terça-feira, 26 de agosto de 2008

Recreação

Caros Leitores, Amigos e Irmãos, votos de Saúde e Fraternidade.

Este vosso/nossso Blog esteve em pausa de trabalhos e publicações, sim, que em Maçonaria os trabalhos nunca acabam, ficam suspensos para serem retomados nos momentos ou na data seguinte, simbolizando o trabalho contínuo e o constante aperfeiçoamento do eu interior de cada um e da Ordem em geral.Terminado o período da recreação os trabalhos tomam de novo força e vigor!

terça-feira, 29 de julho de 2008

Vozes Gravadas na Pedra

Sento-me nos degraus da grande entrada da Catedral de Santa Maria em Évora. Sobre mim as doze preciosas esculturas com os apóstolos. Estranhas figuras. Cada uma olha num sentido diferente. Para onde se dirigem os seus olhares? Encontramos apóstolos de várias raças, negros, árabes, hebreus. Que mensagem teriam os escultores medievais querido deixar ao futuro esculpindo as imagens dos apóstolos de Cristo num registo tão diferente de todas as outras representações?
Soterrada nas fundações da catedral estará o que resta da grande mesquita de Évora. Gerações e gerações de culturas ergueram os seus templos naquele mesmo lugar. Mas hoje, o que nos fica é a romano-gótica Catedral dedicada a Santa-Maria que dentro da igreja podemos encontrar por duas vezes em estátuas onde está sempre representada grávida: a Senhora do Ó.
Todos os degraus da escadaria principal estão gravados com misteriosos símbolos: esquadro, nível, prumo, assinaturas encriptadas, marcações das passagens solsticiais. Mesmo abaixo do olhar dos apóstolos, em Pedras Cúbicas e Polidas, os Mestres da Grande Construção Operativa dos Templos deixaram subtis sinais para que fossem reconhecidos por outros que ao chegar e sendo detentores dos segredos dos seus significados se soubessem guiar no gigantesco projecto de construção de «Santa-Maria».
À entrada da catedral eis os sinais deixados ao futuro pelos Maçons, que ao trabalharem nas partes inferiores da edificação, confiavam que mesmo depois da sua morte outros viriam e continuariam, pedra a pedra, a construção até que no zénite do edifício a flecha da catedral flamejasse sobre a cidade.

Cá fora o calor aperta. Quarenta graus. Num movimento lento percorro as marcas gravadas com os dedos. Os símbolos parecem despertar sob as minhas mãos. Com surpresa, descubro um pequeno sol e uma lua. Percorridos todos os sinais da escadaria diríamos estar preparados para dar entrada no templo. Estaremos? A porta abre-se, ao fundo, sobre o altar, um triângulo radioso com um olho pintado. Não somos nós que o olhamos mas «ele» que nos olha.
Mais uma vez, pelo chão, mais sinais gravados fazem-nos baixar a cabeça. Como se cegássemos. Vinda do interior da terra uma voz faz-se ouvir: «Que queremos para este nosso irmão?» depois de uma pausa, olhando de novo o triângulo, outra voz se ergue dos Elementos: «A Luz!».

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 22 de julho de 2008

Aprender a voar entre o simbolismo

Quando acordei como Ícaro um mundo novo tornou-se parte integrante da minha vida, o mundo profano deixou de ser o que era, uma nova forma de o ver começou a fazer parte do novo eu que estou a reconstruir. Pensei em várias formas de trazer aqui a importância do simbolismo na Maçonaria, mas não quis que fosse algo repetido ou uma dissertação teórica, mas sim uma experiência pessoal, partilhar com todos a forma como estou a sentir esta fase da minha vida.
Sou Aprendiz e os meus voos agora são pelo conhecimento e pela reconstrução do que eu sou, sinto-me num processo de transmissão de doutrina e ensinamentos, em que a ansiedade invade o meu espírito e uma vontade imediata de conseguir interpretar e sentir a forma como a Maçonaria se expressa. Para mim a aprendizagem é um processo pessoal e de introspecção e toda a carga simbólica é sentida através das formas ritualistas, quer de iniciação ou de passagem de um grau para outro. Os símbolos tornam-se instrumentos do nosso trabalho e são reflectidos em objectos colocados na loja que os sentimos e que se tornam parte de cada um de nós, do nosso Mundo. O nosso simbolismo torna-se assim, num laço exterior de todos os Irmãos, uma linguagem adequada à Maçonaria, específica e compreendida em todas as línguas que nos permite voar dentro do espírito universal desejado de fraternidade um passaporte que nos permite levar ao Mundo Profano os valores de homens livres e de bons costumes tornando-nos capazes de combater a ignorância e os preconceitos alicerçados pela força, sabedoria e beleza.

Quando reflicto o simbolismo recordo-me sempre de umas palavras de Fernando Pessoa no seu livro a “Mensagem”, palavras essas que me orientam o momento que vivo e que quero partilhar, pois considero um legado precioso para a humanidade e foi uma importante ajuda neste meu voo. Para Fernando Pessoa, "o entendimento e a assimilação de mensagens contidas num símbolo dependem de cinco qualidades: a simpatia, intuição, inteligência, compreensão e revelação", as quais estão sempre presentes em mim.
Estou a aprender a conhecer-me a mim mesmo, e quando sinto o nosso simbolismo desta forma, torna-se parte de mim a renovação constante, a revolução de ideias, de conhecimento e altruísmo sem detenção no tempo.
Agora sim, começo a sentir a Maçonaria, torna-se parte de mim, entra em mim e começa a orientar-me e a sustentar os meus voos.

Autor: Ícaro

terça-feira, 15 de julho de 2008

A cor dos sonhos

O pequeno Nianzu vivia numa pequena aldeia que deuses e homens fizeram plantar num dos imensos vales que se aninham submissos nos sopés das montanhas dos Himalaias.
A necessidade de sobreviver e a perda precoce da família fizera-o percorrer o caminho pedregoso das montanhas para chegar ao mosteiro budista mais próximo, que o destino lhe fizera escolher como recurso na vontade. Os pequenos olhos escuros percorriam atentos todo o espaço à entrada do templo, como duas pequenas rodas dos desejos, que as faces rosadas faziam elevar como dois pequenos altares da descoberta do mundo. Naquele dia, ele era um entre outros que como ele, procuravam ingressar no templo que a vida fizera como a opção que à maioria seria negada, fosse na sorte ou na vocação.
Na sala onde se encontrava e fora conduzido por um jovem monge de cabeça rapada, haviam sido colocadas tintas de várias cores, pincéis e folhas de papel pardo, que o monge fizera distribuir cerimoniosamente no respeito antecipado e igual. Entre o silêncio que dava a mesma cor às palavras e aos pensamentos daquelas caritas de olhar brilhante, deu entrada na sala o lama, que a idade aparente procurava acompanhar na sabedoria que se lhe adivinhava na expressão e modos que ia dispensando a todos e a cada um dos presentes. Sentados e acomodados, convidou o lama que cada criança pintasse a folha de papel que lhe fora distribuída, com a cor que aquela achasse ser a dos sonhos. De imediato, cada criança tomou nas mãos uma folha de papel e o pincel, escolhendo entre as cores das tintas à disposição e pouco foi o tempo quanto demorou que diante delas repousassem folhas de papel de cores diversas como uma pequena roda multicolor em torno do velho lama que olhava atento cada uma das obras expostas diante dele.

Perguntando a cada criança o porquê de cada cor escolhida, entre tantas que faziam justiça fosse ao sol, ao céu ou à neve e às montanhas, não tardou que fosse chegada a vez do pequeno Nianzu justificar a sua escolha. Diante dele repousava uma folha onde várias eram as cores, entre as quais imprimira noutras tantas a sua mão.
- De que cor são dos teus sonhos ? Perguntou o sábio lama.
- São da cor das minhas mãos. Respondeu o pequeno Nianzu.
O velho lama, baixou-se diante dele e numa reverência simples tomou-lhe o pincel e na cor da vontade lhe ensinou a escrever aquele que lhe reconhecia no verdadeiro nome ancestral, “Zhiqiang” lembrando que “a vontade é forte” e que assim, os sonhos não são mais que a realização dos nossos desejos pelas mãos.

Conto Simbólico por: Sheikh

terça-feira, 8 de julho de 2008

O Segredo Maçónico

Para qualquer Maçom regressar ao Templo, no amplexo fraternal dos seus Irmãos: homens de todas as idades, experiências de vida, classes sociais, etc. – é retornar a uma casa-mãe onde, iluminados pela luz dos grandes signos da Maçonaria, todos se ligam por um fio fino e invisível de inexplicável união fraterna.
Em Templo ninguém é mais importante que ninguém. É sabido que a Maçonaria trabalha de forma iniciática, gradual, das trevas para a Luz. Da morte para o renascimento. Da terra para o fogo. Mas esses graus em que cada um vai ascendendo funcionam como se se subisse uma escada em que em cada degrau constitui um ensinamento para que, de forma segura se possa colocar os pés no degrau seguinte e nunca como uma forma de ostentar diferenças ou exercer desigualdades.
É por isto que se torna tantas vezes doloroso para um Maçom ver-se impossibilitado por um motivo profano de comparecer aos trabalhos da sua oficina. A sua Loja.
Durante as sessões «os metais ficam à porta do templo». A energia de cada Irmão expande-se apoiada pelas qualidades dos outros Maçons. O seu campo de «mundivisão» amplia-se. Ali já não são só os seus olhos que vêem, os seus ouvidos que ouvem, os seus sentidos vulgares que respondem. Conduzidos pelo Ritual, passam os Irmãos a viver/vivenciar uma percepção sensorial conjunta sem risco para a sua individualidade, até pelo contrário, a sua individualidade só pode sentir-se reforçada. Eis o que podemos chamar (parcialmente, há outros aspectos) o Segredo Maçónico. Trata-se dessa vivência etérea e física e, principalmente, ética, que renasce em cada sessão o sagrado Segredo dos Maçons.

Talvez haja quem pense (certamente há) que os Maçons guardam segredos de outro tipo, materiais por exemplo. Ou que se juntam para «maquinar» uma perversa influência de cada um no exterior. Enfim, haverá quem pense e faça passar essa sua crença infundada a outros, dando a entender com intuitos de perjúrio que na Maçonaria o segredo é a alma de um qualquer negócio.
Pois não poderiam estar mais enganados os que assim pensam. Na realidade, o Segredo Maçónico é um segredo interno. Uma forma de comunhão com o que há de mais sagrado no coração de cada Irmão e que a iniciação na Franco-Maçonaria (a Livre-Maçonaria) proporciona. É essa Verdade imensa e bela que se faz revolucionária em cada iniciado. Essa experiência de trabalho interior é de facto um segredo próprio dos Maçons. Verdade que vibra no coração de cada um até que a vida o conduza ao Grande Oriente Eterno, denominação dada ao mistério da passagem pela porta da morte. E, todos os dias, o Maçom, na sua meditação e trabalho aprende a lidar com essa fronteira. A morte e o seu simbolismo é uma poderosa ferramenta de trabalho para os maçons desde o dia das suas iniciações.
Ser detentor deste segredo é certamente um privilégio incomensurável, mas mais do que isso é uma responsabilidade que jamais deve ser descuidada.
Pensemos, pois, no Segredo Maçónico como a própria Vida em transmutação que o Maçom recebe no dia da sua iniciação que se manterá aceso seja qual for o grau que venha a atingir no seu percurso, sejam quais forem as responsabilidades temporais que assuma. O seu segredo é a união de luzes que a cada instante da sua vida profana e Maçónica o seu intimo de aprendiz lhe vai ensinando.

Pela Liberdade
Pela Igualdade
Pela Fraternidade

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 1 de julho de 2008

O Aprendiz

É aquele que aprende, e sempre em aprendizagem vai tirando as suas conclusões:
Aprendi.... que ninguém é perfeito
Aprendi....que a vida é dura mas eu sou mais que ela!!
Aprendi que...as oportunidades nunca se perdem, aquelas que desperdiças... alguém as aproveita
Aprendi que...quando te importas com rancores e amarguras a felicidade vai para outra parte.
Aprendi que...devemos sempre dar palavras boas...porque amanhã nunca se sabe as que temos que ouvir.
Aprendi que...um sorriso é uma maneira económica de melhorar o teu aspecto.
Aprendi que... não posso escolher como me sinto...mas posso sempre fazer alguma coisa.
Aprendi que...quando o teu filho recém-nascido segura o teu dedo na sua mão têm-te preso para toda a vida
Aprendi que...todos querem viver no cimo da montanha...mas toda a felicidade está durante a subida.
Aprendi que...temos que gozar da viagem e não apenas pensar na chegada.
Aprendi que...o melhor é dar conselhos só em duas circunstâncias...quando são pedidos e quando deles depende a vida.
Aprendi que...quanto menos tempo se desperdiça...mais coisas posso fazer.

Autor: Gonçalves Lêdo

terça-feira, 24 de junho de 2008

Os solstícios e as religiões

Há indicações de que o homem primitivo desde cedo soube relacionar o dia com o Sol e a noite com a sua ausência, e nos casos dos povos que viviam mais afastados do equador, decerto distinguiriam duas épocas principais ao longo do ano, uma de frio e outra de calor. Estes conceitos ter-lhe-ão servido não só como base para organizar as suas diversas actividades, mas também dado origem aos cultos solares, com o Sol, a nossa grande fonte de calor e de luz, a ser proclamado como “rei dos céus” e “soberano do mundo”. Estes primeiros conceitos religiosos deverão ter tido influência marcante sobre todas as religiões e crenças posteriores.
Por outro lado, desde os tempos das antigas civilizações, o homem imaginou os solstícios como aberturas opostas do céu, semelhantes a portas, por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada ciclo tropical.
No panteão romano, a personificação de tal conceito foi o deus Janus, representado como uma divindade bifásica; o seu próprio nome mostra essa implicação, já que deriva de «janua», palavra latina que significa “porta”. Por isso, ele era também conhecido como Janitur, ou seja, porteiro, sendo representado com um molho de chaves na mão simbolizando ser ele o guardião das portas do céu. Posteriormente, essa alegoria passaria, através da tradição popular cristã, para São Pedro, mas já sem qualquer relação com os solstícios.
Janus era um deus bicéfalo, com duas faces simetricamente opostas. Tal representação simbolizava a ideia de que estaria a olhar com uma das faces para o passado e com a outra para o futuro.
Os solstícios ocorrem cerca de 21 de Junho e de 21 de Dezembro e correspondem aos pontos em que vemos o Sol mais afastado da vertical do equador. Os paralelos terrestres em que nessas datas o Sol, ao meio-dia, é visto na vertical recebem respectivamente os nomes de trópico de Câncer e de trópico de Capricórnio, apesar de actualmente nada terem a ver com as constelações do mesmo nome.
Desde há milhares de anos que os mais diversos povos assinalam os solstícios como datas importantes. Nuns casos as celebrações revestiam-se de carácter festivo, enquanto noutras as cerimónias mostravam preocupação. É o caso dos Incas que vendo o Sol cada vez mais a norte no solstício de Junho, receavam que não regressasse e imploravam-lhe que retrocedesse.
Com o tempo, essas tradições terão sido influenciadas e assimiladas pela Igreja, tendo acabado por se confundir. É o caso do solstício de Junho, pois ocorre em data muito próxima da comemorativa de São João Baptista (24 de Junho). Mas onde essa conjugação é mais evidente é na celebração do solstício de Dezembro, que se confunde não só com as festividades de S. João Evangelista (27 de Dezembro), mas em especial com as do dia de Natal (25 de Dezembro).

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 17 de junho de 2008

Coluna Harmonia

A Jóia do Cargo do Intendente de Harmonia é a Lira, um instrumento musical de corda dedilhada dos mais antigos que há memória, tocada por Fenícios, Egípcios, Assírios, Gregos e Romanos . As cordas eram feitas de tripa ou de tendões de boi ou carneiro. Há quem afirme que os braços primitivos deste instrumento eram feitos com chifres de cabra.Da Lira evoluíram vários instrumentos musicais de corda dedilhada. Vemos este instrumento ligado a vários episódios da História e da Mitologia - de Nero a Orfeu e outros. Tornou-se o Símbolo da Música Universal. Não tendo qualquer significado próprio que a relacione exclusivamente com a Maçonaria, foi adoptada como Jóia do Cargo do Intendente de Harmonia.
A Música e os Efeitos Sonoros durante as Sessões, são um complemento indispensável, inspirando os trabalhos, tornando o ambiente mais harmónico e solene, convidando à meditação. Cabe ao Intendente de Harmonia, a tarefa de embelezar a Sessão com músicas inerentes aos trabalhos em Loja, seleccionar as músicas adequadas à Sessão, manter em perfeitas condições de funcionamento o equipamento de reprodução sonora, bem como os suportes de registo e reprodução sonora; Ao interromper a música deve fazê-lo no final da frase, respeitando o sentido da mesma, preferir sempre músicas Maçónicas ou de Autores Maçons. O uso de temas com outras conotações, além de inadequadas, pode melindrar Crenças particulares de outros membros.
Pode o Intendente de Harmonia organizar uma sequência musical para cada tipo de Sessão, no entanto, este trabalho nunca será de carácter definitivo. A "banda sonora" das Sessões, como tudo na nossa Ordem deve sempre evoluir e responder a novas situações.Assim, além da "banda sonora standard" - com temas clássicos de Mozart, Beethoven, Handel, Haydn e outros, podemos também recorrer a autores Portugueses como João Domingos Bontempo, José Vianna da Motta e tantos outros que além de sublimes músicos, foram também defensores dos grandes Valores da Humanidade. É também uma Homenagem aos compositores e ao seu trabalho.

Autor: José Francisco Esteves

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fernando Pessoa

Tenho o dever de me fechar em casa no meu espírito e trabalhar
quanto possa e em tudo quanto possa, para o progresso da
civilização e o alargamento da consciência da humanidade.”

Nasce a 13 de Junho, dia de Santo António, num prédio em frente do teatro de S. Carlos, filho de Maria Madalena Nogueira e de Joaquim Pessoa. A família do pai é oriunda de Tavira e a família da mãe tem raízes nos Açores. Viveu intensamente, e no dia 29 de Novembro de 1935 é internado no Hospital de S. Luís dos Franceses. Escreve aí o seu último verso, onde se lê, além de inquietação, a terrível e insaciável curiosidade do esotérico: «I know not what tomorrow will bring», ("Eu não sei o que o amanhã trará"). Morre no dia seguinte, a 30 de Novembro.
A sua obra começará a ser publicada sistematicamente, em livro, só a partir de 1942, e a primeira versão de O Livro do Desassossego apenas chegará a sair em 1982. Assim, atravessa todo o século XX, de que fica a ser um dos nomes maiores. Na comemoração do centenário do seu nascimento em 1988, seu corpo foi transladado para o Mosteiro dos Jerónimos, confirmando o reconhecimento que não teve em vida.

Legado
Pode-se dizer que a vida do poeta foi dedicada a criar e que, de tanto criar, ''criou outras vidas através de seus heterónimos'', o que foi sua principal característica e motivou o interesse pela sua pessoa, aparentemente tão pacata. Alguns críticos questionam se Pessoa realmente teria transparecido seu verdadeiro ''eu'', ou se tudo não tivesse passado de mais um produto de sua vasta criação. Ao tratar de temas subjectivos e usar a heteronímia, Pessoa torna-se enigmático ao extremo. Esse facto é o que move grande parte das buscas para estudar sua obra. O poeta e crítico brasileiro Frederico Barbosa declara que Fernando Pessoa foi "o enigma em pessoa". Escreveu desde sempre, com seu primeiro poema aos sete anos e pondo-se a escrever até mesmo no leito de morte. Importava-se com a intelectualidade do homem, e pode-se dizer que sua vida foi uma constante divulgação da língua portuguesa, visto que, nas próprias palavras do poeta, ditas pelo heterónimo Bernardo Soares, "minha pátria é a língua portuguesa".
Analogamente a Pompeu disse que "navegar é preciso; viver não é preciso", Pessoa diz, no poema Navegar é Preciso, que "viver não é necessário; o que é necessário é criar". Outra interpretação comum deste poema diz respeito ao facto de que a navegação foi resultado de uma atitude racionalista do mundo ocidental (a navegação exigiria ''precisão'') enquanto a vida poderia dispensar tal precisão.
Sobre Fernando Pessoa, o poeta mexicano Nobel de Literatura Octávio Paz diz que "os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia". O crítico literário Harold Bloom considerou-o, no seu livro ''The Western Canon'', o mais representativo poeta do século XX, ao lado do chileno Pablo Neruda.

Pessoa e o esoterismo Fernando Pessoa possuía ligações com o esoterismo e o misticismo, salientando-se a Maçonaria e Rosa-Cruz (embora não se conheça qualquer filiação concreta em Loja ou Fraternidade destas escolas de pensamento), havendo inclusive defendido publicamente as organizações iniciáticas, no seu artigo no Diário de Lisboa, de 4 de Fevereiro de 1935, contra os ataques por parte da ditadura do Estado Novo. O seu poema hermético mais conhecido e apreciado entre os estudantes de esoterismo intitula-se "No Túmulo de Christian Rosenkreutz". Tinha o hábito de fazer consultas astrológicas para si mesmo (de acordo com a sua certidão de nascimento, nasceu às 15h20; tinha ascendente Escorpião e o Sol em Gémeos. Realizou mais de mil horóscopos. Certa vez, lendo uma publicação inglesa do famoso ocultista Aleister Crowley, encontrou erros no horóscopo e escreveu ao inglês para corrigi-lo, já que era um conhecedor e praticante da astrologia, conhecimentos estes que impressionaram Crowley e, como gostava de viagens, o fizeram vir até Portugal para conhecer o poeta.
Na ficha pessoal, também referida como "Nota autobiográfica", intitulada no original “Fernando Pessoa”, dactilografada e assinada pelo escritor em 30 de Março de 1935, afirma: “Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre da Ordem dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania”.
Por fim, o poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro; Poemas Inconjuntos; Escrito entre 1913-15; Publicado em Atena nº 5, Fevereiro de 1925, diz:
“Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples, tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.”

Autor: Júlio Verne (baseado em várias fontes: livros, biografias e internet)

terça-feira, 3 de junho de 2008

a mim filhos da viúva!

viu-se de relâmpago e era negra
e como se uma chave fosse
uma chave foi
abrindo a porta do grande
palácio das buganvílias e dos loendros
lá dentro
sobre um pavimento de mosaicos
brancos e negros
duas colunas
suportavam sem esforço um globo celeste
e outro terrestre
duas esferas romãs
abertas e expostas à sua multitude
era uma espada de ferro quente
ondulada:
flamejante a invocadora de todos os sortilégios
entre colunas –
onde reinava o silêncio,
soprou o verbo: «eis a minha espada, aqui
não haverá espaço para a defesa porque
não haverá espaço para o ataque»
nisto uma bicéfala águia branca pousou
sobre a coroa do trono
e no tecto do palácio se escreveu
num ouro muito azul: «ordo ab chao»

Autor: Hugo Pratt, M.'. M.'.,tempo do verão da era vulgar de 2006

terça-feira, 27 de maio de 2008

Tolerância

Na análise de ponto de vista da sociedade, a tolerância é no fundo a capacidade de uma pessoa ou até de um grupo social de aceitar, noutra pessoa ou também no outro grupo social, uma atitude diferente das atitudes que são norma no seu próprio grupo. Ser tolerante, tem muito a ver com a auto-estima que habita em cada um de nós, e alguém que necessite de se auto-afirmar a cada momento não poderá nunca praticar a tolerância. Admitir as diferenças com a tolerância em nós é aceitar que existam tantas verdades quantas pessoas existam. Não devemos confundir a verdade do outro com a nossa realidade, porque cada um tem a sua realidade, ou seja, aquilo que vive. O que outro vive é a realidade para o outro, para mim é apenas verdade e não é o que eu vivo.
Às vezes é comum ouvir-se: «A minha realidade é outra». Aceitar que outras pessoas possam pensar, agir e até viver diferente de si mesmo, é compreender isso e principalmente, respeitar o outro na sua forma de ser. Ser tolerante trás consigo a benevolência, que é sempre expressa de uma forma positiva e benéfica de ver as coisas e as pessoas. No fundo ser tolerante é ter uma visão positiva da vida e do ser humano, é compartilhar em todos os sentidos, em todos os segmentos das nossas vidas. Ser tolerante é uma das condições básicas para que ocorra uma boa comunicação entre duas pessoas ou mais pessoas, entre várias comunidades, credos etc.
O tolerante deve expor sempre com cuidado as suas ideias, buscando assim o convencimento e a persuasão. O tolerante deve estar sempre apto a receber ideias diferentes e aproveitá-las, fazendo enriquecer assim o seu mundo experimental, e até aproveitar para mudar a sua forma de viver em Sociedade ou até consigo próprio. Nos meios em que a tolerância predomina, as pessoas crescem de uma forma constante e convivem harmoniosamente entre si, é a pura prática da cooperação colectiva, assim nunca haverá espaço para posições individualistas e egoístas. Mas, atenção, ser tolerante não é admitir ou permitir qualquer tipo de situação ou comportamento, mas sim não ser intransigente e intolerante com tudo e todos, sem nem mesmo reflectir no que se está a ser debatido. Quem possuir uma visão tolerante das coisas e das pessoas, possui também calma e maior domínio de si mesmo para lidar com os obstáculos da vida, com isso busca superá-los sem actos de desespero e age sempre sem ferir outros.

Faça uma experiência: Levante-se com uma postura tolerante, olhe para os acontecimentos diários da sua vida em sociedade e pense que você está ali preparado para resolver todos os obstáculos que outrora o incomodavam e constate a diferença nos resultados que irá obter.
Tolerância, é viver com harmonia, alegria e respeito pelo próximo.

Autor: Gonçalves Ledo

terça-feira, 20 de maio de 2008

Ícaro: Levantar voo…

Voar, é um objectivo, uma vontade, que invade o espírito de Homem desde os primórdios da humanidade, nenhuma cultura nega essa vontade e o céu foi sempre um lugar especial, a morada dos deuses ou um universo cheio de mitos e lendas desenhados nas constelações. Outrora, era um lugar cheio de divindade somente alcançado por homens especiais e homenageados pelos deuses.
O acreditar, o delinear objectivos e sem duvida a vontade de vencer limites, barreiras levou o Homem a encontrar meios de atingir o céu e tornou-o parte do nosso quotidiano, uma realidade que uniu culturas e facilitou o desenvolvimento da Humanidade. Um exemplo desse desejo é a interessante história sobre Dédalo, relatada na mitologia grega.
“Ícaro era filho de Dédalo, o construtor do labirinto que o rei Minos aprisionava o Minotauro, um ser com corpo de homem e cabeça de touro. A lenda grega conta que Dédalo ensinou Teseu, que seria devorado juntamente com outros jovens pelo monstro, como sair do labirinto. Dédalo sugeriu que ele deveria utilizar um novelo que deveria ser desenrolado a medida em que fosse penetrando no labirinto. Dessa forma, após ter matado o monstro ele conseguiu fugir do labirinto. O rei Minos ficou furioso e prendeu Dédalo e o seu filho Ícaro no labirinto. Como o rei tinha deixado guardas a vigiar as saídas, Dédalo construiu asas com penas dos pássaros colando-as com cera. Antes de levantar vôo, o pai recomendou a Ícaro que quando ambos estivessem voando não deveriam voar nem muito alto (perto do Sol, cujo calor derreteria a cera) e nem muito baixo (perto do mar, pois a humidade tornaria as asas pesadas). Entretanto, a sensação de voar foi tão estonteante para Ícaro que ele esqueceu a recomendação e elevou-se tanto nos ares a ponto da previsão de Dédalo ocorrer. A cera derreteu e Ícaro perdeu as asas, precipitando-se no mar e morrendo afogado.”A realidade torna impossível de facto, voarmos com asas como imaginou Dédalo, o ser humano não consegue voar batendo asas porque ele não tem força física suficiente para levantar o seu peso. Há outras maneiras de nos fazer voar, muito mais eficientes, para voarmos é importante encontrarmos meios e coragem para levantar voo nunca esquecendo a prudência necessária que permita a uma calma e tranquila aterragem.
O Homem por acreditar, cruzou os céus e não deve esquecer estas asas, deve sim interiorizá-las como sendo as da imaginação humana que, ao tentar obter o que lhe parece impossível, acaba sempre por criar novos, e mais ousados, objectivos. Por acreditar na liberdade de pensamento e na concretização e materialização dos nossos projectos e objectivos, fundamentado em valores que validaram esses propósitos que renasci Ícaro.
As asas, o acreditar, vão dar-me força e coragem para voar mais alto de forma ponderada e evitar acções impensadas e precipitadas que me levem a aterragens bruscas ou desastrosas.
Tendo o mito em mente, torna-se mais claro que deveremos sempre pensar nas consequências reais dos nossos actos e o impacto que eles possam vir a ter na vida de terceiros e da nossa família.
Enquanto que a ousadia de Ícaro é certamente um dos mais importantes aspectos da mente humana, é também necessário viver com a prudência de Dédalo, sem a qual algumas decisões se podem tornar muito perigosas. Há que saber quando se deve arriscar e quando se devem retrair os impulsos curiosos.
Por acreditar nas minhas asas e a coragem as fazer levantar voo que me apresento com todo o agradecimento de me ter sido dada a oportunidade de com elas poder fazer parte desta família que acredita em voos tão grandiosos como tornar este mundo, num mundo melhor com base na Liberdade, Fraternidade e Igualdade.
Por acreditar renasci Ícaro.

Autor: Ícaro

terça-feira, 13 de maio de 2008

A Maçonaria e o seu Ritual

É natural que se pergunte qual o sentido do ritual Maçónico neste novo século. De alguma forma, para quem não o vive, trata-se de um mistério que leva a grandes equívocos e, por vezes, a especulações pouco exactas e quase sempre depreciativas.
A verdade é que é difícil para um não Maçon sentir e compreender algo que nunca viveu e que não encontra equivalente em mais nenhuma outra experiência espiritual e social seja a nível individual ou a nível colectivo.
Vivemos numa sociedade em que somos bombardeados em permanência pela existência do conflito, da injustiça, pela barbárie. Neste contexto, ser-se Maçon é tomar o partido dos grandes valores da Humanidade, combatendo através da prática quotidiana o lema fundador da Maçonaria: Liberdade, Igualdade, Fraternidade.
Assim, o Maçon enfrenta de forma gradual, iniciática, um sistema de símbolos e sinais que ao serem vividos na sua plenitude o preparam para uma vivência elevada, tornando-se capaz, num trabalho constante de auto-aperfeiçoamento, de constituir um núcleo de seres livres, permanentes construtores de um Templo de Paz e Dignidade no seio da sociedade em que se movimentam.
Desta forma, o ritual Maçónico é, essencialmente, um momento de descoberta, do indivíduo entre pares, de permanente inovação e criatividade onde através de movimentos cuidados, palavras específicas, silêncio e melodia se edifica criteriosamente um trabalho poético pleno de força, sabedoria e beleza.

Para cada Maçon a vivência do ritual revela-se de forma diferente. Cada símbolo, cada palavra dita, ecoa de forma diferente consoante aqueles que participam dessa sessão conjunta de homens na senda da Liberdade.
Gradualmente, cada detalhe ganha novas formas, novas leituras e sentidos. Nada é mecânico ou uma simplista repetição. Da mesma maneira que todos os dias estamos despertos para diferentes pontos da nossa vida, em cada sessão somos chamados e engrandecidos com surpresa para novos aspectos do ritual. O Maçon torna-se um investigador de si próprio, penetrando no seu ser mais íntimo como se entrasse num intricado bosque no qual vai aprendendo a orientar-se.
Fazendo mais uma vez referência a este mundo de agressividade, hoje como sempre a Maçonaria e o seu ritual simbólico surgem como uma resposta profunda e consistente, unindo mãos numa gigantesca cadeia.

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 6 de maio de 2008

Ser Maçon

Ser Maçon, é ser homem de bons costumes;
Ser Maçon, é ser livre.
Ser Maçon, é ser fraterno.
Ser Maçon, é ser tolerante.
Ser Maçon, é estar preparado para desbastar a pedra bruta, preparando-se assim para combater a tirania, vencer a ignorância e os preconceitos;
É este o trabalho de um Pedreiro-livre, transformar a pedra bruta numa pedra talhada para que assim se possa atingir a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

Autor: Gonçalves Ledo

terça-feira, 29 de abril de 2008

A Pedra

O distraído nela tropeça.
O bruto usa-a como projéctil.
O empreendedor utiliza-a para construir.
O camponês, cansado da lida, dela faz assento.
Para os meninos, é brinquedo.
Com ela David matou Golias.
Miguel Ângelo dela extraiu a mais bela escultura.
Em todos esses casos, a diferença não está na pedra, mas no Homem.
Não existem pedras no caminho de um Maçon que ele não possa aproveitar para o seu próprio crescimento.

Elaborado por: Álvaro

terça-feira, 22 de abril de 2008

As noites de Inverno são longas

Os anos já lhe pesavam nas pernas e o tempo húmido e frio não ajudava nada. Mas ele não era dos que desistem facilmente. Com passos vagarosos ia subindo a rua. Há muito que a noite tinha estendido o seu manto negro sobre a cidade. Não se via muita gente nas ruas. As molas de um velho autocarro chiavam com os solavancos do piso irregular. Dava para perceber que o motorista evitava os carris do eléctrico, pois aí o perigo de derrapagem aumentava ainda mais. Lá dentro, meia dúzia de passageiros olhava distraidamente para a rua.
Teve de parar um pouco para respirar. Havia contudo outro motivo para a sua paragem. Queria certificar-se de não estar a ser seguido. No passeio por onde subia a íngreme rua não se via ninguém a caminhar na mesma direcção. Ficou mais descansado. No entanto, mal pôde, dobrou uma esquina e depois de caminhar alguns metros, voltou a parar olhando discretamente para trás. Retomou a marcha, mas pelo sim pelo não, depois de voltar a mudar de rua repetiu a paragem.
À medida que caminhava, vinham-lhe à memória cenas que gostaria de nunca mais voltar a viver. Ele que criticava todas as ideologias radicais, ele que apenas queria que no seu país houvesse justiça, liberdade de expressão e menos pobreza, tinha sido expulso do ensino público só porque tinha sido um dos subscritores de um abaixo-assinado. Ao fazê-lo entrava para a lista negra dos “perigosos comunistas” e passava a ter de viver com os magros proventos das explicações que dava.
Pensou nos amigos que o esperavam. Um tinha sido desterrado para centenas de quilómetros da cidade alentejana onde tinha nascido e onde sempre tinha vivido e exercido a profissão. Só de lá tinha saído para estudar direito. Motivo: ter-se assumido como republicano num país que oficialmente continuava a ser uma república! Agora, reformado, sempre que podia vinha à capital para se encontrar com os amigos.
Apesar da idade, o médico ainda tinha de trabalhar. Não tendo direito a qualquer reforma, se não fosse dando as suas consultas não teria forma de se sustentar a ele e à mulher que a diabetes tinha cegado.
Quem lhe tinha feito mais confusão era o graduado da polícia. Fazia uma vida dupla. De dia fingia ser o mais fiel dos seguidores do ditador. De noite, reunia-se com os resistentes. De início receavam-no, mas depois de anos de convívio, tinham total confiança nele, até porque por mais de uma vez os tinha avisado da eminência de mais alguma vaga repressiva.
O velho marujo era o que mais vezes sentia o maravilhoso sabor da liberdade… a ditadura não conseguia proibir o vento de trazer o cheiro a maresia. Tinha andado num seminário, mas fartara-se e o chamamento do mar tinha sido irresistível. Já o tinham tentado apanhar com as artimanhas em que o regime era fértil, mas sem sucesso. A última tinha sido a de obrigar os seus homens a irem a uma manifestação favorável ao regime que se tinha sentido em perigo com a candidatura de um general sem medo. Habituado a lidar com as fúrias do oceano, lá se conseguiu escapar airosamente: teve de zarpar na véspera da manifestação “espontânea” devido a um aviso meteorológico…
Não bastando a mais do que evidente cumplicidade da alta hierarquia da Igreja nacional com o ditador, há muito que as ordens de Roma eram claras: nenhum crente podia pertencer a uma organização como aquela que os unia sob pena de excomunhão. Mas o padre João não se preocupava e dizia que respondia directamente perante o Criador. Só queria que o pesadelo em que o país estava mergulhado havia décadas acabasse. E ele bem sabia do que falava, pois passava a maior parte do tempo a tentar acudir aos mais necessitados. Mas era tão pouco o que tinha para lhes dar…
É verdade que naquele grupo predominavam os “doutores”, por isso os dois que pouco mais sabiam do que ler e escrever eram especialmente acarinhados. Um era motorista da Carris e o outro ferroviário. Homens calejados pela vida desejavam um futuro mais justo para os filhos e os netos.
Pensou no que iriam falar nessa noite. Havia muitos boatos, mas parecia certo que a polícia política tinha armado uma cilada ao General e que o teria assassinado. À hora combinada chegou a casa do amigo. Desta vez calhava-lhe a ele ser o último. Tinham de chegar um a um, discretamente. Subiu com esforço até ao primeiro andar. A cada degrau, as artroses dos joelhos causavam-lhe dores.
Pareceu-lhe que havia um silêncio mais pesado do que era habitual. Devia ser impressão sua. Como sempre, deu três discretas pancadas na velha porta. A voz que ouviu fez-lhe parar o sangue: «é só um momento».
Dez minutos depois aqueles homens bons e honrados que apenas queriam que o seu país vivesse em paz e que no mundo inteiro reinassem a liberdade, a igualdade e a fraternidade, lá iam a caminho de uma masmorra…

Viva o 25 de Abril





Autor: Carl Sagan

Memórias de uma rua

Desde pequeno que eu adorava lá passar uns bocados. Por vezes, eram mesmo várias horas. Até porque, para além da agradável companhia de pessoas da família, tinha oportunidade de ler (de borla!) as revistas de banda desenhada acabadas de sair… Além disso, dali podia sentir o burburinho da cidade, ver as pessoas a passar. Havia sempre tanta gente! Da porta da minúscula loja eu avistava facilmente a Praça da Liberdade e até a Torre dos Clérigos. E quando lá estava com o meu avô, era garantido que, mal chegasse o meu tio para o substituir, se seguia um petisco na rua sombria que ladeia a estação de S. Bento.
Já me não lembro quando me terão ensinado o nome da rua, mas não tardei a sentir que havia ali algo de estranho. De facto havia muita gente que se enganava e lhe chamava 31 de Janeiro. Cá por mim, tanto me fazia, afinal o nome Santo António dizia-me tanto como aquela data. Acabaram por me dizer que, todos os anos nesse mesmo dia, a minha avó queria a loja fechada mais cedo por causa da tinta azul. Tive de insistir para que me explicassem o que era isso da tinta azul. Lá fiquei a saber, no maior dos segredos, que era a polícia que atirava jactos de água com tinta azul às pessoas que eram do “contra”. E a água, para mais com tinta, estragava as revistas e os jornais… Além disso, as pessoas, ao fugirem apavoradas, podiam esconder-se na loja e, se os polícias lá entrassem, o mais certo era partirem tudo e baterem em toda a gente. Por isso estava decretado: «31 de Janeiro, dia de fechar cedo».
Também me lembro do meu tio, impressionado, descrever ao meu pai a violência com que a polícia batia nas pessoas que lá na rua gritavam «Viva a República». Fiquei calado, mas confuso. Então Portugal não era uma República? Até tinha um Presidente. É verdade que, quando davam os discursos dele na televisão, ninguém prestava a menor atenção… Havia qualquer coisa que não batia certo, mas eu, com os meus 10 anos, tinha mais com que me entreter.
Um dia, já eu era mais crescido, ia a descer a rua, quando notei alguma agitação. Motas da polícia abriam caminho e, logo atrás, ia um carro muito grande. Lá dentro, o tal Presidente. Nunca me esquecerei de que muitos transeuntes, só de o verem, começaram a bater palmas. Eu, que nada percebia de política, achei que não tinha qualquer lógica aplaudir só porque um sujeito ia a passar… Quando contei isto à minha avó, ela disse-me que era melhor a gente bater palmas, porque nunca se sabia quem nos estava a ver. Isto ainda me impressionou mais…

Viva o 25 de Abril

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 15 de abril de 2008

Gonçalves Ledo

Fazer a interiorização deste nome, não me foi difícil pois, como disse estou a falar de sangue do meu sangue, nas suas virtudes que se superiorizam, pelo carácter, pelo agente libertador de certezas, pelo agente libertador do seu povo, pela sua brilhante frontalidade com actos e palavras, com o seu carácter de homem de bons costumes, pela sua lisura e transparência, mas sempre amigo do amigo. É isso que me faz sentir perto deste homem, que de forma marcante lutou pela libertação do seu povo da opressão da monarquia, que tanto escravizou um povo notável como o povo brasileiro irmão. Muito me honra falar deste homem, responsabilizando-me ainda mais sobre esta querida sociedade maçónica, passando-me o seu legado para dele fazer aqui fazer jus.
Traçar linhas acerca de Gonçalves Ledo é uma tarefa agradável, tendo em vista a importância deste estadista e Maçom na Independência do Brasil. Nome esquecido nos meios académicos, não podemos deixar de render-lhe estas homenagens e dar-lhe, na História do Brasil, o papel que lhe é devido. As datas que aqui transmito podem não ser as exactas, porque na pesquisa histórica levada a cabo, elas são contraditórias, peço por isso desculpa caso exista alguma imprecisão.

A 11 de Dezembro de 1769, nasce no Brasil, Joaquim Gonçalves Ledo, filho de comerciante abastado e já destinado a ser doutor em Leis. Em 1800, parte para Portugal, para estudar em Coimbra, sendo que, por força da morte de seu pai, volta ao Brasil, interrompendo os seus estudos. Em 15 de Novembro de 1817 é instalada no Rio de Janeiro a Loja Maçónica Comércio e Artes, sendo certo que, em 1818, havia enviado uma carta a seu irmão, que estudava medicina em Londres, afirmando a sua intenção de fundar no Brasil a primeira Loja, "que será o centro de propaganda liberal do Brasil". Gonçalves Ledo foi iniciado na Loja Comércio e Artes, a Primaz do Grande Oriente do Brasil, não podendo haver uma precisão de datas em virtude da destruição de documentos à época. Em 30 de Março de 1818, D. João VI, por Decreto, proíbe a existência das "sociedades secretas" e, com isso, são encerradas as actividades da Loja.
Relativamente à participação de Gonçalves Ledo no processo de independência do Brasil e na Maçonaria, narra-se o seguinte: «…F. Soares, representante da Maçonaria em São Paulo, descreve a "Joaquim Gonçalves Ledo, Venerável da Loja Comércio e Artes", os acontecimentos, daquele dia, quando os Maçons paulistas depuseram João Carlos Augusto Oyenhausen, presidente de São Paulo, que representava o governo português: "A confiança que V. S. depositou no Conselheiro, e nos Coronéis Lázaro, Lobo, Inácio e outros, foi imerecida. O novo governo já começou, como primeiro acto, a perseguição aos maçons que não concordaram com o Conselheiro José Bonifácio. Reunimo-nos na casa do patriota José Inocêncio Alves Alvim. Tanto ele, como o irmão Ledo, foram fiéis até o último instante e, por isso são alvos dos outros que são traidores…”
Apesar de problemas nacionais e outros envolvendo Irmãos, a 24 de Junho de 1821 é reinstalada a Loja Comércio e Artes, tendo como Venerável Mestre o Irmão Ledo. Até a Proclamação da Independência do Brasil, Ledo teve em mente esta ideia, podendo, sem dúvida alguma, ser considerado um dos principais responsáveis por este facto histórico. Em Julho de 1821, trocava ele correspondência com o Cónego Januário da Cunha Barbosa, afirmando a necessidade de lançar o “Revérbero Constitucional”, que seria o clarim das ideias de liberdade nacional. O primeiro número do periódico, quinzenal, surge em 15 de Setembro deste mesmo ano, com redacção de Ledo e do Cónego Januário. Foi este periódico que em muito contribuiu para a Independência do Brasil. Em 16 de Fevereiro de 1822 Ledo é nomeado Conselheiro e Secretário de Estado e, a 30 de Abril, novo exemplar do “Revérbero Constitucional” é lançado, elogiando Dom Pedro e clamando pela independência.
Em 01 de Junho é eleito Procurador Geral pela Província do Rio de Janeiro e, no dia seguinte, instalado o Conselho de Estado, fazendo parte dele Ledo. Em 17 de Junho de 1822 é fundado o Grande Oriente Brasiliense, tendo sido seu Grão Mestre José Bonifácio, por nítida influência de Ledo, que seria seu 1º Grande Vigilante e verdadeiro dirigente da Instituição. Ledo foi atacado, por diversas vezes, de conspirar contra a Monarquia, porque a desejava constitucional. No entanto, não sabem os historiadores informar, se por ciúmes ou vinganças pessoais, atacavam-no de republicano.
Em 14 de Outubro D. Pedro oferece a Ledo o título de Marquês da Praia Grande, mas este recusa a honraria, posto entender que não poderia aceita-lo, mas aceitaria de grande prazer o título de patriota brasileiro. Dom Pedro, como era de costume em momentos de ira, desferiu palavras ásperas a Ledo, afirmando que o mesmo não tomaria assento na Câmara. Diversos factos fazem com que Ledo seja obrigado a embarcar para Buenos Aires com uma ligeira passagem por Portugal e refugia-se uns meses no Alentejo, porque a "tarja" de republicano poderia levar-lhe a própria vida.

Absolvido das acusações impostas, Ledo retorna ao Brasil, em 1833, é agraciado, em 17 de Fevereiro de 1834, pelo Imperador, com a Ordem do Cruzeiro do Sul, mas, assim como tinha recusado o título de Marquês, ele recusa. Em 1845 consta entre os Deputados da Assembleia Provincial do Rio de Janeiro. Neste mesmo ano abandona a política e a Maçonaria, indo recolher-se na sua fazenda, em Sumidouro, vindo a falecer, a 19 de Maio de 1867, de ataque cardíaco.

Autor: Gonçalves Ledo

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Maçonaria na RTP

No passado dia 09 de Abril, a RTP apresentou um pequeno programa sobre a Maçonaria, na rubrica “Grande Reportagem”. As diversas intervenções são merecedoras de alguma apreciação.
Destaca-se em primeiro lugar as ideias expressas por um importante membro do clero da Igreja Católica. Depois de se referir da forma a que estamos habituados à actividade da Maçonaria e de ter feito a afirmação assombrosa de que durante o Estado Novo o ensino em Portugal foi dominado pelos maçons, as suas palavras finais foram uma surpresa. Penso que terá sido a primeira vez que ouvi um bispo católico português sugerir um diálogo entre a Maçonaria e a Igreja, dizendo que o mesmo se justifica pelo estado actual da nossa sociedade. Espero que não se trate de mera retórica, mas de uma proposta honesta. Foi também importante o depoimento de um historiador a mostrar que a Maçonaria nada teve a ver com o regicídio de 1908.
A intervenção do Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano foi simultaneamente firme e moderada, transmitindo uma ideia muito clara do papel e dos objectivos da Maçonaria ao longo da história e dos tempos. As câmaras puderam registar imagens de um dos Templos do Palácio e do corredor onde estão expostos os retratos dos anteriores Grão Mestres, mas logicamente não lhes foi permitido proceder a filmagens de qualquer sessão maçónica.
Também pudemos assistir a uma intervenção do Grão Mestre da Grande Loja Tradicional de Portugal (GLTP) sobre os critérios de admissão de candidatos na sua Obediência. Lamentavelmente, ao longo do programa foram sendo mostradas cenas dos trabalhos de uma Loja dessa mesma Obediência, incluindo todos os pormenores do início solene, da entrada ritual de um aprendiz e da cadeia de união. Também não faltou o juramento final de guardar segredo sobre os trabalhos! Está visto que a GLTP tem especial apetência pela apresentação televisiva das suas sessões rituais. No entanto, é inacreditável que se mostre a Venerável da Loja a jurar segredo de tudo o que se passou durante os trabalhos e uma parte significativa dos mesmos tenha sido mostrada ao grande público. Que noção terão os obreiros dessa Loja sobre o significado de palavras como “juramento” e “perjúrio”?
Também é de gosto muito duvidoso ter sido mostrado o interior de uma câmara de reflexão, pois ao ser especialmente destacada uma caveira, haverá decerto muitas pessoas que irão tirar ilações do género de que a Maçonaria se dedica a actividades diabólicas ou a bruxarias.

Em resumo: as intervenções de um historiador e do Grão Mestre do GOL por um lado e a de um membro do clero católico por outro, teriam decerto constituído um programa muito útil e eventualmente frutuoso. Já o “tempero” do programa com as cenas oferecidas uma vez mais pela GLTP foi absolutamente lamentável.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 1 de abril de 2008

O meu nome simbólico

O meu nome simbólico é uma homenagem ao meu Avô Paterno – José Francisco Esteves, nascido em Bragança nos finais do Séc. IXX (1884 ou 85).

Inicialmente, quando pensei qual o nome simbólico a adoptar, ocorreu-me de imediato Manuel Fernandes Tomás, figura ímpar da luta pela Pátria e pelos valores humanitários, que muito admiro. Marcou-me também pela sua maneira de estar na vida pública, defendendo sempre os interesses do bem comum, sem buscar para si os “louros” da vitória. Nessa reflexão, lembrei-me de muitos mais. Grandes figuras, grandes nomes. Não fazia ideia se eram maçons. Sabia (e sei) muito pouco sobre a nossa Augusta Ordem. Vou sabendo ao longo desta ainda curta aprendizagem, que muitos desses grandes nomes que admiro, eram maçons. Não me enganei na porta!

Porquê o meu Avô José Francisco? Não faço ideia se era maçom, mas pelo que conheci e me contam, era-o por princípios e actos. Foi, como se diz agora, um self made man, com apenas a instrução primária, foi um autodidacta brilhante. Correu Mundo, criou uma Família extraordinária, incutiu nos filhos e nos netos o gosto pela leitura e pela cultura de uma maneira geral, fundou com o cunhado a primeira grande livraria e papelaria de Bragança. Era um Cidadão de bons princípios, defendia a Igualdade a Liberdade e a Fraternidade. Contava-me o meu Pai, que durante a Guerra Civil de Espanha era incapaz de recusar ajuda a quem precisasse.
Não sendo católico, reconhecia como irmão o seu semelhante.

É por estas razões e mais outras do coração, que aqui me apresento com o nome simbólico de José Francisco Esteves.

Autor: José Francisco Esteves

terça-feira, 25 de março de 2008

Compromisso com o sigilo

De vez em quando surgem, aqui e ali, notícias a respeito da Maçonaria que teve origem em informações levadas por irmãos participantes nos trabalhos de Loja, sobre assuntos tratados no seio da Ordem. Recentemente, estes casos voltaram ao noticiário com maior frequência e podem culminar com a geração de problemas graves para a Instituição, porquanto, municiados de informações obtidas por esses meios esconsos, dão uma ideia errónea da Ordem e tendem a incluir e a meter tudo no mesmo saco, não fazendo a legitima diferença de organizações e instituições existentes em Portugal, aparecendo aos olhos e ouvidos das pessoas em geral como “Maçonaria”, omitindo propositadamente as diferentes Obediências maçónicas existentes. Alguns dirigentes da Ordem revelam-se preocupados. E não é para menos. Os acontecimentos no seio das reuniões são privativos e não devem ser informados ou comunicados, nem a maçons que não estiveram presentes na sessão, nem levá-los ao conhecimento de profanos! Isto é proibido. Conversar, fora da reunião, o que se ventilou durante a sua realização, não é maçónico. Contraria os nossos princípios e leis. Deforma a tradição!

Ainda a propósito da questão do segredo, se a Maçonaria é uma organização secreta, se deve revelar o que se passa nas suas reuniões, para aquelas pessoas que pensam e imaginam o quanto tenebroso é a Maçonaria, que devia ser tudo publicado, revelado e até público, recordo o artigo de Fernando Pessoa no Diário de Lisboa, de 4 de Fevereiro de 1935, sobre o projecto da Assembleia Nacional que visava a ilegalização das “associações secretas”, onde com inteligência e conhecimento profundo das Ordens Iniciáticas, respondia ao Sr. José Cabral, autor do referido projecto: “ Dada a latitude desta definição, e considerando que por “associação” se entende um agrupamento mais ou menos permanente de homens, ligados por um fim comum, e que por “secreto” se entende o que, pelo menos parcialmente, se não faz à vista do público, ou, feito, se não torna inteiramente público, posso, desde já, denunciar ao sr. José Cabral uma associação secreta – o Conselho de Ministros. De resto, tudo quanto de sério ou de importante se faz em reunião neste mundo, faz-se secretamente. Se não reúnem em público os conselhos de ministros, também o não fazem as direcções dos partidos políticos, as tenebrosas figuras que orientam os clubes desportivos, ou os que formam os conselhos de administração das companhias comercias e industriais”.

Portanto será da melhor geometria estar sempre a lembrar aos nossos Irmãos os juramentos e compromissos assumidos quanto ao sigilo. Não dizer, não falar, não escrever, não revelar, convém ser lembrado com frequência, mesmo que nada tenha ainda acontecido a este respeito com a nossa Loja, assim como não devemos perder de vista o que ensina a sabedoria popular: “quem vê as barbas do vizinho a arder põe as suas de molho”.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 18 de março de 2008

Jacques De Molay

Historiadores modernos acreditam que Jacques De Molay nasceu em Vitrey, França, no ano de 1244 e pouco se sabe da sua família ou da sua infância, porém, aos idade de 21 anos, tornou-se membro da Ordem dos Cavaleiros Templários. Na Ordem participou destemidamente em numerosas Cruzadas, e o seu nome era uma palavra de ordem e de heroísmo. Em 1298, De Molay foi eleito Grão Mestre da Ordem. Este cargo foi assumido numa época em que a situação para a Cristandade no Oriente estava má. Os sarracenos haviam capturado Cavaleiros das Cruzadas e conquistado Antioquia, Tripoli, Jerusalém e Acre. Restavam somente os "Cavaleiros Templários" e os "Hospitalários" para se confrontarem com os sarracenos. Os Templários, estabeleceram-se na ilha de Chipre, com a esperança de uma nova Cruzada. Porém, as esperanças de obterem auxílio da Europa foram em vão pois, após 200 anos, o espírito das Cruzadas havia-se extinguido. Os Templários estiveram fortemente entrincheirados na Europa e Grã-Bretanha, com as suas grandes casas, as suas ricas propriedades, os seus tesouros; os seus líderes eram respeitados por príncipes e temidos pelo povo, porém não havia nenhuma ajuda popular para os seus planos de guerra. Foi a riqueza, o poder da Ordem, que despertou os desejos de inimigos poderosos e, finalmente, ocasionou a sua queda.

Em 1305, Felipe, o Belo, então Rei de França, atento ao imenso poder que teria se pudesse unir as Ordens dos Templários e Hospitalários, conseguindo um titular controle, procurou agir assim. Sem sucesso, no seu arrebatamento de poder, Felipe reconheceu que deveria destruir as Ordens, a fim de impedir qualquer aumento de poder do Sumo Pontificado, pois as Ordens eram ligadas apenas à Igreja. Em 14 de Setembro de 1307, Felipe agiu, emitiu regulamentos secretos para aprisionar todos os Templários. Jacques De Molay e centenas de outros Templários foram presos e atirados para os calabouços. Foi o começo de sete anos de celas húmidas e frias, torturas desumanas e cruéis para De Molay e seus cavaleiros. Felipe forçou o Papa Clemente a apoiar a condenação da Ordem, e todas as propriedades e riquezas foram transferidas para outros donos. O Rei tentou forçar De Molay a trair os outros líderes da Ordem e a descobrir onde todas as propriedades e os fundos poderiam ser encontrados. Apesar do cavalete e outras torturas, De Molay recusou-se.

Finalmente, em 18 de Março de 1314, uma comissão especial, que havia sido nomeada pelo Papa, reuniu-se em Paris para determinar o destino de De Molay e três de seus Preceptores na Ordem. Entre a evidência que os comissários leram, encontrava-se uma confissão forjada de Jacques De Molay há seis anos passados. A sentença dos juízes para os quatro cavaleiros era prisão perpétua. Dois dos cavaleiros aceitaram a sentença, mas De Molay não! Ele negou a antiga confissão forjada, e Guy D'Avergnie ficou ao seu lado. De acordo com os costumes legais da época, isso era uma retratação de confissão e punida por morte. A comissão suspendeu a secção até o dia seguinte, a fim de deliberar. Felipe não quis adiar nada e, ouvindo os resultados da Corte, ordenou que os prisioneiros fossem queimados no pelourinho naquela tarde.

Quando os sinos da Catedral de Notre Dame tocavam ao anoitecer do dia 18 de Março de 1314, Jacques De Molay e o seu companheiro foram queimados vivos no pelourinho, numa pequena ilha do Rio Sena, sendo destemidos até ao fim. "Embora o corpo de De Molay tivesse sucumbido naquela noite, seu espírito e suas virtudes pairam sobre a Ordem De Molay, cujo nome em sua homenagem viverá eternamente”.

Como todos sabem, sou membro da Ordem De Molay, ordem inspirada na história e exemplo do 23º e último Grão Mestre da Ordem dos Templários. Durante 17 anos de Ordem De Molay, assisti e fiz muitos trabalhos no que se refere às Ordens Templária, Maçónica e De Molay. Tive contacto com vários maçons estudiosos, vários livros e outros tipos de materiais cujo o principal assunto era Jacques De Molay e a Ordem dos Templários.
Escolhi como meu nome simbólico, Jacques De Molay, não somente por ser membro da Ordem que leva seu nome, mas também por tudo aquilo que ele representou e enfrentou com amor, coragem e determinação. Combateu a tirania, procurava junto com a Ordem dos Templários ajudar os mais fracos e oprimidos, e teve a coragem de enfrentar o poder da inquisição. Jacques De Molay não delatou a identidade de outros companheiros Templários, nem dos seus bens. Ele foi leal sob incontáveis torturas físicas e psicológicas. Até parte das riquezas templárias a Inquisição ofereceu a De Molay se ele colaborasse, no entanto, nem a tortura, nem anos e anos na prisão, nem o suborno fizeram que De Molay cedesse ou vacilasse nos seus principios e valores.

O amor que Demolay demonstrou ter pela Ordem Templária e pelos seus Irmãos, a sua fidelidade, a sua bravura e forma heróica como viveu e morreu fez com que eu adoptasse o seu nome, como sendo o meu nome simbólico.

Autor: Jaques De Molay

quarta-feira, 12 de março de 2008

Quem foi Albert Mackey

Nascido em 12 de Março de 1807 na cidade de Charleston no estado americano da Carolina do Sul, Albert Mackey graduou-se com honras na faculdade de medicina daquela cidade em 1834. Praticou a sua profissão cerca de vinte anos, após o que dedicou quase que completamente a sua vida à obra maçónica. Recebeu o 33.º, o último grau do Rito Escocês Antigo e Aceite, e tornou-se membro do Supremo Conselho onde serviu como Secretário-Geral durante anos. Foi nesta época que manteve uma estreita associação com outro famoso maçon americano, Albert Pike.
Participou como membro activo em muitas Lojas, inclusive na lendária “Solomon's Lodge N.º 1", fundada em 1734, que é, ainda hoje, a mais famosa e mais antiga Loja a trabalhar continuamente na América do Norte. Ocupou inúmeros cargos de destaque nos mais altos postos da hierarquia maçónica do seu país. Pessoalmente o Dr. Mackey foi considerado encantador por um círculo grande de amigos íntimos. Sempre que se interessava por um assunto era muito animado na sua discussão, até mesmo eloquente. Generoso, honesto, leal, sincero, mereceu bem os elogios e qualificações que recebeu de inúmeros maçons de destaque.

Um revisor da obra de Mackey disse que, como autor de literatura e ciência maçónica, trabalhou mais que qualquer outro na América ou na Europa. Em 1845 publicou o seu primeiro trabalho, intitulado “Um Léxico de Maçonaria” depois, seguiram-se: “The True Mystic Tie” 1851; The Ahiman Rezon of South Carolina,1852; Principles of Masonic Law, 1856; Book of the Chapter, 1858; Text-Book of Masonic Jurisprudence, 1859; History of Freemasonry in South Carolina, 1861; Manuel of the Lodge, 1862; Cryptic Masonry, 1867; Symbolism of Freemasonry, and Masonic Ritual, 1869; Encyclopedia of Freemasonry, 1874; and Masonic Parliamentary Law 1875.

Mackey esteve até o fim da vida envolvido com a produção de conhecimento maçónico. Além dos livros citados contribuiu com frequência para diversos periódicos e também foi editor de alguns. Por fim, publicou uma monumental “History of Freemasonry”, em sete volumes. Um testemunho da importância e popularidade que os livros escritos por Mackey têm, é o facto de que muitos deles são editados até hoje e estão à venda em livrarias, inclusive pela Internet. Dos muitos trabalhos que o Dr. Mackey legou à posteridade, um julgamento quase universal identifica a “Encyclopedia of Freemasonry” como a obra de maior importância. Anteriormente à publicação deste livro não havia nenhum de igual teor e extensão em qualquer parte do mundo. Esta obra teve muitas edições e foi revista várias vezes por outros autores maçónicos.

A contribuição de Mackey para o pensamento e leis maçónicas, produto da sua mente clara e precisa, é tida como de fundamental importância. Praticamente toda a legislação maçónica fundamental é hoje interpretada com base em alguns de seus escritos. É verdade que algumas de suas obras contêm enganos, mas o conjunto é de extremo valor e, em particular, um trabalho tem especial destaque no mundo todo. A compilação feita por ele dos marcos ou referenciais básicos da maçonaria, que é adoptada como fundamento em vários ritos e obediências. Os tão mencionados e conhecidos “Landmarks”. Os Landmarks, que podem ser considerados uma "constituição maçónica não escrita", longe de serem uma questão pacífica, constituem uma das mais controvertidas demandas da Maçonaria, um problema de difícil solução para a Maçonaria Especulativa. Há grandes divergências entre os estudiosos e pesquisadores maçónicos acerca das definições e nomenclatura dos Landmarks. Existem várias e várias classificações de Landmarks, cada uma com um número variado deles, que vai de 3 até 54.

Facto é que o grande trabalho de Mackey em jurisprudência, sobreviveu ao teste do tempo. Ainda hoje é frequentemente citado como uma autoridade final. As suas contribuições tiveram, e ainda têm, um efeito profundo e permeiam grande parte do pensamento maçónico moderno. Ao criar a sua obra, este autor, estava na realidade a criar os marcos sobre os quais foi possível edificar grande parte do conhecimento maçónico que se produziu posteriormente.

Albert Gallatin Mackey passou ao oriente eterno em Fortress Monroe, Virgínia, em 20 de Junho de 1881, aos 74 anos. Foi enterrado em Washington em 26 de Junho, tendo recebido as mais altas honras por parte de diversos Ritos e Ordens. Hoje existe nos Estados Unidos uma condecoração, a “Albert Gallatin Mackey Medal”, que é a mais alta condecoração concedida a alguém que muito tenha contribuído para a causa maçónica.

Autor: Júlio Verne, Baseado In "The Grand Lodge of Free and Accepted Masons of the State of California"

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Dia Internacional do Maçom

Nos dias 20, 21 e 22 de Fevereiro de 1994, realizou-se em Washington, nos Estados Unidos, a Reunião Anual dos Grão-Mestres das Grandes Lojas da América do Norte (Estados Unidos, Canadá e México). Na ocasião, estiveram presentes como Obediências Co-Irmãs, a Grande Loja Unida da Inglaterra, a Grande Loja Nacional Francesa, a Grande Loja Regular de Portugal, a Grande Loja Regular da Itália, o Grande Oriente da Itália, a Grande Loja Regular da Grécia, a Grande Loja das Filipinas, a Grande Loja do Irão, no exílio e o Grande Oriente do Brasil, como observador. No encerramento dos trabalhos, o Grão-Mestre da Grande Loja Regular de Portugal, Ir.'. Fernando Teixeira, apresentou uma sugestão apoiada pelos Grão-Mestres das Grandes Lojas dos Estados Unidos, do México e Canadá, no sentido de fixar o dia 22 de Fevereiro como o DIA INTERNACIONAL DO MAÇOM, a ser comemorado por todas as Obediências reconhecidas, o que foi totalmente aprovado.

E porquê 22 de Fevereiro? Porque foi no dia 22 de Fevereiro de 1732, em Bridges Creek, na Virginia (EUA), que nasceu GEORGE WASHINGTON, o principal artífice da independência dos Estados Unidos. Nascido pouco depois do início da Maçonaria nos Estados Unidos – o que ocorreu em 23 de Abril de 1730, no estado de Massachussets - Washington foi iniciado a 4 de Novembro de 1752, na "Loja Fredericksburg nº 4", de Fredericksburg, no estado da Virgínia; foi elevado ao grau de Companheiro em 1753 e exaltado a Mestre em 4 de Agosto de 1754. Representante da Virgínia no 1º Congresso Continental (1774) e Comandante-Geral das forças coloniais (1775), dirigiu as operações durante os cinco anos da Guerra de Independência, após a declaração de 1776. Ao ser firmada a paz em 1783, renunciou à chefia do Exército, dedicando-se então aos seus afazeres particulares. Em 1787, reunia-se, em Filadélfia, a Assembleia Constituinte para redigir a Constituição Federal e Washington, que era um dos Delegados da Virgínia, foi eleito, por unanimidade, para presidi-la. Depois de aprovada a Constituição, havendo a necessidade de se proceder à eleição de um Presidente, figura na nova política norte-americana, Washington, pelo seu passado, pela sua liderança e pelo prestígio internacional de que desfrutava, era o candidato lógico e foi eleito por unanimidade, embora desejasse retornar à vida privada e dedicar-se às suas propriedades. Como Presidente da República norte-americana, nunca olvidou a sua formação maçónica. Ao assumir o seu primeiro mandato, em Abril de 1789, prestou o seu juramento constitucional sobre a Bíblia da "Loja Alexandria nº 22", da qual fora Venerável Mestre em 1788; em 18 de Setembro de 1783, como Grão-Mestre pro-tempore da Grande Loja de Maryland, colocou a primeira pedra do Capitólio – o Congresso norte-americano – apresentando-se com todos os seus paramentos e insígnias de alto mandatário Maçom. Falecido em 14 de Dezembro de 1799, o seu funeral ocorreu no dia 18, na sua propriedade de Mount Vernon, numa cerimónia fúnebre Maçónica, dirigida pelo Reverendo James Muir, capelão da "Loja Alexandria nº 22" e pelo Dr. Elisha C. Dick, Venerável Mestre da mesma Oficina.

In Revista "O Prumo" nº 84, Artigo do Ir.'. José Castelanni

Como se pode verificar, a criação do DIA INTERNACIONAL DO MAÇOM representou uma mais do que justa homenagem ao um grande maçom, e embora não seja considerado por todas as Obediências e Potências maçónicas mundiais é historicamente pertinente.

Autor: Júlio Verne