terça-feira, 18 de março de 2008

Jacques De Molay

Historiadores modernos acreditam que Jacques De Molay nasceu em Vitrey, França, no ano de 1244 e pouco se sabe da sua família ou da sua infância, porém, aos idade de 21 anos, tornou-se membro da Ordem dos Cavaleiros Templários. Na Ordem participou destemidamente em numerosas Cruzadas, e o seu nome era uma palavra de ordem e de heroísmo. Em 1298, De Molay foi eleito Grão Mestre da Ordem. Este cargo foi assumido numa época em que a situação para a Cristandade no Oriente estava má. Os sarracenos haviam capturado Cavaleiros das Cruzadas e conquistado Antioquia, Tripoli, Jerusalém e Acre. Restavam somente os "Cavaleiros Templários" e os "Hospitalários" para se confrontarem com os sarracenos. Os Templários, estabeleceram-se na ilha de Chipre, com a esperança de uma nova Cruzada. Porém, as esperanças de obterem auxílio da Europa foram em vão pois, após 200 anos, o espírito das Cruzadas havia-se extinguido. Os Templários estiveram fortemente entrincheirados na Europa e Grã-Bretanha, com as suas grandes casas, as suas ricas propriedades, os seus tesouros; os seus líderes eram respeitados por príncipes e temidos pelo povo, porém não havia nenhuma ajuda popular para os seus planos de guerra. Foi a riqueza, o poder da Ordem, que despertou os desejos de inimigos poderosos e, finalmente, ocasionou a sua queda.

Em 1305, Felipe, o Belo, então Rei de França, atento ao imenso poder que teria se pudesse unir as Ordens dos Templários e Hospitalários, conseguindo um titular controle, procurou agir assim. Sem sucesso, no seu arrebatamento de poder, Felipe reconheceu que deveria destruir as Ordens, a fim de impedir qualquer aumento de poder do Sumo Pontificado, pois as Ordens eram ligadas apenas à Igreja. Em 14 de Setembro de 1307, Felipe agiu, emitiu regulamentos secretos para aprisionar todos os Templários. Jacques De Molay e centenas de outros Templários foram presos e atirados para os calabouços. Foi o começo de sete anos de celas húmidas e frias, torturas desumanas e cruéis para De Molay e seus cavaleiros. Felipe forçou o Papa Clemente a apoiar a condenação da Ordem, e todas as propriedades e riquezas foram transferidas para outros donos. O Rei tentou forçar De Molay a trair os outros líderes da Ordem e a descobrir onde todas as propriedades e os fundos poderiam ser encontrados. Apesar do cavalete e outras torturas, De Molay recusou-se.

Finalmente, em 18 de Março de 1314, uma comissão especial, que havia sido nomeada pelo Papa, reuniu-se em Paris para determinar o destino de De Molay e três de seus Preceptores na Ordem. Entre a evidência que os comissários leram, encontrava-se uma confissão forjada de Jacques De Molay há seis anos passados. A sentença dos juízes para os quatro cavaleiros era prisão perpétua. Dois dos cavaleiros aceitaram a sentença, mas De Molay não! Ele negou a antiga confissão forjada, e Guy D'Avergnie ficou ao seu lado. De acordo com os costumes legais da época, isso era uma retratação de confissão e punida por morte. A comissão suspendeu a secção até o dia seguinte, a fim de deliberar. Felipe não quis adiar nada e, ouvindo os resultados da Corte, ordenou que os prisioneiros fossem queimados no pelourinho naquela tarde.

Quando os sinos da Catedral de Notre Dame tocavam ao anoitecer do dia 18 de Março de 1314, Jacques De Molay e o seu companheiro foram queimados vivos no pelourinho, numa pequena ilha do Rio Sena, sendo destemidos até ao fim. "Embora o corpo de De Molay tivesse sucumbido naquela noite, seu espírito e suas virtudes pairam sobre a Ordem De Molay, cujo nome em sua homenagem viverá eternamente”.

Como todos sabem, sou membro da Ordem De Molay, ordem inspirada na história e exemplo do 23º e último Grão Mestre da Ordem dos Templários. Durante 17 anos de Ordem De Molay, assisti e fiz muitos trabalhos no que se refere às Ordens Templária, Maçónica e De Molay. Tive contacto com vários maçons estudiosos, vários livros e outros tipos de materiais cujo o principal assunto era Jacques De Molay e a Ordem dos Templários.
Escolhi como meu nome simbólico, Jacques De Molay, não somente por ser membro da Ordem que leva seu nome, mas também por tudo aquilo que ele representou e enfrentou com amor, coragem e determinação. Combateu a tirania, procurava junto com a Ordem dos Templários ajudar os mais fracos e oprimidos, e teve a coragem de enfrentar o poder da inquisição. Jacques De Molay não delatou a identidade de outros companheiros Templários, nem dos seus bens. Ele foi leal sob incontáveis torturas físicas e psicológicas. Até parte das riquezas templárias a Inquisição ofereceu a De Molay se ele colaborasse, no entanto, nem a tortura, nem anos e anos na prisão, nem o suborno fizeram que De Molay cedesse ou vacilasse nos seus principios e valores.

O amor que Demolay demonstrou ter pela Ordem Templária e pelos seus Irmãos, a sua fidelidade, a sua bravura e forma heróica como viveu e morreu fez com que eu adoptasse o seu nome, como sendo o meu nome simbólico.

Autor: Jaques De Molay

quarta-feira, 12 de março de 2008

Quem foi Albert Mackey

Nascido em 12 de Março de 1807 na cidade de Charleston no estado americano da Carolina do Sul, Albert Mackey graduou-se com honras na faculdade de medicina daquela cidade em 1834. Praticou a sua profissão cerca de vinte anos, após o que dedicou quase que completamente a sua vida à obra maçónica. Recebeu o 33.º, o último grau do Rito Escocês Antigo e Aceite, e tornou-se membro do Supremo Conselho onde serviu como Secretário-Geral durante anos. Foi nesta época que manteve uma estreita associação com outro famoso maçon americano, Albert Pike.
Participou como membro activo em muitas Lojas, inclusive na lendária “Solomon's Lodge N.º 1", fundada em 1734, que é, ainda hoje, a mais famosa e mais antiga Loja a trabalhar continuamente na América do Norte. Ocupou inúmeros cargos de destaque nos mais altos postos da hierarquia maçónica do seu país. Pessoalmente o Dr. Mackey foi considerado encantador por um círculo grande de amigos íntimos. Sempre que se interessava por um assunto era muito animado na sua discussão, até mesmo eloquente. Generoso, honesto, leal, sincero, mereceu bem os elogios e qualificações que recebeu de inúmeros maçons de destaque.

Um revisor da obra de Mackey disse que, como autor de literatura e ciência maçónica, trabalhou mais que qualquer outro na América ou na Europa. Em 1845 publicou o seu primeiro trabalho, intitulado “Um Léxico de Maçonaria” depois, seguiram-se: “The True Mystic Tie” 1851; The Ahiman Rezon of South Carolina,1852; Principles of Masonic Law, 1856; Book of the Chapter, 1858; Text-Book of Masonic Jurisprudence, 1859; History of Freemasonry in South Carolina, 1861; Manuel of the Lodge, 1862; Cryptic Masonry, 1867; Symbolism of Freemasonry, and Masonic Ritual, 1869; Encyclopedia of Freemasonry, 1874; and Masonic Parliamentary Law 1875.

Mackey esteve até o fim da vida envolvido com a produção de conhecimento maçónico. Além dos livros citados contribuiu com frequência para diversos periódicos e também foi editor de alguns. Por fim, publicou uma monumental “History of Freemasonry”, em sete volumes. Um testemunho da importância e popularidade que os livros escritos por Mackey têm, é o facto de que muitos deles são editados até hoje e estão à venda em livrarias, inclusive pela Internet. Dos muitos trabalhos que o Dr. Mackey legou à posteridade, um julgamento quase universal identifica a “Encyclopedia of Freemasonry” como a obra de maior importância. Anteriormente à publicação deste livro não havia nenhum de igual teor e extensão em qualquer parte do mundo. Esta obra teve muitas edições e foi revista várias vezes por outros autores maçónicos.

A contribuição de Mackey para o pensamento e leis maçónicas, produto da sua mente clara e precisa, é tida como de fundamental importância. Praticamente toda a legislação maçónica fundamental é hoje interpretada com base em alguns de seus escritos. É verdade que algumas de suas obras contêm enganos, mas o conjunto é de extremo valor e, em particular, um trabalho tem especial destaque no mundo todo. A compilação feita por ele dos marcos ou referenciais básicos da maçonaria, que é adoptada como fundamento em vários ritos e obediências. Os tão mencionados e conhecidos “Landmarks”. Os Landmarks, que podem ser considerados uma "constituição maçónica não escrita", longe de serem uma questão pacífica, constituem uma das mais controvertidas demandas da Maçonaria, um problema de difícil solução para a Maçonaria Especulativa. Há grandes divergências entre os estudiosos e pesquisadores maçónicos acerca das definições e nomenclatura dos Landmarks. Existem várias e várias classificações de Landmarks, cada uma com um número variado deles, que vai de 3 até 54.

Facto é que o grande trabalho de Mackey em jurisprudência, sobreviveu ao teste do tempo. Ainda hoje é frequentemente citado como uma autoridade final. As suas contribuições tiveram, e ainda têm, um efeito profundo e permeiam grande parte do pensamento maçónico moderno. Ao criar a sua obra, este autor, estava na realidade a criar os marcos sobre os quais foi possível edificar grande parte do conhecimento maçónico que se produziu posteriormente.

Albert Gallatin Mackey passou ao oriente eterno em Fortress Monroe, Virgínia, em 20 de Junho de 1881, aos 74 anos. Foi enterrado em Washington em 26 de Junho, tendo recebido as mais altas honras por parte de diversos Ritos e Ordens. Hoje existe nos Estados Unidos uma condecoração, a “Albert Gallatin Mackey Medal”, que é a mais alta condecoração concedida a alguém que muito tenha contribuído para a causa maçónica.

Autor: Júlio Verne, Baseado In "The Grand Lodge of Free and Accepted Masons of the State of California"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dia Internacional do Maçom

Nos dias 20, 21 e 22 de Fevereiro de 1994, realizou-se em Washington, nos Estados Unidos, a Reunião Anual dos Grão-Mestres das Grandes Lojas da América do Norte (Estados Unidos, Canadá e México). Na ocasião, estiveram presentes como Obediências Co-Irmãs, a Grande Loja Unida da Inglaterra, a Grande Loja Nacional Francesa, a Grande Loja Regular de Portugal, a Grande Loja Regular da Itália, o Grande Oriente da Itália, a Grande Loja Regular da Grécia, a Grande Loja das Filipinas, a Grande Loja do Irão, no exílio e o Grande Oriente do Brasil, como observador. No encerramento dos trabalhos, o Grão-Mestre da Grande Loja Regular de Portugal, Ir.'. Fernando Teixeira, apresentou uma sugestão apoiada pelos Grão-Mestres das Grandes Lojas dos Estados Unidos, do México e Canadá, no sentido de fixar o dia 22 de Fevereiro como o DIA INTERNACIONAL DO MAÇOM, a ser comemorado por todas as Obediências reconhecidas, o que foi totalmente aprovado.

E porquê 22 de Fevereiro? Porque foi no dia 22 de Fevereiro de 1732, em Bridges Creek, na Virginia (EUA), que nasceu GEORGE WASHINGTON, o principal artífice da independência dos Estados Unidos. Nascido pouco depois do início da Maçonaria nos Estados Unidos – o que ocorreu em 23 de Abril de 1730, no estado de Massachussets - Washington foi iniciado a 4 de Novembro de 1752, na "Loja Fredericksburg nº 4", de Fredericksburg, no estado da Virgínia; foi elevado ao grau de Companheiro em 1753 e exaltado a Mestre em 4 de Agosto de 1754. Representante da Virgínia no 1º Congresso Continental (1774) e Comandante-Geral das forças coloniais (1775), dirigiu as operações durante os cinco anos da Guerra de Independência, após a declaração de 1776. Ao ser firmada a paz em 1783, renunciou à chefia do Exército, dedicando-se então aos seus afazeres particulares. Em 1787, reunia-se, em Filadélfia, a Assembleia Constituinte para redigir a Constituição Federal e Washington, que era um dos Delegados da Virgínia, foi eleito, por unanimidade, para presidi-la. Depois de aprovada a Constituição, havendo a necessidade de se proceder à eleição de um Presidente, figura na nova política norte-americana, Washington, pelo seu passado, pela sua liderança e pelo prestígio internacional de que desfrutava, era o candidato lógico e foi eleito por unanimidade, embora desejasse retornar à vida privada e dedicar-se às suas propriedades. Como Presidente da República norte-americana, nunca olvidou a sua formação maçónica. Ao assumir o seu primeiro mandato, em Abril de 1789, prestou o seu juramento constitucional sobre a Bíblia da "Loja Alexandria nº 22", da qual fora Venerável Mestre em 1788; em 18 de Setembro de 1783, como Grão-Mestre pro-tempore da Grande Loja de Maryland, colocou a primeira pedra do Capitólio – o Congresso norte-americano – apresentando-se com todos os seus paramentos e insígnias de alto mandatário Maçom. Falecido em 14 de Dezembro de 1799, o seu funeral ocorreu no dia 18, na sua propriedade de Mount Vernon, numa cerimónia fúnebre Maçónica, dirigida pelo Reverendo James Muir, capelão da "Loja Alexandria nº 22" e pelo Dr. Elisha C. Dick, Venerável Mestre da mesma Oficina.

In Revista "O Prumo" nº 84, Artigo do Ir.'. José Castelanni

Como se pode verificar, a criação do DIA INTERNACIONAL DO MAÇOM representou uma mais do que justa homenagem ao um grande maçom, e embora não seja considerado por todas as Obediências e Potências maçónicas mundiais é historicamente pertinente.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

As três peneiras

Mais uma jornada na construção do Templo terminara. Cansado por mais este dia, Mestre Hiram recostou-se sob o frescor do Ébano para o tão merecido descanso. Eis que, subindo em sua direcção, aproxima-se o seu Mestre Construtor predilecto, que lhe diz:
"-Mestre Hiram...Vou lhe contar o que disseram do segundo Mestre construtor...
Hiram com a sua infinita sabedoria responde:
- Calma, meu Mestre predilecto, antes de me contares algo que possa ter relevância, já fizeste passar a informação pelas "Três peneiras da Sabedoria"?
- Peneiras da sabedoria? Não me foram mostradas, respondeu o predilecto!
- Sim... Meu Mestre! Só não te ensinei, porque não era chegado o momento;
Escuta-me com atenção: tudo quanto te disseram de outrém, passa antes pelas três peneiras da sabedoria. E na primeira, que é a Verdade, eu te pergunto:
-Tens certez a de que o que te contaram é realmente a verdade?
Meio sem jeito o Mestre respondeu:
- Bom, não tenho certeza realmente, só sei que me contaram...
Hiram continua:
-Então, se não tens a certeza, a informação vazou pelos furos da primeira peneira e repousa na segunda, que é a peneira da Bondade. E eu te pergunto:
-É alguma coisa que gostarias que dissessem de ti?
-De maneira alguma Mestre Hiram... Claro que não!
-Então a tua história acaba de passar pelos furos da segunda peneira e caiu nas cruzetas da terceira e última; Faço-te a derradeira pergunta:
- Achas mesmo necessário passar adiante essa história sobre teu Irmão e Companheiro?
-Realmente Mestre Hiram, pensando com a luz da razão, não há necessidade...
-Então ela acaba de vazar os furos da terceira peneira, perdendo-se na imensão da terra. Não sobrou nada para contar.

-Entendi poderoso Mestre Hiram. Doravante somente as boas palavras terão caminho em minha boca.
-És agora um Mestre completo. Volta a teu povo e constrói os teus templos, pois terminaste a tua aprendizagem.

Porém, lembra-te sempre: As abelhas, construtoras do Grande Arquitecto do Universo, nas imundíces dos charcos, buscam apenas flores para suas laboriosas obras, enquanto as nojentas moscas, buscam em corpos sadios as chagas e feridas para se manterem vivas."

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Ainda a divulgação da Maçonaria

Penso ser óbvio que nenhum maçon receia que os ideais maçónicos sejam do conhecimento público, muito pelo contrário. Afinal esses ideais são os mais nobres que a humanidade alguma vez criou e estou certo de que serão partilhados por todas as pessoas de bem, sejam ou não membros da Maçonaria.
De facto, os maçons pretendem que no mundo reinem a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Por consequência o seu maior desejo é que a Paz, a Tolerância e a Justiça se espalhem por todo o mundo, o mesmo é dizer que se opõem ao ódio, à tirania, às ditaduras e a todas as violações dos direitos humanos. Assim, nenhum maçon terá o menor receio de que os seus ideais sejam divulgados na Comunicação Social.
Outro dos valores defendidos pela Maçonaria é a Honra. E uma pessoa de honra, cumpre rigorosamente os seus juramentos, para mais prestados de uma forma livre e consciente.
Por outro lado, a Maçonaria é uma organização que respeita determinados rituais, pois eles não só contribuem para a unidade dos seus membros, como contribuem para um aprofundamento da espiritualidade que os ajuda no seu empenho em prol dos seus ideais. No entanto, o cumprimento dos rituais implica uma obrigação expressa de discrição para os que neles participam e não é por acaso que em todas as sessões maçónicas se faz o juramento de nada revelar do que nelas ocorre.
Convirá afirmar claramente que esta discrição não pretende esconder seja o que for de pecaminoso, imoral ou quaisquer objectivos inconfessáveis. O que acontece é que, para os maçons, uma sessão ritual é em tudo semelhante a uma conversa em família. E, como qualquer conversa em família, não tem o menor sentido que a mesma seja propalada aos quatro ventos.
Virá a propósito chamar a atenção de que, exceptuando os raríssimos casos de fecundação “in-vitro”, todos sabemos como começou a existência de qualquer um de nós. No entanto, para a generalidade das pessoas, há um pudor natural em falar desse momento de intimidade dos nossos pais. Trata-se afinal de um sinal de respeito pelos que nos fizeram vir ao mundo.

Um dos momentos mais marcantes na vida de um maçon é a sua Iniciação. Trata-se da passagem do mundo comum para o seio de uma família muito especial. Assim, assistir a na televisão a um simulacro desse momento tão solene como marcante é, no mínimo, incómodo para quem sente profundamente a Maçonaria. Como homem de palavra e como maçon que me honro de ser, confesso que ter visto uma reportagem televisiva onde são relatados muitos pormenores de uma Iniciação me desagradou profundamente.
Quando nessa mesma reportagem se assiste a um diálogo ritual em que é afirmado que «o Templo está a coberto da indiscrição dos profanos» e isso é feito perante uma câmara de televisão, então estamos, lamentavelmente, a assistir a um “teatro”. O teatro é uma forma de arte que muito admiro. Mas a Maçonaria não é, nem nunca poderá ser um teatro. A nossa Augusta Ordem deve merecer-nos todo o respeito e nenhum pretexto servirá de desculpa para que se brinque com ela ao “faz de conta”.

Divulguem-se os nossos ideais, critiquem-se os nossos erros, mas respeitem-se as situações de “intimidade” da nossa “família”. Considero que, por melhor que fosse a intenção dos maçons que participaram no simulacro de uma Iniciação, no mínimo cometeram uma grave inconveniência. Pior, uma vez que na reportagem é também mostrado o momento em que esses mesmos maçons juram nada revelar sobre o que se passou na sua sessão, parece-me que terão também cometido perjúrio. Ou serão os seus juramentos também de “faz de conta”?

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Maçonaria e Maçons

Muitos de vós perguntam e questionam o que é a Maçonaria? O que é um Maçom?

Nós respondemos: Dizem-se os filhos da Luz e pretendem transformar homens bons em Homens melhores sobre os três pilares da Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Transportam consigo a ciência do traço, o número, a regra no maior dos segredos, rectos como fio-de-prumo transmitem a Luz. Quando partem, no Céu são as estrelas que iluminam na Terra os seus Irmãos, transmitindo-lhes força para continuarem fiéis aos seus ancestrais princípios. A cinzel, deixaram as suas marcas nas mais magníficas catedrais góticas da Idade Média que o mundo conhece. Com o esquadro e compasso estabeleceram planos, traçaram desenhos, calcularam e realizaram o Templo de Salomão.

Senhores da Espada Flamejante, do Triângulo, do Fogo, da Água, do Ar, do Delta Luminoso, do Sol e da Lua nos seus Templos unem a terra com o céu, entre estes símbolos trocam os segredos e entre eles colocam os frutos da sua união, a bela, sã e perfeita Romã e formam a Cadeia de União que gera energia e eleva o espírito. Diz a lenda, que com folhas de Acácia, símbolo da imortalidade, cobriram o túmulo do Mestre Hiram, o Príncipe dos Arquitectos, que no silêncio escutava o vento do deserto que lhe devolvia respostas.

Procuram a verdade universal, defendem a liberdade e os direitos humanos, a intimidade e convicções pessoais, solidários com os desfavorecidos querem a fraternidade entre os homens, tolerantes, de isenção política e religiosa, em democracia anseiam a paz entre os povos, defendem a natureza e o universo, buscam o aperfeiçoamento individual na construção do seu próprio templo interior.
Amados e odiados, temidos e cobiçados, os maçons desde sempre foram perseguidos, e desde sempre resistiram às maiores atrocidades cometidas contra si, perpetuando no tempo a sábia espiritualidade e das colunas dos seus Templos irradiaram a Luz dos seus valores para Mundo.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Quem é o Aprendiz?

O aprendiz é a pedra bruta que foi escolhida na pedreira para ser desbastada e se tornar uma pedra de forma cúbica. A pedra bruta representa a natureza humana no estado primitivo, ainda bruta, rude, rústica, não trabalhada, imperfeita e cheia de arestas. É a imagem do homem sem introdução, com defeitos, vícios e paixões.
O aprendiz é simbolicamente comparado à pedra bruta antes de ser instruído nos mistérios maçónicos, devendo estudar para adquirir o simbolismo do seu grau, sua aplicação e interpretação filosófica. Deverá trabalhar constantemente para aperfeiçoar-se assimilando novos conhecimentos e consequentemente buscando auto conhecer-se, aparando as arestas do seu espírito.
Como maçom, desenvencilhando-se dos defeitos e paixões, para se tornar pedra cúbica ou polida e concorrer à construção moral da humanidade que é a verdadeira obra da maçonaria. Quando conseguir desbastar a pedra bruta, o aprendiz terá vencido a primeira batalha, vencendo-se a si mesmo e desfraldando a bandeira de sua evolução interior, sem perder de vista aquele fosco pedaço de granito e com o fito de diminuir as suas imperfeições. Propõe-se a descobrir de vez, seus defeitos, suas fraquezas seus deslizes e suas vaidades. Identifica-se, então, com o período de lapidação do seu ego, adaptando-se melhor aos costumes observados nas reuniões de seus irmãos e vai tornando-se mais puro e mais apto para pugnar pela felicidade do género humano.

É para realizar esta tarefa que ele trabalha com as ferramentas do aprendiz. O maço é o símbolo da vontade de trabalhar, esta vontade, guiada pela inteligência, habilita-nos a desejar o bem e o justo, impulsionando-nos à acção. O maço representa a força de vontade necessária para dominar as paixões.
O cinzel representa a inteligência, pois é o cinzel que direcciona a força do maço rumo às imperfeições da Pedra Bruta. Só a força não consegue tirar com perfeição os defeitos da mesma. É necessário que o cinzel encaminhe esta força ao ponto exacto e arranque com a sua ponta contundente a imperfeição percebida pelo aprendiz. O cinzel significa o livre arbítrio que é dotado o homem, manifestando-se nele na proporção do seu desenvolvimento espiritual. O homem comporta-se de acordo com as concepções formadas em seu coração, e recebe o fruto de seus pensamentos e de suas acções.

Para finalizar gostaria de dizer que este trabalho não significa a última macetada, pois não é última macetada que transforma a pedra bruta em pedra cúbica, mas sim a soma de todas elas!

Autor: Jacques De Molay
(Este trabalho foi efectuado com base no estudo e pesquisa: Grupo Maçom Orvalho do Hermom; O Aprendiz de Maçom , Assis de Carvalho , Ed. A Trolha; Curso de Maçonaria Simbólica, Theobaldo Varoli Filho, Gazeta Maçônica; Cartilha do Aprendiz , José Castelani; Maçonaria, um Estudo Completo , Júlio Doin Viera)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Serei ateu?

Julgo que será consensual que o órgão que mais distingue o ser humano dos restantes seres vivos é o cérebro. De facto, na natureza é fácil encontrar animais que nos são superiores em muitos aspectos. Não nos comparamos em força a um elefante, em velocidade a uma chita, em audição ou olfacto a um cão e em acuidade visual a um lince, mas nenhum outro animal tem a nossa capacidade de raciocínio, de elaboração de linguagem ou de cálculo abstracto.
Uma vez que a natureza nos dotou com um cérebro acima do vulgar entre todas as espécies, parece-me que o mínimo que poderemos fazer será usá-lo. É isso que faz de nós animais racionais. Ou seja, sermos racionais não é um estatuto, mas uma obrigação natural.
A aplicação da racionalidade na análise da realidade implica inevitavelmente o recurso ao método científico. Quero no entanto deixar desde já bem claro que considero a ciência como uma ferramenta de trabalho na busca do conhecimento e não como um fim em si mesmo e ainda menos como uma forma alternativa de credo.
No método científico, há uma pedra basilar: o cepticismo. De facto o cepticismo, não é uma doença nem uma forma de antipatia, mas o ponto de partida para a construção de um raciocínio lógico e coerente. Respeito a opção daqueles que preferem acreditar em vez de pensar, mas para mim esse caminho não serve. Pessoalmente, assumo não só a minha formação científica como procuro sempre guiar-me por ela na minha forma de pensar.
No entanto, tenho de admitir que a crença tem uma vantagem inegável sobre a ciência. Enquanto esta é cansativa na sua dúvida permanente e na sua busca constante por mais e melhores respostas para as questões postas pela realidade, a crença não dá trabalho e é uma forma muito reconfortante de ter “certezas”. Mas ao pouparmos o esforço do cérebro, em vez de conseguirmos uma imagem tão objectiva quanto possível da realidade, ficamos submetidos às ideias e fantasias de outros, às superstições e aos preconceitos.
Na verdade são poucas as certezas absolutas que a ciência nos dá. A razão é óbvia: a ciência não é um livro sagrado, mas um método de trabalho. Talvez a única certeza seja a de que temos de manter sempre o espírito aberto às novas descobertas e estarmos preparados para, perante uma prova de que as nossas teorias estão erradas, as substituir. É que não são os factos que se têm de adaptar às nossas ideias, mas estas aos factos desde que devidamente comprovados.
A ciência é um livro aberto. Um livro de que talvez nunca se escreva a última página. E é isso que a torna mais fascinante para quem gosta de desafios e de dar trabalho aos neurónios.
Penso ter deixado clara a forma como encaro a ciência.

Passo então à questão que levanto no título desta prancha: Serei ateu?
A pergunta é mais séria do que possa parecer. É verdade que sou uma pessoa de ideais e de convicções, mas pelas razões que antes apresentei, tento nunca ser obstinado ou cego perante a realidade.
Penso que baseados apenas numa lógica racional, não nos é possível concluir que existem seres sobrenaturais. Mas também não podemos provar que não existem. E ao falar de seres sobrenaturais incluo deuses, fadas, duendes, anjos, demónios, o Pai Natal, o Coelhinho da Páscoa e tantos outros. Estou convencido de que todos eles são apenas produto da extraordinária e inesgotável imaginação de gerações sucessivas de seres humanos.
Apercebemo-nos de que somos mortais – inventamos seres imortais.
Percebemos que a nossa força é limitada – inventamos o Hércules, o Super-homem, o Homem Aranha e feiticeiros que levantam montanhas com uma varinha mágica.
O nosso conhecimento é reduzido – inventamos seres omniscientes.
Ou seja, compensamos as nossas limitações inventando seres que as não tenham.
Será o momento de responder à minha pergunta.
Se por ateu entendermos alguém que não acredita em quaisquer deuses ou outros seres sobrenaturais, então sou indiscutivelmente ateu. Mas se para ter essa classificação se exigir também uma certeza absoluta e baseada em provas incontestáveis de que tais seres não existem, então tenho de admitir que não me poderei assumir como tal. Não por cobardia, mas por humildade. Na prática resolvo este dilema dizendo: «sou ateu até que alguém me prove racionalmente que existem seres sobrenaturais».
Devido à sistemática campanha dos cleros das diversas religiões, palavras como “ateu” e “ateísmo” ganharam uma conotação negativa. Para muitos, os ateus são alguém que odeia Deus e portanto adora Satanás, não percebendo que não se pode odiar nem adorar o que se considera não existir. Para tais pessoas o ateísmo é considerado sinónimo de imoralidade, de total insensibilidade e de toda a espécie de vícios.

Mas será o ateísmo um perigo para a humanidade como tentam fazer crer?
A lógica dos que afirmam que sem religião o mundo entraria no caos é simples: sem o medo do castigo divino as pessoas fariam o que lhes apetecesse, o mesmo é dizer que só praticariam o mal. Discordo totalmente dessa perspectiva por várias razões.
Antes de mais, porque me parece evidente que as religiões têm fomentado muito mais ódios, violência e guerras, do que o amor, a paz e a tolerância que todas dizem defender. Até porque cada uma diz que só ela defende de facto esses valores.
É verdade que nos livros sagrados das religiões monoteístas se encontram versículos em que se proclamam a tolerância e o amor ao próximo. No entanto, nesses mesmos livros também se encontram claramente expressos pensamentos de sinal contrário, em que a destruição dos infiéis é um dever do verdadeiro crente.
Concretizando um pouco: um seguidor de uma determinada religião acredita que será castigado pelo seu Deus se matar um seu correligionário. Mas tudo muda de figura no caso de ser um “infiel”. Quanto sangue foi derramado pelo “povo eleito” em nome de Jeová na conquista da “Terra Prometida”? Quantas vidas foram ceifadas sem dó nem piedade em nome de Deus pelas Cruzadas ou pela Santa Inquisição? Quantos inocentes já foram sacrificados pela Guerra Santa dos fundamentalistas islâmicos?
O mais perverso de tudo é que, nestes casos, os torturadores e assassinos não só se sentem plenamente justificados como se acham uns heróis com lugar assegurado no Paraíso. São conhecidas as declarações de membros do clero e de outros dirigentes muçulmanos que prometem aos “mártires” que se suicidam com bombas no meio de “infiéis” não só esse Paraíso como um prémio suplementar: 70 virgens para cada um.
Este prémio levanta naturalmente outras questões como: alguém perguntou alguma coisa às tais virgens? E se for uma mártir também tem direito a 70 homens sexualmente inexperientes?

Estou plenamente convencido de que não haverá motivos para recear o caos por uma imaginária ausência de religiões. Pelo contrário, se as pessoas estiverem submetidas a leis baseadas num credo religioso, não terão liberdade de pensamento e estarão à mercê dos ditames de quem se arroga no direito de ser o verdadeiro intérprete da vontade divina. Uma sociedade governada por um clero que decide o que está certo e o que está errado, é certamente uma sociedade amordaçada e onde mais do que a fé, reinará o medo.
Por outro lado, parece-me que, mais importante do que um cumprimento do dever por medo do castigo divino, será que as pessoas compreendam que uma vida harmoniosa em sociedade só é possível num regime democrático, onde cada um pode pensar como muito bem entender e não ser perseguido por isso. Um regime democrático pode ter muitos defeitos, mas, até que se invente algo melhor, é sempre preferível a qualquer ditadura.
Penso que as directivas para o comportamento humano não devem resultar de dogmas ou crenças, mas serem fruto de uma moral racional e profundamente humanista. Só esta proporcionará mais harmonia entre as pessoas de qualquer sociedade ou cultura.
A moral que defendo baseia-se num princípio elementar: não fazer aos outros o que não queremos que nos façam a nós ou aos nossos entes queridos. Mas também deverá buscar incessantemente os grandes ideais da humanidade e que se podem resumir na magnífica trilogia Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Só com esses pilares poderemos criar um mundo mais justo, mais pacífico e tolerante.
Ora esta moral racional e global já existe e seria magnífico que fosse ela a governar o mundo: é a que resulta claramente do espírito da nossa Augusta e Sublime Ordem.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Choremos, choremos, choremos

Faleceu Jefferson Isaac João Scheer

Terá lugar na sede da Grande Loja Unida do Paraná, em Curitiba (Brasil), no próximo dia 29 de Janeiro, a cerimónia solene que assinalará a passagem ao Oriente Eterno do presidente do Centro de Ligação e de Informação das Potências Maçónicas Signatárias do Apelo de Estrasburgo (CLIPSAS), o nosso Irmão Jefferson Isaac João Scheer.
Jefferson Scheeer morreu no passado dia 31 de Dezembro, devido a complicações surgidas na sequência de uma operação ao estômago a que fora submetido, pouco tempo antes.
Jefferson Scheer tinha sido eleito para a presidência na Assembleia Geral do CLIPSAS que decorreu em Matosinhos, em 19 de Maio de 2007, quando o Grande Oriente Lusitano-Maçonaria Portuguesa (GOL) foi anfitrião de representantes de 56 potências maçónicas. Depois de eleito, Jefferson Scheer declarou ao “Diário de Notícias” que defenderia a participação do CLIPSAS na Organização das Nações Unidas, com o fim de aí “apresentar as ideias dos maçons liberais”.
Antes de presidir ao CLIPSAS, Jefferson Scheer era Grão-Mestre da Grande Loja Unida do Paraná, Brasil.

O Grémio Estrela D’Alva, apresenta as mais sentidas condolências aos familiares e amigos de Jefferson Isaac João Scheer e o abraço fraterno aos irmãos do Grande Loja Unida do Paraná, em especial aos irmãos da Respeitável Loja à qual aquele irmão pertencia.


terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Exposição de Pintura

Exposição de Pintura denominada "Essência Maçónica" da artista Sílvia Soares

Esta exposição está patente em: Rapósmolhus Restaurante / Galeria na Estrada Exterior da Circunvalação, nº 12016, 4460-282 Srª Hora- Matosinhos. Tendo em referência o Norte Shopping em direcção a Hospital Prelada ... Rotunda Produtos Estrela ... Staples ... O Rapósmolhus situa-se do lado oposto, junto bombas Esso. A expoisção pode ser visitada até 15 de Janeiro de 2008.

A artista Sívia Soares nesta exposição elaborou um conjunto de obras que tratam a Arte Real, essencialmente no seu carácter simbólico e tem como principal objectivo enaltecer a Maçonaria no seu expoente máximo.
Eis um resumo do quadro "Essência Maçónica" que deu origem ao título da exposição "A afirmar com convicção e, em simultâneo, a justificar a obra em si, estão representadas as colunas simbolizadoras dos limites do mundo criado, da vida e da morte, dos elementos masculino e feminino, e de tudo o que se pode considerar como activo e passivo; o pavimento em mosaico representado pelo chão em xadrez de quadrados pretos e brancos, com que devem ser revestidos os templos maçónicos e que reflectem a diversidade do globo e das raças, unas pela Maçonaria e com a oposição dos contrários, bem e mal, espírito e corpo, luz e trevas. Nele estão transcritos os fulcrais pensamentos e acções que regem a Ordem Maçónica: Justiça Social, Fraternidade, Aclassismo, Aperfeiçoamento Intelectual e Democracia = Igualdade.A escadaria apresentada é como uma espécie de guia que nos conduz ao ex-libris da simbologia: o esquadro e o compasso. O Esquadro resulta da união da linha vertical com a linha horizontal, é o símbolo da rectidão e também da acção do Homem sobre a matéria e sobre si mesmo. Significa que devemos regular a nossa conduta e as nossas acções pela linha e pela régua maçónica, temendo Deus como criador do Universo, a quem temos de prestar contas das nossas acções, palavras e pensamentos. Emite, de igual modo, a ideia inflexível da imparcialidade e precisão de carácter e simboliza a moralidade enquanto que o Compasso simboliza o espírito, o pensamento nas diversas formas de raciocínio, e também o relativo (círculo) dependente do ponto inicial (absoluto). Os círculos traçados com o compasso representam as lojas".

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Ao chegar o Natal

Ao chegar o Natal é costume falar-se muito dos pobrezinhos e assistirmos a campanhas de angariação de géneros para lhes dar. Mostra-se na televisão a Sopa dos Pobres e uma ementa generosa para a ceia natalícia. Infelizmente, passado o dia 25 de Dezembro, já apenas se ouve falar nas festas mais ou menos grandiosas que estão a ser preparadas para a passagem de ano. Estou mesmo convencido de que se gasta muito mais nos fogos de artifício e nessas festas de celebração de uma simples mudança de calendário do que tudo quanto foi angariado para dar aos mais necessitados.
Claro que essas campanhas a favor dos mais carenciados e quem as organiza, merecem em geral o nosso respeito. No entanto, é frequente haver também um sentimento de desconfiança em relação às pessoas que nelas se empenham, o que cria mal-estar em quem, muitas vezes, o faz com sacrifício da sua vida pessoal.
Ao mesmo tempo, essa suspeita cria um dilema para quem pretende ajudar. Por um lado quer genuinamente minorar o sofrimento alheio, mas por outro receia que aquilo que oferece vá parar às mãos de alguém que se interpõe entre o dador e o legítimo beneficiário da dádiva.
A solução para este dilema só poderá ser obtida através da clarificação de quais são as organizações que têm esses objectivos tão nobres e que sejam tornadas públicas não só as suas contas como a forma como foi concretizada a sua actividade.

Estas minhas divagações causadas pela fase natalícia levam-me a pensar de uma forma mais global no espírito da sociedade de que fazemos parte e na falta de idealismo que nela é cada vez mais evidente. De facto, nos dias que correm, temos a sensação de que os grandes ideais (em especial os surgidos durante o século XX) se foram mostrando como meras utopias e, por consequência irrealizáveis na prática, ou deram mesmo origem a sociedades de pesadelo. Estou a pensar em concreto em estados onde, com base em ideais aparentemente muito belos, se forjaram ferozes ditaduras, mas também em grupos formados em torno de alguns gurus que os levaram a cometer crimes e mesmo a suicídios colectivos.
Daí até às pessoas comuns se sentirem desiludidas, terá sido um passo muito pequeno.
Por outro lado, especialmente nas cidades, devido ao frenesim das nossas vidas, ao trabalho e às obrigações que nos aprisionam, ao cumprimento de prazos e de horários, e à tentativa de realização de objectivos pessoais, deixámos de ter tempo para pensar nas ideias e em valores que não sejam os imediatos. Para a maioria dos nossos concidadãos, parece reinar o egoísmo, o “chega para lá”, ou mesmo o “salve-se quem puder”. A palavra “stress” parece ter-se instalado no nosso léxico de forma irreversível.
Mas será que no fundo de cada um de nós terão de facto desaparecido em definitivo os desejos de algum idealismo? Penso, ou desejo pensar, que não.
É certo que a nossa sociedade tem problemas importantes para resolver: na justiça, na educação, na saúde, no equilíbrio das contas públicas, e em outros aspectos que os noticiários não deixam esquecer. Mas estou certo de que acabará por chegar o momento em que as pessoas deixarão de pensar apenas nas coisas mais “terra a terra” e começarão de novo a tentar encontrar ideais colectivos.
Pergunto a mim mesmo se o futuro nos trará novos ideais, ou se serão alguns dos antigos a readquirir o seu justo valor. Estou a pensar concretamente nos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Quanto a estes, seria bom recordar que são extremamente belos. No entanto, talvez seja necessário que adquiram um sentido mais profundo do que actualmente lhes atribuímos. Por exemplo, seria muito positivo que ao pensarmos na ideia de “liberdade”, não nos limitássemos apenas a querer as nossas liberdades individuais, o nosso direito de opinião ou de iniciativa, mas também a que os seres humanos de todo o mundo tivessem essas mesmas liberdades. Já que tanto se fala em que vivemos na era da “globalização”, penso que seria excelente que a liberdade responsável fosse, também ela, “global”.
O mesmo se poderia dizer da ideia de “igualdade”. Se todos a conseguíssemos interiorizar, ou seja, se sentíssemos realmente dentro de nós que todos os seres humanos devem ter os mesmos direitos e deveres, quaisquer discriminações, sejam elas as baseadas no sexo, na raça, no credo religioso, nas ideias políticas ou no volume das contas bancárias, desapareceriam para sempre.
Mais distante ainda da generalidade das pessoas está uma ideia que, em conjunto com as duas anteriores, formou uma trilogia que se espalhou a partir da Revolução Francesa. Refiro-me à “fraternidade”. Como era bom que todos os seres humanos sentissem que fazemos parte de um mesmo mundo e que na realidade somos membros de uma só família! Podemos desligar o televisor quando aí nos são mostradas situações terríveis que infelizmente continuam a acontecer. Podemos fingir que não sabemos de nada, mas na verdade não deveríamos nunca esquecer que as vítimas de guerras estúpidas (e todas o são), do terrorismo e das calamidades naturais, são nossos irmãos. As crianças que, em vários pontos do planeta, morrem de fome são tão nossos irmãos como os amigos com quem vamos almoçar.

Há um outro ideal que não nasceu com a Revolução Francesa, mas antes devido à constatação de uma realidade terrível: a protecção do meio ambiente. É cada vez mais importante que todos tenhamos consciência das limitações dos recursos naturais e da necessidade de proteger da extinção todas as espécies que connosco partilham este pequeno planeta. Aqui já não estamos apenas perante um ideal mais ou menos distante, mas antes na presença de uma obrigação colectiva. Temos de interiorizar que é preciso defender o nosso mundo não só para nós como para as gerações que nos vão suceder. E também aí, todos podemos fazer alguma coisa, desde o apagar a lâmpada desnecessária até ao levar para a reciclagem o jornal que já lemos.
Antes de se criarem novos ideais, talvez seja necessário tomarmos plena consciência das realidades que nos envolvem e de que fazemos parte. O egoísmo tem de dar lugar à tolerância. Os nossos interesses individuais devem submeter-se aos da sociedade no seu conjunto.
Da mesma forma, as conveniências das nações e das multinacionais, podem ser muito respeitáveis, mas não se podem sobrepor aos interesses de toda a humanidade. Por isso há que substituir o som das bombas pelo das palavras, a guerra pelo diálogo, a injustiça e a ambição pela fraternidade.

Se nós, as pessoas comuns, criarmos um espírito colectivo suficientemente forte, os governantes e os grandes empresários, por mais poderosos que sejam, serão obrigados a mudar de rumo.
Podemos continuar a trabalhar arduamente e a divertir-nos quando tempos oportunidade, mas é imperioso que comecemos a guardar um pouco do nosso tempo e das nossas energias para a busca dos ideais, pois estes são essenciais para que a humanidade progrida e alcance a paz e a justiça de que tanto carece, num planeta que, tanto quanto sabemos até ao presente, é o único com condições para que nele possamos viver.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

À memória

Ainda sobre a história e acção da Resp. Loja Estrela D’Alva, recordamos alguns dados históricos sobre a retoma dos trabalhos a seguir à liberdade de Abril.

No dia onze de Dezembro de mil novecentos e setenta e quatro, reuniu-se no Grande Oriente a Loja Estrela de Alva, estando presentes catorze dos seus elementos.

Desde então, foram momentos para recordar o que foi a vida da Loja na clandestinidade, não podendo deixar-se de elogiar a resistência dos Irmãos e o regozijo pela recuperação dos preceitos rituais e a satisfação por poderem-se reunir em casa própria. Apesar da satisfação, tratou-se de facto de uma ocasião digna de se citar a obra notável de Zaconi e voltando ao momento, em que sendo homens livres, e por isso, um homem que não é livre não é nada.

Momentos também para dissertar sobre o que é a Maçonaria, nomeadamente: os princípios e razões de existência; Ritos maçónicos, projectos para o futuro, que consiste em educar e instruir e o que deve a humanidade à Maçonaria.

Sobre a Resp. Loja Estrela D’Alva, muito já foi dito, que de pobre de elementos e de valor nunca padeceu e disso, atestam nomes dos seus elementos, que infelizmente já falecidos e homenageados à data do dia cinco de Junho de mil novecentos e setenta e cinco, nomeadamente: Professor Tomás da Fonseca, escritor; Capitão Lopes Soares, comandante da PSP; Júlio da Silva Rêgo, funcionário público; Martins Canhoto, sargento da marinha; Heitor Pereira, comerciante; Engenheiro Teodoro Robert, industrial; Professor Sousa Carvalho, Casa Pia; Pires Marques; José Tendeiro, regente agrícola; Domingos Lourenço Fernando, comerciante; José Rodrigues, maquinista de curso: Álvaro Evangelista, maquinista; Ernesto Ferreira, industrial; Firmino Silva, funcionário público; Jaime Gaudêncio, industrial; Gomes da Costa; Dr. Santos Moita, médico; Capitão Ramiro Gomes Pereira, advogado; Almirante João Cerejo; Santos Ferreira, chefe de Repartição; Hermano da Fonseca, funcionário de justiça; Barreto Monteiro, despachante oficial; Comandante João Carlos Costa, marinha de guerra; Alípio Alves; Henrique Pires, funcionário público; Julião Custódio, Industrial; Félix Baptista, sargento de marinha; João de Matos, funcionário público; Joaquim Pizarro, funcionário superior dos CTT e Raul Feteira, industrial.
A estes Maçons e outros que se lhes seguiram, dos vivos, tecem-se elogios, pela dedicação prestada, apelando-se para que seja continuado o seu trabalho.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

De Dezembro de 1974 a Dezembro de 2007

Neste mês de Dezembro completam-se 33 anos desde que a Loja Estrela D’ Alva retomou o seu normal funcionamento. Tinham passado poucos meses desde que a Revolução do 25 de Abril libertou o país de uma ditadura de longos anos e já um grupo de maçons procurava recomeçar as actividades até então não só proibidas como fortemente perseguidas pelo regime deposto.

Poder-se-ia realizar uma qualquer comemoração, mais ou menos formal deste aniversário. No entanto, como todos sabemos, com o passar do tempo, a celebração de uma data acaba por se ir esvaziando de significado e a limitar-se a ser um dia como outro qualquer, ao qual ninguém dará grande atenção. Cumprida a “obrigação” imposta pelo calendário, tudo regressa à rotina habitual.

Assim sendo, parece-me que tal celebração poderá ser feita de uma forma bem mais profunda e significativa se atendermos a dois aspectos que só superficialmente são diferentes.
Por um lado, esse retomar de actividade evidencia que, ao contrário do que decerto desejava a ditadura, o espírito maçónico não tinha morrido em Portugal. Embora pouco mais que latente, ele estava vivo e bastou que a liberdade voltasse a reinar no nosso país para de novo desabrocharem as suas Lojas e os seus trabalhos.
De facto, se pensarmos no que é a essência do espírito maçónico, é evidente que nenhum ditador alguma vez o conseguirá matar. Os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade estão, desde há séculos, profundamente enraizados nos corações dos amantes da democracia, da paz e da justiça. A polícia política poderia prender as pessoas, mas nunca conseguiria destruir os seus ideais pois estes são mais fortes do que as correntes, as grades e as balas.
Manter e difundir o espírito maçónico, aprofundar os nossos conhecimentos sobre a Maçonaria e tentar o mais possível levar à prática os seus ideais serão decerto formas magníficas de homenagear os que nos antecederam como obreiros de uma Loja que recebeu o nome de um astro de grande brilho e que desde a mais remota antiguidade muito marcou os seres humanos.
Há contudo um segundo aspecto que, na minha opinião, nos permitirá também celebrar este aniversário de uma forma bem mais intensa do que uma qualquer cerimónia formal. De facto, penso que a melhor forma de comemorar os 33 anos do regresso à normalidade da Respeitável Loja Estrela D’ Alva será não só o darmos continuidade às suas actividades, como se possível aumentá-las ainda mais, ou seja, dinamizá-la com novos obreiros e com um trabalho cada vez mais intenso de todos os que já a constituem. A nossa assiduidade, a nossa participação com pranchas, sejam elas de que tipo forem, e a manutenção de um espírito de profunda fraternidade entre nós, serão a maior das homenagens aos ideais daqueles que, depois de terem resistido à ditadura, trataram de a erguer de novo.

No meu entender, essas serão as formas mais adequadas de os homenagear, assim como serão certamente as que eles, como maçons dedicados que eram, mais desejariam.
Autor: Carl Sagan

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Loja Estrela D'Alva - 99 anos de história

Comemora-se mais um Aniversário da Mui Antiga e Resp.'. Loja Estrela D’Alva, dentro dos princípios e antigos mistérios da Ordem Maçónica e na construção do templo interior, fazendo já parte da memória colectiva e histórica de muitos maçons.

Reportando ao Boletim ‘’A Luz” – 1ª Série - n.º 23, do Equinócio de Outono de 1994 da Loja Estrela D’Alva:
‘’Como memória, lembramos que a Resp. Loja Estrela D’Alva levantou colunas, pela primeira vez e trabalhou de 1871 a 1873 em Coimbra, irregularmente porque ainda não estava inscrita no Grande Oriente Lusitano.
Mais tarde, com o n.º 289, começou a funcionar no ‘’REAA’’, em Coimbra, entre 1908 e 1912, vindo a abater colunas nesta última data. O n.º 289 indica que é regular, portanto inscrita no GOL.
Depois, em 1937, com o Rito Francês, levantou colunas em Algés, inscrita com o n.º 469 e abateu colunas na clandestinidade, existindo ainda em 1945.
No entanto, novamente com o n.º 289, em Lisboa, desde 1919, surgiu a actual Loja Estrela D’Alva, regular, trabalhando no ‘’REAA’’, cuja existência foi quase toda passada na clandestinidade.
Após o 25 Abril de 1974, regulariza-se no GOLU, com 14 obreiros e mantém o mesmo n.º da antiga titular”.
Assim, o nome ‘’Estrela D’Alva” dado a uma Loja, remonta ao ano de 1871. A actual ‘’Estrela D’Alva’’ trabalha desde 1919, sendo herdeira de 5 anos de trabalho em Coimbra 1908/12 , tendo portanto 99 anos de trabalho regular.
Tem o timbre: ‘’Augusta, Benemérita e Respeitável Loja Capitular, Areopagita e Consistorial Estrela D’Alva n.º 289 sob os Auspícios do Grande Oriente Lusitano”.

Nestes 99 anos de trabalho em que o testemunho foi passando por gerações e que foram atravessados por múltiplos acontecimentos, como a Implantação da Republica, Estado Novo e a sua Ditadura, a privação da Liberdade e dos Direitos Humanos, a clandestinidade, uma guerra colonial, o alvorecer da Liberdade em Abril de 74, temos que prestar a nossa homenagem aos Maçons que nos antecederam, pela grande competência e extraordinária dedicação aos valores da Maçonaria e por manterem as colunas bem erguidas e irradiar com esplendor e brilho a Justiça, a Verdade, a Honra e o Progresso.

Obrigado, queridos Irmãos, bem hajam!

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Tolerância ?!...

A circunstância de o título acima estar acompanhado de um ponto de interrogação e de outro de exclamação, para além de elucidativas reticências, não significa qualquer artificialismo gráfico. Ao contrário, expressa o que me “vai na alma” – como costuma dizer-se – no momento em que traço esta prancha. Mais ainda: nem sequer pode pensar-se que o faço “a quente”, porque já se passaram bastantes dias sobre a data em que a notícia correu mundo. Refiro-me ao facto de as autoridades do Sudão – país cuja Lei Fundamental é o livro sagrado Corão – terem condenado à morte uma professora inglesa que autorizou uma criança de tenra idade a apodar de “Maomé” o ursinho de pelúcia que a acompanhava nas suas brincadeiras próprias da tenra idade.
Antes de entrar em mais considerandos, quero deixar bem clara, de forma inequívoca e insuspeita de quaisquer mal entendidos, que me coloco sempre numa posição equidistante face à querela religiosa que ensombra os nossos dias. Mas equidistância não significa indiferença, sobretudo quando estão em causa princípios e valores que jurei defender quando me foi concedida a Luz que ilumina a existência da Maçonaria e a vida dos Maçons.

Assim, quando foi conhecida a notícia, não desbobinei um chorrilho de impropérios contra os autores da condenação: optei por tentar colocar-me no lugar deles e perceber as razões que os conduziram a tal atitude.
Nesse sentido, perguntei-me se um cristão gostaria que alguém chamasse de “Jesus Cristo” a um urso de pelúcia, se um judeu acharia engraçado que se denominasse de “Jeová” um cãozito de brincar, se um budista escancararia um sorriso de orelha a orelha se soubesse que “Buda” era o nome colocado a um qualquer gatito de felpa. Sinceramente, acho que não. Mas sei, de ciência certa, que nenhum deles condenaria à morte o prevaricador.

Fui mais longe nesta análise. E pensei, de mim para comigo, que a tal inglesa estaria longe de ser tão evidentemente estúpida ou tão inutilmente suicida que deixasse passar em claro a afronta à divindade muçulmana, sabendo que isso a conduziria à morte. Fê-lo, portanto, com desconhecimento da gravidade que o acto assumia para as autoridades do país onde trabalhava. Prossegui, então, no meu raciocínio: é que o desconhecimento da lei não desculpa o prevaricador. Até aqui, os pratos pareciam equilibrar-se na balança dos prós e dos contras. O que os desequilibrou foi a desproporcionalidade do castigo. E todos nós sabemos que um dos princípios sagrados da justiça é a proporção que o castigo assume perante o crime, para que o conjunto da sociedade dele possa sentir-se ressarcida.

Confesso-me pouco versado em questões religiosas. Por isso, quando desconheço determinada matéria nesse domínio do conhecimento – o que ocorre com frequência – pergunto a quem sabe. Ora, neste caso específico fui compulsar o que as enciclopédias dizem sobre Maomé. E, neste domínio, são todas muito objectivas, muito politicamente correctas. Ainda bem que assim é, porque, ao contrário, não estariam a disseminar cultura e informação – também confesso que não percebo como é que pode haver cultura sem informação e informação sem cultura –, para entrarem nas fronteiras da manipulação.

Todavia, a Nova Enciclopédia Larousse escreve, a páginas 4.495, que Maomé – passo a citar – “instituiu o princípio da guerra santa (jihad), que obriga a combater todos os que não aderem ao Islão” – fim de citação. Continuei e, para fazer o exercício do contraditório, consultei todos os textos a que tive acesso – incluindo a vastíssima matéria que encontrei na internet – para tentar encontrar um desmentido sobre aquela afirmação. Não encontrei. Sou, por isso, e ao cabo de tantas buscas, levado a tecer duas conclusões. Primeiro: aqueles que apregoam o pacifismo da religião muçulmana fazem-no seguramente por boa-fé, mas por desconhecimento do que ela efectivamente envolve na sua essência mais profunda. Segundo: se não for assim, é porque os autores da Nova Enciclopédia Larousse são uma cáfila de imbecis manipuladores e ignorantes. Então, mais uma confissão: nenhuma das hipóteses apazigua o meu desconforto.
Como não há apaziguamento possível para o desconforto que sinto quando a ortodoxia do Vaticano, de forma autista, fria e inquisitorial, prega o sofrimento e a morte ao atirar para o vilipêndio de um pecado que deus algum pode ter tido até nas suas mais remotas cogitações a utilização de preservativos como forma de prevenir o terrível flagelo da sida.

Dir-se-á então, como é habitual e de forma inabalavelmente peremptória, que os deuses não têm culpa dos erros dos homens. Fraco consolo, este. Porque, pelos vistos, os homens existem de certeza. E matam. Mas mesmo que os deuses existam e não matem, afinal não conseguem fazer passar a sua mensagem. Será, provavelmente, um problema de comunicação…

Sou, por isso, incontornavelmente induzido a regressar – uma vez mais e sempre – aos princípios e aos valores da Ordem Maçónica Universal, designadamente àqueles que à tolerância dizem directa ou indirectamente respeito.

E aqui começa um conjunto interminável de interrogações, para as quais se poderá encontrar as mais diversas respostas, tamanhas são as variáveis deste entrecruzar de hipóteses. Passo a enunciar apenas algumas.


· Será que em nome da tolerância devemos tolerar práticas intolerantes que atentam contra a tolerância?
· Será que a tolerância tem limites?
· Se os tiver, em que circunstâncias é que eles terminam?
· É possível educar um intolerante no caminho da tolerância. Mas será possível educar-se centenas de milhões de intolerantes nesse caminho?
· Também é possível e desejável jamais esmorecer na senda da tolerância. Mas como fazer passar com eficácia essa mensagem? Não estaremos irremediavelmente remetidos para um diálogo de surdos?
· Quais são as alfaias com que a tolerância deve pregar a sua mensagem?
· Apenas o discurso? Não será como que pregar no deserto – aqui também no sentido literal do termo?
· Valerá a pena insistir nesta prática, cuja aridez gritante é evidenciada a cada passo pela sua ineficácia?
· Mas haverá alternativas a esta prática?
· As possíveis alternativas não serão, elas próprias, contrárias ao espírito da tolerância?

Este enunciado não mais teria fim. E prefiro não alimentar certezas quanto a estas questões. Até porque, se continuar com dúvidas, pelo menos não corro o risco de errar.
Por isso, continuarei impotentemente a assistir, pregando a tolerância, ao incremento de todas as intolerâncias – religiosas, políticas, desportivas, das quais as religiosas são seguramente as mais hediondas, porque em nome dos deuses têm sido cometidas algumas das mais repugnantes chacinas da história da humanidade.
Já agora, e para terminar, obrigado pela vossa tolerância!...

Autor: Álvaro

terça-feira, 20 de novembro de 2007

O Grande Ditador

Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar – se possível – judeus, o gentio... negros... brancos.

Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo – não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar e desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover a todas as nossas necessidades. O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém extraviamos-nos. A cobiça envenenou a alma dos homens... levantou no mundo as muralhas do ódio... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Os nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido. A aviação e o rádio aproximaram-nos muito mais. A própria natureza dessas coisas é um apelo eloquente à bondade do homem... um apelo à fraternidade universal... à união de todos nós.

Neste mesmo instante a minha voz chega a milhares de pessoas pelo mundo fora... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis! A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desaparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há-de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais... que vos desprezam... que vos escravizam... que arregimentam as vossas vidas... que ditam os vossos actos, as vossas ideias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como gado humano e que vos utilizam como bucha de canhão! Não sois máquina! Homem é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!

Soldados! Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas está escrito que o Reino de Deus está dentro do homem – não de um só homem ou grupo de homens, mas dos homens todos! Está em vós! Vós, o povo, tendes o poder – o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela... de faze-la uma aventura maravilhosa. Portanto – em nome da democracia – usemos esse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice. É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progresso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos!

Hannah, estás-me a ouvir? Onde te encontrares, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos a sair das trevas para a luz! Vamos entrar num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade.
Ergue os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança.
Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!

Autor: Charles Chaplin, in" O Grande Ditador", Filme.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

À Minha Loja Mãe de Lahore

E havia Hundle, o chefe da estação;
Baseley, o das estradas e dos trabalhadores;
Black, o sargento da turma de conservação,
Que foi nosso Venerável por duas vezes.
E ainda o velho Frank Eduljee,
Proprietário da casa As Miudezas da Europa.
E então, ao chegar, dizíamos:
Sargento, Senhor, Salut, Salam...
todos eram "Meus Irmãos",
E não se fazia mal a ninguém,
Nós nos encontrávamos sobre o nível,
E nos despedíamos sob o esquadro.
Eu era o Segundo Experto dessa Loja.
Lá em baixo....

Havia ainda Bola Nath, o contador;
Saul, judeu de Aden;
Din Mohamed, da seção de cadastro;
O senhor Babu Chuckerbutty,
Amir Singh, o sique,
E Castro, o da oficina de reparos,
Um verdadeiro católico romano.
A decoração do nosso templo não era rica,
Ele era até um pouco velho e simples,
Mas nós conhecíamos os Deveres Antigos,
E os tínhamos de cor.
Quando eu me lembro deste tempo,
Percebo a inexistência dos chamados infiéis,
Salvo alguns de nós próprios.

Uma vez por mês, após os trabalhos
Reuníamo-nos para conversar e fumar
Pois não fazíamos ágapes,
Para não constranger os Irmãos de outras crenças.
E de coração aberto falávamos de religião,
Entre outras coisas, cada um referindo-se à sua.
Um após outro, os irmãos pediam a palavra,
E ninguém brigava até que a aurora nos separasse,
Ou quando os pássaros acordavam cantando.
E voltávamos para casa, a pé ou a cavalo,
Com Maomé, Deus, e Shiva,
Brincando estranhamente em nossos pensamentos.
Viajando a serviço,
Eu levava saudações fraternais
Às Lojas ao Oriente e ao Ocidente de Lahore,
Conforme fosse a Kohart ou a Singapura.
Mas sempre voltava para rever meus irmãos.
Os da minha Loja Mãe.
Lá de baixo...

Como gostaria de rever aqueles velhos irmãos,
Negros e morenos,
E sentir o perfume dos seus cigarros nativos,
Após a circulação do tronco,
E do malhete ter marcado o fim dos trabalhos,
Ah! Como eu desejaria voltar a ser um perfeito maçom,
Novamente, naquela Loja antiga.
Diria então Sargento, Senhor,Salut, Salam...
Pois seriam todos meus irmãos,
E ali não se faria mal a ninguém
E nos encontraríamos sobre o nível,
E nos despediríamos sob o esquadro,
Eu seria o Segundo Experto da minha Loja,
Ficaria lá em baixo.

Autor:Rudyard Kipling
(Tradução, em versos livres, de Antônio José Souto Loureiro, Grão-Mestre do Grande Oriente do Estado do Amazonas)