpela e inspira para termos sempre presente o seu exemplo na procura de uma sociedade mais justa !

Grande porque nos recordará sempre que a vigilância cívica e democrática não pode nunca baixar a guarda !

Grande porque nos ensina que a arte só é plena quando cumpre uma missão humanista de elevação do Belo, do Bem e do Justo !

Autor: Damião de Gois

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Ambiente no Século XXI

Dizia Almada Negreiros: “Quando eu nasci, todas as formas de salvar o mundo estavam descobertas, só faltava... salvá-lo”.

Ao sucesso do documentário “Uma verdade inconveniente” de Al Gore veio juntar-se uma projecção mediática da questão das emissões de CO2, tema de debate, já não nos fóruns alternativos como tinha acontecido em 92 no Rio, mas em Davos entre os grandes e poderosos do planeta. Quem leia os jornais fica com a sensação que de tanto se falar do tema este se encontra em vias de resolução, parece-me de algum optimismo tal reacção, já que até agora, e mal grado o tempo já passado, os Estados Unidos não rectificaram o velho Protocolo de Kioto e as economias emergentes estão de fora assim como estranhamente as emissões provocadas pelos aviões que parece que por estarem no ar estão isentos de carga poluidora.
Veio recentemente citada na imprensa uma pertinente questão, perguntaram na época a Gandhi se pretendia que a Índia, uma vez independente, se viesse a tornar tão desenvolvida como a Grã-Bretanha. A resposta foi uma negativa peremptória. “Se, para chegar onde chegou, a Inglaterra teve de devastar meio mundo, de quantos mundos precisaria a Índia?” Sábia resposta que põe em causa o modelo de desenvolvimento capitalista da altura e que hoje mais questionável se torna. Na realidade também Portugal depois de 74 poderia ter aproveitado o atraso que tinha para dar o salto para um país mais moderno sustentável e no entanto cometeu todos os erros que outros tinham cometido anteriormente deixando-nos à entrada do século XXI à beira do caos ambiental e económico. Tinha Portugal melhores condições que os novos países emergentes, já que se encontrava num espaço geográfico mais favorável, tenho dúvidas que se os países ditos mais desenvolvidos não fizerem eles mesmos as transições para modelos sustentáveis que sejam as novas economias a realizá-lo.

Mas colocar o problema só nas alterações climáticas e nas emissões de CO2 é absolutamente redutor, já que estas são apenas uma das alíneas de uma parte do problema que poderíamos elencar como os impactos da industrialização e que se podem dividir em três áreas.
Os impactos no meio ambiente, tratados pela ecologia, e que não são apenas o problema do efeito de estufa, mas também a exaustão dos recursos, da poluição e as alterações do meio não derivadas do clima.
Os impactos proximais do objecto industrial, tratados pela ergonomia, e que estão em regressão com o aparecimento de objectos mais baratos mas menos cuidados, veja-se o caso dos brinquedos das lojas ditas dos trezentos que testados apresentam riscos para os utilizadores, e de todo um mundo de contrafacções a que nem os medicamentos escapam.
O terceiro vértice deste triângulo que estuda os impactos da industrialização é muito menos referido mas não menos importante trata dos impactos distais ou psicológicos onde entra o tão conhecido stress, e dá pelo nome de eutifrónia. A saber o antagonismo entre a afirmação da individualidade na natureza e a repetição ou seriação na produção industrial, o antagonismo entre o ritmo fisiológico do ser humano e a crescente velocidade que a técnica imprime à vida, o antagonismo nas trocas de energia entre o organismo e o meio derivado da sedentarização da vida enquanto o metabolismo fisiológico se mantém e por último a perca da capacidade de resolução de problemas em relação aos quais nos sentimos impotentes ou seja a desumanização da vida.

O século XX veio dar o primado à economia sobre o homem, tendo para tal contribuído uma crescente fé na ciência em detrimento da vertente humanista pretendendo tornar igual o que é diferente e sob a capa da globalização e do livre comércio produzir a aberração de fazer aumentar de forma gritante as desigualdades.
Temos que reverter este desequilíbrio e por isso é importante revermo-nos no espírito maçónico e do seu mito fundacional da “palavra perdida” acreditam os maçons que aquando do assassinato do Mestre Hiran a “palavra” se perdeu e assim sendo o que todos têm que procurar é a verdade com a consciência que esta, é sempre uma verdade incompleta. Este principio da humildade lembra-me uma frase de António Sérgio que dizia “quando não sei, pergunto, quando sei, pergunto na mesma” e deve-nos nortear a procurar o saber, a tolerância e a generosidade em busca de soluções por oposição à ignorância, ao fanatismo e à ambição que infelizmente medram neste planeta cada vez menos azul.

Espírito sem razão é especulação pura, razão sem espírito é trabalho vão.


Autor: Éolo

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A areia e a pedra

Diz uma lenda árabe que, quando dois amigos viajavam pelo deserto, num determinado ponto da viagem discutiram acaloradamente, até que um esbofeteou o outro.
O ofendido, sem pronunciar palavra, escreveu na areia: “Hoje, o meu melhor amigo bateu-me no rosto.”

Seguindo viagem, chegaram a um oásis, onde resolveram banhar-se. Imprevidente, o que havia sido esbofeteado quase se afogava, quando foi salvo pelo amigo.
Ao recuperar, pegou num estilete e escreveu numa pedra: “Hoje, o meu melhor amigo salvou-me a vida.”
Intrigado, o amigo perguntou: “Por que é que depois de te bater escreveste na areia e agora escreves na pedra?
Sorrindo, o companheiro de viagem respondeu: “Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia, para que o vento do esquecimento e do perdão se encarreguem de apagar. Porém, quando nos faz algo de sublime, devemos gravar na pedra, que é a memória do coração, onde nenhum vento chega para apagar a gravação.


É evidente a analogia entre esta lenda e aquele que configura ser o comportamento de um maçom. A agressão é algo de profano, que deve ficar registado na areia, isto é, que deve ser deixado à porta do Templo. Ao contrário, os valores da harmonia, da paz, da beleza, da fraternidade e da solidariedade são cultivados e multiplicados, de dentro para fora. De dentro do Templo para a sociedade que nos rodeia. De dentro de nós para os nossos familiares, para os nossos amigos, para os nossos conhecidos e até para os nossos adversários. Devem, em suma, ser gravados na pedra, para que nada os apague e para que ninguém os esqueça. Trata-se, no fundo, de utilizar convenientemente os instrumentos que ajudam a desbastar a pedra bruta, procurando dar-lhe a forma da perfeição.

Em síntese, o verdadeiro maçom “escreve na areia” tudo quanto seja de irrelevante e de profano. Porque a areia está no exterior do Templo e porque é também no exterior do Templo que sopra o vento – inexistente no interior, uma vez que nem é ele que apaga as velas, símbolos das luzes que orientam os trabalhos.

Ao contrário, o verdadeiro maçom “escreve na pedra” tudo quanto contribua para o seu aperfeiçoamento e para o aperfeiçoamento da irmandade em que se insere. Porque, ao “escrever na pedra” estará, também e assim, a trabalhar a pedra bruta e a contribuir, lenta mas seguramente, para a polir, até que a mesma tenha a perfeição suficiente para fazer parte integrante e indissociável do Templo Supremo da Maçonaria Universal.


Autor: Álvaro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu o Prof. Dr. A. H. de Oliveira Marques
Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento do Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques no dia 23 de Janeiro.
Irmão maçon e uma das figuras mais proeminentes da maçonaria portuguesa, Oliveira Marques foi iniciado Maçon em 1973, ainda durante o período da clandestinidade da maçonaria em Portugal, tendo desempenhado cargos de grande importância tanto ao nível do Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa, de que chegou a ser Grão-Mestre Adjunto, como nos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite, de cujo Supremo Conselho foi Soberano Grande Comendador.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do Prof. Oliveira Marques e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Oriente Lusitano, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.

Breve biografia de António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques
Nasceu em São Pedro do Estoril a 23 de Agosto de 1933.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com a tese "A Sociedade em Portugal nos Séculos XII a XV" (1956), tendo estagiado na Universidade de Würzburg (Alemanha).
Doutorou-se na Universidade de Lisboa com a tese "Hansa e Portugal na Idade Média" (1970), onde passou a leccionar.
Durante a ditadura do Estado Novo, Oliveira Marques foi afastado da universidade por motivos políticos, por ter participado na "Crise académica" de 1962 promovida pelos estudantes contra o regime. Viu-se por isso, obrigado a exilar-se, a partir de 1965, nos Estados Unidos da América, onde leccionou em várias instituições, como a Universidade do Alabama, da Flórida, Columbia e Minnesota (1970), entre outras.
É considerado um dos melhores historiadores portugueses, em especial no que diz respeito à Idade Média.
Em 1970, durante a "primavera marcelista", regressou a Portugal, reingressando na universidade portuguesa depois da Revolução do 25 de Abril, em 1974.
Foi director da Biblioteca Nacional de Lisboa entre 1974 e 1976.
Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor catedrático (1976) e presidente da comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Dedicou o seu trabalho a estudos sobre duas épocas da História portuguesa: História Medieval e História da Primeira República.
Em 1982, em comemoração dos 25 anos sobre a publicação do seu primeiro estudo histórico, foram editados dois volumes com colaboração de historiadores portugueses e estrangeiros e intitulados Estudos de História de Portugal: homenagem a A. H. de Oliveira Marques.
Maçon desde 1973, foi eleito Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-1994).
O número total das suas obras de tomo ultrapassa 60 volumes. A colaboração, com artigos, em revistas, dicionário e enciclopédias ultrapassa o milhar, tendo proferido numerosas conferências em universidades da Europa, Estados Unidos, Brasil e Argentina.
Em 1998 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade atribuida pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.
Faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, em Lisboa.
Homem ímpar, as suas obras são instrumentos de grande relevância para os estudiosos da História de Portugal.
Nota maçónica:
Oliveira Marques era um admirador do escritor e historiador Alexandre Herculano, de quem adoptou o nome simbólico, sendo do seu particular agrado o poema seguinte:

D. Pedro
Pela encosta do Líbano, rugindo,
O noto furioso
Passou um dia, arremessando à terra
O cedro mais frondoso;
Assim te sacudiu da morte o sopro
Do carro da vitória,
Quando, ébrio de esperanças, tu sorrias,
Filho caro da glória.
Se, depois de procela em mar de escolhos,
A combatida nave
Vê terra e vento abranda, o porto aferra,
Com júbilo suave.
Também tu demandaste o Céu sereno,
Depois de uma árdua lida:
Deus te chamou: o prémio recebeste
Dos méritos da vida.
Que é esta? Um ermo de espinhais cortado,
Donde foge o prazer:
Para o justo ela existe além da campa:
Teme o ímpio o morrer.
Plante-se a acácia, o símbolo do livre,
Junto às cinzas do forte:
Ele foi rei - e combateu tiranos -
Chorai, chorai-lhe a morte!
Regada pelas lágrimas de um povo,
A planta crescerá;
E à sombra dela a fronte do guerreiro
Plácida pousará.
Essa fronte das balas respeitada,
Agora a traga o pó:
Do valente, do bom, do nosso Amigo
Restam memórias só;
Mas estas, entre nós, com a saudade
Perenes viverão,
Enquanto, à voz de pátria e liberdade.
Ansiar um coração.
Nas orgias de Roma, a prostituta,
Folga, vil opressor:
Folga com os hipócritas do Tibre;
Morreu teu vencedor.
Envolto em maldições, em susto, em crimes
Fugiste, desgraçado:
Ele, subindo ao Céu, ouviu só gueixas,
E um choro não comprado:
Encostado na borda do sepulcro,
O olhar atrás volveu,
As suas obras contemplou passadas,
E em paz adormeceu:
Os teus dias também serão contados,
Covarde foragido;
Mas será de remorso tardo e inútil
Teu último gemido:
Do passamento o cálix lhe adoçaram
Uma filha, urna esposa:
Quem, tigre cru, te cercará o leito,
Nessa hora pavorosa?
Deus, tu és bom: e o virtuoso em breve
Chamas ao gozo eterno,
E o ímpio deixas saciar de crimes,
Para o sumir no Inferno?
Alma gentil, que assim nos hás deixado,
Entregues à alta dor,
Anjo das preces nos serás, perante
O trono do Senhor:
E quando, cá na Terra, o poderoso
As Leis aos pés calcar,
do teu sepulcro irá o opresso
Seus males deplorar:
Assim, no Oriente, de Albuquerque às cinzas
O desvalido indiano
Mais de urna vez foi demandar vingança
De um déspota inumano.
Mas quem ousará à pátria tua e nossa
Curvar nobre cerviz?
Quem roubará ao lusitano povo
Um povo ser feliz?
Ninguém! Por tua glória os teus soldados
Juram livres viver.
Ai do tirano que primeiro ousasse
Do voto escarnecer!
Nesse abraço final, que nos legaste,
Legaste o génio teu:
Aqui - no coração - nós o guardámos;
Teu génio não morreu.
Jaz em paz: essa terra, que te esconde,
O monstro abominado
Só pisará ao baquear sobre ela
Teu último soldado.
Eu também combati: nus pátrias lides
Também colhi um louro:
O prantear o Companheiro extinto
Não me será desdouro.
Para o Sol do Oriente outros se voltem,
Calor e luz buscando:
Que eu pelo belo Sol, que jaz no ocaso,
Cá ficarei chorando.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Rituais e Simbolismos

A questão da necessidade dos rituais é das que mais surpreende não só quem não pertence à Maçonaria, mas também muitos recém-chegados. Não é fácil aceitar essa importância e menos ainda será compreender até que ponto a intensidade e perfeição com que os maçons se entregam à sua prática é determinante para a criação de um verdadeiro espírito de corpo.
De facto a realização conjunta dos diversos rituais conduz a uma forte união entre os Irmãos. Não se trata de nada de mágico ou metafísico. Há estudos estatísticos que mostram os benefícios para a saúde de quem participa regularmente em cerimónias de tipo religioso, sejam elas de que religião forem, ou mesmo não religiosos mas em que há um envolvimento colectivo. Do mesmo modo, já foram realizadas experiências científicas de considerável complexidade, que demonstram uma evidente estimulação de zonas de específicas do cérebro durante práticas de rituais ou de meditação profunda.
Em qualquer dos casos essa actividade é benéfica para o funcionamento saudável do organismo de cada um dos intervenientes e para o desenvolvimento de um espírito de união entre as pessoas que neles participam.
Por outro lado, os próprios rituais estão carregados de alegorias e simbolismos que se impõe desvendar e assimilar.

Passemos assim para o tema das simbologias usadas pela Maçonaria.
Por mais que se pretendam explicar, dificilmente se poderá conseguir que quem esteja de fora consiga abarcar o seu significado profundo. Não é fácil explicar o sabor de uma laranja a alguém que nunca a tenha provado.
Os símbolos usados pela Maçonaria têm origens muito diversas, mas em síntese há dois tipos principais: os que tiveram origem na Maçonaria Operativa e os que foram introduzidos a partir de crenças ocultistas que se integraram na Maçonaria Especulativa quando esta começava a ganhar forma. Mas todos os símbolos traduzem ideias mais ou menos abstractas e são essas ideias que devem ser apreendidas pelos maçons de acordo com a sua inteligência, a sua maneira de ser e de sentir. Convirá assinalar que apesar de recorrer a símbolos de diversas crenças, isso não implica que os maçons partilhem dessas mesmas crenças, pois na Maçonaria a razão sobrepõe-se ao misticismo.
A pouco e pouco, essas noções serão interiorizadas e passarão a fazer parte de cada maçon, dando-lhe a consistência ética que lhe permitirá enfrentar os desafios da vida pessoal e colectiva, mas sem nunca lhe impor quaisquer dogmas ou doutrinas. Ou seja, é graças à participação nos rituais e ao estudo da simbologia maçónica que nós maçons vamos progredindo na interiorização dos conceitos que a Maçonaria nos transmite e que vamos sentir individual e colectivamente uma espiritualidade que nada tem a ver com crenças religiosas ou de qualquer outro tipo. Mas é essa espiritualidade que nos permite sentir de uma forma mais intensa e profunda a beleza de uma trilogia muito famosa e que define bem os grandes valores da humanidade: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É quando chegamos a esta fase em que, ao mesmo tempo, fomos construindo o nosso templo interior e estabelecemos fortes laços de união com os nossos Irmãos, que estaremos realmente aptos a influenciar positivamente a evolução da humanidade e a defender todos os seus grandes valores.

Autor: Carl Sagan