terça-feira, 7 de maio de 2013

Outrora como Agora, é preciso defender a Maçonaria

A Maçonaria não é uma simples associação secreta mas uma ordem iniciática

Da República (1910 - 1935) - Argumentos apresentados sobre o seu artigo publicado no jornal "Diário de Lisboa", sobre o projecto lei de proibição das actividades da Maçonaria:

1. "Tudo quanto de sério ou de importante se faz, faz-se em segredo; e, se as associações secretas são más por serem secretas, todos quantos decidem qualquer coisa sem ser em público, ou com plena publicidade ulterior, estão em igual estado de perversidade.

2. Aparentemente dirigido contra "associações secretas" em geral, o projecto de lei era realmente dirigido contra a Maçonaria.

3. A Maçonaria não é uma simples associação secreta mas uma ordem iniciática, e o seu segredo é o comum a todas as ordens iniciáticas, a todos os chamados Mistérios e a todas as iniciações, ainda que fora de Templo, isto é, directamente de Mestre a Discípulo.

4. Da conversão do projecto em lei adviriam três consequências: 
(a) coisa nenhuma, porque as ordens iniciáticas não se destroem de fora, nem há exemplo de haver vingado qualquer tentativa (e citei três) de as extinguir; 
(b) perseguição aos melhores maçons; 
(c) criação de uma corrente hostil contra nós no estrangeiro — e citei exemplos de idêntica hostilidade em casos de perseguição à Maçonaria —, no que nunca há vantagem, sobretudo para um país como o nosso — pequeno, fraco, com ambições constantes sobre as suas colónias.

5. À parte tudo isto, a Maçonaria não é maléfica nem daninha, e erros ou até "crimes" que porventura provadamente se lhe apresentem são ou: 
(a) provenientes da falibilidade humana, pois que a Maçonaria é composta de homens; 
ou (b) de circunstâncias de meio e época que a Maçonaria não criou e que nela influem, ou em certos sectores dela, como influem sobre toda a gente; 
e que (c) nas mesmas circunstâncias está qualquer outra instituição, secreta ou pública, que exista no mundo, como, por exemplo. a Igreja de Roma, cujos erros e crimes provados são quase sem número.

Fora da linha do argumento fiz também incidentalmente, e a um outro propósito, as seguintes afirmações, que não constituem argumento:

6. O Sr. José Cabral e os anti-maçons são completamente ignorantes de assuntos maçónicos.

7. (a) Não sou maçon, nem pertenço a qualquer Ordem; 
(b) sou suficientemente conhecedor de assuntos maçónicos para deles poder confiadamente ocupar-me; 
(c) os meus conhecimentos maçónicos derivam-se, não da simples leitura de livros mas de certa "preparação especial", cuja natureza me não propunha, nem agora me proponho, indicar; 
(d) não sou anti-maçon; antes, através do meu estudo da Maçonaria, adquiri um conceito favorável dessa Ordem; 
(e) em virtude disso — não foi realmente só em virtude disso — vim defender a Maçonaria."

Fernando Pessoa
(Recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Mourão. Introdução e organização de Joel Serrão). Lisboa: Ática, 1979. - 135.)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Poema de Instrução do 2.º Vig. aos Aprendizes

Aprendiz,
Neste Meio-Dia onde me sento,
peço-te que confies no testemunho
Se eu m
orrer hoje,
se nunca mais nos virmos,
Segue andando.
Chegaste até aqui
com a tua esperança e o teu
cansaço
não são os teu pés os que caminham
é o caminho que te vai
levando.
Segue andando.
No andar encontrarás
a verdade que vais buscando.
Mais além do triunfo e do
fracasso
não há impossíveis.
Segue andando.

Aprendiz,
se eu morrer hoje,
se nunca mais nos encontrarmos,
neste lugar do Meio-Dia,
te digo:
O Amor é um tesouro
inesgotável
e estás ao alcance das tuas mãos.
O Amor está esperando.
Não desesperes nunca
Semeador
segue semeando
Outros virão ao caminho
e a tua canção os irá guiando.
Segue andando.


Autor: Osvaldo Maggi, 33º (Oriente Eterno)
Grande Inspector Geral do Supremo Conselho Unificado para a Grã-Bertanha do Rito Escocês Antigo e Aceito - Grande Loja Unida de Inglaterra.
Past-Venerável da Resp. L. Estrela do Ocidente, nº 485, Or. de Lisboa

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Mito da Escada de Jacó na Maçonaria

A escada de Jacó é um dos temas mais fantasiosos no pseudo-simbolismo maçônico. Melhor dizendo: as interpretações dessa famosa escada são mitos que passaram de geração em geração.
Antes de qualquer coisa, precisamos saber quem foi Jacó e o que é uma escada em termos alegóricos. Jacó era filho de Isaac e conseguiu enganar o pai fazendo-se passar pelo irmão primogênito. Assim, recebeu a bênção paterna nesses termos: “Que Deus te conceda o orvalho do céu e a fertilidade da terra, trigo e vinho em abundância. Sirvam-te povos e prostrem-se diante de ti nações; sê um senhor de teus irmãos e diante de ti prostrem-se os filhos de tua mãe. Maldito quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar”. E prossegue Isaac dizendo: “Não cases com nenhuma das moças de Canaã. Vai a Padã-Aram, e casa-te lá com uma das filhas de Labão, irmão de tua mãe. Concedo-te a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência, a fim de possuíres a terra em que vives como estrangeiro.”
(Todas estas passagens estão no livro de Gênesis, podem conferir – não estou inventando nada.)
Prosseguindo: “Jacó saiu de Bersabéia e, ao se dirigir para Harã, alcançou um lugar onde se dispôs a passar a noite, pois o sol já se havia posto. Pegou uma das pedras do lugar, colocou-a como travesseiro e dormiu. Então, teve um sonho: Via uma escada apoiada no chão e com a outra ponta tocando o céu. Por ela subiam e desciam os anjos de Deus. No alto da escada estava o Senhor que lhe disse: ‘Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão, o Deus de Isaac. A ti e a tua descendência darei a terra sobre a qual estás deitado. Tua descendência será como o pó da terra e te expandirás para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o sul. Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Estou contigo e te guardarei aonde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”. Ao despertar, Jacó disse consigo: “Como é terrível este lugar! Sem dúvida o Senhor está neste lugar e eu não sabia. Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”. Atemorizado, levantou-se, tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, e a erigiu em estela (monumento monolítico feito em pedra), derramando óleo por cima e chamando ao lugar de Betel (Casa de Deus). 
Jacó fez um voto, dizendo: “Se Deus estiver comigo e me proteger nesta viagem, dando-me pão para comer e roupa para vestir, e se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então o Senhor será meu Deus. Esta pedra que erigi em estela será transformada em casa de Deus e dar-te-ei o dízimo de tudo que me deres”.

Aí está a origem e o significado da escada “de Jacó” que não é nem escada, nem “de Jacó”. Foi uma visão tida em sonhos de algo apoiado no chão e com a outra ponta tocando o céu. Em sonhos, repito, Jacó percebeu anjos de Deus que subiam e desciam. Mas Jacó não subiu nem desceu pela escada, pois, como ele mesmo disse amedrontado, aquele lugar era terrível, sem dúvida a casa de Deus e a porta do céu (o terribilis est locus iste latino). Jacó não ousou prosseguir porta adentro nem subir escada acima. Apenas tomou a pedra que lhe servira de travesseiro e fez dela um altar comemorativo daquele acontecimento. 

E partiu dali ao encontro de Labão, “pai de Raquel serrana bela” – conforme versejou Camões – “Mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assim negada a sua pastora, começa de servir outros sete anos, dizendo: — Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida!”

Isto posto, pergunto aos meus botões de onde os inventores de Maçonaria tiraram a interpretação de que a “escada de Jacó” significa a ascensão nos Graus? Que maçons são esses que ousaram subir pela escada do local terrível, atravessarem a porta do céu, proeza da qual Jacó jamais pensou em realizar?
Não pretendo escarafunchar toda a literatura maçônica para provar o que digo. Cito apenas o douto Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo em seu monumental Dicionário de Maçonaria (Editora Pensamento) que vê na escada “de Jacó” a representação da “hierarquia dos seres, potestades, mundos e reinos de vida”. 

A escada de catorze degraus em Maçonaria é outra coisa, assunto de outros ritos que não o escocês e outros Graus que não os simbólicos. Portanto nem toda escada deve ser confundida com a do sonho de Jacó.
Para complicar ainda mais as coisas, uma indevida simbiose com a Teologia Católica misturou o sonho de Jacó (hebreu) com as Virtudes Teologais apregoadas, pela primeira vez na História, por Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho de Hipona, São Tomás de Aquino e São Roberto Belarmino. Essa interação entre simbolismo maçônico e elementos da fé cristã (notadamente a Católica Apostólica Romana) nasceu da tentativa de estabelecer um diálogo entre a fé e a razão. Mas não consta que esses Santos tenham subido a escada “de Jacó” nem que tenham sido iniciados na Maçonaria. Sinto decepcioná-los... 


Continuar batendo nessa mesma tecla (ou nessa mesma escada) é andar em círculos por desconhecer a História e a própria Maçonaria. A escada que aparece num dos painéis do Grau não é a escada dos sonhos de Jacó, embora muitos artistas inflamados delirem ao desenhar anjos no topo da mesma. A escada do painel, que de forma alguma deve constar da decoração das Lojas, pendurada no teto, é uma alegoria referente à elevação moral do homem, e não à caminhada em direção à morada do Altíssimo.


A Maçonaria, não sendo uma religião, há de permanecer à margem de quaisquer sectarismos. Um muçulmano, por exemplo, não verá o Jacó hebreu numa escada nem as virtudes cardinais de São Tomás de Aquino. Um budista menos ainda! Mas todas as religiões entenderão a escada como elevação, valoração e crescimento humanos. 

Autor: José Maurício Guimarães
www.zmauricio.blogspot.pt

terça-feira, 26 de março de 2013

A Carbonária

Sobre a Carbonária, o único escritor, no Brasil, que se dedicou realmente em trazer algum esclarecimento, foi o Irmão Adelino de Figueiredo Lima, por isso, vamos transcrever apenas uma pequena introdução que ele fez da Carbonária: "Nenhuma Sociedade Secreta fascinou tanto as multidões sequiosas de sua liberdade, ou da independência política conquistada à custa de lágrimas e sangue, quanto a Maçonaria Florestal, mais conhecida como "Carbonária", por ter sido fundada pelos carvoeiros da Hannover, como associação de defesa e de acção contra os opressores e assaltantes de sua classe. Constituída no último quartel do séc. XV, ela só veio a entrar na História, como organização de carácter político, após a Grande Revolução Francesa. Na Itália, adquiriu fama de violenta e sanguinária, e introduzida em França por ordem de Napoleão, não tardou em converter-se na mais poderosa força oposicionista ao expansionismo do grande corso, lutando contra ele na França, na Áustria, na Espanha e em Portugal.”

O nome de "Maçonaria Florestal", veio depois que irrompeu, em Itália e França. "Maçonaria", porque os Maçons a propagavam e a protegiam, "Florestal", porque as Iniciações dos seus Membros, lembravam as dos antigos Carvoeiros de Hannover, realizadas nas florestas mais densas, a cobertos das vistas estranhas. 
Os Carbonários, antes de serem investidos nos Segredos da Ordem, passavam por duras provas e prestavam os mais terríveis juramentos, como este, que eram assinados com próprio sangue: "Juro perante esta assembleia de homens livres, que cumprirei as ordens que receber, sem as discutir e sem hesitar, oferecendo o meu sangue em holocausto, à libertação da Pátria, à destruição do inimigo e à felicidade do Povo. Se faltar a este juramento, ou trair os desígnios da Poderosa Maçonaria Florestal, que a língua me seja arrancada e o meu corpo submetido ao fogo lento por não ter sabido honrar a Pátria que foi meu berço.” 
Só depois deste juramento é que o Candidato recebia as insígnias de Bom Primo, – as insígnias de Bom Primo consistiam de um balandrau preto e capuz, tendo bordado, em branco, no peito, um punhal (o punhal de São Constantino), com o cabo no formato cruciforme entrelaçado a uma cruz cristã.) O punhal de São Constantino não constava somente de um desenho bordado no Peito do Balandrau Preto, era também uma arma branca, que todos os Carbonários usavam – também nas suas execuções – como símbolo da Ordem a qual pertenciam. 
O Balandrau Preto, dos líderes, ao invés do Punhal e da Cruz entrelaçados – possuía bordado no peito, em dourado, um sol radiante. 
O brado de guerra dos Carbonários consistia em, cada um, levantar o seu punhal bem alto. Normalmente as reuniões dos tribunais carbonários eram realizadas, a exemplo dos carvoeiros de Hannover, no passado, em plena floresta, bem distante dos olhares curiosos e indevidos. 
Os julgamentos eram implacáveis e os réus, se condenados, eram executados com a máxima eficiência. O Carbonário era, as vezes, juiz e carrasco ao mesmo tempo. Os afiliados (jamais podiam trair a Ordem. Os que traíram, sempre foram exemplarmente executados) tornavam-se Carbonário ou executor das ordens de "Alta Venda". 

Em cada país a Organização da Maçonaria Florestal obedecia ao esquema italiano: 
"Alta Venda", corpo deliberativo superior, composto de um Delegado da cada "Barraca", composta por sua vez por um Delegado de cada "Cabana", e as "Cabanas" eram formadas por um Delegado de cada "Choça". Acima da "Alta Venda" estava porém, a "Jovem Itália", composta por um triunvirato que nas lutas pela Unificação e pela queda do Poder Temporal dos Papas, era constituído por Cavour, Mazzini e Garibaldi. 
A Carbonária Italiana, de princípio, foi protegida pelo Carbonário Lucien Charles Napoleão Murat, General de Napoleão Bonaparte e Princípe de Monte Corvo, filho do Marechal Murat, nascido em Milão, em 1803. Ele abandonou a Itália em 1815, com a derrocada de Napoleão em Waterloo, tendo sido capturado em Espanha. Após a sua libertação, seguiu para os Estados Unidos, em 1825. Ali se casou, tendo retornado a Paris em 1848.
Mais tarde, Murat foi eleito Grão Mestre do Grande Oriente, conseguindo um progresso muito grande no erguimento da Obediência, com a fundação de muitas novas Lojas. 

Um dos elementos que se deve destacar na Carbonária Italiana – não pelos seus actos patrióticos, mas sim pela sua traição à Carbonária – é o Conde Peregrino Rossi. Rossi teve duas atitudes distintas: na mocidade, foi um dos mais activistas e propagandistas dos ideais da Carbonária, merecendo o respeito de todos os Bons Primos. Todavia, de um momento para outro, bandeou-se para as hostes inimigas. 
Rossi aliou-se ao Papa Gregório XVI com a finalidade de conseguir do Papa, condenações às acções dos Jesuítas. Nesse ínterim, morre Gregório XVI e sobe ao Trono de São Pedro o Papa Pio IX, ao qual Rossi se afiliou de corpo e alma. Rossi, que fora até Roma para combater o jesuitismo, volta um fiel defensor dos Irmãos de Inácio de Loyola. É proscrito da Carbonária em 1820 e se torna um novo Saulo, convertendo-se aos ideais do Papa. 
- Era o novo Judas, gritavam em todas as Barracas, de punhal em riste, os Bons Primos, seus antigos companheiros.
Conhecedor que era dos métodos de seus antigos companheiros, Rossi teve muita facilidade de nomear seus líderes e encher as prisões da Cidade Eterna, dando um tremendo golpe no movimento revolucionário.
Rossi cada vez mais se dedicava a uma acção repressiva, sem pensar que, desde a mais humilde Choça à mais pujante Barraca, e com Giuseppe Mazzini tendo o controle de todas as Altas Venda - os punhais de São Constantino eram levantados e descreviam no ar o ângulo recto das decisões fatais. A sentença estava lavrada, terrível e implacável.

Havia sido marcada uma reunião para o dia 15 de Novembro, a 1 hora da tarde, com o Ministro Conde Peregrino Rossi. Dissera Rossi no dia anterior: "- Se me deixarem falar, se me derem tempo para pronunciar o meu discurso, não só a Itália estará salva, como ficará definitivamente morta a demagogia da Península". A demagogia da península era o movimento Carbonário. "- La causa del Papa es la causa del Dio". 
Conde Peregrino Rossi desceu as escadarias e entrou na carruagem que o levaria ao Parlamento. 
Chegando à praça, a carruagem atravessou lentamente a multidão e entrou pela porta do Palácio e foi parar em frente ao vestíbulo, onde Peregrino Rossi foi saudado por assobios e gritos enraivecidos: 
- Abaixo o traidor!
- Morte ao vendilhão da Pátria!

Só então Rossi se apercebeu que nem toda a consciência nacional estava encarcerada na Civiltá Véchia. 
Esboçou um sorriso contrafeito para a multidão e quando se dispunha a continuar a marcha, recebeu um golpe na carótida, especialidade dos Bons Primos, que o fez tombar agonizante. No bolso interno da sobrecasaca, ao ser recolhido o cadáver, foi encontrada a sentença de morte: "Juraste lutar pela unificação da Itália e traíste o juramento! Lembrando: Juro que jamais abandonarei as armas ou desertarei do Movimento Patriótico, enquanto a Itália não for livre e entregue a um governo do Povo, para o Povo. Se eu faltar a esse juramento, prestado de minha livre e espontânea vontade, que o pescoço me seja cortado e o meu nome desonrado e apregoado como o mais vil traidor à Pátria e aos Bons Primos da Carbonária Italiana. Com coisas sérias não se brinca!” 

Como vimos, a Carbonária estava distante da Maçonaria, mas apesar disso, sempre foi confundida com a Maçonaria, até por Maçons bisonhos que acreditam que no passado a Maçonaria executava Irmãos e profanos que não rezassem por sua cartilha. De vez em quando, ouvimos um Irmão dizer que a Maçonaria precisa voltar a ser o que era no passado, e executar os maus elementos da sociedade.

A Maçonaria em tempo algum executou os maus elementos da sociedade. Quem, às vezes fez isso, foi a Carbonária, a Maçonaria não. A Maçonaria sempre foi pacífica, respeitadora da lei e ordem. Só usando sua estrutura fechada para lutar contra os maus regimes políticos e algumas instituições nocivas, mas sempre ordeira e pacificamente. Seus membros, sim, às vezes, independentemente de suas Lojas, se filiavam a movimentos ou grupos vingadores.

Bons Primos Carbonários – Imãos Para Sempre!

Autor: Xico TRolha
Texto extraído do livro "Itambé, Berço Heróico da Maçonaria no Brasil", Ed. "A Trolha", 1996.

terça-feira, 12 de março de 2013

Construir a Maçonaria Europeia

Toda a construção, toda a mudança é necessariamente um empreendimento complexo, aventureiro, imprevisível, inquietante e pode ser mesmo perigoso. Mas quem somos? Não somos os herdeiros dos construtores das catedrais? Não aprendemos a arte do traço e da dimensão da pedra bruta? Ignoramos a maneira de ajustar as pedras mesmo as mais dissimilares? 
Nós temos as ferramentas legadas pelos nossos antecessores, os métodos de trabalho, o pensamento e certas fórmulas capazes de nos pôr na via de tal alquimia. Também vos digo, estou optimista: é disto que vos falo, ou seja da construção de uma maçonaria europeia, está sob os nossos olhos, em redor do pavimento de mosaico: Os Imãos e as Irmãs franceses, portugueses, belgas e mesmo brasileiros! Ritos e Obediências, fortemente diferentes e no entanto capazes de se reunir para trabalhar juntos!!! Não duvido que o que podemos fazer uma vez, poderemos efectivamente faze-lo outras vezes. Tal pode tornar o nosso encontro exemplar, embora não seja uma excepção.

Assisti na Europa a iniciativas semelhantes. Penso, por exemplo nos encontros anuais organizados pelas R. L. Hiram do Rito Francês, GODF e Withe Swan do REAA, GLDF, ambas a Oriente de Londres; A RL Estrela D’Alva, programou para Lisboa, um Encontro sobre o tema da «cidadania na Europa»: um projecto que deverá reunir as Lojas portuguesas naturalmente, mas também as francesas, espanholas, brasileiras e belgas, sem distinção de Rito, Obediência ou de sexo. Penso nos projectos programados pela R. L. Cosmodicée com a sua Loja gémea em 2015 em Mons, os quais St Jean subscreve totalmente. 


Sublinhou bem VM, que em cada uma das vezes estas iniciativas germinaram na estrutura elementar da Ordem Maçónica, isto é, na LOJA! Por ser no interior da Loja e a partir dela que se construíram e se constroem ainda, todos os projectos duradouros e bem fundados. Sendo, ainda, dentro da Loja, que se operam as transformações da matéria, seja íntima ou não, individual ou colectiva… Sendo a partir da Loja e de nenhum outro lugar que chegamos e chegaremos a levar para o exterior do Templo o que aprendemos aqui. 
Sabemos, porque o praticamos, direi que diariamente. O Oriente de Tours é deste ponto de vista exemplar, dado que 15 Lojas de Ritos diferentes e pertencendo a 5 Obediências, trabalham desde há vários anos em conjunto. Certamente este trabalho é essencialmente administrativo e de gestão material, mas não só. Estas vicissitudes do tipo profano, incontestavelmente favoreceram e mantiveram as relações, as visitas, os projectos e os trabalhos comuns. Penso na associação « laço de união europeia » sonhada pelo nosso saudoso Irmão Paul Bachelard que foi membro da R. L. os Démophiles. Penso igualmente nas iniciativas comuns acerca da laicidade. Mais distante no tempo recordo-me de duas exposições internacionais sobre a maçonaria organizadas em Tours. De maneira mais trivial, mas porque não, penso em certas fraternais actividades e festas locais. Eu mesmo soube recentemente que Irmãos e Irmãs de várias Lojas montaram um grupo musical inter-obediências. Sem procurar muito longe, esta sessão e a presença dos nossos Irmãos portugueses e belgas, só foi possível graças à colaboração das lojas d’Indre-et-Loire e até de outras. Lojas do GODF, mas não só. 
Defendo que é ao nível da Loja e a partir dela só, que a construção europeia será possível. Cabe-nos a nós demonstrá-lo. Claro que não nego que as nossas obediências não tenham tentado trabalhar em conjunto? As três principais Obediências aqui representadas, o GODF, o GOL e o GOB, assinaram tratados, encontram-se, participam em estruturas e delegações comuns. Elas têm a legitimidade e o poder e é bem assim.

Mas faço uma pergunta: porque não se vai além da simples manifestação de princípio acerca de valores comuns, diria pontualmente? No meu entender por duas razões essenciais: A primeira prende-se as nossas histórias respectivas e com o facto de as nossas obediências serem construídas à escala das nações, com a herança das nações e os reflexos das nações!!! Ora, o processo de mundialização, questiona em primeiro lugar as fronteiras das nações!!! Questiona seguidamente as mobilidades que fazem os homens atravessar mais facilmente as fronteiras e poderem encontrar-se longe dos seus Orientes nacionais. Contra isso, as nossas Obediências são actualmente impotentes, e não vejo nada que possa surgir como um começo de resposta da sua parte. Uma resposta que testemunhasse uma transformação e uma adaptação da maçonaria a este novo dado. A segunda razão remete-nos para a questão iniciática. Construir com o Outro, é renunciar a uma parte de si mesmo, é entrar num processo de despojamento para ir ao essencial na humildade e sobretudo no respeito pelo Outro. Nada se pode fazer se não estivermos persuadidos de que não sabemos tudo, que não trazemos toda a Luz só para nós e que a nossa parte de sombra não é menor que a do outro, seja irmão ou irmã. Nós não somos a Ordem. Não, nós ocupamos um lugar, certamente privilegiado, mas igualmente efémero e relativo. 

Tudo isto se consegue do trabalho em Loja! Este conhecimento não existe em nenhum outro lugar ou não é utilizado como tal, ou bem que ainda o é, mas de maneira muito insuficiente. Como disse há pouco, eu não sou pessimista. Será que um dia as nossas Obediências conseguem trabalhar permanentemente juntas e construir de facto a Europa Maçónica que desejamos? Mas primeiro será necessário que os trabalhos anteriormente efectuados pelas Lojas Europeias Livres (e porque não para além da Europa), as lojas compostas de maçons e maçonas livres, tenham favorecido a subida da seiva que verá desabrochar os frutos no cume das nossas árvores respectivas…
Para terminar por agora, vou buscar por minha iniciativa esta citação de Paul Bachelard que concluía um artigo escrito em 2008. «Propor às irmãs e aos irmãos que ponham conjuntamente e em processos mais longos que a anualidade, as suas reflexões e trabalhos sobre os temas essenciais da renovação da nossa sociedade, é pôr em curso uma dinâmica colectiva. A noção de ordem maçónica deve tomar o passo sobre as Instituições gestoras, para se fazer ouvir, a uma só voz, forte, a diversidade e a unidade profunda do humanismo maçónico».

Camille Desmoulins - RL Saint Jean - Oriente Tours - GODF

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Geometria Sagrada

No Registro Nacional de Propriedades Industriais da França, encontra-se arquivada uma curiosa patente de número 333.393, datada de 26 de junho de 1903, propriedade de Joseph-Alexandre de Saint-Yves. Trata-se de um instrumento de precisão, catalogado pelo instituto de patentes entre os instrumentos matemáticos de pesos e medidas que o inventor chamou "Padrão Arqueométrico", um meio de aplicar as regras musicais à arquitetura, às belas-artes, às artes gráficas e a diversas profissões e ofícios.
Muito já se escreveu sobre a Geometria Sagrada e os supostos segredos que os construtores medievais ocultaram nos muros das catedrais. Saint-Yves não era um fantasista, mas acreditava num padrão ou proporção matemática implantada pelo Criador entre todas as coisas e fenômenos do Universo, assim como os antigos gregos ao estabelecerem o Número de Ouro ou Divina Proporção que é 1,618....
A ideia expandiu-se para a trajetória dos astros, os fenômenos astronômicos e os ciclos que ocorrem na Terra.
O "Padrão Arqueométrico" de Saint-Yves fez renascer as idéias dos pitagóricos de que "no princípio Deus geometrizou"; que o Universo foi criado com número e proporção. Estas idéias levaram os extremados a afirmarem que "Deus é um número".
Nos templos iniciáticos da antiguidade, segundo as conjecturas de Saint-Yves, predominava a lei astronômica dos Triângulos Celestes. O diagrama formulando essa "descoberta" aparece nas modernas instruções maçônicas e nos ensinamentos de outras ordens iniciáticas, deixando os adeptos boquiabertos:
Nossos remotos antepassados imaginavam que a Terra fosse o centro do Universo, o número 1. Contemplavam o céu, o horizonte e o Sol como se fossem a unidade se desdobrando na perigosa dualidade: o dia e a noite, o preto e o branco, o sim e o não. Estes, por sua vez, materializavam-se em quatro triângulos: as casas zodiacais 1, 5 e 9 sendo ígneas (elemento fogo); as casas 2, 6 e 10 correspondendo ao elemento terra; as casas 3, 7 e 11 formando o triângulo do ar e, finalmente, as casas 4, 8 e 12 pertencendo ao domínio das águas. E Saint-Yves acabou por reproduzir essa cosmogonia que alguns tentam explicar pela "quadratura do círculo", assim:
Os quatro primeiros algarismos constituem a tetractys pitagórica. O plano divino e o plano humano estão assim relacionados: o um se torna muitos; os muitos se unem outra vez na unidade, ou seja, 1+2+3+4=10 sendo que o 10 retorna à unidade, pois 1+0=1.
Parece complicado... e é mesmo, principalmente com a colaboração dos exotéricos extremistas que transformam o simples em complexo e o complexo no indecifrável.
Mas Saint-Yves não se limitou a reproduzir essas idéias. Levou-as mais longe no que se refere à correlação entre formas arquitetônicas, cores e os sons musicais nas catedrais góticas: um som é ANÁLOGO uma cor (vibração em oitavas superiores) e uma distância entre dois pontos. 
A arte gótica, na interpretação de muitos é, na verdade, "ars gotica" ou "argot", uma linguagem secreta. Na mitologia grega, o navio de Ulisses chamava-se "Argos", e seus tripulantes "argonautas" - uma espécie de Loja - maçônica ou rosacruz - flutuando sobre as águas.

Com os conhecimentos que possuía, Saint-Yves aventurou-se na pesquisa da relação entre o significado dos sons do alfabeto watan, a escala musical e as medidas numa régua de três faces (watan seria a escrita primitiva que, segundo os videntes, originou-se na Atlântida e foi transmitida à Índia e ao Egito depois da catástrofe que fez desaparecer aquele continente). Nesse ponto da "pesquisa" o autor do Arqueômetro abriu concessões irreparáveis ao critério científico.
Porém, dessas andanças resultou uma intrigante descoberta das correspondências entre hieróglifos egípcios, o alfabeto hebraico, os números e a escala (musical) pitagórica. Noutras palavras: apontou no que julgava ver e acertou no que não viu (figura acima, mostrando as medidas de um cálice, as cores, os planetas e os sons).
Duas dessas importantes chaves aparecem na páginas 273 e 274 da edição espanhola de Luis Carmo-Madrid com o "tipo de armação musical do Estilo grego - Divisões musicais e Intervalos relacionados à corda sol dividida (em 96) - Número do Triângulo de JESUS (arqueômetro)". O nome Jesus foi escolhido como exemplo para o projeto de uma fachada. Numa primeira leitura dessas plantas baixa e recortes de fachadas o leitor desanima, pois tem de conhecer matemática e desenho geométrico além de sustentar-se em sólido conhecimento da teoria musical (o desenho acima reproduz a escala pitagórica que é impraticável para a composição musical e afinação dos instrumentos. O que usamos é o "sistema temperado" ou Wohltemperierte segundo Bach).
A primeira leitura que fiz do Arqueômetro data de 1990 quando fui presenteado com o livro. Confesso que fiquei tonto... apesar de ter sido bom aluno de Geometria, Geometria Descritiva de Gaspard Monge, ter passado bom tempo lendo sobre as tentativas de Gustav Fechner para validar a associação entre fenômeno humano e o número de ouro, etc., além - é claro - de minha formação profissional como instrumentista e professor de música. Mas nem esses conhecimentos me foram suficientes, apesar de, pacientemente ter separado os elementos imaginativos daquilo que pude contar e medir com o auxílio de uma lupa. Lá estavam (e ainda estão) as medidas, formas e cores demonstradas por Saint-Yves D'Alveydre.
Para os místicos, os povos da remota antiguidade sabiam correlacionar as energias telúricas e siderais com formas, cores e com um outro aspecto infelizmente perdido para nós: a música desses povos. Dizem que os antigos egípcios frequentavam lugares sagrados para entrarem em comunhão com as forças da natureza mediante formas sagradas, cores que eles geralmente atribuíam às vestes ritualísticas e sons sagrados que emitiam naqueles locais durante as cerimônias. As formas e as cores chegaram até nós. Os sons se perderam, pois, como já dissemos, só na Idade Média foram desenvolvidas novas técnicas de notação musical.
Foi na Idade Média que se desenvolveram as técnicas de notação musical. Guido d'Arezzo, que viveu de 995 a 1050, foi o inventor de inúmeras novidades musicais. Fez progredir o sistema de escrita das notas e deu os nomes dó-ré-mi-fá-sol-lá-si às sete notas dos sistema tonal com sílabas de um hino dedicado a São João, patrono dos construtores de catedrais, dos Templários e dos "monges construtores". Isso temos como verificar:
UT queant laxis = ut foi substituído pelo monossílabo DO;
REsonare fibris = nota RE (escala pitagórica = 9/8);
MIra gestorum = nota MI (escala pitagórica = 81/64);
FAmuli tuorum, = nota FA (escala pitagórica = 4/3);
SOLve polluti = nota SOL (escala pitagórica = 3/2);
LAbii reatum, = nota LA (escala pitagórica = 27/16);
Sancte Ioannes = S+I (ou si) (escala pitagórica = 243/128).

Traduzindo o hino, para que possa servir de interpretação daquilo que Guido d'Arezzo ocultou: "Para que sejam soltos as vozes de teus servos num cântico que possam proclamar as maravilhas de vossas obras limpe a culpa dos lábios manchados, ó São João!"
Saint-Yves era também músico e estava atento a essa associação ao elaborar a teoria do Arqueômetro. Passou a "usar o watan" apenas como referência (mais para ocultar do que para revelar, como fazem os bons simbolistas). No momento de provar sua teoria, associou cada som das vogais e consoantes latinas à determinada nota e cor. Nas páginas 284, 285 e 286 (da Edição espanhola) ele exemplifica o Arqueômetro musical na línguas litúrgica, musicando o "Angelus dixit..." ou Saudação Angélica em conformidade com as leis numéricas (para coro, harpa baixo e órgão).
Disposto a recuperar o segredo dos antigos construtores e redescobrir os números e proporções capazes de orientar o homem moderno na construção de templos e na composição de cânticos adequados aos mesmos, inventou uma escala de medidas, cores e sons, uma extensa coleção de "réguas triplas" derivadas do sistema métrico decimal, da escala musical temperada em substituição ao sistemas musicais dos pitagóricos.
Em resumo: para Saint-Yves, as catedrais estão construídas nos cânones de arquitetura e sincronizadas com: 1) cores internas filtradas da luz solar pelos vitrais e rosáceas; 2) os cânticos religiosos; 3) o formato e tamanho do cálice utilizado durante as celebrações.
Cada catedral deveria, portanto, ter sua própria música e seus próprios cânticos. Seria preciso que cores específicas, refletidas internamente, estivessem em harmonia (ressonância) com o resto da construção, a música e a posição geométrica do templo.
As descobertas de Saint-Yves D'Alveydre estão condensadas, e de certo modo veladas, em seu livro "O Arqueômetro - Chave de Todas as Religiões e de Todas as Ciências da Antigüidade",(traduzido em português pela Madras) onde ele propõe uma reforma de todas as artes contemporâneas.
Evidentemente, trata-se de um livro de leitura difícil. Exige conhecimentos aprofundados de matemática, música e arquitetura. Mas sua teoria e suas demonstrações levam-nos a refletir sobre o conhecimento perdido e principalmente sobre o uso equivocado das artes atuais, especialmente no campo da música.

Autor: José Maurício Guimarães
www.zmauricio.blogspot.pt
Ilustração de uma Iniciação em tempo Antigos.
Litografia Inglesa do Século XIX (30 de Janeiro de 1809) - Londres