terça-feira, 26 de maio de 2009

Desbastar a pedra bruta

Desbastar a pedra bruta, aproximando-a da sua forma final – esta é a tarefa ou trabalho simbólico a que todo o Aprendiz tem de se dedicar para chegar a ser um obreiro que domine inteiramente a sua Arte.
Neste trabalho simbólico, o Aprendiz é simultaneamente obreiro, matéria-prima e instrumento. Ele próprio é a pedra bruta, emblemática do seu ainda muito imperfeito desenvolvimento, é a pedra que tem de converter em perfeição interior enquanto se mantém no estado latente dessa evidente imperfeição, por forma a que possa ocupar o lugar que lhe corresponde no edifício para que está destinada.
Todavia, dado que a Perfeição é infinita e, no seu estado absoluto, inatingível, unicamente podemos aspirar a nos acercarmos da perfeição que nos for dado conceber, no estádio do progresso em que nos encontrarmos. O nosso progresso desenvolve-se, pois, através de graus sucessivos de perfeição relativa, enquanto, por um lado, o próprio reconhecimento da nossa imperfeição – a pedra bruta – e, por outro, o de um ideal que desejamos, são as primeiras condições indispensáveis para que possa haver esse trabalho.
Tal tarefa consiste em despojar a pedra bruta das suas asperezas, pondo primeiro em evidência o estado de rudeza da pedra; depois, rectificando-a, alisando-a e desbastando todas as protuberâncias que a afastem da forma harmoniosa que é necessário conferir-lhe.
É importante notar que não se trata de aproximar a pedra da forma de um determinado modelo exterior, se bem que este possa servir de incitamento e de inspiração, mas que o modelo ou perfeição têm de ser procurados no seio dessa mesma pedra.

Autor: Álvaro

terça-feira, 12 de maio de 2009

a rosa - iniciação

todos nós. não importa quem, nem como. viemos de algum lugar distante e de diferentes formas caminhamos para outro espaço. perante isto, ou nos perdemos uns dos outros ou consideramos a hipótese de que nos vamos encontrar, lá, nesse lugar, com tudo o que temos para nos dar.

existem dois. apenas dois. momentos estruturantes nas nossas vidas. todos os outros são decorrentes destes: o nascimento e a morte. por equívoco, por cultura, educação ou por pura e simplesmente nunca termos pensado no assunto, julgamos que durante uma vida - esta a de hoje - só podemos nascer e morrer uma vez. também neste caso podemos pôr a hipótese de não ser assim. longe de conjecturas niilistas ou eternalistas, talvez possamos nascer e morrer a cada instante e assim estruturarmos o nosso ser a cada inspiração e expiração.

é necessário ter a consciência de que a cada nascimento e cada morte estamos sozinhos. sempre. por isso são os dois momentos fundadores da nossa existência. nascemos e morremos porque estamos sós. Krishnaji disse um dia que a verdade é uma estrada sem caminho. se nos mantivermos nessa estrada sem a ideia (o conceito) de estar a percorrer algo, caminhamos livres, a cada passo mais livres, e no que respeita ao nosso conhecimento dos outros vamos deixando-os também livres para o encontro, sem procura, da verdade.

na nossa estrada, tudo pode ser experimentado mas nem tudo tem de ser experimentado. é até uma impossibilidade física. tão simples como pensarmos que por mais que nos dedicássemos não conseguiríamos ler todos os livros do mundo, ouvir todos as musicas, escrever todos os poemas. temos de fazer escolhas e o único guia, mestre, lama, guru, swami, que podemos ter é aprender a nascer e a morrer.

observar ser juízo os nascimentos e as mortes do outro, dos muitos «outro» que connosco se cruzam, é um ensinamento fundamental. e, para começar, observar o outro é saber que reconhecer sinais nele, o principal é saber que é preciso amar esse outro, para além da atracção ou da repulsa. não nos escondermos no acto de amar. essencialmente não amar esperando que sejamos amados. porque, é tão imensamente simples, amando somos já amados.

no entanto, é evidente, que necessitamos de vários tipos de amor. e assim é preciso não ter medo de aprender a conduzir o outro a nos amar como nós o amamos. sermos nós a dar o primeiro passo e dar tempo ao outro para que também ele aprenda a necessidade de amar, sem culpa, apego ou desespero. amar alguém é libertá-lo e ao mesmo tempo não o deixar. voltar de novo. ser uma morada presente para aqueles, todos e para o um, que amamos. nascer e morrer para isso.

eis o trabalho de uma vida. não nos deixemos enredar pela ideia de que vamos ter muitas vidas para isto (ainda que as possamos ter) e deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. ou ainda, pensar que a nossa alma velará pelo amor que podemos dispensar. é uma responsabilidade nossa. hora a hora. dia a dia.

como prática, pensemos que nascemos a cada inspiração e que morremos a cada expiração. dediquemos a isso a nossa capacidade de concentração. com o tempo e com um trabalho constante esta realidade tornar-se-à clara para nós. a esta aprendizagem talvez possamos chamar iniciação.

Autor: Hugo Pratt (o facto de o texto estar escrito exclusivamente em minúsculas é propositado)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Lembra-te Abril

O soldado sonhava com a sua terra,
com a sua mulher, e queria voltar.

Disseram-lhe que era um herói,
e que morria como um herói
com duas balas no peito.

Mas ele não queria ser herói:

O soldado sonhava com a sua terra,
com a sua mulher, e queria voltar.

O torturado caía de um lado para o outro da cela.

Ele lera Marx, e lembrava-se do profeta Isaías:
«O lobo e o cordeiro pastarão juntos».

Ele acreditava, e o seu crime era acreditar.
Uma pancada forte de mais no crânio,
e não puderam fazer mais nada com ele:

deitaram-no para uma cova,
e cobriram-no com terra e pedras.
E todos viram crescer o trigo negro da raiva.

Lembra-te, Abril, dos que não voltaram!
Lembra-te, Abril, dos que não tiveram cravos na boca
!

Autor: Adriano Rosa (1º Prémio Literário Jornal A Maré, Espinho: 1983)

terça-feira, 14 de abril de 2009

O homem que não morreu

Naquele tempo era perigoso contrariar o mandato dos céus, e o deus que havia protegia os poderosos. A religião dos homens e a lei dos fortes eram defendidas por velhos sacerdotes e severos juizes. Bastava uma palavra infeliz, um acto qualquer incompreendido e a justiça haveria de encontrar um criminoso. O homem que tinha sido julgado sem dúvida cometera uma ofensa grave, mas não podia recordar-se do seu crime. Um outro deus era o seu, mas esse outro amaldiçoara-o a cumprir um calvário de sangue. Nenhum deus ama a liberdade, e o que está escrito tem que ser seguido. Também o seu deus tinha fracassado perante os destinos inexoráveis. O homem que tinha sido condenado deixara de acreditar no seu deus, e apenas lamentava o tempo perdido dos que o tinham escutado. Homens e mulheres comuns que seriam perseguidos por causa da sua palavra.
O homem que tinha sido condenado sabia demais e via para além do seu deus. O seu deus era casmurro e malicioso o suficiente para cumprir as escrituras. Um velho nojento e embevecido ainda com a sua imagem nos confins do universo. A vaidade corrompe os deuses, e até os homens mais próximos e amigos. Mas nada disso interessava já, nem o tempo em que procurou o sentido da festa. Cedo demais tinha julgado o seu deus diferente e a humanidade disponível para a alegria. Cedo demais, repetia para si. Qual tinha sido o seu primeiro milagre, o seu primeiro erro? Agora estava morto ou julgá-lo-iam como tal. A injúria dos homens é irreparável. Para quê regressar? O corpo foi entregue a José que o cobriu com um lençol fino que comprara, trataram-no como a um morto e como deveria ser. Também o centurião que certificou a sua palidez julgou estar perante um cadáver.

Acordou naquela manhã envolto em ligas e o rosto coberto por um sudário. Apenas podia mexer as mãos, e foi assim que se sentiu vivo. Enjoado com o lento despertar numa gruta fria, o homem que não morreu contemplou outros corpos enfaixados e inertes a seu lado. A morte é uma coisa estranha, uma forma suprema de quietude e silêncios. Por fim aceitou a consciência de que estava vivo, a luz do sol brilhava lá fora e pressentia que outra vida o esperava. Mover a pesada pedra estava fora das suas possibilidades, o homem que tinha sido condenado rastejou para a fresta que o religava ao mundo e à realidade dos vivos, escavando com tempo o seu triunfo inútil. Voltou a questionar a sensatez de um regresso. Quem quererá morrer duas vezes?
Entre arbustos próximos retirou as ligas que o apertavam, nódoas de sangue e suor. O homem sentiu o sol percorrer a sua nudez, reparou como eram horrorosas as suas chagas. Como viver uma vida honrada, ser apenas um homem mais e sem mistérios? Estranhou a sensação da água num riacho próximo, um outro baptismo de vida. Não podia arriscar-se a ser descoberto. Regressou cauteloso, era como se não conhecesse mais mundo que o espaço para onde tinha rastejado. Fazer a viagem da morte para a vida é uma oportunidade única e não conseguiu dormir na noite após a sua ressurreição.

Contemplou um amanhecer inteiro pela primeira vez, sem uma missão a cumprir. Não podia ocultar-se eternamente. Arrepiava-se diante daquela palavra… eternidade! Como poderia ter mentido tantas vezes sobre a bondade do seu deus? Estava perdido nestes pensamentos quando um grupo de mancebos desviou a pedra da entrada para roubar os panos de linho aos cadáveres. Não se moveu, porque não é crime roubar quem não precisa. Além disso as questões da lei nunca lhe interessaram, ou não tivesse violado o sábado ao curar enfermos e a colher espigas para comer diante dos fariseus. Recordava-se agora dos seus pecados. Enquanto os mancebos disputavam o linho, o homem que tinha sido condenado pensava que o amanhecer é sempre belo, e olhou para a estrada e as anémonas cor de púrpura por onde os mancebos escapavam, atravessando mais adiante os loureiros bravos.

O homem que tinha saudado a luz de um novo dia notou então que três mulheres se aproximavam, silenciosas como se viessem chorar a morte de alguém. Custava-lhe ainda enfrentar a luz de um novo dia, mas reconheceu Madalena. Atrás seguiam a mãe de Tiago e Salomé. Não quis falar-lhes, tinha que desabituar-se de transmitir esperanças. Era melhor que a morte fosse tida como natural e inevitável, o elo que falta entre os homens e os deuses. Sem a morte, pensou, a arte e todas as religiões seriam improváveis como coisas humanas.
Mas o seu corpo não estava na gruta, na verdade ele estava vivo e não podia contrariar a sua ressurreição. Não queria voltar a morrer apenas para fazer a vontade dos homens e do seu deus, mas não sabia como viver. Não sabia para que servia a vida. Apenas não queria ser descoberto pelos soldados. Nem pelos discípulos. Poderia falar com Madalena, pedir auxílio e um esconderijo temporário mais seguro que uns arbustos. As três mulheres repararam na pedra movida e no lugar vago do seu corpo. Mas o homem que não morreu tinha que manter o mistério do seu desaparecimento, ninguém o encontraria.

Apenas Madalena, a beleza que o surpreendeu junto a um poço de água. Deveria, pois, saciar a sua sede? Amar a beleza num corpo mortal que envelhece. Amar sem o propósito de salvar a humanidade inteira para fugir à responsabilidade de um único beijo. O filho de deus saberia amar? Suportaria conhecer o amor, e o remorso que fica sempre depois do amor? O deus que fora o seu nada sabia do sofrimento humano porque lhe ordenara que morresse na cruz, por um amor sem substância e sem fim.
Deveria agora esgueirar-se por caminhos sombrios, amar é o maior perigo que pode acontecer a um homem! Madalena estava só na sua tenda, queria libertar-se da memória daquele homem solitário que a tinha olhado de maneira diferente. Entre o mistério e o pranto, aguardava sem saber. O homem que não morreu entrou sem alarde, e olhou para Madalena como quem desperta de um sono profundo. Sou apenas um homem, disse-lhe. Madalena reconheceu-o e voltou a tratar-lhe das feridas.
O homem que não morreu encontrou o tempo para chorar ser filho de um deus que não queria. Beijou lentamente os pés de Madalena, abraçou-se às suas delicadas coxas e permaneceram calados, enquanto Madalena lhe afagava os cabelos. O amor não precisa de palavras nem de orações. Sentiu o sangue latejar quando se deitou com Madalena. As mãos percorreram os rostos, e descobriu que os humanos fazem amor conservando mútuo o olhar. Dar a outra face é isto mesmo, partilhar o êxtase e o segredo dos afectos. O filho de deus tinha finalmente ressuscitado da morte de não amar.

Autor: Adriano Rosa (A David Herbert Lawrence, porque escreveu a novela intitulada The man who died).

terça-feira, 17 de março de 2009

Zeca Afonso - Canção de embalar

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Autor: Zeca Afonso – Canção de Embalar

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Um nome simbólico - Hugo Pratt

Foi na manhã do meu décimo segundo aniversário.
Antes de sair, o meu irmão, tinha deixado a minha prenda. Uma fábula, uma aventura, um conhecimento muito especial protagonizado pela personagem que todos gostaríamos de ser: Corto Maltese. Falo do livro «Fábula de Veneza», da autoria de um dos maiores romancistas e desenhadores de banda desenhada do séc. XX – Hugo Pratt.
Era Verão, uma manhã quente de Agosto. Eu, sem sequer imaginar a viagem que aquele livro me iria proporcionar, sentei-me displicente num sofá a desfolhá-lo. Página a página fui tomando conhecimento de um mundo de cuja existência nem suspeitava, numa Veneza ocupada pelo exército torcionário de Mussolini.
Num labirinto oculto nos subterrâneos da cidade, «Corto Maltese», o homem impoluto, corajoso, implacavelmente justo e bom, tem por missão encontrar um objecto, um objecto que é um símbolo, um sinal: a «Clavícula de Salomão». Perseguido pelos «guardas negros» de Mussolini, «Corto» refugia-se no secreto gueto judaico de Veneza. Inadvertidamente, «Maltese» vê-se literalmente caído num templo Maçónico enquanto decorre uma sessão de Loja. São estes homens que o hão-de conduzir até à «Clavícula de Salomão», ao mesmo tempo que o protegem e acolhem fraternalmente, mesmo não sendo ele Maçon.

Nessa manhã de Agosto, viajando pelas palavras e desenhos de Hugo Pratt, começaram a formular-se no meu pensamento todas as perguntas sobre esta associação de homens, revestidos de estranhos paramentos, dispostos a combater a tirania de um ditador, organizados em segredo na críptica parte de uma cidade, prontos a ajudar um outro homem a combater pela justiça e pela liberdade. Quem seriam eles? Quem seriam afinal os Maçons e a Maçonaria?
Sem Hugo Pratt talvez não tivessem surgido tão cedo as primeiras pesquisas, os encontros com os primeiros maçons que conheci e que afinal eram os mais próximos familiares, talvez a estante do adolescente que fui não se tivesse composto com os poucos livros disponíveis que então se encontravam sobre a «Construção do Templo».
Nunca mais esta marca se apagou e foi para Hugo Pratt que dirigi o meu primeiro pensamento na «Câmara de Reflexões», no dia da minha Iniciação. É possível que nesse momento, enquanto redigia o «Testamento Filosófico», tenha voltado a ser o menino de doze anos no dia do seu aniversário.

Mais tarde soube da filiação Maçónica de Pratt. Reconheci outros sinais noutros dos seus escritos, como no romance «A Balada do Mar Salgado». Fui, enfim, sabendo da sua relação com os mais altos valores Maçónicos.
Agora que Pratt já partiu para o Grande Oriente Eterno, retomo em sua homenagem a lembrança do primeiro momento de encontro com a Maçonaria. E, não só em homenagem a ele, mas a todos os que resistiram a uma Europa nazi, mantendo acesas as chamas da Sabedoria, da Força e da Beleza, chamo a mim o simbolismo do seu nome. Tomo eu a missão do viajante que procura, mesmo sob as maiores dificuldades, o sublime «Selo de Salomão».

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Linguagem simbólica

A Maçonaria, em relação à sua linguagem simbólica, não é original, já que a maior parte dessa mesma linguagem é adaptação de diversas linhas de pensamento e de influência. Mas a imensa riqueza cultural da Maçonaria está alicerçada na ampla flexibilidade e tolerância em relação às diversas correntes de pensamento, admitindo as mais variadas linhas filosóficas que contribuam para a construção de homens de elevados padrões morais, éticos e espirituais. Cada Maçon é, desde o momento da sua iniciação, induzido no caminho do auto-conhecimento e da auto-construção, com base nos seus próprios valores de referência, respeitando o pensamento dos seus Irmãos e buscando o seu próprio crescimento espiritual sem intermediação de ninguém. Os nossos trabalhos têm vindo a ser cada vez mais propiciadores desse caminho que é aberto a todos os seus obreiros. Não existe estrutura forte que não seja baseada na fortaleza de cada um dos seus elementos. Hoje, como sempre, foi dado mais um importante passo nesse sentido.

Autor: Álvaro

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Porquê René Descartes


Apesar de ter feito inumeras pesquisas e nada ter encontrado de concreto, da ligação física de René Descartes com a maçonaria, muito de seus conceitos tem efeito sobre aquilo que se defende no meio maçónico. Desde a combinação que Descartes fez da geometria com a algebra, conceito muito apreciado pelos maçons, temos a sua filosofia que muito me inspirou procurar mais informações sobre o mesmo. Uma personalidade dominante da história intelectual ocidental, foi um filósofo fisiologista e matemático francês. Cedo na sua vida, descobriu que tinha talento para matemática e filosofia na perseguição da verdade. O esteio da fisiologia de Descartes pode ser resumida por sua famosa frase em latim: “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo).
“Observo em nós apenas uma única coisa que nos pode dar justa razão para nos estimarmos, a saber: o uso do nosso livre-arbítrio e o domínio que temos sobre as nossas vontades. Pois as acções que dependem desse livre-arbítrio são as únicas pelas quais podemos com razão ser louvados ou censurados, e ele torna-nos de alguma forma semelhante a Deus ao fazer-nos senhores de nós mesmos, desde que por cobardia não percamos os direitos que nos dá. Assim, creio que a verdadeira generosidade, que faz um homem estimar-se a si mesmo no mais alto grau em que pode legitimamente estimar-se, consiste somente, por uma parte, em que ele sabe que não há algo que realmente lhe pertença a não ser essa livre disposição das suas vontades, nem por que ele deva ser louvado ou censurado a não ser porque faz bom ou mau uso dela; e, por outra parte, em que ele sente em si mesmo uma firme e constante resolução de fazer bom uso dela, isto é, de nunca deixar de ter vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar serem as melhores. Isso é seguir perfeitamente a virtudes.” René Descartes, in 'As Paixões da Alma'

Olhando para uma rica filosofia apresentada nas obras de René Descartes, percebo a grande ligação que há no conceito de alma, e para tanta riqueza de pensamento, ele sempre se refugiava em lugares de severa meditação, sem com isso sentir-se só. Fazia de momentos seus, momentos de ligação com um ser superior. A ligação entre nossos pensamentos encontram-se em momentos de reflexão, em que me vejo só, e para mim estar só, não significa vazio nem solidão, significa circunstância. Enquanto que a solidão para mim, é quando não se consegue encontrar a nossa própria alma, quando nos perdemos de nós mesmos. Descartes teve grande influência no desenvolvimento da filosofia, repercutindo nos estudos da matemática, ciências e também nos campos da justiça e da teologia, influenciando muitos filosofos europeus e tendo muito impacto sendo chamado o pai da filosofia moderna.

Foi esta uma das razões que me levou a adoptar o seu nome “RENÉ”, pensar livremente, com independência, com valorização do homem, com verdade, com generosidade, com justiça, sabedoria e irreverência, enfim, Solidário e Fraterno, com a humildade que me caracteriza.

Autor: René

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sociedade humana e harmonia

Será a harmonia por si só o mecanismo central regulador da evolução da sociedade humana? Como evolui uma sociedade regida pelo conceito fundamental da harmonia? Esta, uma questão que se coloca com particular actualidade e acuidade, sobretudo num momento em que a Humanidade está confrontada com as mais diversas formas de intolerância. Daí a importância crescente que a Maçonaria desempenha neste mundo globalizado, em que aos iniciados é conferida a responsabilidade de defender os sublimes valores da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Neste panorama global da espiritualidade humana, a Maçonaria merece ser referida de forma muito especial. Enquanto organização iniciática que antes de tudo é, a Maçonaria constitui uma das vias possíveis na procura da Verdade, tendo por principais objectivos, por um lado, o aperfeiçoamento moral dos seus membros e, por outro, o progresso da Humanidade inteira, sendo os seus principais cunhos a harmonia e a tolerância fraternal entre todos os seus membros. É, pois, uma via simbólica que constitui um dos mais potentes motores de aperfeiçoamento da Humanidade, capaz de recriar o homem total que retorna à Unidade Primordial.

Autor: Álvaro

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Poesia à beira da Música

O Grémio Estrela D’Alva decidiu levar a cabo mais uma iniciativa no âmbito da divulgação da cultura, neste caso, da literatura e da música, sobretudo portuguesas, subordinada ao tema “Poesia à beira da Música”, sob a forma de tertúlias, realizadas nas instalações do restaurante escocês do Palácio Maçónico, na Rua do Grémio Lusitano nº 25, todas as últimas quintas-feiras de cada mês até ao próximo mês de Junho de 2009.
Estas sessões, têm início às 20:00h e terminam cerca das 23:00h, altura em que os participantes poderão jantar (facultativo) e debater vários temas durante o mesmo, após o que se dá início à leitura e declamação de textos de vários autores, de acordo com o programa divulgado. É assim, mais uma oportunidade de promover o encontro entre membros e profanos, promovendo que a cultura em geral e a maçónica em particular, veiculem a partilha do conhecimento dos participantes destes encontros, procurando que todos saiam agradados e enriquecidos interiormente.
Os participantes que pretendam confirmar a presença no banquete fraternal, deverão fazê-lo, através de contacto dos obreiros do Grémio Estrela D’Alva ou através do e-mail: gremio.estrela.d-alva@hotmail.com

1.º - O Futurismo Português – Nascimento (29-Janeiro):
Manifesto Anti-Dantas - José de Almada Negreiros
Guardador de Rebanhos (excerto: a minha história do menino Jesus) - Alberto Caeiro

2º - Os Mestres (26-Fevereiro):
O Livro de Cesário (excertos) - Cesário Verde
Numa Ilha Só Morre Quem Lá Está - Antero de Quental

3º - De Volta ao Realismo (26-Março):Vários - Mário Dionísio
Vários - Carlos de Oliveira

4º - Mulher Poeta (30-Abril):Évora - Florbela Espanca
Câmara de Reflexão - Natália Correia
A Alma dos Penitentes - Natália Correia
Vários - Fiama Hasse Paes Brandão

5º - Amor-Romã (28-Maio):
Poesias de Amor - Pablo Neruda
Piedade Senhor - Vinicios de Moraes
Conquista-me - Risoleta Pinto Pedro
Por Dentro do Amor - Herberto Helder

6º O Solstício, a Terra, o Sol, a Lua (25-Junho):
Vários autores

Autor: Grémio EStrela D'Alva

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Era uma vez o Quinto

Papéis e papelinhos
Da arca de Pessoa
Quem pediu para os editar?

Papéis e papelinhos
Da Arca da Aliança
São o sonho telúrico
Que vai da Terra ao Mar.

Quem será o Almirante
Quem largará as amarras,
Indo ao fim do subsolo,
Descobrindo lá o Mar?

Quem será o Almirante
Tendo as trevas como mapa
Que se irá aventurar;
Tendo uma pá de pedreiro,
Para alisar as marés
Do inconsciente inteiro
Da Humanidade sem verbo?


Deixem os papéis na Arca,
Deixem as estrelas dormir,
Que o sonho é o novo Reino
Que anunciará o Devir.

Quem fizer do O um S,
Quem fizer do S um oito,
Adormecendo esse oito
Navegará infinitos.

Quem terá as sete chaves
Para as sete portas abrir?

Quem cantará como galo,

Quem tocará como pêndulo
Essa hora do Devir?
Hora da morte de Roma,
Do nascimento do Amor,
Hora da mãe Terra acordar
Sua gravidez profunda,
Germinando semente,
Trigo vertido das águas
Rio sem margens feito mar.

Quem terá as sete chaves
Para as sete portas abrir?

Chegou a hora do verbo,
Do verbo ser Português,
Chegou a hora do quinto,
Do quinto era uma vez…

Autor: Jónatas

sábado, 27 de dezembro de 2008

São João Evangelista a Face de Futuro de Janus

Segundo o calendário litúrgico, no dia 27 de Dezembro é evocada a passagem pela Terra de João, apóstolo de Jesus e autor de um dos evangelhos que contam a vida e morte do profeta palestino. Além do texto evangélico, é a João que se atribui a autoria de um dos textos mais profundos, simbólicos, metafóricos e proféticos de sempre: «O Livro da Revelação» ou «Apocalipse».
De resto, o evangelho segundo João não é um texto menos encriptado e esotérico. Pleno de uma poesia extrema, as suas alegorias são sempre envoltas num mistério desarmante tornando mesmo a sua leitura quase incompreensível quando não lida com os olhos do coração e apenas com o intelecto. Dele se dizia ser o discípulo amado de Jesus e, de facto, ao percorrermos as linhas dos textos que de João chegaram aos nossos dias, facilmente somos encantados com as suas demonstrações de um intenso Amor Universal.

Para a Maçonaria e para os Maçons a tradição revelou João Baptista e João Evangelista como duas das suas grandes referências. Profundamente ligado às celebrações do Solstício de Inverno do paganismo ocidental – mais tarde convertido nas comemorações do Natal de Jesus – João Evangelista é frequentemente chamado São João de Inverno. Se, por analogia, os conectarmos à iconografia de Janus, João Evangelista está à direita olhando o futuro, corajosamente e sem baixar os olhos, enquanto João Baptista, à esquerda neste rosto de duas faces, olha o passado, o verão, a experiência. Os dois completando-se entre passado e futuro, num simples olhar situam-nos no presente. A vida, aqui e agora. E esse é um dos fundamentais alicerces do simbolismo maçónico posto em prática: cada dia é um dia, cada hora uma hora, cada segundo um segundo e em cada um desses momentos está nas nossas mãos desbastar a pedra bruta para que o presente seja o resultado da construção, ética, moral e social de cada livre-pedreiro, que ao bater na justa proporção com o malho e cinzel almeja chegar à flecha da catedral e aí ver, por fim a Luz. A Liberdade última. Ao desbastar a primeira pedra disforme o pedreiro sabe que não será ele a concretizar o fechar das abóbadas da catedral, mas confia que unidos numa cadeia sem traço de mácula, outros virão e não deixarão o trabalho por incompleto.

Essa é a mensagem maior de João. Ele olha de frente para o escuro do Inverno, para as sombras que o rodeiam, para o sofrimento que o rodeia mas, baseado na experiência vinda da observação do passado (simbolizada pela outra face de Janus) ele pratica um quotidiano – o presente – onde, mesmo na obscuridade mais profunda a luz brilha, nem que seja numa pequena candeia.
Na realidade não há distinção entre Maçonaria Operativa e Maçonaria Especulativa (salvo os dados históricos que separam os construtores ancestrais de templos e aqueles que seguem hoje os seus símbolos de forma gradual: iniciática. Todos nos podemos converter em Maçons Operativos. Basta que, nestes dias de invernia e desalento que o clima nos traz, olhemos, como João/Janus, em frente e sem baixar os olhos. Basta que acendamos a Luz do Oriente, a Luz de uma pequena candeia que nos guiará à próxima primavera. Ao símbolo e à prática de um Verão que está para vir. Assim nos diz a experiência desse rosto à esquerda que alicerçado na experiência do passado traz o testemunho de que sobre nós, no céu, brilharão sempre as duas supremas luminárias: o Sol e a Lua.

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

In memoriam José Joaquim Pascoal Gomes

No quadro, da evocação da memória do José Joaquim Pascoal Gomes, quero associar-me a tão justificada homenagem e, traçar esta singela mas sentida evocação.
Conheci o Pascoal Gomes na infância, pois era amigo dos meus pais, e a sua influência foi tal que adoptei o nome simbólico, de Pascoal Gomes.
Durante a minha adolescência, marcada por incessantes conflitos familiares, foi frequentemente o meu “advogado de defesa”, tendo sempre manifestado uma cúmplice tolerância e uma grande compreensão perante os excessos e exageros a que uma revolta mais sentida do que pensada frequentemente me conduziu.
Abril chegou e, por entre afazeres e responsabilidades múltiplas, conseguiu sempre preservar a nossa relação, que intensificou ainda, depois da morte de meu pai: ele e sua esposa Maria Teresa passaram a ser os mais próximos amigos de minha mãe – e assim se mantiveram até ao fim.
Os caprichos da vida trouxeram-me para Paris, onde durante mais de duas décadas ele veio regularmente forjar armas para combater o polvo que o tinha enlaçado: fui a testemunha privilegiada do titânico combate que, com o amor, o desvelo e a total solidariedade da Maria Teresa, travou contra a besta. E que venceu, depois de ter assistido às obsequias de Salazar e de Franco, o Pascoal Gomes condenado aos 50 anos, faleceu com quase 80, levado por doença distinta do cancro linfático que o queria vitimar.

Todos conhecemos o percurso exemplar do antifascista, que o levou aos calabouços da PIDE. Todos estamos cientes da rota Maçónica que seguiu, atravessando décadas de clandestinidade, transformando a sua casa, ele, o ex-preso político, em sede de reunião e arquivo do Grémio Lusitano. Todos conhecemos o papel inestimável que desempenhou, na preservação da memória e das instituições Maçónicas e Para-Maçónicas de Portugal.
Não é minha intenção transformar esta curta evocação numa “apologia da vida exemplar de São Pascoal Gomes”: o Zé Pascoal não era santo nenhum, e as velas que aqui ardem são as chamas da Luz. Tinha uma personalidade complexa e, até, polémica: era um homem de convicção, inteiro e impulsivo, que não recuava perante um confronto. Exigente consigo próprio e detestando a complacência, não era homem de compromissos: para falar maçónicamente, era uma Pedra de denso minério, talhada a direito pela percussão repetida do Malhete da Razão sobre o Cinzel da Vontade, com ângulos rectos, ásperos e rugosos.
Todos conhecemos episódios em que ele se exaltou, tendo nalguns casos chegado a ser acintoso e, mesmo, injusto: era um Maçom formado pelos nossos antepassados da Primeira República, que não praticavam compromissos, e nunca foi “politicamente correcto”.

Quero testemunhar da existência de uma outra faceta, apenas conhecida dos seus íntimos: a contínua vigilância e a inquietação que o assolava quando alguém atravessava dificuldades. Posso, podemos, assegurar que o Pascoal Gomes ajudou, intercedeu e até apoiou financeiramente todos os carentes, inclusive aqueles com quem estava zangado, graças à fraternal intersecção de terceiros.
Recordo-me de um caso concreto, em que indirectamente auxiliou um Irmão com quem tinha deixado de falar há vários anos, comentando, perante a minha perplexidade, que a eventual diferença das mães em nada altera a obrigação de Fraternidade: diga-se em abono da verdade e respeitando-lhe a memória, que a formulação era mais abrupta, mas a ideia era esta!

Lembremo-nos de que foi o antifascista e socialista histórico, o homem das tomadas de posição abruptas, das rupturas assumidas e das intervenções acutilantes, que decisivamente contribuiu para que muitos regressassem ao Grémio Lusitano, restabelecendo assim a pluralidade das sensibilidades que deve caracterizar uma Obediência.
Essa mesma Fraternidade levou-o a passar sob silêncio episódios menos gloriosos de certos membros, durante o anterior regime e, principalmente, após a queda deste.
Daí um certo desencanto, característico de quem, em situação de grande desconforto, sonhou com um mundo melhor e com uma Maçonaria composta por homens perfeitos. Ele sabia não o ser, mas nunca aceitou que nós também não o fossemos.
O nosso Pascoal Gomes foi um Pedreiro-Livre da clandestinidade, iniciado por membros que privilegiavam o “ser” ao “parecer”, para os quais o critério de ingresso era a excelência do Homem e não o seu estatuto social, a sua escolaridade, ou a sua fluência discursiva. Era um homem de acção e não um retórico, cuja perspicácia foi frequentemente subestimada entre estas paredes, por ouvidos que confundem palavreado e a Palavra do Mestre, escutar e entender. Curiosamente, nos últimos anos, as suas tomadas de posição Maçónicas tinham mais impacto em Paris, não obstante não falar o francês, do que em Lisboa.
Acontece que foi pela mão do nosso Pascoal Gomes que fui iniciado há mais de vinte anos no e foi sob a sua insistência que me disponibilizei para ocupar o cargo de Garante de Amizade.

Foi este o homem que perdemos, mas é esta a Luz que nos ilumina. E tu, Meu Querido Zé, se afinal nos enganámos e sempre houver um Deus qualquer, não te prives de Lhe dizer o que pensas da injustiça, da miséria e do sofrimento, das trevas, em que mantém este mundo mergulhado.

Choremos, Choremos….e Esperemos !

Autor: Pascoal Gomes

sábado, 13 de dezembro de 2008

O Centenário do Grémio Estrela D’Alva

No passado dia 13 de Dezembro de 2008 comemorou-se o Centenário do Grémio Estrela
D’Alva, culminando uma série de iniciativas que visaram marcar o ano, ora corrente, com aquela efeméride.
As celebrações iniciaram-se naquele dia, às 15:00h, com a inauguração do Gabinete de Cuidados de Saúde e Bem-Estar nas instalações do palácio do Grémio Lusitano, a que foi decidido atribuir o nome José Pascoal Gomes, procurando com isto, relembrar aquele membro e a forma indelével de todos os que nele encontraram o reflexo de conduta sob os ideais com que sempre pautou a sua vida. Assim, as mãos do Presidente do Grémio Lusitano, da nossa muito estimada Teresa Pascoal Gomes viúva do nosso amado homemageado e do Presidente do Grémio Estrela D’Alva, o avental de aprendiz deixou a descoberto a placa onde se registou o momento e o nome atribuído àquele novo órgão de serviço social destinado a todos que nele queiram ajudar os demais e aos que nele procurem ajuda. Ali, passou a estar disponível também, equipamento destinado a primeiros socorros, oferta dos membros do Grémio Estrela D’Alva, que para o efeito reuniram esforços.
Às 16:00h, num Templo do Palácio, deu-se início a sessão, sob o tema “Conhecer a Loja e a Maçonaria”, na qual, entre os vários momentos alusivos ao momento, o silêncio e os corações dos presentes uniram-se na emoção, durante a chamada pelos membros ausentes por terem falecido, mas que nem por isso, deixam de ser uma recordação constante de quem lhes prosseguiu a obra. Entre as intervenções que tiveram lugar, recebeu a do Prof. Dr. João Alves Dias subordinada ao tema da sessão, particular interesse por parte dos presentes e convidados, que alí puderam ouvir resposta a questões que habitualmente se colocam sobra a Maçonaria, avivadas sobretudo pela acção discreta que caracteriza os Maçons. Após a distribuição de placa comemorativa aos Dignitários presentes, em particular aos de outros Grémios e Instituições que ali se fizeram representar e a oferta de flores a todos os presentes, a sessão foi encerrada pelo Prof. Dr. António Reis.
Às 18:00h realizou-se a visita guiada ao Museu Maçónico, conduzida à voz do seu director, o Prof. Dr. António Lopes.
Pelas 21:00h, teve início o banquete fraternal, onde os membros e demais convidados tiveram a oportunidade de confraternizar, numa celebração abrilhantada pelo momento musical, ao som de trechos tocados à guitarra portuguesa, acompanhada à viola.
Foi decerto uma celebração, de que estão de parabéns, todos os maçons, por nela constatarem o quão perene é a obra maçónica por anos e séculos.

Autor: Grémio Estrela D'Alva

domingo, 30 de novembro de 2008

Exposição Grémio Estrela D'Alva

No ciclo de Comemorações do Centenário do Grémio Estrela D’Alva, inaugurou-se no passado dia 13 de Novembro de 2008 nos paços perdidos do palácio do Grémio Lusitano uma exposição alusiva àquela efeméride, podendo-se observar parte do espólio desta Instituição distribuído ao longo de três expositores em conjunto com alguns textos reflectindo a visão da Maçonaria elaborados por pessoas não afectas à Ordem.
Ainda no âmbito das Comemorações, no dia 27 de Novembro de 2008 passaram também a estar expostas várias obras da artista Sílvia Soares, alusivas ao tema “Essência Maçónica”.

Estas exposições estão patentes e podem ser visitadas até ao próximo dia 31 de Dezembro de 2008.

Autor: Grémio Estrela D’Alva

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A Ciência, a Ética e a Moral

No ciclo de Comemoração do Centenário do Grémio Estrela D’Alva, realizou-se no passado dia 27 de Novembro de 2008 na sala Magalhães Lima do palácio do Grémio Lusitano uma palestra subordinada ao tema “A Ciência, a Ética e a Moral”, na qual interveio o Prof. Dr. Nuno Crato.
Nuno Crato é Professor Associado com Agregação de Matemática e Estatística no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa. É próreitor para a Cultura Científica da Universidade Técnica de Lisboa.
Licenciou-se em Economia no ISEG. Doutorou-se em Matemática Aplicada nos Estados Unidos e trabalhou depois nesse país muitos anos, como investigador e professor universitário. O seu trabalho de investigação incide sobre processos estocásticos e séries temporais com
aplicações várias, nomeadamente computacionais, climatéricas e financeiras. É presidente e coordenador científico do Centro FCT Cemapre e membro de várias sociedades científicas internacionais, nomeadamente da American Statistical Association e do International Institute of Forecasters.
Foi Presidente do International Symposium on Forecasting em 2000. Tem trabalhos de investigação publicados em diversas revistas internacionais da especialidade, nomeadamente Statistical Papers, Communications in Statistics, Journal of Econometrics, Economic Letters, International Journal of Forecasting e Journal of Forecasting.
É presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) e membro dos corpos gerentes do Fórum Internacional de Investigadores Portugueses (FIIP).
Em paralelo com o seu trabalho académico, está empenhado na divulgação científica. Colabora regularmente na imprensa e tem colaborado com vários programas de televisão e de rádio.
É autor de Zodíaco: Constelações e Mitos (Gradiva, 2001) e Passeio Aleatório (Gradiva, 2007); é co-autor de Eclipses (Gradiva, 1999), deTrânsitos de Vénus (Gradiva, 2004), de A Espiral Dourada (Gradiva, 2006), de Relógios de Sol (CTT, 2007), Passeio Aleatório (Gradiva, 2007), Matemática das Coisas (SPM/Gradiva, 2008) e de outras obras de divulgação.
A Sociedade Europeia de Matemática atribuiu-lhe em 2003 o Primeiro Prémio do concurso Public Awareness of Mathematics pelo seu trabalho de divulgação. A Comissão Europeia galardoou-o em 2008 com um European Science Award, ficando em segundo lugar na categoria de Science Communicator of the Year.
Em 10 de Junho de 2008 foi agraciado com o grau de comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
Depois da apresentação da palestra existiu um vivo e participativo debate sobre o tema com grande relevância pelo interesse demonstrado pelos presentes e a sessão foi encerrada por um alto Dignitário do Grémio Lusitano.

Autor: Grémio Estrela D'Alva

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

A Economia e a Responsabilidade Social

No ciclo de Comemoração do Centenário do Grémio Estrela D’Alva realizou-se no passado dia 13 de Novembro de 2008 na sala Magalhães Lima do palácio do Grémio Lusitano uma palestra sobre a “Economia social e responsabilidade social das empresas como respostas à conjuntura económica internacional”, na qual interveio o Dr. Gonçalo Pernas.
Gonçalo Pernas tem 35 anos e é licenciado em Gestão de Recursos Humanos pela ULHT e pós-graduado em Gestão pelo ISCTE desempenha, entre outras, as funções de:
· Director da RSE Portugal – Associação Portuguesa para a Responsabilidade Social das Empresas;
· Assistente Convidado na ISCTE Business School, onde é docente nas cadeiras de Empreendedorismo; Gestão de Recursos Humanos; e Ética, Responsabilidade e Sustentabilidade Empresarial;
· Coordenador Executivo do Microsoft Innovation Centre/ISCTE;
· Director do Ciriec Portugal/CEEPS – Centro de Estudos sobre Economia Pública e Social.
A nível internacional, exerce as seguintes funções:
· Membro da CSR Europe – The European Business Network for Corporate Social Responsibility; · Membro do Academic Board da EABIS – The European Academy of Business in Society.
A sessão contou ainda com diversas intervenções dos presentes numa viva e sã manifestação de pontos de vista sobre o tema e foi encerrada por um alto Dignitário do Grémio Lusitano.

Autor: Grémio Estrela D’Alva

terça-feira, 21 de outubro de 2008

A circulação da palavra

Mais uma vez circulou entre o Templo a total liberdade de pensamento e de expressão que constitui uma das maiores riquezas do enorme espólio maçónico na nossa Ordem.
Sem condicionamento outro que não seja o exercício da sua característica de homens livres e de bons costumes, todos os que o desejaram puderam, como sempre podem, expressar-se, deixando o pensamento fluir no sentido do livre arbítrio que caracteriza o trabalho em Maçonaria.
Com efeito, a Maçonaria, concedendo uma relevância muito específica ao livre arbítrio, confere ainda maior dignidade à expressão do pensamento, porquanto, ao fazê-lo de pé os obreiros adoptam uma postura que contribui para controlar as paixões e as emoções profanas e que, ao proporcionar considerável amplitude ao livre arbítrio, mantém-no, todavia, nos limites das liberdades individuais de cada membro.
Neste magnífico espaço de liberdade protagonizado pela nossa Augusta Ordem, e no cumprimento de uma ritualística cada vez mais aperfeiçoada, os trabalhos decorrem, pois, de forma justa e perfeita!

Autor: Álvaro

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O Grande Arquitecto do Universo

Quando se pretende assimilar plenamente o espírito maçónico é necessário conhecer cada um dos símbolos usados pela Maçonaria e meditar sobre eles. De todos esses símbolos, o Grande Arquitecto do Universo (GADU) é não só um dos mais importantes como um dos mais difíceis e delicados de abordar, pois, mais do que qualquer outro, interfere com aspectos do foro íntimo das pessoas, ou seja, com as suas crenças.
Na minha opinião as dificuldades de um tema não nos devem fazer fugir dele e menos ainda nos devem levar a esconder a cabeça na areia. Pelo contrário, tornam de primordial importância ponderá-lo serena e cuidadosamente. Julgo que, no caso do GADU será mesmo uma excelente forma de avaliarmos a nossa capacidade de diálogo e tolerância, virtudes que os maçons devem cultivar.
A avaliar pelos trabalhos que tenho lido, sejam eles de maior ou menor profundidade, a análise directa do tema é em geral evitada, mas é por demais evidente que o conceito não é igual para todos os maçons. De facto, é frequente encontrar trabalhos onde são dirigidas preces mais ou menos fervorosas ao GADU (nalguns casos expressamente a Deus). Mas também não é raro encontrar trabalhos onde são feitas apenas referências genéricas, do género «à glória do GADU», ou até em que não lhe é feita qualquer alusão.
Por outras palavras, parece-me que, independentemente de se referirem ou não ao GADU nas seus trabalhos, a maioria dos maçons evita fazer uma análise frontal sobre o significado da expressão.
Ao procurar textos dedicados ao tema encontrei de tudo um pouco. Por exemplo, no Dicionário de Termos Maçónicos de José Castellani, essa entrada nem sequer existe; já no “dicionário maçónico” um trabalho anónimo com grafia típica do Brasil e que me foi oferecido na altura da minha Iniciação, o GADU é definido como «Título da Divindade Suprema em todos os Ritos e Sistemas maçónicos de todo o mundo, significado de DEUS, o criador de todas as coisas».
Há contudo quem apresente perspectivas muito diferentes e certamente mais abrangentes. É o caso do Irmão José Martins Jurado no seu livro Introdução ao Rito Adonhiramita e que passo a citar também textualmente: «O G.A.D.U. não é senão uma fórmula, quase um símbolo, quase uma frase. Uma ideia para que cada ser aprove uma medida de sua inteligência, de sua concepção deísta, ou puramente literária, ou intui­tiva; por isso não a definimos. Tanto é assim que G.A.D.U. pode ser uma ideia, um princípio. Para uns, a Revolução. Para outros, a Evolução. Para todos, a encarnação do próprio pensamento de cada um, sem forma nem figura; sem culto nem adoração; sem amor nem te­mor; sem esperança nem dissolução.»
Também o Irmão René Guenon se refere ao assunto dizendo: «O Grande Arquitecto do Universo constitui unicamente um símbolo iniciático, que se deve tratar como todos os outros símbolos, e do qual se deve acima de tudo procurar criar uma ideia racional; ou seja, que esta concepção nada pode ter em comum com o Deus das religiões antropomórficas, que é não só irracional, mas inclusivamente anti-racional. No entanto, se pensarmos que cada um pode dar a este símbolo o significado da sua própria concepção filosófica ou metafísica, estamos longe de o associar a uma ideia tão vaga e sem significado como "o Incognoscível" de Herbert Spencer, ou, noutros termos, ao "que a ciência não pode alcançar"; e também é certo que, como diz com razão o Irmão Nergal, "se ninguém contesta que existe o desconhecido, absolutamente nada nos autoriza a pretender, como alguns fazem, que esse desconhecido represente um espírito, uma vontade".»

Em suma, parece haver uma considerável variedade de formas de entender a noção de GADU e em maior ou menor grau essa noção parece depender da crença de quem fala. No entanto o Irmão Jurado assume-se logo de início como cristão, mas mostra claramente que a sua crença religiosa não determina a sua forma de abordar o conceito de GADU.
Considerando que o espírito da Maçonaria é aberto e tolerante, parece-me que a noção de GADU deve ser suficientemente vaga para ser unificadora de todas as crenças e de todas as maneiras de pensar e sentir. Do mesmo modo, seria completamente alheio ao espírito maçónico que o nosso ideal de Liberdade fosse descrito como sendo o de um qualquer partido político. A Maçonaria, deve ser um navio cuja rota o leva a um mundo melhor onde reinem a Justiça, a Paz, o Amor e a Liberdade e da qual não deve ser desviado por ventos de cariz religioso ou político.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 7 de outubro de 2008

A pedra em Maçonaria

Quando cada um de nós franqueou as portas desta Augusta Obediência tinha da pedra o conhecimento profano: uma expressão do reino mineral que se apresenta de forma ora extremamente rígida ora singularmente moldável.
Na altura de recebermos as Luzes e de termos feito simbolicamente o nosso primeiro trabalho na Pedra Bruta, apercebemo-nos então que esta é dura como o granito, pois só assim poderá servir de alicerce sobre o qual repousa a construção do Templo Iniciático.
Todavia, se relancearmos o olhar para os primórdios da história da humanidade logo nos apercebemos que cedo o homem viu na pedra um precioso instrumento, primeiro para a sua sobrevivência, depois para o seu desenvolvimento.
Ao ser proposto a cada Maçom o nobilitante objectivo de limar as arestas da pedra imperfeita, está-se a significar que ele tem em si capacidades, por vezes até então ocultas, para progredir no caminho do conhecimento, da justiça, da liberdade.
Cada um de nós deve constituir exemplo, para a comunidade maçónica e para si própria, de obreiro incansável na prossecução da árdua e interminável tarefa de desbastar a pedra bruta.
Os trabalhos da Resp.'. L.'. Estrela D'Alva têm-no atestado de forma iniludível, pelo que se faz Maçonaria!

Autor: Álvaro

domingo, 5 de outubro de 2008

Da madrugada libertadora à noite sangrenta

Machado Santos era lisboeta, dum meio social modesto, nasceu a 10 de Janeiro de 1875, ali, na velha rua da Inveja, entre a Mouraria e o Campo Sant’Ana, filho de D. Maria de Assunção de Azevedo Machado Santos e Maurício Paula Vitória Santos. Aos 16 anos, em 1891, o nosso António Maria de Azevedo Machado Santos (e não “Machado dos Santos” como em geral é ortografado o seu nome) alista-se na Marinha, fazendo posteriormente carreira na administração naval. Ei-lo sucessivamente 2.º comissário em 1892, 3.º comissário em 1895 e 2.º tenente, posto que detinha na altura da Revolução.
Começou por militar nas fileiras dos “dissidentes” de José Alpoim, o grupo de “esquerda” monárquica que progressivamente se ia arredando das hostes da realeza para se aproximar das fileiras republicanas. O seu feitio intrépido valera-lhe já, por parte dos camaradas de escola, a alcunha de “Presidente da República do Cartaxo”… a sua adesão à causa republicana e a sua rápida e fulgurante carreira de conspirador e carbonário resultaram da oposição à ditadura franquista, iniciada em 1907 e rematada com o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908. Pela mão de um oficial chamado Serejo Júnior entra para a Carbonária Portuguesa ficando logo em contacto com os chefes máximos da conspiração que se avolumava, entre eles Cândido dos Reis e João Chagas. Machado Santos, introduz por seu turno, centenas de recrutas, civis, nas lojas carbonárias, as chamadas “choças” onde os “bons primos” tramam activa e tenazmente a insurreição armada geral.
Membro da Alta Venda Carbonária, o comissário naval esteve na preparação de toda acção conspirativa contra o regime monárquico nestes dois anos que se seguiram. Nas vésperas de se ordenar o início da acção revolucionária, está ausente da reunião decisiva, por considerar que o desentendimento entre os chefes levaria a uma resistência acobardada ou a um novo adiamento inglório, por isso, prepara-se para encetar sozinho o plano combinado.
Veste-se de uniforme de gala como quem vai para uma festa ou para a morte. Chegado ao centro republicano de Santa Isabel, ali encontra os revolucionários que aguardam o começo da acção. Encabeça o grupo de carbonários civis que caminham para o seu objectivo, tomar o quartel de Infantaria 16. De madrugada, o quartel é tomado sem grande dificuldade. Com uma centena de soldados de Infantaria 16, dirige-se então para o segundo objectivo – O Regimento de Artilharia 1, de Campolide, sublevado pelo capitão Pala. Com estas forças conjuntas, a coluna revoltosa segue para a “Rotunda da Avenida da Liberdade” e é doravante aqui, como no Tejo, que se há-de jogar o essencial do duelo entre monárquicos e republicanos.
Uma vez na Rotunda, os revoltosos preparam-se para ser atacados, com as noticias que a revolução tinha falhado, os oficiais tomam a decisão de abandonar o campo fortificado, deixando Machado Santos na chefia dos revoltosos. Efectivamente assim foi, ao mandar tocar a sargentos, quando se viu privado de oficiais, condensou num punhado de civis, de sargentos, de cadetes, de praças, de marujos e de soldados rasos, o nó inquebrantável duma determinação popular que se iria traduzir, no dia seguinte, pela queda da monarquia.
Triunfante o regime republicano, a vida daquele que o fundara foi cheia de vicissitudes, rematando a sua curta carreira terrena, aos 46 anos de idade, alvejado pelas espingardas do “comando” de um outro marujo, o cabo Abel Olímpio, O Dente de Oiro, criminoso a soldo de monárquicos que não perdoaram a Machado Santos a madrugada redentora do 5 de Outubro de 1910. O marujo que vencera a monarquia na Rotunda pagava com a sua própria vida o ter feito baquear o rei. Um comando monárquico, fazendo-se transportar na “camioneta fantasma” durante a “noite sangrenta” que sucedeu à revolução radical de 19 de Outubro de 1921, procedia a algumas liquidações de proeminentes figuras republicanas como o herói da Rotunda, António Granjo e Carlos Maia. Levado de casa Machado Santos foi fuzilado no Largo do Intendente, sendo o seu cadáver transportado depois para a Morgue de Lisboa!

Como disse o seu honrado pai, que, ao irem dizer-lhe, no dia 4 de Outubro, quem comandava as tropas da Rotunda, encolheu os ombros, sorrindo, teve esta frase profética: - Então temo-la tramada, porque quando ele se mete numa coisa leva-a ao fim… Mas é maluco, o meu António, porque, ou deixa lá a pele, ou vai servir de degrau aos outros, pensando em todos e esquecendo-se de si.

Autor: Júlio Verne - Baseado em: Machado Santos, o republicano recalcitrante, por João Medina, História Crítica, Lisboa 1980

terça-feira, 23 de setembro de 2008

O herói da Rotunda

Se observarmos com atenção esta figura política que os historiadores parecem esquecer, não podemos deixar de sentir uma espécie de embaraço misturado com muita perplexidade, já que se mostra contraditório e por vezes mesmo paradoxal no destino e na alma do homem que fundou a República, que foi o braço armado que, na hora decisiva em que todos desanimavam e alguns já desertavam, fez pender a balança da História para o campo dos revoltosos e, no reduzido acampamento da Rotunda, com uns quantos sargentos, praças e civis, verdadeiramente arrebatou a vitória nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910. Contraditório destino, estranha actuação a deste marinheiro da administração naval que vence no campo militar, quando os verdadeiros combatentes se suicidam (como o almirante Cândido dos Reis, julgando tudo perdido) ou se retiram (como os oficiais que decidem abandonar as barricadas do Marquês de Pombal, na manhã de 4, por considerarem que a Revolução falhara)!
Simples comissário naval, com 35 anos na altura dos eventos revolucionários, toma assim a seu cargo a estratégia e o plano decisivo, donde resultaria por fim o triunfo da República, sendo ele, em terra, e Mendes Cabeçadas, no mar, os que de facto fizeram vingar o 5 de Outubro de 1910. E não era combatente, mas um administrador, um simples burocrata da Marinha… Depois, tendo ele sido quem fundou a República, nunca se sentiu bem dentro dela e não parou de conspirar contra todos os que se aproveitaram da Revolução.
Outro paradoxo ainda está na acção política e jornalística seguida por Machado Santos depois do triunfo de 1910, fundando em Novembro desse ano, um jornal mantido, em parte, graças à pensão que a Assembleia lhe concede, o marinheiro Machado Santos converte-se em jornalista, revela dotes inesperados na sua nova actividade, serve-se da sua tribuna para, em obediência ao título do seu órgão, mostrar uma isenção que o inclina a criticar com especial virulência os homens e as formações partidárias que o carbonário nunca tolerou.
O antigo dirigente da Carbonária, o herói da Rotunda, viveu desconfortavelmente na República que ajudara a criar. Triunfante o regime republicano, a vida daquele que a fundara foi cheia de vicissitudes, eleito para as Constituintes como candidato por Lisboa, teve o desgosto de ser escolhido com a votação menos expressiva, o que já traduzia a enorme baixa de popularidade. Feito jornalista, dirigiu o Intrasigente, um jornal onde escreveram homens de talento como Cunha Leal, Humberto Ataíde. Tentou ainda criar um partido onde todos os portugueses se reconciliassem acima das divisões partidárias, a Federação Nacional Republicana. Deixou importantes depoimentos sobre a revolução – A Revolução Portuguesa, 1907-1910 (Lisboa, 1911) e A Ordem Pública (Lisboa, 1916).
Homem recto, coriáceo, intransigente, de grande lisura e integridade moral, um homem livre e de bons costumes, o comissário naval que deu o triunfo à revolução republicana passou pelo regime como um meteoro incandescente e contraditório, desfazendo-se por fim no sangue da noite ignóbil de 1921. O esquecimento a que, em geral, a historiografia portuguesa da República o tem votado, ocultam cuidadosamente as mazelas sobre tais figuras e adensam o halo de maldição sobre esta personalidade tão rica e complexa como a deste Machado Santos que quisemos evocar, passado o seu feito glorioso na Rotunda!

Autor: Júlio Verne - Baseado em Machado Santos e a Revolução de Outubro, História Crítica, Lisboa, 1980

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A carroça

Certa manhã, meu pai convidou-me a dar um passeio. Em dada altura deteve-se e, depois de um pequeno silêncio, perguntou-me:
- Além do cantar dos pássaros nas árvores, ouves mais alguma coisa? Apurei os ouvidos durante mais alguns segundos e respondi:
- Sim, oiço uma carroça.
- Isso mesmo – disse o meu pai. É uma carroça vazia.
Perguntei-lhe:
- Como sabes que está vazia, se ainda não a vimos?
- Ora – respondeu-me. É muito fácil saber que uma carroça vai vazia por causa do barulho. Quanto mais vazia, mais barulho faz.
Tornei-me adulto e, até hoje, quando oiço uma pessoa a falar demais, a gritar, a intimidar, a tratar o próximo com grosseria, prepotente, a interromper as conversas de toda a gente e a querer demonstrar que é a dona da razão e da verdade absoluta, parece que ainda me ecoa nos ouvidos a voz do meu pai:
- Quanto mais a carroça está vazia, mais barulho faz.
E a sabedoria dessa voz, que o tempo não consegue esbater, junta-se ao conforto que sinto a partir do momento em que franqueei as colunas da nossa Augusta Ordem, por onde perpassam o silêncio sábio, a fraternidade, a tolerância no sentido da compreensão, a igualdade entre todos os Irmãos, a procura dos caminhos da verdade que antecipadamente sabemos não poder alcançar mas que porfiadamente perseguimos.

Conto simbólico por: Álvaro

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Casamento Maçónico

- Aqui, com os pés no Sol, minha rainha, com o braço direito te estendo o meu ramo duas vezes florido.
- Aqui, com os pés na Lua, meu rei, com o braço esquerdo te estendo o meu ramo duas vezes florido.
Pela estrela que nos ilumina e que o somos, pela pomba que nos despe o espírito velado e consciente, que do quatro florido na luz espelhado, animus / anima e nos projecta.
- Oh Lua, permite que se torne minha!
- Oh Sol, permite que eu o seja! Que caiam as convenções, que me dispa e me reveja na tua nudez, que a sombra dos dois uma só seja e assim exprima a nossa vigília consciente. Somos um na sombra negra, só o espírito nos une.
- Nossos corpos em Mercúrio mergulhados, como se mar fosse este amar de morrer, por morte não haver, o renascer.

Texto alusivo a um casamento maçónico por: Jónatas

terça-feira, 2 de setembro de 2008

A Romã

Apesar de ser a única fruta relacionada a Maçonaria, a romã pouco é estudada. E, no entanto, revela-se uma verdadeira maravilha da natureza: por fora é esférica, mas por dentro é formada por blocos cúbicos, o que poderá ser passível de três interpretações distintas: contradição, dualidade ou complementaridade. Por mais que digamos que representam as Lojas, os Maçons, a fraternidade, um único propósito, a união, a prosperidade e a abundância, que são o adorno das Colunas, tudo isso soa a pouco, pois a simples observação da romã nos remete para profundas reflexões. Muitos consideram que o seu simbolismo é um legado judaico à nossa Ordem, porque antes mesmo de Salomão as usar para decorar o templo, já faziam parte dos adornos das vestes do sacerdote Aarão. Por outro lado, a romãzeira é a primeira planta a florescer e a frutificar após o inverno na Terra Prometida. No livro sagrado dos judeus – o Tora –, há a descrição das sete frutas que consagram Israel (trigo, azeitona, cevada, uva, figo, tâmara e romã). Para além disso, no dia 15 do mês de Shevát – que corresponde ao nosso 13 de Fevereiro –, os judeus comemoram-no com uma ritualística própria, em que são consumidas romãs e as outras frutas citadas. Talvez possamos, assim, com os olhos de Maçom, observar a romã e incorporar na nossa conduta os ensinamentos que ela nos transmite: apesar de diferentes, as sementes mantêm-se unidas "ombro a ombro"; apesar de terem vários ângulos (visões diferentes), apoiam-se em perfeita união; são centenas e, como nós, espalham-se pelos quatro cantos da terra. Como somos livres-pensadores e se os Irmãos permitirem, trago a interpretação do Talmud quanto ao simbolismo da romã: "Mesmo o mais vazio entre vocês estará cheio de boas acções, assim como uma romã está sempre cheia de sementes". Ou seja, não importa o tamanho (componente material) da romã: haverá sempre dentro dela dezenas de sementes (componente espiritual). No nosso caso, não importa o que somos, qual o nosso grau ou o nosso cargo (aspectos materiais): há dentro de nós dezenas de bons princípios (aspectos espirituais), que devem ser semeados e cultivados em nós próprios e na sociedade em que vivemos.

Autor: Álvaro