terça-feira, 1 de maio de 2007

Vitrúvio

Já se tem falado do séc. XX como de uma nova idade das trevas. Ao obscurantismo dogmático religioso medievo corresponderia o obscurantismo dogmático científico pelo qual tudo o que não tivesse cabal leitura científica não seria verdadeiro. Todos sabemos das grandezas e limitações da ciência, e que o que é verdade hoje pode não sê-lo amanhã, a própria formulação do principio de Heisenberg, prémio Nobel da física e um dos fundadores da mecânica quântica estabelece a incerteza ao afirmar que não é possível medir simultaneamente a posição e velocidade de um objecto quântico. Hoje como no passado o problema são as manipulações que se fazem a pretexto de um qualquer ideal e a visão redutora de se tomar a parte pelo todo. À desconsideração pela ciência veio opor-se a desconsideração pelo espiritual esquecendo que só no encontro do ser espiritual com o ser material se pode encontrar o equilíbrio.
Neste sentido é com satisfação e esperança que vejo um novo interesse pelas obras clássicas. Têm vindo a ser editadas obras cujas traduções nos honram pela consideração internacional que têm vindo a merecer e pelo acesso a fontes que nos têm vindo a proporcionar. Falo da Divina Comedia traduzida por Vasco Graça Moura, da Ilíada e Odisseia traduzidas por Frederico Lourenço, mas também das notáveis edições de Vitrúvio, tradução do original latino por Justino Maciel, e da tão esperada por nós tradução de ”As Constituições dos Franco Maçons” de James Anderson por Salvato Telles de Menezes.

“Utilitas, Firmitas, Venustas” são os três princípios enunciados por Vitrúvio como base para o primeiro tratado de arquitectura, os “Decem Libri” livro fundacional e sempre copiado.
Lembremo-nos que desde os Gregos o número três é o número associado à ciência, porquê? Porque o três é o número resultante da soma das duas proposições com a conclusão, princípio da lógica, ou misticamente a resolução da dualidade pelo seu equilíbrio, também o triângulo é a primeira das formas geométricas planas (que antecede o quadrado ou como o número está para o que se segue, as pirâmides egípcias não são tetraedros mas sim pirâmides de base quadrangular o que faz com tenham ainda cinco vértices ou faces).
Em maçonaria três são as colunas do Templo, (ou quatro...) ou indo às origens, na Bíblia as personagens ligadas à construção do Templo de Salomão personificariam as três colunas, Hiran Habif seria a Beleza, enquanto Hiran, rei de Tiro, seria a Força, e Salomão a Sabedoria (segundo notas de Salvato Menezes).
Vitrúvio não só foi referencial para todos os tratadistas desde o renascimento até ao neoclassicismo (quem não reconhece a interpretação feita por Leonardo das medidas Vitruvianas do homem) como esteve na base da renovação da arquitectura moderna iniciada em Paris e depois consagrada na “Carta de Atenas”.
Mas já agora o que sabemos de Vitrúvio? Pouco e essencialmente pelos seus próprios escritos nos preâmbulos dos dez livros, de resto não há certeza do seu nome completo Marco Vitrúvio Polião, que provavelmente se deve a confusões com outros Vitrúvios, já que só aparecem referidos em textos a partir do séc. XV. A redacção da obra terá acontecido entre 35 e 25 a.C. podendo a entrega ao Imperador Octávio César Augusto ter decorrido por volta de 20 a.C., tudo isto se depreende da leitura da própria obra que poderá não ter sido toda escrita ao mesmo tempo. Sabemos que terá estado ao serviço de Júlio César nas suas campanhas e seria protegido de Octávia irmã do Imperador. Os sete primeiros livros tratam da Arquitectura propriamente dita aos quais terá juntado mais três sobre Hidráulica, Astronomia e Mecânica para obter o número ideal Pitagórico de dez.
Mas citemos o próprio Vitrúvio. “O princípio da solidez estará presente quando for feita a escavação dos fundamentos até ao chão firme e se escolherem diligentemente e sem avareza as necessárias quantidades de materiais. O da funcionalidade, por sua vez, será conseguido se for bem realizada e sem qualquer impedimento a adequação do uso dos solos, assim como uma repartição apropriada e adaptada ao tipo de exposição solar de cada um dos géneros. Finalmente, o princípio da beleza atingir-se-á quando o aspecto da obra for agradável e elegante e as medidas das partes corresponderem a uma equilibrada lógica de comensurabilidade.”

Vitrúvio foi também o nome simbólico do irmão Joaquim Possidónio Narciso da Silva arquitecto e arqueólogo, fundador do Museu Arqueológico do Carmo, iniciado entre 1838 e 1842 numa das lojas Regeneração de Lisboa, do Grande Oriente Irlandês tendo vindo a ser Grão-Mestre desta obediência entre 1851 e 1853.

Para terminar, como comecei, com livros, homenagem a Bocage e Ovídio. Quem não se deleitou com a sua tradução das Metarmofoses, infelizmente interrompida por motivos de saúde, tão mais poética mas menos exacta que a finalmente tão esperada, se bem que ainda incompleta tradução, de Francisco Lucas (está para sair o segundo volume).

É que uma civilização que esquece o passado é uma civilização que hipoteca o futuro.

Autor: Éolo

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Alguns maçons e o 25 de Abril

A 17 de Março de 1974, estive de serviço na RTP. A então responsável pelas Relações Internacionais, Manuela Furtado apresentou-me três jornalistas da televisão pública holandesa que tinham vindo a Lisboa para cobrir, a então noticiada internacionalmente “intentona das Caldas”. Como pretendiam entrar em contacto com algum dos revoltosos, ainda a monte, lá fui num Alfa Romeo verde escuro de matricula suíça, que o meu irmão tinha. Chegados às Caldas o meu amigo José Carlos Nogueira, levou-nos a jantar para no dia seguinte, logo pela manhã irmos comprar meias de senhora de nylon preto, junto ao largo da Praça, do resto tratava ele Nogueira. Já no carro do Maldonado que entretanto se tinha juntado a nós, seguimos para o lado da lagoa, onde foi possível fazer uma entrevista com um dos militares revoltosos. Fiquei espantado com a pequenez dos equipamentos que os holandeses traziam. Captação de imagem e som, não ocupavam mais que três vulgares maços de cigarros. Depois regressamos a Lisboa mas à entrada da cidade percebi que estava a ser seguido. Disse aos holandeses para se segurarem e como o carro era muito rápido lá me consegui safar.

Passados dias deu-se o esperado 25 de Abril, às cinco da manhã o telefone toca em minha casa. Era o Maia Cadete que me pedia para ouvir o Rádio Clube Português. Daqui “Movimento das Forças Armadas, etc, etc, etc”. Percebi que era aquele o dia. Vim imediatamente para a rua, dei uma volta pequena pela cidade e decidi então ir para os estúdios do Lumiar, que tinham sido ocupados nessa noite pela Escola Prática de Administração Militar, comandava o então capitão Teófilo Bento. Às primeiras horas da manhã, encarregou o João Soares Louro de tratar de toda a logística referente à RTP. A mim encarregou-me da realização das emissões. À hora certa lá foi para o ar o Telejornal da noite, apresentado pelo Fialho e o Balsinha e mais adiante, também em directo, a proclamação da Junta de Salvação Nacional. Depois lá ficámos a descansar pelos cantos, à espera de chatices que acabaram por não acontecer. Trabalharam para esta emissão no local pelo menos quatro maçons.

Autor: O rebelde

sábado, 21 de abril de 2007

Liga Portuguesa dos Direitos do Homem

Esta Associação foi fundada em Abril de 1921, por iniciativa de Sebastião Magalhães Lima (Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa) à semelhança de organizações congéneres fundadas internacionalmente e destinava-se a “defender e fazer vingar os princípios de liberdade e justiça enunciados nas Declarações dos Direitos do Homem proclamados em 1789 e 1793”. Para o efeito, a Liga propunha-se “combater o abuso da autoridade, a ilegalidade, o arbítrio, a intolerância, o facciosismo e atentados à humanidade. O seu primeiro Directório foi composto por maçons e não-maçons, tendo assumido a Presidência Magalhães Lima. Teve os seus primeiros Estatutos em 21.04.1922.

A Liga Portuguesa dos Direitos do Homem como precursora dos Direitos do Homem, teve, posteriormente, outros documentos fundamentais que passaram a constituir outros pontos de referência, entre eles a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro de 1948.

A Liga exerceu uma acção importante de 1926 a 1974, mantendo bem alto o facho da Liberdade e Justiça, mau grado todas as dificuldades que lhe foram criadas pelos governos da Ditadura e do Estado Novo.
Mesmo depois de Abril de 1974 e ao longo de todos estes anos, e em vários contextos políticos, a Liga persistiu no seu objecto fundamental e contribuiu para melhorar a situação e a sensibilidade para os direitos humanos em Portugal.

Serve este artigo para lembrar que estamos a comemorar 85 anos da existência da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem e evocar os que nos antecederam, maçons e não-maçons, que com prejuízo da sua própria vida nos legaram esta Instituição que nunca se deixou abater ou baixou os braços na luta persistente pela Liberdade e Justiça.

Nunca é tarde, é antes um dever cívico de cada um, e de todos nós, evocar e contribuir em quanto em nós caiba para manter e elevar a Liga, pois não nos iludamos, a luta pelo objecto inicial (Direitos Humanos e Justiça) e que deu origem a esta fundamental Associção é constante e presente.

Autor: Júlio Verne

domingo, 1 de abril de 2007

Saúde, ou nem por isso


«Artigo 64.º da Constituição da República Portuguesa - Saúde.
1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
2. O direito à protecção da saúde é realizado:
a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;
b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.
3. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:
a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação;
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;
c) Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos;
d) Disciplinar e fiscalizar as formas empresariais e privadas da medicina, articulando-as com o serviço nacional de saúde, por forma a assegurar, nas instituições de saúde públicas e privadas, adequados padrões de eficiência e de qualidade;
e) Disciplinar e controlar a produção, a distribuição, a comercialização e o uso dos produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e diagnóstico;
f) Estabelecer políticas de prevenção e tratamento da toxicodependência.
4. O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.

O texto actual da Constituição da República Portuguesa foi aprovado pela Lei Constitucional n.º 1/2001, de 12 de Dezembro.»

«Aprovada pela Lei n.º 48/90, Lei de Bases da Saúde, de 24 de Agosto, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 27/2002, de 8 de Novembro.

A Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 164.º, alínea d), 168.º, n.º 1, alínea f), e 169.º, n.º 3, da Constituição, o seguinte:
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Base I - Princípios gerais

1 - A protecção da saúde constitui um direito dos indivíduos e da comunidade que se efectiva pela responsabilidade conjunta dos cidadãos, da sociedade e do Estado, em liberdade de procura e de prestação de cuidados, nos termos da Constituição e da lei.
2 - O Estado promove e garante o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.
3 - A promoção e a defesa da saúde pública são efectuadas através da actividade do Estado e de outros entes públicos, podendo as organizações da sociedade civil ser associadas àquela actividade.
4 - Os cuidados de saúde são prestados por serviços e estabelecimentos do Estado ou, sob fiscalização deste, por outros entes públicos ou por entidades privadas, sem ou com fins lucrativos. ...»
...
O Serviço Nacional de Saúde, foi concebido e criado com a finalidade de concretizar um dos princípios mais importantes da Sociedade, o de proporcionar os cuidados de saúde a todos os cidadãos, procurando que o seu acesso e prestação evolua no sentido da eficiência e da eficácia.
Sendo, a par da Educação, uma das pedras basilares de qualquer Sociedade que se pretenda justa, a Saúde constitui-se por isso, além do seu impacte social e financeiro, um dos maiores desafios para os Governos e Ministérios que a administram e uma área de apetência para grupos económicos e outras entidades empresariais.

Assim, e para melhor compreendermos o que se passa em termos de Saúde em Portugal, vejamos alguma informação muito simples:

- Há alguns anos, apareceram as "taxas moderadoras" supostamente para que os utentes comparticipassem directamente nos custos dos cuidados de saúde que lhes fossem prestados;
- Desde há anos que os "Seguros de Saúde" têm sido promovidos, teoricamente não como alternativa do Serviço Nacional de Saúde do qual não existe isenção contributória, mas como complemento àquele, no reconhecimento da sua real incapacidade de responder satisfatoriamente às necessidades;
- Desde há anos que os valores de comparticipação em medicamentos por parte do Estado têm diminuído;
- Hoje mesmo, entram em vigor as novas taxas moderadoras. Assim, os utentes do SNS vão começar a pagar as novas taxas moderadoras por internamento de 5€ por dia e de 10€ por cirurgia de ambulatório;
- Hoje mesmo, o ministério da saúde actualiza também o valor das restantes taxas moderadoras, acompanhando a inflação de 2006. Os utentes vão assim passar a pagar 4,30€ nas consultas nos hospitais centrais, 2,85€ nos hospitais distritais e 2,10€ nos centros de saúde. O atendimento nas urgências dos hospitais centrais passa a ter uma taxa de 8,75€, sendo de 7,75€ nos hospitais distritais, de 3,40€ nos centros de saúde e de 4,30€ no serviço domiciliário. Já nos exames radiológicos as taxas sofrem aumentos entre os 10 cêntimos para as ecografias (agora 4,50€) e os 60 cêntimos para as ressonâncias magnéticas (20,10€), enquanto que nas análises de sangue os valores mantêm-se inalterados.

Todos estes valores, podem parecer pequenos ou para muitos até ridículos, mas a realidade é que para os mais desfavorecidos, que por vezes são obrigatoriamente frequentadores dos serviços de saúde, aqueles valores são mais uma sobrecarga ao já magro orçamento com que sobrevivem. Assim, para quem aufira rendimentos a que lhe correspondam pouco mais de 10 euros diários e tendo em conta que muitos são obrigados a recorrer com frequência a cuidados de saúde com a compra necessária de medicamentos, pagar taxas moderadoras, torna-se a alternativa incontornável a outros bens essenciais, como a alimentação saudável ou a outros bens que contribuam para uma vida com o mínimo de conforto.

Se por um lado a Constituição consagra que todos têm direito à protecção da saúde através de um sistema tendenciamente gratuito, os Governos têm dito garantir o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde dentro dos limites humanos, técnicos e financeiros, sem que diga:

- Qual a prioridade de consciência política e social, de atribuição orçamental para a Saúde ?
- Qual a prioridade de consciência política e social, ao exigir comparticipação financeira no enquadramento das taxas moderadoras, enquanto atribui indemnizações na ordem de meio milhão de euros a gestores que por si são posteriormente recolocados em organismos, numa atitude financeira e socialmente difícil de entender e aparentemente imoral aos olhos de quem não a entenda ?

Estaremos a falar de Saúde, ou nem por isso, mas apenas estamos a ser incapazes de gerir e de relançar um Sistema Nacional de Saúde de facto, que resulte de atitudes de gestão concertadas e que sobreponham os objectivos nacionais aos políticos e pessoais ?
Autor: Sheikh

segunda-feira, 26 de março de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu o Dr. João Soares Louro

Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento do Dr. João Soares Louro no dia 26 de Março, aos 74 anos.

João Soares Louro, integrava o Conselho de Administração da Parque Expo desde 2006 como administrador não executivo.

Além de ter desempenhado o cargo de presidente do Conselho de Administração da RTP (1978-80), exerceu também funções de secretário de Estado da Comunicação Social e foi presidente da RDP.Considerado uma das personalidades mais marcantes da História da RTP, tendo sido responsável pela reestruturação da televisão pública e pela criação do "Canal RTP-2".

Dedicou quase toda a sua vida profissional à televisão, tendo promovido uma profunda transformação na estação em finais da década de 70, na passagem das emissões do preto e branco para cores. Enquanto presidente da RTP, João Soares Louro redimensionou e reequipou a televisão estatal, tendo também contribuído para o seu reequilíbrio financeiro, num mandato em que foram criados a Radiotelevisão Comercial e o Grupo Editorial da Empresa TV Guia.

Para além de presidente da televisão pública, João Soares Louro, para além de outros cargos que ocupou, foi ainda presidente da RDP no início da década de 90, numa altura em que se deu a privatização da Rádio Comercial.

João Soares Louro foi deputado entre 1976 e 1978 e subsecretário de Estado para a Comunicação no I Governo Constitucional, liderado por Mário Soares.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do Dr. João Soares Louro e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Oriente Lusitano, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.

sábado, 10 de março de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu a Dra. Manuela Margarido

Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento da nossa muito querida irmã, Manuela Margarido no dia 10 de Março aos 82 anos de idade.

Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido nasceu em 1925, na roça Olímpia, ilha do Príncipe, e desde cedo abraçou a luta pela independência do arquipélago, denunciando com a sua poesia a repressão colonialista e a miséria em que viviam os são-tomenses nas roças do café e do cacau.

Estudou Ciências Religiosas, Sociologia, Etnologia e Cinema na Sorbonne de Paris, onde esteve exilada.

Após a independência das colónias portuguesas, foi embaixadora plenipotenciária da República Democrática de São Tomé e Príncipe em diferentes países (Bélgica, Grã-Bretanha, Países Baixos, Dinamarca, Suécia, Grão Ducado do Luxemburgo, República Federal da Alemanha, República Italiana) e junto das principais organizações internacionais: FAO, FIDA, ACP e UNESCO.

Em Lisboa, onde viveu, Manuela Margarido empenhou-se na divulgação da cultura do seu país, sendo considerada, a par de outras individualidades da cultura, um dos principais nomes da poesia de São Tomé.

Entre outras funções, foi membro do Conselho Consultivo da revista Atalaia, do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL).
Personalidade marcante da luta anti-salazarista e dos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pertencia ainda à Maçonaria Feminina.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos da Dra. Manuela Margarido e o abraço fraterno às irmãs da Grande Loja Feminina de Portugal, em especial às irmãs da Respeitável Loja à qual aquela irmã pertencia.

Memória da Ilha do Príncipe

Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.

(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).

Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.

(poema da autoria de Maria Manuela Margarido)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Reflexão sobre o objectivo da Maçonaria

O objectivo da Maçonaria é o da procura da Verdade nos seus mais variados aspectos e utiliza como linguagem, fundamentalmente, a linguagem simbólica. Esta, que ainda há pouco parecia ultrapassada ganhou nova força e vigor devido ao reconhecimento por muitos (na literatura, na arte e até na ciência) da relatividade do conhecimento puramente racional.

O simbolismo maçónico mergulha as sua origens no esoterismo cristão (Joanista) mas, também, nas mais antigas fontes iniciáticas ( Caldaicas, Egipcias e Gregas). Para os antigos os instrumentos do seu conhecimento eram a Razão e a Fé, acreditavam que a primeira não pode alcançar tudo e sabiam dar lugar à intuição.
Na Idade Média os guardiões da tradição Esotérica foram os Judeus e os Árabes (sobretudo as seitas Fatimistas e Ismaelitas) exactamente na época em que os Templários estavam em contactos com eles...

O simbolismo permite, através do tempo e do espaço, estabelecer a relação adequada entre o sinal e as ideias e a iluminação que os símbolos provocam permite, simultaneamente, apreender os diferentes pontos de vista e unificá-los revelando a unidade que os transcende e fazendo passar do conhecido ao desconhecido, do visível ao invisível, do finito ao infinito. São os símbolos que ajudam à criação da iluminação intelectual que a Ordem tem por objectivo criar nas inteligências dos seus discípulos.

Por outro lado, a Verdade que todo o maçon persegue e que foi motivo da sua entrada na Ordem não poderá alcançar-se senão através da via do amor. Esta implica tolerância activa e humildade e faz compreender que é o conjunto que importa e que a razão individual vale só na medida em que participa no Absoluto, e é esta noção de amor, concebido como modo de apreensão do conhecimento, guiado pela tradição, que permite à razão individual alcançar a razão geral e a ideia universal, ou seja, a Verdade.

O esoterismo tradicional e os seus fins iniciáticos exerceram durante séculos uma influência considerável sobre as diversas formas de pensamento e as suas manifestações. Sabe-se desde Berger, que a razão didática não é a única forma de pensamento, e pela contribuição dada pelas grandes descobertas da ciência dilui-se a oposição simplista entre o materialismo e o espiritualismo. Assim, repõe-se hoje, em lugar de honra o princípio fundamental do Hermetismo: "A Unidade. Todo está em Tudo."

Por isso, a Maçonaria continua viva e, senão forem desvirtuados os seus objectivos, seguidas as vias que propõe, de forma corajosa e correcta, ela irá contribuir de forma importantíssima para o reencontro do Homem consigo mesmo, para a reintegração final do Homem na sua essência, tanto pelo intelecto como pelo coração.

Construamos pois a Maçonaria dentro e fora de cada um, Maçonaria que se posiciona como criadora de um homem novo, verdadeiramente irmão dos outros homens e que, com toda a propriedade, possa ser chamado de filho da Luz.

Autor: Albert Schweitzer, II

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Evocação Zeca Afonso

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos (02-08-1929...23-02-1987)

Evoquemos com emoção o Grande Zeca Afonso na celebração dos 20 anos da sua morte!

Grande porque foi um Grande Português, que marcou a nossa recente história pátria, como exemplo maior de uma entrega generosa, altruísta, às grandes causas cívicas, ao amor pela democracia, pelo povo, à luta pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade !

Grande porque foi o maior e o mais rico dos cantores-autores que fez da canção uma “Ética, uma Estética e uma Poética” ao serviço dos grandes ideias cívicos !

Grande porque foi o maior criador artístico da história da música popular portuguesa e um dos maiores do mundo !

Grande porque nos deixou um legado musical que é uma inesgotável e eterna fonte onde toda a música popular pode continuar a beber inspiração, por tão talentosa ser a sua obra, plena de ensinamentos harmónicos, rítmicos, melódicos e poéticos !

Grande porque a modernidade do seu discurso musical e poético mantém uma constante actualidade que nos interroga, interpela e inspira para termos sempre presente o seu exemplo na procura de uma sociedade mais justa !

Grande porque nos recordará sempre que a vigilância cívica e democrática não pode nunca baixar a guarda !

Grande porque nos ensina que a arte só é plena quando cumpre uma missão humanista de elevação do Belo, do Bem e do Justo !

Autor: Damião de Gois

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Ambiente no Século XXI

Dizia Almada Negreiros: “Quando eu nasci, todas as formas de salvar o mundo estavam descobertas, só faltava... salvá-lo”.

Ao sucesso do documentário “Uma verdade inconveniente” de Al Gore veio juntar-se uma projecção mediática da questão das emissões de CO2, tema de debate, já não nos fóruns alternativos como tinha acontecido em 92 no Rio, mas em Davos entre os grandes e poderosos do planeta. Quem leia os jornais fica com a sensação que de tanto se falar do tema este se encontra em vias de resolução, parece-me de algum optimismo tal reacção, já que até agora, e mal grado o tempo já passado, os Estados Unidos não rectificaram o velho Protocolo de Kioto e as economias emergentes estão de fora assim como estranhamente as emissões provocadas pelos aviões que parece que por estarem no ar estão isentos de carga poluidora.
Veio recentemente citada na imprensa uma pertinente questão, perguntaram na época a Gandhi se pretendia que a Índia, uma vez independente, se viesse a tornar tão desenvolvida como a Grã-Bretanha. A resposta foi uma negativa peremptória. “Se, para chegar onde chegou, a Inglaterra teve de devastar meio mundo, de quantos mundos precisaria a Índia?” Sábia resposta que põe em causa o modelo de desenvolvimento capitalista da altura e que hoje mais questionável se torna. Na realidade também Portugal depois de 74 poderia ter aproveitado o atraso que tinha para dar o salto para um país mais moderno sustentável e no entanto cometeu todos os erros que outros tinham cometido anteriormente deixando-nos à entrada do século XXI à beira do caos ambiental e económico. Tinha Portugal melhores condições que os novos países emergentes, já que se encontrava num espaço geográfico mais favorável, tenho dúvidas que se os países ditos mais desenvolvidos não fizerem eles mesmos as transições para modelos sustentáveis que sejam as novas economias a realizá-lo.

Mas colocar o problema só nas alterações climáticas e nas emissões de CO2 é absolutamente redutor, já que estas são apenas uma das alíneas de uma parte do problema que poderíamos elencar como os impactos da industrialização e que se podem dividir em três áreas.
Os impactos no meio ambiente, tratados pela ecologia, e que não são apenas o problema do efeito de estufa, mas também a exaustão dos recursos, da poluição e as alterações do meio não derivadas do clima.
Os impactos proximais do objecto industrial, tratados pela ergonomia, e que estão em regressão com o aparecimento de objectos mais baratos mas menos cuidados, veja-se o caso dos brinquedos das lojas ditas dos trezentos que testados apresentam riscos para os utilizadores, e de todo um mundo de contrafacções a que nem os medicamentos escapam.
O terceiro vértice deste triângulo que estuda os impactos da industrialização é muito menos referido mas não menos importante trata dos impactos distais ou psicológicos onde entra o tão conhecido stress, e dá pelo nome de eutifrónia. A saber o antagonismo entre a afirmação da individualidade na natureza e a repetição ou seriação na produção industrial, o antagonismo entre o ritmo fisiológico do ser humano e a crescente velocidade que a técnica imprime à vida, o antagonismo nas trocas de energia entre o organismo e o meio derivado da sedentarização da vida enquanto o metabolismo fisiológico se mantém e por último a perca da capacidade de resolução de problemas em relação aos quais nos sentimos impotentes ou seja a desumanização da vida.

O século XX veio dar o primado à economia sobre o homem, tendo para tal contribuído uma crescente fé na ciência em detrimento da vertente humanista pretendendo tornar igual o que é diferente e sob a capa da globalização e do livre comércio produzir a aberração de fazer aumentar de forma gritante as desigualdades.
Temos que reverter este desequilíbrio e por isso é importante revermo-nos no espírito maçónico e do seu mito fundacional da “palavra perdida” acreditam os maçons que aquando do assassinato do Mestre Hiran a “palavra” se perdeu e assim sendo o que todos têm que procurar é a verdade com a consciência que esta, é sempre uma verdade incompleta. Este principio da humildade lembra-me uma frase de António Sérgio que dizia “quando não sei, pergunto, quando sei, pergunto na mesma” e deve-nos nortear a procurar o saber, a tolerância e a generosidade em busca de soluções por oposição à ignorância, ao fanatismo e à ambição que infelizmente medram neste planeta cada vez menos azul.

Espírito sem razão é especulação pura, razão sem espírito é trabalho vão.


Autor: Éolo

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A areia e a pedra

Diz uma lenda árabe que, quando dois amigos viajavam pelo deserto, num determinado ponto da viagem discutiram acaloradamente, até que um esbofeteou o outro.
O ofendido, sem pronunciar palavra, escreveu na areia: “Hoje, o meu melhor amigo bateu-me no rosto.”

Seguindo viagem, chegaram a um oásis, onde resolveram banhar-se. Imprevidente, o que havia sido esbofeteado quase se afogava, quando foi salvo pelo amigo.
Ao recuperar, pegou num estilete e escreveu numa pedra: “Hoje, o meu melhor amigo salvou-me a vida.”
Intrigado, o amigo perguntou: “Por que é que depois de te bater escreveste na areia e agora escreves na pedra?
Sorrindo, o companheiro de viagem respondeu: “Quando um grande amigo nos ofende, devemos escrever na areia, para que o vento do esquecimento e do perdão se encarreguem de apagar. Porém, quando nos faz algo de sublime, devemos gravar na pedra, que é a memória do coração, onde nenhum vento chega para apagar a gravação.


É evidente a analogia entre esta lenda e aquele que configura ser o comportamento de um maçom. A agressão é algo de profano, que deve ficar registado na areia, isto é, que deve ser deixado à porta do Templo. Ao contrário, os valores da harmonia, da paz, da beleza, da fraternidade e da solidariedade são cultivados e multiplicados, de dentro para fora. De dentro do Templo para a sociedade que nos rodeia. De dentro de nós para os nossos familiares, para os nossos amigos, para os nossos conhecidos e até para os nossos adversários. Devem, em suma, ser gravados na pedra, para que nada os apague e para que ninguém os esqueça. Trata-se, no fundo, de utilizar convenientemente os instrumentos que ajudam a desbastar a pedra bruta, procurando dar-lhe a forma da perfeição.

Em síntese, o verdadeiro maçom “escreve na areia” tudo quanto seja de irrelevante e de profano. Porque a areia está no exterior do Templo e porque é também no exterior do Templo que sopra o vento – inexistente no interior, uma vez que nem é ele que apaga as velas, símbolos das luzes que orientam os trabalhos.

Ao contrário, o verdadeiro maçom “escreve na pedra” tudo quanto contribua para o seu aperfeiçoamento e para o aperfeiçoamento da irmandade em que se insere. Porque, ao “escrever na pedra” estará, também e assim, a trabalhar a pedra bruta e a contribuir, lenta mas seguramente, para a polir, até que a mesma tenha a perfeição suficiente para fazer parte integrante e indissociável do Templo Supremo da Maçonaria Universal.


Autor: Álvaro

quinta-feira, 25 de janeiro de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu o Prof. Dr. A. H. de Oliveira Marques
Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento do Prof. Doutor A. H. de Oliveira Marques no dia 23 de Janeiro.
Irmão maçon e uma das figuras mais proeminentes da maçonaria portuguesa, Oliveira Marques foi iniciado Maçon em 1973, ainda durante o período da clandestinidade da maçonaria em Portugal, tendo desempenhado cargos de grande importância tanto ao nível do Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa, de que chegou a ser Grão-Mestre Adjunto, como nos Altos Graus do Rito Escocês Antigo e Aceite, de cujo Supremo Conselho foi Soberano Grande Comendador.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do Prof. Oliveira Marques e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Oriente Lusitano, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.

Breve biografia de António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques
Nasceu em São Pedro do Estoril a 23 de Agosto de 1933.
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa com a tese "A Sociedade em Portugal nos Séculos XII a XV" (1956), tendo estagiado na Universidade de Würzburg (Alemanha).
Doutorou-se na Universidade de Lisboa com a tese "Hansa e Portugal na Idade Média" (1970), onde passou a leccionar.
Durante a ditadura do Estado Novo, Oliveira Marques foi afastado da universidade por motivos políticos, por ter participado na "Crise académica" de 1962 promovida pelos estudantes contra o regime. Viu-se por isso, obrigado a exilar-se, a partir de 1965, nos Estados Unidos da América, onde leccionou em várias instituições, como a Universidade do Alabama, da Flórida, Columbia e Minnesota (1970), entre outras.
É considerado um dos melhores historiadores portugueses, em especial no que diz respeito à Idade Média.
Em 1970, durante a "primavera marcelista", regressou a Portugal, reingressando na universidade portuguesa depois da Revolução do 25 de Abril, em 1974.
Foi director da Biblioteca Nacional de Lisboa entre 1974 e 1976.
Na Universidade Nova de Lisboa, foi professor catedrático (1976) e presidente da comissão instaladora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.
Dedicou o seu trabalho a estudos sobre duas épocas da História portuguesa: História Medieval e História da Primeira República.
Em 1982, em comemoração dos 25 anos sobre a publicação do seu primeiro estudo histórico, foram editados dois volumes com colaboração de historiadores portugueses e estrangeiros e intitulados Estudos de História de Portugal: homenagem a A. H. de Oliveira Marques.
Maçon desde 1973, foi eleito Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano (1984-1986) e Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-1994).
O número total das suas obras de tomo ultrapassa 60 volumes. A colaboração, com artigos, em revistas, dicionário e enciclopédias ultrapassa o milhar, tendo proferido numerosas conferências em universidades da Europa, Estados Unidos, Brasil e Argentina.
Em 1998 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade atribuida pelo Presidente da República, Jorge Sampaio.
Faleceu no dia 23 de Janeiro de 2007, em Lisboa.
Homem ímpar, as suas obras são instrumentos de grande relevância para os estudiosos da História de Portugal.
Nota maçónica:
Oliveira Marques era um admirador do escritor e historiador Alexandre Herculano, de quem adoptou o nome simbólico, sendo do seu particular agrado o poema seguinte:

D. Pedro
Pela encosta do Líbano, rugindo,
O noto furioso
Passou um dia, arremessando à terra
O cedro mais frondoso;
Assim te sacudiu da morte o sopro
Do carro da vitória,
Quando, ébrio de esperanças, tu sorrias,
Filho caro da glória.
Se, depois de procela em mar de escolhos,
A combatida nave
Vê terra e vento abranda, o porto aferra,
Com júbilo suave.
Também tu demandaste o Céu sereno,
Depois de uma árdua lida:
Deus te chamou: o prémio recebeste
Dos méritos da vida.
Que é esta? Um ermo de espinhais cortado,
Donde foge o prazer:
Para o justo ela existe além da campa:
Teme o ímpio o morrer.
Plante-se a acácia, o símbolo do livre,
Junto às cinzas do forte:
Ele foi rei - e combateu tiranos -
Chorai, chorai-lhe a morte!
Regada pelas lágrimas de um povo,
A planta crescerá;
E à sombra dela a fronte do guerreiro
Plácida pousará.
Essa fronte das balas respeitada,
Agora a traga o pó:
Do valente, do bom, do nosso Amigo
Restam memórias só;
Mas estas, entre nós, com a saudade
Perenes viverão,
Enquanto, à voz de pátria e liberdade.
Ansiar um coração.
Nas orgias de Roma, a prostituta,
Folga, vil opressor:
Folga com os hipócritas do Tibre;
Morreu teu vencedor.
Envolto em maldições, em susto, em crimes
Fugiste, desgraçado:
Ele, subindo ao Céu, ouviu só gueixas,
E um choro não comprado:
Encostado na borda do sepulcro,
O olhar atrás volveu,
As suas obras contemplou passadas,
E em paz adormeceu:
Os teus dias também serão contados,
Covarde foragido;
Mas será de remorso tardo e inútil
Teu último gemido:
Do passamento o cálix lhe adoçaram
Uma filha, urna esposa:
Quem, tigre cru, te cercará o leito,
Nessa hora pavorosa?
Deus, tu és bom: e o virtuoso em breve
Chamas ao gozo eterno,
E o ímpio deixas saciar de crimes,
Para o sumir no Inferno?
Alma gentil, que assim nos hás deixado,
Entregues à alta dor,
Anjo das preces nos serás, perante
O trono do Senhor:
E quando, cá na Terra, o poderoso
As Leis aos pés calcar,
do teu sepulcro irá o opresso
Seus males deplorar:
Assim, no Oriente, de Albuquerque às cinzas
O desvalido indiano
Mais de urna vez foi demandar vingança
De um déspota inumano.
Mas quem ousará à pátria tua e nossa
Curvar nobre cerviz?
Quem roubará ao lusitano povo
Um povo ser feliz?
Ninguém! Por tua glória os teus soldados
Juram livres viver.
Ai do tirano que primeiro ousasse
Do voto escarnecer!
Nesse abraço final, que nos legaste,
Legaste o génio teu:
Aqui - no coração - nós o guardámos;
Teu génio não morreu.
Jaz em paz: essa terra, que te esconde,
O monstro abominado
Só pisará ao baquear sobre ela
Teu último soldado.
Eu também combati: nus pátrias lides
Também colhi um louro:
O prantear o Companheiro extinto
Não me será desdouro.
Para o Sol do Oriente outros se voltem,
Calor e luz buscando:
Que eu pelo belo Sol, que jaz no ocaso,
Cá ficarei chorando.

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Rituais e Simbolismos

A questão da necessidade dos rituais é das que mais surpreende não só quem não pertence à Maçonaria, mas também muitos recém-chegados. Não é fácil aceitar essa importância e menos ainda será compreender até que ponto a intensidade e perfeição com que os maçons se entregam à sua prática é determinante para a criação de um verdadeiro espírito de corpo.
De facto a realização conjunta dos diversos rituais conduz a uma forte união entre os Irmãos. Não se trata de nada de mágico ou metafísico. Há estudos estatísticos que mostram os benefícios para a saúde de quem participa regularmente em cerimónias de tipo religioso, sejam elas de que religião forem, ou mesmo não religiosos mas em que há um envolvimento colectivo. Do mesmo modo, já foram realizadas experiências científicas de considerável complexidade, que demonstram uma evidente estimulação de zonas de específicas do cérebro durante práticas de rituais ou de meditação profunda.
Em qualquer dos casos essa actividade é benéfica para o funcionamento saudável do organismo de cada um dos intervenientes e para o desenvolvimento de um espírito de união entre as pessoas que neles participam.
Por outro lado, os próprios rituais estão carregados de alegorias e simbolismos que se impõe desvendar e assimilar.

Passemos assim para o tema das simbologias usadas pela Maçonaria.
Por mais que se pretendam explicar, dificilmente se poderá conseguir que quem esteja de fora consiga abarcar o seu significado profundo. Não é fácil explicar o sabor de uma laranja a alguém que nunca a tenha provado.
Os símbolos usados pela Maçonaria têm origens muito diversas, mas em síntese há dois tipos principais: os que tiveram origem na Maçonaria Operativa e os que foram introduzidos a partir de crenças ocultistas que se integraram na Maçonaria Especulativa quando esta começava a ganhar forma. Mas todos os símbolos traduzem ideias mais ou menos abstractas e são essas ideias que devem ser apreendidas pelos maçons de acordo com a sua inteligência, a sua maneira de ser e de sentir. Convirá assinalar que apesar de recorrer a símbolos de diversas crenças, isso não implica que os maçons partilhem dessas mesmas crenças, pois na Maçonaria a razão sobrepõe-se ao misticismo.
A pouco e pouco, essas noções serão interiorizadas e passarão a fazer parte de cada maçon, dando-lhe a consistência ética que lhe permitirá enfrentar os desafios da vida pessoal e colectiva, mas sem nunca lhe impor quaisquer dogmas ou doutrinas. Ou seja, é graças à participação nos rituais e ao estudo da simbologia maçónica que nós maçons vamos progredindo na interiorização dos conceitos que a Maçonaria nos transmite e que vamos sentir individual e colectivamente uma espiritualidade que nada tem a ver com crenças religiosas ou de qualquer outro tipo. Mas é essa espiritualidade que nos permite sentir de uma forma mais intensa e profunda a beleza de uma trilogia muito famosa e que define bem os grandes valores da humanidade: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É quando chegamos a esta fase em que, ao mesmo tempo, fomos construindo o nosso templo interior e estabelecemos fortes laços de união com os nossos Irmãos, que estaremos realmente aptos a influenciar positivamente a evolução da humanidade e a defender todos os seus grandes valores.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

Uma questão de "fé"

Paulo Macedo, Director-Geral dos Impostos (DGCI), encomendou uma missa de acção de graças pela sua Direcção-Geral e pelos funcionários dos Impostos na Sé Patriarcal de Lisboa e convidou os funcionários daquela Direcção Geral a acompanhá-lo na celebração.
“O Estado é laico. Respeita-se a liberdade religiosa das pessoas, ninguém é obrigado a ir”, justificou fonte oficial do gabinete do ministro das Finanças, Teixeira dos Santos.

Ora bem, o actual Director-Geral da DGCI é um homem de fé. Mais ainda, é um homem que se preocupa espiritualmente com a DGCI e até pelo governo que lhe paga o salário, que se diga que pelo valor auferido, indicia que as orações pessoais de Paulo Macedo devem ser ouvidas com sucesso, não só por todas as entidades divinas como até pelas profanas.

No entanto, embora a convicção religiosa de cada um, deve ser tolerada, no mais simples espírito maçónico, e disso nenhum membro de qualquer organização profana ou estatal não deve ser excepção, a verdade é que a actuação em causa do DG da DGCI não se configura como inocente, quer ao expor-se nela publicamente, como o “convite” formulado aos seus subordinados pode ser entendido também como forma de “coacção” perante os mesmos.

Se sobre a informação veiculada publicamente, adicionarmos o facto de que o Estado português é laico, ou afirma-se como tal e se for verdade que Paulo Macedo é membro de conhecida organização religiosa, então o seu acto de fé, pode ser tomado como uma acção que coloca incontornavelmente em causa a inocência do acto.

Não nos move a nós maçons, qualquer sentimento contra a fé religiosa de ninguém, nem contra qualquer organização a que supostamente Paulo Macedo possa pertencer, mas move-nos a defesa efectiva da liberdade religiosa, a laicidade de facto, do Estado português e a inexistência de qualquer forma encapotada de coacção sobre funcionários públicos para que se prestem a acções concertadas, cujo objectivo deixa de ser uma questão de fé, para se tratar de um acto político.

Assim, mais importante que a nossa Augusta Ordem se pronuncie publicamente sobre este incidente, o que decerto iria reduzir a sua venerável imagem à dimensão do acto, importa que o mesmo seja comentado pelos meios adequados, maçons ou profanos, além de permitir e incitar que as instituições existentes para o efeito actuem em conformidade, na defesa dos direitos e liberdades que nos devem assistir e assim, pronunciarem-se sobre este caso, procurando que o mesmo não se repita.

Casos como este, vêm reforçar o sentimento que nós maçons devemos ter, da necessidade de reforçar o nosso empenho no trabalho que devemos realizar e a que nos propusemos no acto da Iniciação e da importância da estratégia de actuação da nossa Augusta Ordem, que esta deve ter, na mobilização e efectivação na Sociedade, dos nobres princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade que nos caracterizam.

Autor: Asa

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

As Lojas de S. João

- Meu Irmão, de onde vindes?
- Da Loja de São João, Venerável Mestre.
- Que se faz na Loja de São João?
- Levantam-se Templos à virtude e cavam-se calabouços para os vícios.
As lojas dos primeiros graus da Maçonaria são frequentemente chamadas de “Lojas de São João” em que a expressão “Loja de São João” deriva do título usado durante a Idade Média pelas corporações de construtores, designadas por “Confrarias de São João”.

As festas de São João Evangelista e de São João Batista, a primeira das quais é celebrada a 27 de Dezembro, no solstício de Inverno, e a segunda a 24 de Junho, no solstício de Verão, são celebradas na Maçonaria em Assembleias especiais.
As opiniões dividem-se sobre o santo ao qual a Maçonaria honra com maior ênfase sob o nome de "São João". Contudo, ambos os santos são muitos importantes do ponto de vista da simbologia maçónica.

São João Evangelista, deixou-nos no prólogo do seu Evangelho, um verdadeiro monumento esotérico:

“No começo era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava, no começo, com Deus. Tudo era feito por ele e, sem ele, nada se fez de tudo o que foi feito. A vida estava nele, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilhava nas trevas, e as trevas não o receberam.”
Em certas Lojas maçónicas onde a Bíblia é assumida como texto de reverência, o Evangelho de São João é qualificado frequentemente como o “Evangelho do Espiríto”.
Quanto ao São João Baptista, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, prima da Virgem Maria, foi chamado de “Precursor” porque preparou os caminhos de Jesus. Ele foi chamado de “Baptista” porque baptizava no Jordão. Herodes Antipas, irritado com as suas advertências por causa da sua união com Herodíades, sua sobrinha e a mulher do seu irmão, lançou-o na prisão de Maqueronte para, onde mais tarde, veio a ser decapitado. Comemora-se a sua “degolação” no dia 29 de Agosto.

Os pequenos edifícios, outrora construídos junto das catedrais eram habitualmente dedicados a São João Baptista e chamados “batistérios” em razão da sua destinação.

João, o Precursor pregava a renúncia e o arrependimento. Por sua vez, a A Ordem Maçónica desempenha, ela também em muitos casos, o papel de precursora e pode fazer-nos lembrar o combate espiritual que João, o Baptista, travou contra os publicanos e a multidão. João, o Precursor, que dividia a sua comida e as suas roupas com os infelizes, era considerado perigoso, e foi pelas suas ideias de fraternidade e de justiça que Herodes o condenou, por se tratar de uma postura "politicamente perigosa" pelo seu impacte na população.

O nome "João" está ligado também a outras referência históricas, nomeadamente à misteriosa lenda do “Padre João” dos séculos XII e XIII, que seria um soberano tártaro e ainda ao facto de que muitos imperadores da Abissínia assim se chamavam.
Diz-se, ainda, que os Templários celebravam as suas festas mais importantes no dia de São João, no verão, e que a Maçonaria perpetuou o costume e tradição da Ordem do Templo.
Há ainda, quem relacione o nome "João" a "Janus", o deus latino de dois rostos: um jovem, outro velho, simbolizando o passado e o futuro, o ano que termina e o ano que começa.
A festa de São João, no verão, a 24 de Junho, é marcada por “fogos”, que ainda são queimados em muitas regiões e o folclore tradicional é rico de tradições relacionadas com esta festa.
Assim, a Maçonaria ao ser inspirada em dar o nome de "Lojas de São João" às suas Lojas, agrupou de algum modo, os múltiplos sentidos e símbolos que lhe podem ser atribuídos.

Autor: Júlio Verne

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Um conto de Natal

Pegadas na neve

O céu cinzento cor de chumbo tomara a cor branca como se fosse o tecto de uma sala imensa do tamanho do horizonte, toda atapetada com um espesso manto de neve alva onde enquanto caminhava em passos lentos e firmes, uma figura encolhida do frio imprimia os passos que dava.

Dirigiu-se à janela da primeira das muitas casas que ladeavam a avenida, onde luzes trémulas de Natal enfeitavam as árvores que dançavam ao som do vento, que lhes arremessava pequenos flocos brancos, saturando-lhes as pernadas que sacudia em golpes de tempestade.
Espreitou pela vidraça. Um sorriso ondulou-lhe os lábios confundindo-os com os longos cabelos brancos que se fundiam na barba da mesma cor. Lá dentro uma criança brincava junto à lareira, iluminada por esta, a que se juntavam os olhares dos pais como que a acariciá-la.

Aquecido na alma com aquele quadro familiar, seguiu adiante onde através de uma janela pequena, uma luz ténue fazia-se sentir num apelo que atravessava a vidraça embaciada. Uma figura pequena e dobrada pela idade aconchegava-se envolta por um xaile de lã que denunciava os anos de uso, mal cobrindo o magro corpo que se aninhava junto ao braseiro. Este solidário, aquecia a cafeteira de café, que lhe servia de consolo e de companhia. Os olhos daquele homem, que antes sorriam, agora juntavam-se tristes à solidão. As mãos dedilhavam os botões que lhe fixavam o manto do corpo, que agora retirava e colocava na maçaneta da porta daquela casa, onde batera antes de se afastar.

Continuou o caminho, no mesmo silêncio dos que caminham sós, até que um barulho de vozes lhe interrompeu o pensamento. Dirigiu-se aonde vinham as vozes, que mais perto, denunciavam uma discussão. Um casal sentado à mesa, mantinha os pratos vazios apesar da mesa farta, anunciando que era a alma a quem faltava o alimento que o desentendimento recusava. Ao lado da janela por onde assistia, num pequeno jardim resistiam as últimas rosas onde gotas de orvalho se transformaram em pequenos diamantes que o frio fabricara. Rapidamente colheu duas delas, deixando-as junto da porta do casal com dois pequenos bilhetes de papel que escrevera de improviso na soleira da porta. Tocou a sineta e regressou apressado ao caminho, enquanto as vozes se calaram na surpresa do toque.

De volta ao silêncio da caminhada, continuou lento, olhando para uma janela, esta um pouco mais iluminada que as restantes. Espreitou furtivo para o candelabro que iluminava intensamente um pequeno oratório, onde uma mãe ajoelhada erguia as mãos, como se buscasse a toalha de linho invisível que lhe enxugasse as lágrimas que lhe corriam pelas faces. Adiante, sentado estava um pai de cabeça tombada que encostava às mãos, que tomara nas suas, de um filho enfermo e febril. Cá fora a expressão do rosto daquele homem fazia coro com as daqueles pais que observava, enquanto colocava as palmas das mãos abertas sobre as vidraças, como se projectasse a bênção que a sorte desconhecera até então e que o sorriso inesperado da criança anunciava agora discreto.

A volta ao trilho por onde viera fez-se serena, como mansa era a neve que cobria tudo por onde passara e seguia agora. Um choro baixo mostrava-se discreto, escutado talvez, apenas por aqueles ouvidos treinados pela experiência de ouvir os que clamam em silêncio. Assomou à janela que só ouvindo se apercebia da pouca luz que as vidraças teimavam em deixar ver. Dois rostos ladeavam uma mesa vazia onde uma jarra de flores tomava digna, o lugar que a refeição não ocupava, deixando espaço a dois pares de mãos que pousavam solidárias sobre a toalha branca como a neve. As vestes eram simples e os remendos gritavam mudos de orgulho os cuidados que recebiam apesar do uso, agora menos intenso na actividade, provavelmente por falta de trabalho que atormentava quem aquelas vestiam. Apressado, o homem retirou dos bolsos um embrulho enrugado, onde guardava a refeição seguinte que contava como sua e que o corpo agora recusava. Juntou-lhe algumas moedas que recebera como pedreiro livre e pedinte e deixou no parapeito da janela onde batera no momento de se afastar.

Continuou a caminhar, agora dirigindo-se a um vulto que o acaso lhe fizera encontrar, encolhido na soleira de uma porta, por onde o calor se deixava escapar sorrateiro sob a porta pesada duma casa igualmente imponente e aquecida, reforçando o calor que pedaços de cartão a custo asseguravam delicadamente, como se embalassem o mais frágil dos seres. Com o cuidado de não acordar o homem que dormia quase inconsciente no frio, tirou-lhe as roupas velhas e o calçado roto que rápida e furtivamente trocou pelas suas, como se na troca ganhasse o melhor dos tesouros.

Voltou ao caminho que tomara antes, apoiado num bordão feito de madeira de acácia, perseguindo os passos que agora eram mais leves enquanto a iluminação de Natal se inclinava diante do brilho que levava nos olhos e o sorriso dos lábios calava o silêncio na noite e as mãos abertas acalmavam o vento e o frio. Olhava para si mesmo, feliz com os braços abertos de contentamento que a parca indumentária que agora tinha tomava lugar em vez das vestes vermelhas que usara como uniforme na noite de Natal. Não ia de trenó nem eram as renas que o transportavam. Era felicidade o que sentia enquanto a dava também aos outros. Era isso que o fazia sentir-se o verdadeiro Pai Natal em gestos e sinais que só ele entendia.

Autor: Sheikh