terça-feira, 25 de setembro de 2007

Aquilino e a Liberdade

Aquilino Ribeiro repousa finalmente no Panteão Nacional. Homenagem merecida, não deixou, apesar disso, de ostentar imerecida frieza: foi tudo muito “técnico”, muito “tecnocrático”, tendo sido esquecida a vertente social e de intervenção daquele foi o “escritor maldito” por parte do antigo regime, ou não tivesse sido a sua obra subtilmente subtraída ao estudo dos alunos nas escolas e nos liceus de então.

Soube a pouco. Faltou a componente que mais inspirou a obra de Aquilino: o povo. Faltou calor humano. Quase pareceu uma homenagem envergonhada. Parece que, de alguma forma, ainda está insidiosamente instalada na sociedade portuguesa um clima de medo. Parece que se teme beliscar as forças ocultas do obscurantismo, infelizmente ainda instaladas entre nós mas que Aquilino combateu com denodo, em prejuízo flagrante do seu próprio bem-estar, tendo preferido os exílios e o degredo a pactuar com essas mesmas forças.

Cabe-nos a nós, Maçons, homens livres e de bons costumes, depositar simbolicamente sobre o mausoléu de Aquilino a bandeira da liberdade pela qual nos batemos. E, ao cumprir esse desiderato, não estamos a fazer mais do que colocar-nos em sintonia com um homem que também se tornou conhecido por uma frase que tem tudo a ver com os princípios que regem a nossa Ordem Universal: “Para chegar a bom termo da viagem é preciso ser livres.”

Aquilino foi o primeiro presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores. E mais uma vez, na cerimónia de homenagem aos cinquenta anos da sua obra, recomendou a adopção de uma atitude que também ela se adequa na perfeição aos procedimentos maçónicos: “Cultivar a inquietação como uma fonte de renovamento.”

Com efeito, a partir do momento da iniciação, é inevitável que o Maçon verdadeiramente vocacionado para o apostolado do Conhecimento não se sinta quase permanentemente inquieto por se municiar das alavancas que o conduzem simultaneamente mais alto e mais fundo nas sendas intermináveis desse mesmo Conhecimento.

E, por outro lado, como disse Aquilino, é essa inquietação, é esse Conhecimento que conduz os homens livres e de bons costumes para a permanente renovação, no sentido do melhoramento, de si próprio e da sociedade em que se insere.
Mas as coincidências não se quedam por aqui. Permaneçamos nesse episódio de elevado significado que foi a referida cerimónia de homenagem por ocasião da passagem do cinquentenário da produção literária de Aquilino. Na circunstância, a Sociedade Portuguesa de Escritores nomeou uma Comissão de Iniciativa para organizar o evento, de que sobressaiu, pelo seu empenhamento, entre outros insignes representantes das letras portuguesas, nem mais nem menos do que o nosso past-Grão-Mestre, o Sapientíssimo Irmão Raul Rêgo, mais tarde director do jornal “República”, que teve em Aquilino um dos principais colaboradores.
Mas eis-nos então chegados à parte mais significativa desta prancha. Referindo-se ao primeiro exílio de Aquilino, dele escreveu Jorge Reis as seguintes palavras, no mínimo intrigantes: “Turista sem cheta na bagagem, transportava, porém, um alforge de promessas de “irmãos” e “primos” que lhe haviam jurado, com os pés em esquadria, que nunca o deixariam comer o pão amargo do exílio. (…) Bastar-lhe-ia procurar a seu patrão da “Vanguarda” (jornal que se publicava em Paris e que afrontava o regime de D. Carlos), esse Hiram da Fraternidade Portuguesa, o qual, embora não tivesse levantado templo veramente lusitano no oriente parisino, mantinha loja aberta num restaurante dos Grands Boulevards reputado pelos ágapes que servia a uma iniciada clientela ciosa da verdade e famélica de luz”.

Face a este texto, confesso que não ouso fazer quaisquer tipos de afirmações. Mas não posso deixar de colocar algumas interrogações, elas também inquietantes como recomendava Aquilino:
1. Quem eram os “irmãos” que haviam jurado com os pés em esquadria?
2. Quem utiliza a designação específica de “irmãos” para designar os laços que unem os membros de uma colectividade?
3. Quem utiliza a posição de colocação dos pés em esquadria para fazer os juramentos?
4. Porquê a referência a um tal Hiram como aquele que liderava o agrupamento de homens de que Aquilino fazia parte em Paris?
5. Qual a razão da expressão “Hiram da Fraternidade Portuguesa”?
6. Qual a razão da expressão “não tivesse levantado templo”?
7. Quem são tidos, habitualmente, como construtores de templos, para mais sob a orientação desse tal “Hiram da Fraternidade Portuguesa”?
8. Qual a razão da expressão “oriente parisino”?
9. Quem costuma designar o Oriente como o local de implantação dos templos numa determinada cidade ou região?
10. Qual o significado da expressão “manter loja aberta”?
11. De quem se diz que “trabalha em Loja”?
12. Porquê a utilização da palavra “ágapes”?
13. Qual a organização que diz, na mais pura da sua ritualística, que os trabalhos prosseguem e terminam com um ágape fraternal?
14. Porquê a utilização do adjectivo “iniciada” para qualificar a clientela?
15. Qual é habitualmente conhecida a “iniciada clientela ciosa da verdade”?
16. Qual é habitualmente conhecida a “iniciada clientela famélica de luz”?

As interrogações que acabo de formular não revestem qualquer atitude especulativa. Elas são baseadas em factos concretos, vividos e testemunhados. Não passam de interrogações. Quem tiver conhecimento e atrevimento bastante, que as aprofunde se com elas se tiver sentido aquilinamente inquietado.

Apenas um pormenor mais, que, provavelmente, não passará de mera coincidência, à semelhança das questões que acabo de abordar. O último dos companheiros de Aquilino foi Mestre Zé, imortalizado nas obras do escritor, que lhe atribuiu qualidades de força e vigor para enfrentar as autoridades repressivas do regime de então e que o qualificou de responsável e solidário perante os interesses da comunidade. Pois. Tudo isto talvez com significado irrelevante, não tivesse sido Mestre Zé um hábil pedreiro, ou melhor, um conhecedor artesão da pedra.

Por último, apenas peço que me seja permitido terminar com um texto provocatório. Ele aí vai.

Eu vos juro, meus Irmãos, com os pés em esquadria, que continuo a perseguir a sabedoria de Hiram no seio desta Fraternidade Portuguesa, a qual levantou este templo veramente lusitano no Oriente lisboeta, mantendo Loja aberta a uma iniciada clientela ciosa da Verdade e famélica de Luz.

Autor: Álvaro

terça-feira, 18 de setembro de 2007

A procura da palavra - II

Muitos de vós questionam o que é um Maçon? Nós, maçons também nos interrogamos constantemente e procuramos a palavra, a verdade, por isso, hoje vamos apresentar a nossa visão e tentar responder a essa vossa/nossa interrogação, baseados em alguns textos antigos, mas que mantém toda a actualidade.

Quando é que se é Maçon?

Quando puder olhar por sobre os rios, os morros e o distante horizonte com um profundo sentimento da sua própria pequenez no vasto panorama das coisas que o rodeiam e, assim mesmo, ainda conservar a fé, a coragem e a esperança – que são as raízes de toda a virtude.
Quando sabe que no fundo do seu coração, todo o homem é tão nobre, tão vil, tão divino, tão diabólico, e tão solitário como ele mesmo e procura conhecer, perdoar e amar seu semelhante.
Quando sabe simpatizar com os homens em suas tristezas, sim, mesmo em seus pecados, sabendo que cada homem luta duramente contra muitos óbices no seu caminho.
Quando aprendeu como fazer amigos e conservá-los, e, sobretudo, como conservar-se seu próprio amigo.
Quando nenhuma voz de desespero atinge os seus ouvidos em vão e nenhuma mão procura sua ajuda sem obter resposta.
Quando achar um bem em toda a fé que ajuda qualquer homem a ver as coisas divinas e a perceber as significações majestosas da vida, qualquer que seja o nome dessa crença.
Quando conservar a fé em si mesmo, nos seus companheiros, e em sua mão uma espada contra o mal, em seu coração um pouco de canção.
Quando satisfeito por viver mas não temendo de morrer.

Tal homem encontrou o único segredo da Maçonaria, aquele que Ela procura transmitir ao mundo inteiro.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 11 de setembro de 2007

A procura da palavra - I

Muitos de vós questionam o que é a Maçonaria? Nós, maçons também nos interrogamos constantemente e procuramos a palavra, a verdade, por isso, hoje vamos apresentar a nossa visão e tentar responder a essa vossa/nossa interrogação, baseados em alguns textos antigos, mas que mantém toda a actualidade.


O que é a Maçonaria?

É uma instituição humanitária e sublime que exalta tudo o que une e repudia tudo aquilo que divide, que aspira a fazer da Humanidade uma grande Família de Irmãos.
É uma instituição de paz e amor, aberta às mais nobres aspirações, onde se realiza a união necessária, a fecunda de coração e espírito, onde se adquire o equilíbrio interior, onde os caracteres se afirmam e se consolidam.
É uma instituição em que a Fraternidade é uma influência ou guia espiritual para a concepção mais nobre e mais elevada da vida, que não é contra ninguém, porque é uma força indestrutível, nobre, generosa, porque é a luz da razão.
É uma instituição que prepara o terreno onde florescerão a Justiça e a Paz, a sua única arma é a espada da inteligência. Sabe que o único modo de produzir, mesmo socialmente, uma mudança profunda e durável de um meio, é de modificar a sua mentalidade.

Um instituição que ensina o valor eterno dos princípios de cultura humana e individual, independente dos lugares e épocas, proporciona aos indivíduos e aos seus grupos, a noção clara e certa da Solidariedade, do Amor, do Direito, da Justiça e da Liberdade.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Recreação

Caros Leitores, Amigos e Irmãos, votos de Saúde e Fraternidade.

Este vosso/nossso Blog esteve em pausa de trabalhos e publicações, sim, que em Maçonaria os trabalhos nunca acabam, ficam suspensos para serem retomados nos momentos ou na data seguinte, simbolizando o trabalho contínuo e o constante aperfeiçoamento do eu interior de cada um e da Ordem em geral.
Terminado o período da recreação os trabalhos tomam de novo força e vigor!

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 10 de julho de 2007

Sons do Silêncio

Certo dia um rei mandou o seu filho estudar no templo de um grande mestre, com o objectivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa.
Quando o príncipe chegou ao templo, o mestre mandou-o sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta. Quando o príncipe voltou ao templo, após um ano, o mestre pediu-lhe que descreve-se todos os sons que conseguira ouvir.
O príncipe disse: - Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na floresta, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus...
Quando terminou o seu relato, o mestre pediu ao o príncipe que volta-se à floresta, para ouvir tudo o mais que fosse possível.
Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu à ordem do mestre, pensando: "Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta..."
Por dias e noites, ficou sozinho, ouvindo, ouvindo, ouvindo...mas, não conseguiu distinguir nada de novo, além daquilo que havia dito ao mestre.
Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E quanto mais atenção prestava, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou: "Esses devem ser os sons que o mestre queria que eu ouvisse..."
Sem pressa, ficou ali, ouvindo, ouvindo, pacientemente. Queria ter a certeza de que estava no caminho certo.
Quando voltou ao templo, o mestre perguntou-lhe que mais conseguira ouvir.
Paciente e respeitosamente, o príncipe disse: - Mestre, quando prestei atenção, pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra, o som da floresta a beber o orvalho da noite...
O mestre sorrindo, acenou com a cabeça, em sinal de aprovação, e disse: - Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma grande pessoa.

Nesta fábula, fica como moral da história, que apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, os seus sentimentos mudos, os seus medos não confessados e as suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor, entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um.
A morte do espírito começa quando as pessoas ouvem, apenas, as palavras pronunciadas pela boca, sem atentarem no que vai no interior das pessoas para ouvir os seus sentimentos, desejos e opiniões reais.
É preciso, portanto, ouvir o lado inaudível das coisas, o lado não mensurado, mas, que tem o seu valor, pois é o lado mais importante do ser humano.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 3 de julho de 2007

Vale a pena ser maçon?

Estou ligado à Maçonaria há cerca de três anos. Será pois oportuno perguntar a mim mesmo se, nos dias que correm, vale a pena ser maçon.
Não sou sociólogo, pelo que a análise que faço do mundo que me rodeia é a de um leigo na matéria. No entanto, a sensação que tenho é de que a nossa sociedade está a atravessar uma fase em que impera o egoísmo e o vazio das ideias. E não me refiro apenas ao nosso país, mas à generalidade das nações. Proliferam as guerras, os atentados com bombistas suicidas e os fundamentalismos. Verifico com horror que a pedofilia é um monstro muito maior e mais poderoso do que alguma vez imaginei.
Fala-se muito em globalização, mas torna-se cada vez mais evidente que esta não inclui valores éticos ou de diálogo amigável entre os povos. Pelo contrário, é de puro materialismo em que o que conta é apenas o lucro. Valores como a solidariedade ou as preocupações sociais nada valem para as multinacionais que são quem mais fomenta essa globalização. “Deslocaliza-se” para onde a mão-de-obra seja mais barata e despedem-se milhares de trabalhadores com a maior das naturalidades.
No que se refere à religião, talvez eu andasse distraído, mas parece-me que nunca houve tantas seitas e religiões “alternativas”, como nos nossos dias. As pessoas buscam respostas para uma faceta muito importante das suas vidas: a espiritualidade. E há sempre quem esteja pronto para se servir dessa carência para apresentar as suas “verdades”. Pelo menos nalguns casos, tais seitas geram receitas milionárias e tornam-se elas mesmas multinacionais. Vendem milagres, prometem o céu, mas não esquecem o seu verdadeiro objectivo: o dinheiro.
Não me lembro de alguma vez haver como hoje tantos astrólogos, numerólogos, videntes, e afins. Claro que nem com todos os seus “conhecimentos” juntos conseguem descobrir uma qualquer criança raptada. Mesmo assim, os seus negócios prosperam.
Por outro lado também acho que nunca houve tantas revistas dedicadas a temas a que chamamos “cor-de-rosa”. Até as rádios, mas em especial as televisões não fogem à moda, pelo contrário, aproveitam-na.
Nos órgãos de informação, o espaço dedicado à cultura, ao estudo ou à divulgação das ciências e das artes é cada vez menor.
Perante este quadro, sinto ser absolutamente necessária uma força que, de uma forma empenhada e a nível mundial, promova a paz e a liberdade, a tolerância e a justiça social, assim como a cultura e o combate à ignorância.
Durante a minha caminhada desde o grau de Aprendiz, fui formando a minha própria ideia do que é Maçonaria. No meu entender, ela é uma extraordinária instituição iniciática, onde cada um de nós sente cada vez mais como indispensável o seu aperfeiçoamento pessoal nas suas diversas vertentes: moral, intelectual, social e familiar. Mas a Maçonaria não poderia ser apenas uma escola de aperfeiçoamento dos seus membros, pois é também uma instituição filantrópica, onde a prática desinteressada da beneficência deverá ser uma constante.
Por outro lado, compreendi que a filosofia que lhe está subjacente proclama com clareza a prevalência do espírito sobre a matéria, pugna pelos mais altos valores da humanidade, enaltece o trabalho, recusa qualquer tipo de intolerância política, religiosa, sexual ou racial, considera a liberdade de pensamento e de expressão como direitos fundamentais do ser humano, assim como estimula o estudo e a educação para eliminar a ignorância e a superstição.
Ou seja, uma vez que entendo a Maçonaria como uma instituição defensora da paz, da justiça, da tolerância e do bem-estar para todos os seres humanos, estou profundamente convencido de que ela pode ser a força que a humanidade necessita para enveredar pelo rumo que a conduza à paz em liberdade, que afinal as pessoas de boa vontade do mundo inteiro tanto desejam.

Poderão dizer que a Maçonaria é apenas um sonho, talvez mesmo uma utopia, mas vale a pena lutar por ela, pois quem não sonha não vive…
Ser maçon implica um esforço permanente e até alguns sacrifícios tanto materiais como dos escassos tempos livres. Mas depois de ter aprendido o que é de facto ser maçon, a minha resposta à pergunta inicial só pode ser uma: sim, vale a pena.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 26 de junho de 2007

Considerações por um Solstício

O solstício de Verão, recentemente ocorrido, marca o apogeu do percurso solar: o Sol está no zénite, no ponto mais alto do céu.
Trata-se de uma data particularmente festejada pela Maçonaria, que escolheu o Sol como um dos símbolos principais em torno dos quais gira a liturgia desta Ordem Universal – circunstância que, aliás, se encontra inequivocamente plasmada pelo destaque que lhe é concedido na decoração dos Templos.
Para além de outros significados que ocorrem em concomitância, o Sol simboliza a inteligência cósmica, aquela que guia a Razão, fonte do Conhecimento sempre almejado pelos Maçons mas jamais alcançado na sua plenitude.
Todavia objectivo inatingível, ao iniciado é cometida a tarefa inesgotável de perseguir os caminhos do Conhecimento – razão primeira e última das actividades que se desenrolam nos trabalhos em Templo, desenvolvidos pelos obreiros, os quais, por seu turno, devem socorrer-se da Geometria Simbólica para traçar pranchas que constituam não peças acabadas, mas sim contributos para uma reflexão individual e colectiva.
É neste contexto que o Conhecimento é a forma mais eficaz de derrotar o Obscurantismo que tem sido causa de grandes males que se têm abatido sobre a Humanidade, em geral, e sobre a Ordem Maçónica, em particular – desde a eclosão das ditaduras até às atitudes persecutórias e intolerantes desenvolvidas em nome de religiões ou de deuses cujo nome apenas é utilizado como pretensa justificação de homens que utilizam a manipulação para a prossecução de objectivos inconfessáveis.
Mas o Sol é, também, uma referência permanente na vida dos Maçons, porque, colocado a Oriente e irradiando para a Coluna do Sul, são os seus raios simbólicos que permitem tornar perceptíveis os conhecimentos que vão sendo adquiridos no longo e interminável percurso de quem teima e persevera no desbastar da Pedra Bruta.
Particularmente, considero que uma das grandes dádivas que a Maçonaria proporciona é a possibilidade de enveredar por um verdadeiro dédalo de conhecimentos, que nos fazem mergulhar não apenas naquilo que constitui o nosso Catecismo, como também em outras culturas – elas, outrossim, formas de conhecimento a que podemos ir tendo acesso.
Ora, é precisamente neste domínio que considero que as coincidências são, por vezes, arrepiadoramente óbvias. Assim – e como falamos de Sol – não deixa de ser curioso que os raios solares com os quais são identificados os cabelos de Xiva (terceiro, repito, terceiro deus da trindade hindu) são tradicionalmente sete (repito, sete). E o Sol é também o personagem da obra “O Ancião dos Dias”, do poeta britânico do século XVIII William Blake, que relata o deus solar medindo o céu e a terra com a ajuda de um compasso (repito, com a ajuda de um compasso).

Saudemos, pois, o Solstício, com o Sol ocupando o ponto mais alto de onde pode partir a nossa marcha rumo ao Conhecimento, que une as vocações libertárias, igualitárias e fraternas da Ordem Maçónica Universal.

Autor: Álvaro

terça-feira, 19 de junho de 2007

Acácia

“É preciso saber morrer para nascer para a imortalidade”
Gérard de Nerval

Quando hoje ouvimos falar de Acácias associamo-las ao flagelo dos fogos florestais e às espécies infestantes que ameaçam a vegetação autóctone, com efeito sendo uma espécie adaptada aos fogos florestais tende a proliferar após estes, em especial as variantes australianas introduzidas, mas disso já falaremos.
O fogo e o seu controlo foram fundamentais para o desenvolvimento da humanidade, pensemos na cerâmica e talvez ainda mais importante o desenvolvimento da siderurgia só possível através do domínio do fogo. Assim o fogo irá assumir um papel fundamental na imagética da humanidade, por um lado associado aos infernos, por outro à regeneração, valorizando o que lhe estava associado. Hoje a equação surge-nos alterada pela vulgarização do seu domínio e pelo horror das suas potencialidades, os crescentes fogos florestais cada vez com mais impacto no homem mas também o espectro infernal de um possível holocausto nuclear. Quão longe estamos da versão alquímica de INRI da cruz - IGNIS NATUREA RENOVATUR INTEGRA (pelo fogo se renova a natureza inteira).

Mas indo à dendrografia e a outros aspectos associados, o género das acácias é muito vasto, pensando-se que poderá ser constituído por umas 1200 espécies repartidas pelos climas temperados e tropicais, só na Austrália onde são consideradas emblema nacional crescem umas 660 variantes, (duma das quais são feitos os conhecidos boomeranges) e serão estas, que importadas se tornam infestantes já que estão adaptadas aos fogos, pelo que após estes se desenvolvem muito rapidamente não dando oportunidade às espécies autóctones. É o que se passa em Portugal, onde foram introduzidas por D. Fernando de Saxe-Coburgo Gotha no parque da Pena em Sintra, pelo seu valor ornamental e aroma, que aliás já tinha seduzido o papa Paulo III (1534-1549) em Roma.

A madeira de acácia é escura, pesada e de grão mais ou menos, forte e resistente à putrefacção quando enterrada. Era a mais empregue das madeiras autóctones do Egipto e segundo Heródoto era a mais empregue nas barcas de carga do Egipto (seria de madeira de acácia a barca de Osíris), também era utilizada em móveis sarcófagos, caixas, arcas, etc. Teofrasto no séc III a.C. menciona pelo menos duas espécies de acácia a de madeira branca e a de madeira negra esta mais consistente e duradoira, fonte não só de madeira mas também de goma-arábica, casca para curtir os couros e forragem para o gado. Esta acácia será provavelmente a babul ou acácia do Nilo (Acacia nilotica L.).

A acácia está ligada a valores mistícos solares e triunfantes, na Índia a concha sacrificial (sruk) atribuída a Brahma era em madeira de acácia, o fogo sagrado sacrificial era obtido pela fricção de um pau de figueira sobre madeira de acácia (aqui a acácia toma o valor feminino por oposição à figueira que encarna o masculino), uma lenda africana coloca a acácia na origem da romda, (instrumento musical iniciático, em que se faz girar um pau de acácia preso por uma ponta a uma corda) na tradição judaico-cristã a coroa de espinhos da paixão de Cristo seria de acácia, simbolizando os raios de sol, madeira quase incorruptível dela seria feita a arca da aliança e seus varais, e depois coberta a ouro, assim como a mesa dos pães oferecidos a Deus e o altar dos holocaustos, este forrado a bronze, finalmente na maçonaria um ramo de acácia é utilizado para lembrar aquele arbusto que foi plantado sobre o túmulo de Hiram. Esta madeira como se disse quase incorruptível com espinhos temíveis e flores de leite e sangue é um símbolo solar de renascimento e imortalidade.
É através da procura do conhecimento que a verdade se torna transparente, e os equívocos e diferenças são resolúveis.
Autor: Éolo

terça-feira, 12 de junho de 2007

Na escada

A entrada do prédio era escura. Dia e noite tinha uma lâmpada acesa que lutava ingloriamente contra a escuridão. De dia mal se via se estava ou não acesa devido à luz que vinha da rua. Durante a noite o seu papel poderia ser mais eficaz, mas não era. Atravessava-se a estreita e longa passagem mais por a conhecer do que por aí se ver fosse o que fosse.

Tinha uns dezasseis anos e vinha de assistir a uma corrida de ciclismo. Tinha levado a chave de casa da avó, o que o fazia sentir que já era um homem!
Passava da meia-noite quando chegou à entrada do prédio. Como sempre, a porta estava apenas encostada. Foi percorrendo com cuidado o escuro corredor de entrada. Por fim a escada que deveria subir e que a luz da cidade iluminava vagamente através da suja clarabóia lá bem no alto do edifício. Adivinhava-se, mais do que se via.
Ao virar a esquina e colocar o pé no primeiro degrau, ouviu uma voz lamentosa de mulher. Estava deitada nos degraus e ergueu-se um pouco com a sua chegada. Parecia estar enrolada num cobertor. As únicas palavras que proferiu eram uma súplica: «oh meu senhor, deixe-me ficar aqui». Não sabia como responder. Nunca teve facilidade em responder de repente a coisa alguma. Para mais sentiu uma emoção desconhecida embargar-lhe as palavras. Por fim conseguiu articular: «fique descansada». Confuso e atormentado, subiu as escadas escuras.

Quando entrou já todos dormiam. Também ele foi para a cama, mas demorou muito até que o sono lhe chegasse. Revia a mulher deitada na escada, tentava imaginar os motivos que a levariam a estar ali, sem ter o seu próprio tecto e as dores que os degraus lhe causariam no corpo. Como seria possível dormir em tais condições? Pensou que, se fosse dono da casa, lhe arranjaria uma cama. Mas não era e não convinha acordar a avó que se levantava antes das seis.

A sua imagem do mundo começava a sofrer rombos. Até então acreditava estar no melhor dos países, no melhor dos regimes, com o mais sábio dos governantes que nos tinha livrado dos horrores da II Grande Guerra, onde tudo estava bem e ia ficando cada vez melhor apesar dos terroristas lá na Guiné, Angola e Moçambique.
Também lhe tinham ensinado que nem um só cabelo cai da cabeça das pessoas sem que Deus o saiba. Melhor ainda, cada um de nós tinha o seu anjo da guarda. Afinal havia quem tivesse de dormir numa escada... Onde estavam os anjos? Os do céu e o da terra?

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 5 de junho de 2007

A Chamada...

Contemplei a Lua,
Vi o Sol resplandecente,
Ouvi os assobios do Vento,
Senti o sabor Salgado nos lábios depois de ter saciado a minha sede com água Doce,
Meditei sentado sobre Pedra.
O Sol prosseguiu a sua trajectória atingindo os seus raios a verticalidade, apercebi-me que era meio-dia, procediam à chamada para mais um dia de trabalho.
Reparei que houve quem não respondesse à chamada, por ter passado ao Oriente Eterno.

Pranteamos, pranteamos, pranteamos... e cobrimo-los com ramos de acácia, pois tinham trabalhado arduamente na pedra bruta para atingir a pedra cúbica e continuar a construção do Templo, deixando como legado o saber, o conhecimento, em que as questiúnculas da vida mundana não têm lugar.
Honremos a sua memória e recordemo-nos de todos os Irmãos para todo o sempre, pois apesar da carne se ter desprendido dos ossos e não terem respondido a chamada, o exemplo deixado deve permanecer imaculado na nossa memória e aproveitado para corrigir os eventuais erros que o egoísmo humano pode determinar, porque no fim somos uma só pedra.
Bem Haja...

Autor: Salomão

terça-feira, 29 de maio de 2007

Fábula do Camelo

A propósito das questões sobre o Conhecimento, que tão oportuna e judiciosamente aqui têm sido trazidas por alguns Irmãos, gostaria de reforçar a pertinência das mesmas, sobretudo no que concerne ao posicionamento dos Maçons, quer no seio da nossa Ordem Universal, quer enquanto agentes activos e actuantes no mundo profano.

É neste contexto que La Fontaine, se ainda estivesse vivo, poderia ter escrito aquilo a que chamo de “Fábula do Camelo”.

Com efeito, a mãe e o bebé camelo descansavam, quando, de repente, o bebé acomete:
- Mãe, mãe, posso fazer-te umas perguntas?
- Com certeza! Mas porquê, filho? Há alguma coisa que te preocupe?
- Não, mas por que é que os camelos têm bossas?
- Bem, filho, nós somos animais do deserto, precisamos de bossas para armazenar água. Somos conhecidos por sobrevivermos sem água.
- Okay. Então por que é que temos pernas compridas e pés arredondados?
- Filho: são apropriados para caminhar no deserto. Sabes, assim podemos deslocar-nos naquele meio melhor do que qualquer outro.
- Okay. Então por que é que temos pestanas tão compridas? Às vezes até me perturbam a visão!
- Filho: estas pestanas servem-nos de protecção. Ajudam a proteger os nossos olhos da areia e dos ventos do deserto.
- Não compreendo. Se as bossas servem para armazenar água quando estamos no deserto; se as pernas servem para caminharmos na areia; se as pestanas protegem os olhos das tempestades de areia… então que raio estamos nós a fazer aqui no jardim zoológico?
Se isto fosse uma história, poderia terminar aqui. Mas, como é uma fábula, termina com a moral da história: aptidões, saber, capacidade e experiência só têm utilidade se estivermos no lugar certo.

E pronto. É desta forma que pretendo exprimir a minha congratulação e o meu regozijo pelas pranchas que alguns Irmãos têm apresentado. Ao demonstrarem as suas aptidões para o desbastar da pedra bruta, ao evidenciarem o seu saber em questões que são do interesse comum, ao transmitirem a sua capacidade para o cabal desempenho das funções que estão cometidos, ao legarem a sua experiência como forma solidária de partilha e ao fazerem tudo isto entre nós e nos espaços que partilhamos, fazem-nos sentir que estamos, de facto, por opção e sem transigência, no lugar certo para a prossecução de um trabalho que nos conduz a mais elevados patamares de Conhecimento, quer em termos absolutos quer de nós próprios – afinal um dos primeiros e últimos objectos da Maçonaria.

É, aliás, a predisposição para trilhar com firmeza o caminho do Conhecimento, um dos maiores desafios que se colocam ao iniciado, até porque se trata de um combate sem tréguas contra o obscurantismo que pauta, ainda hoje, muitos dos actos que regem a sociedade em que vivemos e que conduzem, eles também, às mais diversas formas de fundamentalismos.

Por outro lado, o Conhecimento é o melhor conselheiro para que o recipiendário das luzes maçónicas enverede também pela senda da prudência que deve marcar as suas acções e os seus pensamentos, não se deixando conduzir pela irracionalidade dos ímpetos nem por juízos precipitados.

Perdoem-me, pois, se me socorri de camelos para falar do Conhecimento. É que são eles os principais habitantes dos desertos, onde cada grão de areia se junta aos outros em perfeita justaposição, todos semelhantes como irmãos que se unem num imenso espelho que reverbera a luz do Sol nascido no Oriente. E todos tão semelhantes como os bagos das romãs, que derramam a fraternidade à entrada dos templos onde o Conhecimento constitui o elo que liga os homens livres e de bons costumes por toda a face do universo. No lugar certo.

Autor: Álvaro

sábado, 12 de maio de 2007

Grande Oriente Lusitano 1802 – 2007 * 205 anos da Maçonaria Portuguesa

O Grande Oriente Lusitano (GOL) foi criado em 1802, tendo o tratado de reconhecimento sido assinado em 12 de Maio desse ano, pela Grande Loja de Inglaterra. Em 1806 foi possível aprovar a sua primeira Constituição.

Em Portugal, a Maçonaria teve sempre um papel muito importante na sociedade civil. Foi assim que esteve na linha da frente nas lutas liberais, no século XIX, e na fundação da Primeira República em 1910. Deve-se-lhe a criação das leis de separação das Igrejas do Estado, do Registo Civil, de um grande número de escolas, orfanatos, centros republicanos e muitas mais realizações de cariz sócio-cultural.

Em 1935, o ditador Salazar mandou votar a Lei n.º 1901 que proibiu as Sociedades Secretas, ou seja a Maçonaria, tendo confiscado os seus bens, assim como os das sociedades de beneficência criadas por ela. O Palácio Maçónico, sede do GOL, adquirido em 1869, pelo Grémio Lusitano, a face profana da Maçonaria, foi também ocupado pela Legião Portuguesa, a milícia do Estado Novo.

Depois de 25 de Abril de 1974, data da Revolução dos Cravos, a Junta Militar que ocupou provisoriamente o poder, restituiu as instalações do Grémio Lusitano. Na mesma linha, o Primeiro Governo Constitucional, chefiado por Mário Soares, fez votar a Lei n.º 929/76, de 31 de Dezembro, que atribui uma indemnização para reparação da destruição que ocorreu durante a ocupação.

O Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, designação oficial retomada em 1982, manteve sempre as luzes acesas, mesmo durante os períodos mais sombrios da história do país. O GOL orgulha-se também de ter dado a Portugal alguns dos nomes mais prestigiados da sua história em sectores tão diferentes como a política e a administração, a ciência, a religião, as forças armadas, a cultura, as artes e a música, o teatro, o movimento feminista, o desporto, o mundo económico e o movimento social e operário.

O regresso da democracia permitiu que algumas Lojas adormecidas tenham retomado a actividade e que muitas Lojas novas tenham erguido colunas. Actualmente, o GOL tem federadas cerca de sessenta Lojas, entre as quais uma em Macau (China). Os Ritos Escocês Antigo e Aceite e Francês ou Moderno são praticados com toda a fraternidade e harmonia.

O Museu Maçónico, sedeado no GOL, está aberto ao público e regista um crescente número de visitantes. Pela sua qualidade e prestígio estás prestes a integrar a rede nacional de museus.

Pautando o seu comportamento pelo rigoroso respeito do princípio de não ingerência nas lutas políticas partidárias e reconhecendo naturalmente aos irmãos a liberdade total de opinião, de espiritualidade e de religião, o Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa pode afirmar-se como sendo uma escola de valores éticos, que não esquece as tradições iniciáticas que constituem o cimento da nossa Obediência.

A Liberdade, a Igualdade e Fraternidade, bem mais que uma máxima, são a razão de trabalho permanente, que permite aos nossos Irmãos aperfeiçoarem-se, na procura de uma sociedade mais justa, que se paute pelo respeito dos Direitos Humanos, para instituir a harmonia na Humanidade.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 8 de maio de 2007

Homenagem aos Maçons na Clandestinidade

O Grande Oriente Lusitano, por altura da realização do 1.º Encontro Internacional de Lisboa e do 205.º aniversário da sua fundação, decidiu homenagear os 7 (sete) irmãos que restam neste momento em actividade e que foram iniciados durante o período em que a Maçonaria esteve forçada a trabalhar em clandestinidade, entre 1935 e o 25 de Abril de 1974.

Para o efeito, foi atribuído a estes 7 irmãos um título Honorário pelos serviços prestados à Ordem maçónica durante o período de clandestinidade, simbolizando nestes irmãos, todos os Irmãos que durante a ditadura, com perseverança, abnegação e risco da própria vida, mantiveram a Maçonaria activa, permitindo assim, que após o 25 de Abril de 1974, a Ordem fosse retomando força e vigor e se apresente hoje como uma pujante Potência Maçónica com expressão na vida nacional e plenamente integrada na Comunidade Maçónica Internacional.

Esta homenagem serve, também, para nos recordar que o nosso país viveu um período negro da sua História e com consequências nefastas para os Portugueses, bem como quão importantes e fundamentais são a Liberdade, os Direitos Humanos, a Justiça Social, os Direitos de Cidadania.

Obrigado, Queridos Irmãos, bem hajam!

Autor: Júlio Verne

sábado, 5 de maio de 2007

1.º Encontro Internacional de Lisboa - Religiões, Violência e Razão

Com mais de cem participantes inscritos, realizou-se no dia 5 de Maio, o 1.º Encontro Internacional de Lisboa, convocado pelo Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa e organizado pelo Grémio Lusitano, subordinado ao tema “Religiões, Violência e Razão”.
Estiveram presentes delegações dos seguintes países: França, Grécia, Brasil, Itália, Bélgica, Suiça, Estados Unidos da América, Turquia, Espanha e Portugal, representando as respectivas Potências Maçónicas.
Foram proferidas 25 intervenções, e confirmando a importância dos temas em debate, muitos credos religiosos fizeram-se representar: cristãos (católicos e protestantes), muçulmanos (sunitas e xiitas), judeus, budistas, bem como laicos.

Professor Doutor António Reis, Grão Mestre do GOL, deu as boas-vindas com o discurso de abertura do Encontro, seguindo-se a Comunicação do Professor Doutor Eduardo Lourenço.

Nos Painéis sobre “As Religiões e a Maçonaria no séc. XXI”, intervieram:
Claude Gueydan; Fernando Catroga; Ina Piperaky; Anselmo Borges; Michel Miaille; Luís Vaz; Paulo Mendes Pinto; Paulo Borges; Francisco Alves Teixeira; António Costa Pinto; Dimas de Almeida; Marco Oliveira e Durval de Oliveira.

Nos Painéis subordinados ao tema “As Religiões e a Violência”, intervieram:
Adelino Maltês; João Rocha Pinto; Luís Mateus; Olivier Maendly; Can Arinel; Abel Pinheiro; Sheik Munir; António Matos Ferreira; Faranaz Keshavjee; Joshua Ruah e Maria Belo.

Encerrou o Encontro o Grão Mestre do GOL.

“Embora nos tempos antigos os maçons fossem obrigados, em cada País, a ser da Religião, qualquer que ela fosse, desse País ou Nação, julga-se agora mais conveniente obrigá-los apenas àquela Religião com a qual todos os Homens concordam, deixando a cada um a sua opinião particular, isto é, serem Homens bons e verdadeiros, ou Homens de Honra e Honestidade, quaisquer que sejam as denominações ou crenças que os possam distinguir”. As Constituições dos Franco-Maçons, 1723.
Num mundo dramaticamente marcado por práticas de violência guerreira e mesmo terrorista, exercidas em nome de crenças de natureza religiosa entrecruzadas com objectivos de natureza política, e num tempo em que o racionalismo humanista herdado das Luzes sofre o assédio do relativismo pós-moderno, impunha-se, com efeito, uma reflexão aprofundada sobre um conjunto de questões que preocupam sobremaneira crentes e não crentes, profanos e maçons, no sentido de conseguir algumas respostas susceptíveis de nos orientarem no desbravamento dos caminhos da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 1 de maio de 2007

Vitrúvio

Já se tem falado do séc. XX como de uma nova idade das trevas. Ao obscurantismo dogmático religioso medievo corresponderia o obscurantismo dogmático científico pelo qual tudo o que não tivesse cabal leitura científica não seria verdadeiro. Todos sabemos das grandezas e limitações da ciência, e que o que é verdade hoje pode não sê-lo amanhã, a própria formulação do principio de Heisenberg, prémio Nobel da física e um dos fundadores da mecânica quântica estabelece a incerteza ao afirmar que não é possível medir simultaneamente a posição e velocidade de um objecto quântico. Hoje como no passado o problema são as manipulações que se fazem a pretexto de um qualquer ideal e a visão redutora de se tomar a parte pelo todo. À desconsideração pela ciência veio opor-se a desconsideração pelo espiritual esquecendo que só no encontro do ser espiritual com o ser material se pode encontrar o equilíbrio.
Neste sentido é com satisfação e esperança que vejo um novo interesse pelas obras clássicas. Têm vindo a ser editadas obras cujas traduções nos honram pela consideração internacional que têm vindo a merecer e pelo acesso a fontes que nos têm vindo a proporcionar. Falo da Divina Comedia traduzida por Vasco Graça Moura, da Ilíada e Odisseia traduzidas por Frederico Lourenço, mas também das notáveis edições de Vitrúvio, tradução do original latino por Justino Maciel, e da tão esperada por nós tradução de ”As Constituições dos Franco Maçons” de James Anderson por Salvato Telles de Menezes.

“Utilitas, Firmitas, Venustas” são os três princípios enunciados por Vitrúvio como base para o primeiro tratado de arquitectura, os “Decem Libri” livro fundacional e sempre copiado.
Lembremo-nos que desde os Gregos o número três é o número associado à ciência, porquê? Porque o três é o número resultante da soma das duas proposições com a conclusão, princípio da lógica, ou misticamente a resolução da dualidade pelo seu equilíbrio, também o triângulo é a primeira das formas geométricas planas (que antecede o quadrado ou como o número está para o que se segue, as pirâmides egípcias não são tetraedros mas sim pirâmides de base quadrangular o que faz com tenham ainda cinco vértices ou faces).
Em maçonaria três são as colunas do Templo, (ou quatro...) ou indo às origens, na Bíblia as personagens ligadas à construção do Templo de Salomão personificariam as três colunas, Hiran Habif seria a Beleza, enquanto Hiran, rei de Tiro, seria a Força, e Salomão a Sabedoria (segundo notas de Salvato Menezes).
Vitrúvio não só foi referencial para todos os tratadistas desde o renascimento até ao neoclassicismo (quem não reconhece a interpretação feita por Leonardo das medidas Vitruvianas do homem) como esteve na base da renovação da arquitectura moderna iniciada em Paris e depois consagrada na “Carta de Atenas”.
Mas já agora o que sabemos de Vitrúvio? Pouco e essencialmente pelos seus próprios escritos nos preâmbulos dos dez livros, de resto não há certeza do seu nome completo Marco Vitrúvio Polião, que provavelmente se deve a confusões com outros Vitrúvios, já que só aparecem referidos em textos a partir do séc. XV. A redacção da obra terá acontecido entre 35 e 25 a.C. podendo a entrega ao Imperador Octávio César Augusto ter decorrido por volta de 20 a.C., tudo isto se depreende da leitura da própria obra que poderá não ter sido toda escrita ao mesmo tempo. Sabemos que terá estado ao serviço de Júlio César nas suas campanhas e seria protegido de Octávia irmã do Imperador. Os sete primeiros livros tratam da Arquitectura propriamente dita aos quais terá juntado mais três sobre Hidráulica, Astronomia e Mecânica para obter o número ideal Pitagórico de dez.
Mas citemos o próprio Vitrúvio. “O princípio da solidez estará presente quando for feita a escavação dos fundamentos até ao chão firme e se escolherem diligentemente e sem avareza as necessárias quantidades de materiais. O da funcionalidade, por sua vez, será conseguido se for bem realizada e sem qualquer impedimento a adequação do uso dos solos, assim como uma repartição apropriada e adaptada ao tipo de exposição solar de cada um dos géneros. Finalmente, o princípio da beleza atingir-se-á quando o aspecto da obra for agradável e elegante e as medidas das partes corresponderem a uma equilibrada lógica de comensurabilidade.”

Vitrúvio foi também o nome simbólico do irmão Joaquim Possidónio Narciso da Silva arquitecto e arqueólogo, fundador do Museu Arqueológico do Carmo, iniciado entre 1838 e 1842 numa das lojas Regeneração de Lisboa, do Grande Oriente Irlandês tendo vindo a ser Grão-Mestre desta obediência entre 1851 e 1853.

Para terminar, como comecei, com livros, homenagem a Bocage e Ovídio. Quem não se deleitou com a sua tradução das Metarmofoses, infelizmente interrompida por motivos de saúde, tão mais poética mas menos exacta que a finalmente tão esperada, se bem que ainda incompleta tradução, de Francisco Lucas (está para sair o segundo volume).

É que uma civilização que esquece o passado é uma civilização que hipoteca o futuro.

Autor: Éolo

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Alguns maçons e o 25 de Abril

A 17 de Março de 1974, estive de serviço na RTP. A então responsável pelas Relações Internacionais, Manuela Furtado apresentou-me três jornalistas da televisão pública holandesa que tinham vindo a Lisboa para cobrir, a então noticiada internacionalmente “intentona das Caldas”. Como pretendiam entrar em contacto com algum dos revoltosos, ainda a monte, lá fui num Alfa Romeo verde escuro de matricula suíça, que o meu irmão tinha. Chegados às Caldas o meu amigo José Carlos Nogueira, levou-nos a jantar para no dia seguinte, logo pela manhã irmos comprar meias de senhora de nylon preto, junto ao largo da Praça, do resto tratava ele Nogueira. Já no carro do Maldonado que entretanto se tinha juntado a nós, seguimos para o lado da lagoa, onde foi possível fazer uma entrevista com um dos militares revoltosos. Fiquei espantado com a pequenez dos equipamentos que os holandeses traziam. Captação de imagem e som, não ocupavam mais que três vulgares maços de cigarros. Depois regressamos a Lisboa mas à entrada da cidade percebi que estava a ser seguido. Disse aos holandeses para se segurarem e como o carro era muito rápido lá me consegui safar.

Passados dias deu-se o esperado 25 de Abril, às cinco da manhã o telefone toca em minha casa. Era o Maia Cadete que me pedia para ouvir o Rádio Clube Português. Daqui “Movimento das Forças Armadas, etc, etc, etc”. Percebi que era aquele o dia. Vim imediatamente para a rua, dei uma volta pequena pela cidade e decidi então ir para os estúdios do Lumiar, que tinham sido ocupados nessa noite pela Escola Prática de Administração Militar, comandava o então capitão Teófilo Bento. Às primeiras horas da manhã, encarregou o João Soares Louro de tratar de toda a logística referente à RTP. A mim encarregou-me da realização das emissões. À hora certa lá foi para o ar o Telejornal da noite, apresentado pelo Fialho e o Balsinha e mais adiante, também em directo, a proclamação da Junta de Salvação Nacional. Depois lá ficámos a descansar pelos cantos, à espera de chatices que acabaram por não acontecer. Trabalharam para esta emissão no local pelo menos quatro maçons.

Autor: O rebelde

sábado, 21 de abril de 2007

Liga Portuguesa dos Direitos do Homem

Esta Associação foi fundada em Abril de 1921, por iniciativa de Sebastião Magalhães Lima (Grão Mestre da Maçonaria Portuguesa) à semelhança de organizações congéneres fundadas internacionalmente e destinava-se a “defender e fazer vingar os princípios de liberdade e justiça enunciados nas Declarações dos Direitos do Homem proclamados em 1789 e 1793”. Para o efeito, a Liga propunha-se “combater o abuso da autoridade, a ilegalidade, o arbítrio, a intolerância, o facciosismo e atentados à humanidade. O seu primeiro Directório foi composto por maçons e não-maçons, tendo assumido a Presidência Magalhães Lima. Teve os seus primeiros Estatutos em 21.04.1922.

A Liga Portuguesa dos Direitos do Homem como precursora dos Direitos do Homem, teve, posteriormente, outros documentos fundamentais que passaram a constituir outros pontos de referência, entre eles a Declaração Universal dos Direitos do Homem, de 10 de Dezembro de 1948.

A Liga exerceu uma acção importante de 1926 a 1974, mantendo bem alto o facho da Liberdade e Justiça, mau grado todas as dificuldades que lhe foram criadas pelos governos da Ditadura e do Estado Novo.
Mesmo depois de Abril de 1974 e ao longo de todos estes anos, e em vários contextos políticos, a Liga persistiu no seu objecto fundamental e contribuiu para melhorar a situação e a sensibilidade para os direitos humanos em Portugal.

Serve este artigo para lembrar que estamos a comemorar 85 anos da existência da Liga Portuguesa dos Direitos do Homem e evocar os que nos antecederam, maçons e não-maçons, que com prejuízo da sua própria vida nos legaram esta Instituição que nunca se deixou abater ou baixou os braços na luta persistente pela Liberdade e Justiça.

Nunca é tarde, é antes um dever cívico de cada um, e de todos nós, evocar e contribuir em quanto em nós caiba para manter e elevar a Liga, pois não nos iludamos, a luta pelo objecto inicial (Direitos Humanos e Justiça) e que deu origem a esta fundamental Associção é constante e presente.

Autor: Júlio Verne

domingo, 1 de abril de 2007

Saúde, ou nem por isso


«Artigo 64.º da Constituição da República Portuguesa - Saúde.
1. Todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover.
2. O direito à protecção da saúde é realizado:
a) Através de um serviço nacional de saúde universal e geral e, tendo em conta as condições económicas e sociais dos cidadãos, tendencialmente gratuito;
b) Pela criação de condições económicas, sociais, culturais e ambientais que garantam, designadamente, a protecção da infância, da juventude e da velhice, e pela melhoria sistemática das condições de vida e de trabalho, bem como pela promoção da cultura física e desportiva, escolar e popular, e ainda pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo e de práticas de vida saudável.
3. Para assegurar o direito à protecção da saúde, incumbe prioritariamente ao Estado:
a) Garantir o acesso de todos os cidadãos, independentemente da sua condição económica, aos cuidados da medicina preventiva, curativa e de reabilitação;
b) Garantir uma racional e eficiente cobertura de todo o país em recursos humanos e unidades de saúde;
c) Orientar a sua acção para a socialização dos custos dos cuidados médicos e medicamentosos;
d) Disciplinar e fiscalizar as formas empresariais e privadas da medicina, articulando-as com o serviço nacional de saúde, por forma a assegurar, nas instituições de saúde públicas e privadas, adequados padrões de eficiência e de qualidade;
e) Disciplinar e controlar a produção, a distribuição, a comercialização e o uso dos produtos químicos, biológicos e farmacêuticos e outros meios de tratamento e diagnóstico;
f) Estabelecer políticas de prevenção e tratamento da toxicodependência.
4. O serviço nacional de saúde tem gestão descentralizada e participada.

O texto actual da Constituição da República Portuguesa foi aprovado pela Lei Constitucional n.º 1/2001, de 12 de Dezembro.»

«Aprovada pela Lei n.º 48/90, Lei de Bases da Saúde, de 24 de Agosto, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 27/2002, de 8 de Novembro.

A Assembleia da República decreta, nos termos dos artigos 164.º, alínea d), 168.º, n.º 1, alínea f), e 169.º, n.º 3, da Constituição, o seguinte:
CAPÍTULO I - Disposições gerais
Base I - Princípios gerais

1 - A protecção da saúde constitui um direito dos indivíduos e da comunidade que se efectiva pela responsabilidade conjunta dos cidadãos, da sociedade e do Estado, em liberdade de procura e de prestação de cuidados, nos termos da Constituição e da lei.
2 - O Estado promove e garante o acesso de todos os cidadãos aos cuidados de saúde nos limites dos recursos humanos, técnicos e financeiros disponíveis.
3 - A promoção e a defesa da saúde pública são efectuadas através da actividade do Estado e de outros entes públicos, podendo as organizações da sociedade civil ser associadas àquela actividade.
4 - Os cuidados de saúde são prestados por serviços e estabelecimentos do Estado ou, sob fiscalização deste, por outros entes públicos ou por entidades privadas, sem ou com fins lucrativos. ...»
...
O Serviço Nacional de Saúde, foi concebido e criado com a finalidade de concretizar um dos princípios mais importantes da Sociedade, o de proporcionar os cuidados de saúde a todos os cidadãos, procurando que o seu acesso e prestação evolua no sentido da eficiência e da eficácia.
Sendo, a par da Educação, uma das pedras basilares de qualquer Sociedade que se pretenda justa, a Saúde constitui-se por isso, além do seu impacte social e financeiro, um dos maiores desafios para os Governos e Ministérios que a administram e uma área de apetência para grupos económicos e outras entidades empresariais.

Assim, e para melhor compreendermos o que se passa em termos de Saúde em Portugal, vejamos alguma informação muito simples:

- Há alguns anos, apareceram as "taxas moderadoras" supostamente para que os utentes comparticipassem directamente nos custos dos cuidados de saúde que lhes fossem prestados;
- Desde há anos que os "Seguros de Saúde" têm sido promovidos, teoricamente não como alternativa do Serviço Nacional de Saúde do qual não existe isenção contributória, mas como complemento àquele, no reconhecimento da sua real incapacidade de responder satisfatoriamente às necessidades;
- Desde há anos que os valores de comparticipação em medicamentos por parte do Estado têm diminuído;
- Hoje mesmo, entram em vigor as novas taxas moderadoras. Assim, os utentes do SNS vão começar a pagar as novas taxas moderadoras por internamento de 5€ por dia e de 10€ por cirurgia de ambulatório;
- Hoje mesmo, o ministério da saúde actualiza também o valor das restantes taxas moderadoras, acompanhando a inflação de 2006. Os utentes vão assim passar a pagar 4,30€ nas consultas nos hospitais centrais, 2,85€ nos hospitais distritais e 2,10€ nos centros de saúde. O atendimento nas urgências dos hospitais centrais passa a ter uma taxa de 8,75€, sendo de 7,75€ nos hospitais distritais, de 3,40€ nos centros de saúde e de 4,30€ no serviço domiciliário. Já nos exames radiológicos as taxas sofrem aumentos entre os 10 cêntimos para as ecografias (agora 4,50€) e os 60 cêntimos para as ressonâncias magnéticas (20,10€), enquanto que nas análises de sangue os valores mantêm-se inalterados.

Todos estes valores, podem parecer pequenos ou para muitos até ridículos, mas a realidade é que para os mais desfavorecidos, que por vezes são obrigatoriamente frequentadores dos serviços de saúde, aqueles valores são mais uma sobrecarga ao já magro orçamento com que sobrevivem. Assim, para quem aufira rendimentos a que lhe correspondam pouco mais de 10 euros diários e tendo em conta que muitos são obrigados a recorrer com frequência a cuidados de saúde com a compra necessária de medicamentos, pagar taxas moderadoras, torna-se a alternativa incontornável a outros bens essenciais, como a alimentação saudável ou a outros bens que contribuam para uma vida com o mínimo de conforto.

Se por um lado a Constituição consagra que todos têm direito à protecção da saúde através de um sistema tendenciamente gratuito, os Governos têm dito garantir o acesso dos cidadãos aos cuidados de saúde dentro dos limites humanos, técnicos e financeiros, sem que diga:

- Qual a prioridade de consciência política e social, de atribuição orçamental para a Saúde ?
- Qual a prioridade de consciência política e social, ao exigir comparticipação financeira no enquadramento das taxas moderadoras, enquanto atribui indemnizações na ordem de meio milhão de euros a gestores que por si são posteriormente recolocados em organismos, numa atitude financeira e socialmente difícil de entender e aparentemente imoral aos olhos de quem não a entenda ?

Estaremos a falar de Saúde, ou nem por isso, mas apenas estamos a ser incapazes de gerir e de relançar um Sistema Nacional de Saúde de facto, que resulte de atitudes de gestão concertadas e que sobreponham os objectivos nacionais aos políticos e pessoais ?
Autor: Sheikh

segunda-feira, 26 de março de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu o Dr. João Soares Louro

Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento do Dr. João Soares Louro no dia 26 de Março, aos 74 anos.

João Soares Louro, integrava o Conselho de Administração da Parque Expo desde 2006 como administrador não executivo.

Além de ter desempenhado o cargo de presidente do Conselho de Administração da RTP (1978-80), exerceu também funções de secretário de Estado da Comunicação Social e foi presidente da RDP.Considerado uma das personalidades mais marcantes da História da RTP, tendo sido responsável pela reestruturação da televisão pública e pela criação do "Canal RTP-2".

Dedicou quase toda a sua vida profissional à televisão, tendo promovido uma profunda transformação na estação em finais da década de 70, na passagem das emissões do preto e branco para cores. Enquanto presidente da RTP, João Soares Louro redimensionou e reequipou a televisão estatal, tendo também contribuído para o seu reequilíbrio financeiro, num mandato em que foram criados a Radiotelevisão Comercial e o Grupo Editorial da Empresa TV Guia.

Para além de presidente da televisão pública, João Soares Louro, para além de outros cargos que ocupou, foi ainda presidente da RDP no início da década de 90, numa altura em que se deu a privatização da Rádio Comercial.

João Soares Louro foi deputado entre 1976 e 1978 e subsecretário de Estado para a Comunicação no I Governo Constitucional, liderado por Mário Soares.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos do Dr. João Soares Louro e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Oriente Lusitano, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.

sábado, 10 de março de 2007

Choremos, choremos, choremos

Faleceu a Dra. Manuela Margarido

Foi com profundo pesar que soubemos do falecimento da nossa muito querida irmã, Manuela Margarido no dia 10 de Março aos 82 anos de idade.

Maria Manuela Conceição Carvalho Margarido nasceu em 1925, na roça Olímpia, ilha do Príncipe, e desde cedo abraçou a luta pela independência do arquipélago, denunciando com a sua poesia a repressão colonialista e a miséria em que viviam os são-tomenses nas roças do café e do cacau.

Estudou Ciências Religiosas, Sociologia, Etnologia e Cinema na Sorbonne de Paris, onde esteve exilada.

Após a independência das colónias portuguesas, foi embaixadora plenipotenciária da República Democrática de São Tomé e Príncipe em diferentes países (Bélgica, Grã-Bretanha, Países Baixos, Dinamarca, Suécia, Grão Ducado do Luxemburgo, República Federal da Alemanha, República Italiana) e junto das principais organizações internacionais: FAO, FIDA, ACP e UNESCO.

Em Lisboa, onde viveu, Manuela Margarido empenhou-se na divulgação da cultura do seu país, sendo considerada, a par de outras individualidades da cultura, um dos principais nomes da poesia de São Tomé.

Entre outras funções, foi membro do Conselho Consultivo da revista Atalaia, do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa (CICTSUL).
Personalidade marcante da luta anti-salazarista e dos valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade, pertencia ainda à Maçonaria Feminina.

O Grémio Estrela D'Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos da Dra. Manuela Margarido e o abraço fraterno às irmãs da Grande Loja Feminina de Portugal, em especial às irmãs da Respeitável Loja à qual aquela irmã pertencia.

Memória da Ilha do Príncipe

Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.

(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).

Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.

(poema da autoria de Maria Manuela Margarido)

terça-feira, 27 de fevereiro de 2007

Reflexão sobre o objectivo da Maçonaria

O objectivo da Maçonaria é o da procura da Verdade nos seus mais variados aspectos e utiliza como linguagem, fundamentalmente, a linguagem simbólica. Esta, que ainda há pouco parecia ultrapassada ganhou nova força e vigor devido ao reconhecimento por muitos (na literatura, na arte e até na ciência) da relatividade do conhecimento puramente racional.

O simbolismo maçónico mergulha as sua origens no esoterismo cristão (Joanista) mas, também, nas mais antigas fontes iniciáticas ( Caldaicas, Egipcias e Gregas). Para os antigos os instrumentos do seu conhecimento eram a Razão e a Fé, acreditavam que a primeira não pode alcançar tudo e sabiam dar lugar à intuição.
Na Idade Média os guardiões da tradição Esotérica foram os Judeus e os Árabes (sobretudo as seitas Fatimistas e Ismaelitas) exactamente na época em que os Templários estavam em contactos com eles...

O simbolismo permite, através do tempo e do espaço, estabelecer a relação adequada entre o sinal e as ideias e a iluminação que os símbolos provocam permite, simultaneamente, apreender os diferentes pontos de vista e unificá-los revelando a unidade que os transcende e fazendo passar do conhecido ao desconhecido, do visível ao invisível, do finito ao infinito. São os símbolos que ajudam à criação da iluminação intelectual que a Ordem tem por objectivo criar nas inteligências dos seus discípulos.

Por outro lado, a Verdade que todo o maçon persegue e que foi motivo da sua entrada na Ordem não poderá alcançar-se senão através da via do amor. Esta implica tolerância activa e humildade e faz compreender que é o conjunto que importa e que a razão individual vale só na medida em que participa no Absoluto, e é esta noção de amor, concebido como modo de apreensão do conhecimento, guiado pela tradição, que permite à razão individual alcançar a razão geral e a ideia universal, ou seja, a Verdade.

O esoterismo tradicional e os seus fins iniciáticos exerceram durante séculos uma influência considerável sobre as diversas formas de pensamento e as suas manifestações. Sabe-se desde Berger, que a razão didática não é a única forma de pensamento, e pela contribuição dada pelas grandes descobertas da ciência dilui-se a oposição simplista entre o materialismo e o espiritualismo. Assim, repõe-se hoje, em lugar de honra o princípio fundamental do Hermetismo: "A Unidade. Todo está em Tudo."

Por isso, a Maçonaria continua viva e, senão forem desvirtuados os seus objectivos, seguidas as vias que propõe, de forma corajosa e correcta, ela irá contribuir de forma importantíssima para o reencontro do Homem consigo mesmo, para a reintegração final do Homem na sua essência, tanto pelo intelecto como pelo coração.

Construamos pois a Maçonaria dentro e fora de cada um, Maçonaria que se posiciona como criadora de um homem novo, verdadeiramente irmão dos outros homens e que, com toda a propriedade, possa ser chamado de filho da Luz.

Autor: Albert Schweitzer, II