segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Maçonaria e a Implantação da República

O Livro "A Maçonaria e a Implantação da República" reúne documentos inéditos. 
O esboço da disposição à volta da mesa dos participantes da reunião secreta entre responsáveis das estruturas legais e clandestinas do movimento revolucionário, a 29 de Setembro de 1910, é um dos documentos inéditos reunidos no livro ‘A Maçonaria e a Implantação da República’. Desconhece-se contudo o que foi decidido no encontro. Nunca se saberá se as deliberações estavam nos papéis que o médico psiquiatra Miguel Bombarda queimou logo após ser ferido por quatro tiros disparados por um tenente de Infantaria e seu antigo doente mental, na manhã do dia 3 de Outubro 1910. O revolucionário que estaria encarregue da coordenação das acções civis faleceu naquele mesmo dia, mas a República venceu, faz amanhã 99 anos.
O ano centenário da República em Portugal deverá divulgar muitos aspectos inéditos da sua história mal conhecida. O livro, editado em parceria pela Fundação Mário Soares e o Grémio Lusitano, constitui um primeiro passo a par da exposição ‘Quem fez a República’, que será inaugurada na sede da Fundação Mário Soares, em São Bento, Lisboa, e se destina a fazer itinerância pelo País a partir de Janeiro de 2010.
Os documentos inéditos do livro prefaciado conjuntamente por Mário Soares e António Reis, Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, foram reunidos e anotados por Simões Raposo Júnior, que os manteve durante muitos anos resguardados fora de Lisboa. Foi ele quem fez o esboço da reunião realizada na sede do Directório do Partido Republicano Português.
Pela localização feita no documento (2º andar do prédio de esquina da rua Serpa Pinto com o largo de S. Carlos, “duas últimas sacadas”), identifica-se o prédio onde no 4º andar nascera a 13 de Junho de 1888 o poeta Fernando Pessoa e, actualmente, é inteiramente ocupado pela sociedade ABBC Advogados, de Azevedo Neves, Benjamim Mendes, Bessa Monteiro, Carvalho & Associados.
De antes da reunião para planear a revolução data o concertar dos grupos revolucionários. Machado dos Santos e António Maria da Silva, ambos presentes na reunião, eram elementos da Carbonária e também membros da comissão de resistência da maçonaria. Significativas são ainda as cartas de apoio à República que aparecem no livro como respostas das lojas maçónicas a uma circular secreta enviada a toda a estrutura em Junho de 1910.
Quem é quem na reunião do DirectórioNo documento inédito estão os nomes dos presentes e também dos responsáveis pelas estruturas revolucionárias. A lista inclui Simões Raposo, da Comissão de Resistência da Maçonaria; Machado Santos, da Comissão de Resistência, representava o grão-mestre adjunto da Maçonaria, José de Castro, no estrangeiro; José Cordeiro Júnior, da Comissão de Resistência; António Maria da Silva, da Venda-Jovem Portugal , integrou a Comissão de Resistência como representante das organizações civis revolucionárias; José Barbosa, do Directório do PRP; Inocêncio Camacho, secretário substituto, na efectividade, do Directório do PRP, eleito em 2009; almirante Cândido dos Reis, da Direcção Revolucionária; Manuel Martins Cardoso, da Loja Acácia e Comissão de Resistência; dr. Eusébio Leão, secretário do Directório do PRP; José Relvas, membro efectivo do Directório do PRP e representante do grão-mestre Magalhães Lima; dr. Miguel Bombarda, da Comissão de Resistência e da Direcção Revolucionária, representava António José de Almeida, ausente por doença.
Documentos destruidos antes da morteO 5 de Outubro sofreu com a morte do psiquiatra Miguel Bombarda, que devia coordenar a acção dos civis. No dia 3, foi varado por quatro balas de pistola disparadas pelo tenente de Infantaria e doente mental Aparício Rebelo.
Antes de ser levado para o Hospital de São José queimou alguns papéis que tinha da reunião com Simões Raposo.
Número de Maçons subiu muito entre 1906 E 1910António Lopes, Museu Maçónico afirma que "O número de maçons aumentou continuamente entre 1906 e 1910, fruto da estratégia de multiplicação de Lojas, incentivada pelo Grande Oriente Lusitano Unido. Se em 1906 existem 85 Lojas registadas, em 1910 o seu número ascende a 153, às quais se juntam 82 Triângulos".

Livro recomendado a ler, consultar e guardar, pela importância dos documentos publicados e na contribuição para fazer e interpretar a história da implantação da República.

Autor: Grémio Estrela D'Alva

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sabedoria e humildade

Para os maçons há alguns valores absolutamente fundamentais e que são de todos bem conhecidos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No entanto, relacionados em maior ou menor grau com estes, há outros valores que se revestem também de grande importância. Refiro-me a ideais tão belos como a Paz, a Justiça e a Tolerância.
Para os que abraçam os ideais maçónicos, estes conceitos correspondem a valores que o são por si mesmos, ou seja, que não resultam de qualquer dogma, princípio religioso ou corrente filosófica. É de facto notável, mas a Maçonaria permite adquirir valores espirituais sem requerer uma adesão a qualquer crença.
A Maçonaria, uma vez que aceita no seu seio pessoas das mais diversas crenças, incluindo as «não crenças», não poderá ser considerada uma religião, pelo que para ela os grandes ideais da humanidade são valores por direito próprio e a sua realização algo absolutamente necessário à felicidade das pessoas. Os maçons não defendem esses valores para colher quaisquer benefícios terrenos ou celestiais, mas porque os consideram como inerentes à condição humana. Não tenho dúvidas de que quando alguém toma consciência de que todas as pessoas têm os mesmos direitos, independentemente da raça, do sexo, da crença ou dos bens materiais de cada um, a prática dessas virtudes torna-se algo tão natural como respirar.
A ideia mestra em que assenta a Maçonaria é de facto extraordinária. Na sua raiz está a união das pessoas livres e de bons costumes. No seu método de trabalho há diversos rituais e um grande número de simbolismos e alegorias. O resultado final é a indicação da direcção dos grandes valores da humanidade e a sua busca permanente e incessante.

O facto de a Maçonaria ser uma organização iniciática onde se faz uma aprendizagem lenta e gradual baseada no estudo, na meditação e no convívio entre os Irmãos e possuir uma estrutura hierarquizada, mas que globalmente não tem um “chefe supremo” ou um “mentor” pois há um grande número de Obediências independentes, permite-lhe proporcionar aos seus membros uma preparação mais sólida e um aperfeiçoamento contínuo.
De facto, a primeira tarefa do maçon é a construção do seu próprio «eu» enquanto obreiro de uma causa que não conhece fronteiras. Essa tarefa significa que o maçon deve preocupar-se não só em estudar para aumentar os seus conhecimentos e meditar para os interiorizar, como também tomar consciência dos males do meio em que está inserido e procurar combatê-los com as ferramentas que a sua aprendizagem lhe vai proporcionando. Por outras palavras, o maçon deve procurar desempenhar com a maior das correcções o papel que a sua vida em sociedade lhe impõe. Ao fazê-lo já estará a melhorar o mundo.
Mas em momento algum deverá considerar-se perfeito e menos ainda um sábio seja lá do que for, pois nunca ninguém sabe tudo e a sabedoria é um pilar fundamental desse nosso aperfeiçoamento. Por pouco que seja, será sempre possível melhorá-lo.
Mais, o maçon também nunca deverá sentir-se orgulhoso dos seus progressos ou dos seus conhecimentos, pois se tal lhe acontecer demonstra uma enorme fragilidade do seu espírito maçónico e que dá valor ao que é secundário. A vaidade e o orgulho cegam-nos e impedem-nos de corrigir as nossas falhas. A ausência de modéstia é sinal de que algo está mal na preparação de um maçon e a arrogância está nos antípodas do espírito maçónico.
Só depois de minimamente consolidada essa construção “interior” o maçon estará apto a unir de forma útil os seus esforços aos dos outros Irmãos na interminável luta pelo bem comum, ou seja, pelos grandes ideais da Humanidade.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Silêncio

Silêncio ...
Silêncio que vem
Do trono de Salomão,
Silêncio de Rei ...

Silêncio ...
Silêncio da palavra perdida,
Rio sem margens,
Choro do Além ...

Silêncio ...
Silêncio dos impossíveis
Que nos corre dos dedos,
Que nos corre dos medos.

Silêncio ...
Silêncio do amor e da morte
Renascido das cinzas.

Silêncio ...
Silêncio Paixão
Rosa de flor,
Cruz de Redentor ...

Silêncio ...
Silêncio de poeta,
Hermético, alquímico,
Silêncio ao rubro.

Silêncio ...
Silêncio de Cadeia de União,
Silêncio Irmão,
De S. João de Inverno
De S. João de Verão.

Autor: Jónatas

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Quem Somos?

Os meus voos pela Maçonaria continuam, agora sustentados pelo aprendizado e reforçados pela solidariedade que nos une. Foi-me confiado um novo voo, o voo pelo sentimento de solidariedade, o voo que só agora tive capacidade para fazer, uma vez que consegui libertar-me de determinados vínculos que o poderiam por risco. Neste voo, na procura de respostas para “Quem somos?” sou orientado pela igualdade e para tal foi me ensinado o uso da alavanca e da régua, só assim e agregado ao uso do malho, do cinzel e do esquadro será possível continuar o meu percurso pelo sentimento da fraternidade. Tornei-me num obreiro da inteligência construtora, resultado de um aprendizado fiel e perseverante e assim parti para este voo, com o espírito de eterno aprendiz e mantendo sempre presente os deveres e responsabilidades que não deixo de cumprir e que se somaram à minha nova condição, sendo fruto do meu crescimento. Sinto-me capaz de começar agora, cresci, e começo a relacionar os elementos do conhecimento como, a Geometria, a Geração, a Gravidade, o Génio, a Gnose bem como a Luz do centro da loja em que fui aceite.
No meu percurso pelo estudo da Maçonaria Moderna, descobri as nossas origens ”de onde viemos” que me prepararam para saber “Quem somos?”, o meu voo é iluminado por uma luz suave, uma luz que não tem irradiações resplandecentes e nem um poder iluminativo igual ao do sol, e por um compromisso fiel à Vida. Assim, e suportado pelos raios dessa luz, cultivo o meu próprio génio sem nunca me esquecer, que o uso que lhe der poderá conduzir-me à liberação do Espírito ou a Escravidão da Matéria. “Quem somos?”, está sempre presente na minha trajectória e sob o tríplice aspecto de “produto da evolução da natureza”, de “ser individual dotado de auto-consciência e razão” e de “expressão ou manifestação directa da Vida única, para a qual tende constantemente com seu progresso” o que me vai permitir voar com todas as preocupações e estudos necessários ao meu crescimento.

Esta viagem enigmática tem que ser feita pelo meu Eu interior e leva-me ao estudo das propriedades dos números, e agora na minha rota tenho novos número, novos símbolos, novos caminhos para descobrir. Entro assim no reino da experiência do sensível através dos vários elementos que se cruzam no microcosmos, macrocosmos e na essência, e voo orientado pelo o fogo, pelo ar, pela terra e pela água. O Fogo ilumina o Oriente; o Ar o Ocidente; a Terra o Sul e a Água o Norte, tornam-se na minha ferramenta de orientação e delimita e constitui toda a natureza e essência do meu voo. Aprendi neste voo, que esta ferramenta relacionam-se não só com a matéria mas também com a essência, o Fogo com a vontade e com a imaginação, o Ar com o pensamento, como juízo e com a reflexão, a Água com o sentimento, com a emoção e com a sensação e a Terra, por fim, com a percepção, com o sentido prático e com a acção. Sou assim orientado neste meu voo e apoiado nas decisões que devo tomar e nas rotas que devo seguir. Nesta trajectória e com todo o apoio que me é facultado, sou orientado assim, para um elemento, um elemento superior aos anteriores e com ele é me permitido voar para um novo estágio, ou seja, do domínio da matéria ao da Vida e da Inteligência.

Aprendi que pela obra deste elemento, segundo o Gênesis, apareceram os animais sobre a terra, a razão da existência e que tudo o que me apoia neste voo advém dele. Ao deparar com ele descobri, que este é o ponto de intercessão dos dois Princípios ou elementos primordiais, que levam na simbologia hermética o nome do Sol e da Lua e torna-se no ponto de origem dos elementos ordinários que se tornaram nas ferramentas que me ajudam nesta viagem e me fazem crescer. Voei e cresci, agora sei a razão, o porquê, as ferramentas que me foram dadas acrescidas à energia do Homem e aos sentidos dão sentido ao meu voo e orientam-me as rotas que devo seguir.

O voo que me esforço por conseguir dota-me de alguma audácia e por isso sou tentado a responder à pergunta que me fez inciar este voo (Quem somos?). Essa pergunta leva-me a olhar para trás e faz-me sentir mais que nunca como um eterno aprendiz, pois “somos homens livres e de bons costumes …” somos Maçons.
Como resultado disso gostaria de partilhar com todos, e no fundo também como forma de agradecimento por tudo o que senti, que sinto e vivo no nosso templo maçónico, além do privilégio de ter a possibilidade de poder crescer como ser humano. Desta forma, cito um pequeno texto que expressa o que me vai na alma e que faz parte de todos nós: “Templo Maçônico é a atmosfera de amor, de verdade e de justiça formada pela união de corações ávidos das mesmas esperanças sequiosos de idênticas aspirações porque sem esse isocronismo de acção, sem essa elevação, poderá haver quando muito, grupos de homens, nunca porém Maçonaria”.

Autor: Ícaro

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Thomas Arne - Nome Simbólico

Thomas Arne nasceu no seio de uma família de estofadores, em Londres, em Março de l710 e morreu na mesma cidade em 5 de Março de 1778. Thomas Augustine Arne teve uma educação católica e, para agradar à sua mãe, uma devota senhora, escolheu, ainda em criança, o seu segundo nome: Augustine. Católico, apaixonado desde muito cedo pelas Musas de Orfeu, venceu o desejo do seu Pai, que queria ele seguisse advocacia, motivo por que o Pai o pôs a estudar em Eton. No início da sua carreira debateu-se com algumas dificuldades por não poder exercer cargos musicais na Igreja Anglicana, cargos que abriam sempre, como também na Igreja Católica, noutros países, evidentemente, muitas portas. Mas, neste caso, estamos perante a tolerância dos inventores do liberalismo… Homem dedicado, rebelde, perseverante e até precipitado por vezes, venceu. Triunfou, e triunfou merecidamente! Rodeou-se de figuras da música e usou, se assim se pode dizer, a sua família. Ensinou canto à sua irmã Susannah, que veio a ser um célebre contralto e ao seu jovem irmão Richard, os quais cantaram em muitas das suas obras.
Em 1734 Susannah casou-se com o dramaturgo Theophilus Cibber, razão por que, enquanto cantora, ficou conhecida pelo nome de Mrs Cibber. Em 1737, Arne casou-se com Cecilia Young, uma cantora famosa, um soprano, que cantara muitas vezes nos elencos händelianos. Durante os dez anos que se seguiram ao casamento, Cecilia cantou nas óperas do seu marido. Como se pode ver, o nosso homem rodeou-se de talentos musicais e teatrais.

Um nota curiosa deste ambiente artístico do século XVIII. Susannah, a irmã de Thomas Arne, separou-se do marido, fugindo com outro homem, alegando que o marido a tratava mal, e o nosso homem também se separou, legalmente, da sua mulher Cecilia, alegando que ela endoidecera. Esta, por seu turno, alegou que ele tinha constantes relações extra-matrimoniais. Arne pagou-lhe uma razoável pensão…, às vezes! Ela teve de recorrer. Depois da separação, Thomas começou uma relação com uma jovem aluna de canto, Charlotte Brent, também um soprano. Parecem tempos modernos. O século XVIII foi um século, realmente, iluminado, o século do Aufklärung, “à frente”, como diriam hoje os jovens, isto sem estar a promover a separação. Aliás, no último ano da vida de Arne, ele e a mulher reconciliaram-se, mas O Tempo, essa figura mitológica, muito ao gosto do classicismo, não deixou que ficassem juntos mais anos. Foi apenas uma nota para dar o tom da época.

Em 1738, Arne, já no auge da carreira, foi um dos membros fundadores da Society of Musicians, mais tarde chamada Royal Society, juntamente com Händel, com William Boyce, e com Johann Christoph Pepusch.
Entre muitas outras, a ópera Alfred, de 1753, anteriormente, uma máscara estreada em 1740 para o Príncipe de Gales, Frederick e, posteriormente, em 1745, tocada em versão de oratória, foca a figura do Rei Alfred, rei do século IX, que combateu os invasores Dinamarqueses…, os Vikings. Patriotismo? Referência à Maçonaria “renascida”, “rejuvenescida” nas Ilhas Britânicas? A música, a literatura e o teatro serviram sempre de veículo de cifras que, de outro modo, não poderiam ser difundidas. Dois séculos antes, o próprio Shakespeare…

Escutemos o final da ópera Alfred, de Thomas Arne. Temos um coro, pelo conjunto dos cantores, intercalado com solos.
Pois é, é o Rule, Britannia, na sua versão original, composto sobre o texto do poeta e dramaturgo escocês James Thomson. De uma graciosidade virtusosa que só os ingleses conseguem na música, não? Embora Thomas Arne tenha adoptado algumas regras da ópera séria italiana, foi, juntamente com William Boyce, um dos expoentes máximos da música britânica deste século XVIII. E Arne fez história, nem que fosse apenas pelo Rule Britannia…
Não se confunda este belo coro e solos com o Hino Nacional Britânico, o God Save the Queen, ou… the King, consoante as circunstâncias…
Os segmentos instrumentais revelam-nos uma graciosidade, um raffinement, que não é aquele a que estamos habituados quando escutamos o Rule, Britannia! A versão difundida, por exemplo nos Concertos Prom, no Royal Albert Hall, é uma versão patrioteira, mas não patriota, do nacionalista século XIX e, por isso, berrada e medonha… Arne compô-la como ouvimos, com ligeireza e graça. Em primeiro lugar, é o gosto do elegante século XVIII, já a caminho do rococó, em segundo lugar, Thomas Arne queria exaltar o povo britânico, mas como…? Arne foi uma Maçon e esta ópera, na sua primeira versão de 1740, a de uma Máscara intitulada Alhtred, foi, como acima referido, encomendada por Frederico, Príncipe de Gales, ele também um Maçon. Que possíveis conclusões podemos, então, tirar do Rule, Britannia, Britannia Rule the waves, Britons never, ever, ever shall be slaves. Na versão que escutámos, em vez de shall, como escrito no poema, ouvimos will. Quem serão estes livres homens que nunca se deixarão escravizar? Os britânicos, com certeza, mas numa referência aos Maçons em geral? Muito possivelmente. Daí também a necessidade da harmonia…
Artaxerxes, “An English Opera”, como foi anunciada na estreia de 1762, foi talvez a ópera que ficou na História, como sendo a sua melhor obra, mas convém lembrar que muitas delas perderam-se ou chegaram até nós incompletas. A dada altura, Artaxerxes, príncipe e, mais tarde, Rei da Pérsia, canta uma ária que começa com o seguinte verso: “Mesmo que uma nuvem convidativa esconda o Sol, ele está lá presente, com as suas chamas!”

Arne ficou conhecido também pelo nome de Doctor Arne porque, em 1759, a Universidade de Oxford concedeu-lhe o título de Doctor of Music, daí muitos panfletos terem anunciado concertos seus do seguinte modo: “Dr. Arne at Vauxhall Gardens,” um dos jardins onde se tocavam concertos no Verão e para o qual Thomas Arne foi o compositor oficial desde 1745, com algumas interrupções. As classes médias consolidavam os seus haveres e instalavam-se confortavelmente. Passeavam pelos jardins (parece que os Verões nessa altura eram melhores em Londres…) e iam aos concertos pelo fresco da tarde. Parece agradável!
Thomas Arne, enquanto homem livre e consciente, foi um dos primeiros homens a bater-se pelos Direitos de Autor. Em 1741, data do nascimento do seu filho Michael, o único que viria a ter, Thomas Arne ao pôr um processo em tribunal anunciou, e citamos: “Dado que Mr Arne tem, de Sua Majestade, registada a Real Patente para imprimir e publicar as suas obras, humildemente agradece que nenhuma Senhora ou nenhum Cavalheiro encorajem cópias piratas” sic e continua, mais adiante: “E como o Mr Arne está longe de querer ofender, nos seus legítimos direitos, seja que dono de loja for, torna público que quem plagiar ou imprimir as suas obras, será processado segundo a Lei”. Homem de fibra!

Para finalizar, devo explicar as razões pelas quais escolhi este nome simbólico, o gosto pela música de Thomas Arne, foi, sem dúvida, uma delas; o facto de ele ter sido um freemason, com certeza, mas, talvez, e sobretudo, o facto de se ter batido firmemente pela defesa dos Direitos de Autor porque se existe uma Catedral em que todos nós, em conjunto, anonimamente, trabalhamos, há uma outra, que é o nosso próprio templo e esse tem nome, devemos protegê-lo.

Autor: Thomas Arne

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O Olho e a Visão

O Sol lança no espaço muitos milhões de fotões por segundo, uma parte dos quais atinge a Terra, atravessa a atmosfera e ilumina a sua superfície. Seria de grande utilidade para os seres vivos que habitavam a Terra primitiva desenvolver detectores dessa Luz que lhes permitissem localizar predadores e presas à distância, ou evitar obstáculos e moverem-se mais depressa. Foi o que o ramo animal dos seres vivos fez: a certa altura, no lento processo da evolução, os olhos foram “inventados”. Conhecemos cerca de nove tipos de soluções diferentes para a visão e podemos agrupá-los, pela sua arquitectura óptica, em olhos tipo câmara, como os nossos, ou olhos compostos, como nos insectos.
Nos olhos tipo câmara, a luz passa por um orifício de pequenas dimensões e as imagens formam-se na parede oposta, sem grande definição. Este sistema, designado por "pinhole" e é usado nas câmaras fotográficas. Ver com mais pormenor e de modo mais rápido implica o alargamento do orifício por onde a luz entra, mas também o desenvolvimento de lentes que fazem convergir os raios de luz e permitem a formação de imagens nítidas nos olhos tipo câmara. Uma solução completamente diferente para a visão encontrada pelos seres vivos é a dos olhos compostos, como nos insectos, crustáceos e alguns moluscos. Os trilobites, compreendendo um vasto grupo de animais há muito extinto, também possuíam olhos compostos, bem como o Anomalocaris, um gigante predador dos mares do Câmbrico (há 540 milhões de anos).
Os olhos compostos, são formados por centenas de pequenas unidades fotoreceptoras, os omatídeos, que captam individualmente uma pequena parte da imagem que está à sua frente. O grau de nitidez da imagem obtida depende do número de omatídeos presentes. Com menos de 100, mal conseguem distinguir as formas dos objectos. Mas, uma libelinha pode ter 30 mil omatídeos, o que faz dela uma espécie de águia dos insectos.
O olho humano, tipo câmara, possui um pequeno orifício, a pupila que aumenta ou diminui de diâmetro deixando passar mais ou menos luz. Os raios de luz atravessam o cristalino (a lente do olho) de modo a fazer convergir os raios de luz no fundo do olho e formar uma imagem nítida, embora invertida. O fundo do olho é revestido pela retina onde existem 15 a 20 milhões de células fotoreceptoras.
Os cones e os bastonetes, estas células absorvem fotões de luz (informação electromagnética) que convertem em informação química e impulsos eléctricos. Nestas células da retina existe uma proteína, a rodopsina, que possui no seu centro uma molécula, o 11-cis-retinal. Esta molécula muda de estrutura tridimensional quando é excitada por um único fotão e neste estado excitado passa a designar-se por All-trans-retinal. Em qualquer dos estados, esta molécula está ligada à proteína rodopsina. A absorção de só um fotão pelo 11-cis-retinal provoca uma alteração na estrutura tridimensional da rodopsina, que é suficiente para desencadear uma cascata de reacções bioquímicas que levam à variação de 1 mV no estado eléctrico da membrana celular.
Na essência, um fotão é convertido em movimento atómico, o que altera transitoriamente a polaridade eléctrica de uma membrana celular. Esta informação é transmitida ao cérebro através de impulsos eléctricos que lhe permitem ‘perceber’ a captação de luz proveniente do exterior do corpo. Todos os impulsos eléctricos gerados na retina, são reunidos no disco óptico onde está implantando o nervo óptico responsável por levar essa informação até ao cérebro.

Mas a visão não se resume à captação da luz pelo Olho. O olho é um órgão adaptado a essa função, permitindo a formação de imagens da paisagem exterior na retina. Esta reage à luz e desencadeia uma cascata de eventos moleculares que transmitem a informação sensorial até ao cérebro. Neste, uma série de processos como a memória e o reconhecimento, integram a informação e dão-nos uma imagem completa do exterior. Afinal, precisamos do cérebro para ver. O cérebro tem um grande papel na integração e compreensão da sensação visual que nos chega do exterior. Ao receber os impulsos eléctricos da retina através do nervo óptico, o cérebro procede à integração dessa informação. A reconstrução da imagem visual do mundo exterior é um processo complexo no qual o reconhecimento de formas e a memória têm um papel decisivo. Aliás, enquanto sonhamos, somos capazes de produzir imagens que os nossos olhos nunca viram, fruto da capacidade do cérebro em as construir.
É que o mundo que nos rodeia existe mesmo quando não o conseguimos ver por falta de luz. Sabemos que na penumbra os nossos olhos têm muita dificuldade em distinguir objectos. Por outro lado, uma deficiência visual pode impedir a visão dos objectos, mesmo na presença de luz. Por isso o cérebro reconstrói as imagens que lhe chegam. Por exemplo, existe uma zona na retina, o “ponto cego”, que não possui células fotoreceptoras.
A parte da imagem que aí é projectada pelo cristalino não é transferida ao cérebro, mas, este consegue reconstruir essa informação em falta de forma a podermos ver o mundo que nos rodeia sem “interrupções". Os nossos olhos não permitem a captação da radiação ultra-violeta (U-V). No entanto, as flores evoluíram por haver animais com olhos, especialmente insectos, que permitem a polinização entre plantas diferentes, ao transportarem os grãos de pólen de umas flores para outras.

A coevolução entre os insectos e as plantas com flores é uma história fantástica, se não houvesse insectos talvez não existissem flores, pelo menos como as conhecemos! Aquilo que aos nossos olhos se apresenta como uma pétala amarela pode possuir um padrão colorido muito mais rico e estruturado para um insecto que “vê” radiação U-V. Esta capacidade faz com que os insectos vejam “jardins ultravioletas”, como Richard Dawkins os chamou. Também as aves vêem no U-V e isto permite-lhes reconhecer outros padrões e distinguir entre dois indivíduos que aparentam cores semelhantes aos olhos Humanos, assim, nem todos os corvos são pretos para os outros corvos!

Autor: Charles Darwin

terça-feira, 21 de julho de 2009

Violenta colisão com Júpiter

É a segunda vez que é detectada uma colisão num planeta de grandes dimensões.
Júpiter foi atingido este fim-de-semana por um grande corpo celeste – um cometa ou astróide ainda por identificar. A fenda aberta à superfície tem milhares de quilómetros, mas não deixa de ser uma pequena mancha face ao tamanho do gigante vermelho, que é 2,5 vezes maior que todos os outros planetas do sistema solar juntos. Segundo o astrónomo Leigh Fletcher, do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, em Pasadena, Califórnia, a fenda aberta deverá ter as dimensões da Terra. Sobre o tamanho do objecto que atingiu Júpiter ainda não há qualquer informação, disse Carolina Carnalla Martinez, também do laboratório. De acordo com os cientistas, o mais provável é ter-se tratado de um cometa. A observação volta a chamar a atenção para a importância dos astrónomos amadores. Anthony Wesley, um amador australiano, estava a fazer observações rotineiras de Júpiter no domingo à noite quando percebeu uma mancha com vários milhares de quilómetros na região do pólo sul do planeta. Como podia tratar-se de uma tempestade, manteve o telescópio apontado àquela direcção durante mais 15 minutos – o suficiente para suspeitar de um impacto. Sem saber, fez com um telescópio de 37 centímetros (os profissionais têm no mínimo 10 metros) aquilo que poderia ter passado ao lado da NASA. De Murrumbateman, na Austrália, contactou o Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, em Pasadena, Califórnia. "Nunca esperei ver nada assim", comentou o astrónomo Leigh Fletcher. Depois de receberem o alerta, e como tinham uma observação marcada no telescópio de infravermelhos do Havai, que é controlado a partir de Pasadena, os cientistas da NASA puderam confirmar a colisão. Segundo o astrónomo Glenn Orton, o impacto pode ser considerado de média dimensão e é semelhante ao observado em 1994 também em Júpiter. Na altura, foi publicado na revista científica “Science”, 21 fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 abriram uma fenda gigante à superfície.
Os cientistas acreditam que as grandes extinções na Terra, de que é mais conhecido o fim da era dos dinossauros, possam ter sido desencadeadas pelo embate de cometas. O maior terá acontecido há 251 milhões de anos e levou ao desaparecimento de 90 por cento das espécies marinhas e 70 dos vertebrados terrestres.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 16 de junho de 2009

Ser Maçon no Século XXI

Desde que entrei na Ordem Maçónica, questiono-me permanentemente sobre o que é ser Maçon, como posso ser um bom Maçon, e no fundo, como posso, sendo Maçon, fazer mais pelo bem-estar da comunidade, pelo desenvolvimento e pelo progresso colectivo?
Liberdade, Igualdade, Fraternidade, Paz e Humanismo, entre outros conceitos igualmente louváveis, para além de sons agradáveis ao ouvido, são valores insofismáveis e inquestionáveis para um Maçon; serão, porventura, dogmas irrecusáveis. Mas como praticá-los no nosso dia-a-dia, nas empresas, na família, junto dos amigos e nas instituições onde desenvolvemos uma qualquer actividade? Dizem-me que tenho que percorrer o caminho, assim como percorri o caminho que a antecedeu, livre e de bons costumes. Tenho que participar na edificação e construção de Catedrais.

Num mundo, que desaba a cada dia que passa, mergulhado na total ausência de ética, de responsabilidade empresarial, cheio de individualismo, veneração do accionista, no desprezo pelos trabalhadores, no lucro fácil, nas crueldades ambientais, num consumismo desproporcional, e até no terror e outras formas de matar, enfim, numa total crise de valores humanos, questionarmo-nos sobre os “porquês” e os “para quês” parece razoavelmente pertinente.
Este mundo que nós conhecemos, ou julgamos conhecer, tem pouco a ver com a nossa qualidade de Maçon. Como é possível, passarmos por um mendigo e não o acolher? Como é possível criticar pessoas que vivem com a ajuda do Estado porque tiveram o azar de terem ficado sem emprego? Ou mesmo desdenhá-los por não terem as condições mínimas para garantir uma vida digna e decente? Como é possível, milhões de euros de lucros e milhares de pessoas no desemprego? Que sociedade é esta? Que mundo é este?
O mundo que conhecemos, é um mundo em que a injustiça, os preconceitos e os erros são tão actuais como a internet. Por cada banquete numa qualquer cidade da União Europeia, há milhões de africanos que anseiam que lhes caia do céu um saco de cereais despejado por um avião da Cruz Vermelha, ou de outra qualquer organização de solidariedade. A cada humano solidário continuam a corresponder milhões de umbigos solitários. A realidade deste início de século não é assim muito diferente das atrocidades com que a Humanidade se tem batido ao longo da sua evolução.

De construtor de catedrais a construtor de sonhos e fantasias, vai um passo de gigante. O convívio entre a sumptuosidade mítica das catedrais e a miséria, a fome e a intolerância, acompanha ainda a contemporaneidade. Qual é então a a Catedral que o Maçon deve procurar construir? Encomendas como na Idade Média já não existem e a catedral do colectivo, o templo ou loja, essa está já construída e a ser aperfeiçoada com o contributo de todos os maçons através da sua participação. Na Antiguidade, os Romanos legislaram no sentido das profissões serem hereditárias, impedindo-se, desse modo, a extinção de algumas delas. Na Idade Média as profissões organizaram-se em corporações ou ofícios, nos quais poucos tinham o ensejo de ingressar, tal a necessidade de cada corporação guardar ciosamente os seus segredos, os seus conhecimentos, tal aconteceu com os pedreiros livres, os Maçons, ou Arquitectos, responsáveis pelas construções de Catedrais.
Os seus ensinamentos só eram transmitidos a aprendizes, sendo estes homens de características especiais, a quem tinham sido reconhecidas capacidades de integrar uma comunidade tão ecléctica. Essa comunidade era a Maçonaria operativa. Os Maçons eram então autênticos edificadores, construtores ou arquitectos dos mais belos monumentos que ainda hoje se podem admirar. Construções sólidas, duradouras, quase intemporais, encerrando em si um saber acumulado, só desvendado ou acessível a muito poucos.
Tal facto transfere grandes responsabilidades para todos nós. A Maçonaria, hoje, já não é operativa, mas sim filosófica. Hoje guardamos a memória de homens que influenciaram positivamente a Humanidade e que lutaram permanentemente contra quem escravizou, quem fez guerra e contra as desigualdades. Tem que ser possível, sendo nós homens de pensamento livre, liderar movimentos sociais, provocar mudanças, ser o guardião da esquadro e do compasso nas nossas atitudes e nos nossos feitos. Outros mais actuantes que nós arrastam a sociedade. Não serão necessariamente mais consequentes, nem tão pouco mais honestos nos seus objectivos. Em relação a alguns podemos mesmo afirmar, antes pelo contrário.

Porque não começarmos então por ser melhores cidadãos? Lembram-se da primeira vez que vos falaram de cidadania e civismo? Eu não, confesso. Mas lembro-me do sentimento de angústia que sempre tive, desde que me tomaram como pessoa adulta e responsável, cada vez que me questionava como ser um melhor cidadão. Pois bem, apesar de diferente, o aperto no estômago é semelhante, quando penso se estarei a ser um bom Maçon. Ser cidadão é participar da vida em comunidade. Cada vez que agirmos a pensar não só em nós próprios, mas também no bem-estar de outros, estaremos a exercer a Cidadania. Porque a cidadania não é só direitos e deveres, mas também a consciência de que nos devemos esforçar para construir um mundo melhor, mesmo com pequenas acções. A ética, a moral, costumes, a deontologia profissional e porque não dizê-lo, o Direito, devem nortear a nossa conduta.
Estaremos a fazer Maçonaria se formos bons cidadãos? Seguramente que sim.
Mas só isso não será suficiente. A actual crise, mais do que uma crise financeira, é uma crise de valores. Isto significa que os homens e mulheres que provocaram a situação em que vivemos abstiveram-se, ao longo de anos, de honrar um código básico de valores e de colocar a palavra “ética” nos contratos chorudos que assinaram. E se muitos pensavam que escândalos como aqueles que abalaram a Enron e a WorldCom, no início do século, jamais se iriam repetir, eis que voltamos à era em que a vergonha e a responsabilidade, não constam do vocabulário financeiro.
Lembro-me das histórias de cowboys. No velho Oeste, quando alguém era apanhado a fazer uma vigarice, o castigo mais comum era cobrir os fora-da-lei com alcatrão e penas. Não estamos no velho Oeste, nem os especuladores financeiros são bandidos que fogem a cavalo, mas a verdade é que os senhores da “economia sem consequências”não se limitaram a brincar com dinheiro que não era deles, a fazer experiências com produtos inovadores, a provocar o caos global no clima financeiro e a destruir a vida de milhares de trabalhadores inocentes por todo o mundo.
Maior intervenção por parte dos governos, mais regulação para as instituições financeiras. Esta parece ser a fórmula que mais adeptos tem vindo a ganhar, nos últimos episódios da crise financeira global. Mas será que chega? Se o caminho a seguir parece ser, sem dúvida, o acima referido há quem teime em lembrar que ao longo dos últimos 150 anos, este capitalismo, agora endemoniado, provou o seu valor para milhares de milhões de pessoas.
Agora, depois da hecatombe, os governos estão a nacionalizar bancos – ou partes deles – porque acreditam que o capital público é imprescindível para que o dinheiro continue a circular. Mas não é mais governo que é necessário mas sim melhor governação. Governação até de nós próprios e dos nossos actos.

Crise, crise e mais crise. É deprimente. E como bons portugueses que somos, nada como conhecer um ou outro drama pessoal para apimentar um bom diálogo de café. A nostalgia, o cinzentismo, a culpabilização dos outros e a inveja, estão inscritos no código genético lusitano e nem a nossa aventura por terras do continente asiático consegui mudar o nosso traço. Como alguns de vós sabeis, a palavra crise no ideograma chinês é Wei-Ji. O curioso, é que esta palavra tem dois significados: O primeiro é perigo, e o segundo, oportunidade para mudar.
Quantos de nós estão a aproveitar verdadeiramente este mau momento para mudar? Mudar comportamentos, mudar atitudes, mudar de práticas, transformar e estar aberto às coisas novas? Como lia algures no outro dia, muita gente só muda quando está no fundo. É um comportamento humano clássico. De forma inata, todos resistimos à mudança. Mudar assusta porque o que vem é algo desconhecido, logo ameaçador. Temos que trazer luz ao desconhecido, para encontrar a segurança que tanto necessitamos. Temos que agir, primeiro sobre nós próprios e depois então sobre os outros.

A Maçonaria e os Maçons, no século XXI, podem contribuir para um mundo melhor, mais humanista, mais solidário, mais fraterno e mais equilibrado. Somos livres para decidir. Temos naturalmente que buscar a perfeição, não só nos nossos rituais mas também nos negócios em que participamos e nas relações humanas que desenvolvemos, enfim, em todos os comportamentos e atitudes que nos norteiam enquanto seres humanos. Nós, Maçons, acreditamos na igualdade e na solidariedade. Mas será que isso faz de nós guerreiros em busca da luz? A luz que construirá uma sociedade mais fraterna, contra a arrogância do poder, que sente misericórdia pelos mais fracos?
Penso que a vontade de exercer um qualquer protagonismo consentâneo com os valores intrínsecos da Maçonaria, é uma vontade legítima. A operatividade da Maçonaria é notória em todas transformações e convulsões do mundo ocidental nos últimos séculos. A História da modernidade atesta-o.
A questão de fundo é esta: será mais urgente e consequente a acção no mundo exterior, ou a acção determinada e constante sobre cada um de nós, pedra obviamente constitutiva do edifício universal? Por outras palavras, admitindo que a cada Maçom assiste uma participação no mundo profano, será mais profícuo o trabalho sobre a pedra bruta ou essa urgência, por vezes histérica, de agir por agir e mostrar serviço na sociedade civil?

Estas são algumas angústias de um mero maçon que me atrevo, com toda a humildade, a partilhar convosco. Poderei mesmo ter a tentação fácil de concluir que a Catedral que o aprendiz terá de construir é a sua própria Catedral interior. Juntos, posso desejar que o somatório das nossas Catedrais seja maior que a soma das partes individuais. Mas posso, mesmo assim, do posto de vista operativo, afirmar com convicção que a Maçonaria contribuiu para a construção de um mundo melhor e diferente. Sim, sem dúvida contribui, e sem a Maçonaria as coisas seriam bem piores! Podemos fazê-lo com descrição? Com certeza.
Com pequenos gestos, nas nossas decisões do dia-a-dia, combatendo a indiferença perante as desigualdades, participando activamente nos movimentos sociais que visem objectivos nobres, denunciando o que está incorrecto, doando o que não nos faz falta, ajudando quem mais necessita, sendo justos nas afirmações, no fundo, liderando a sociedade pelo exemplo.
Poderemos até não resolver todos os problemas mas, seguramente, faremos parte de algumas soluções.
Elevando o desafio e a dimensão da questão, podemos e devemos, como homens livres, fazer mais para que a Humanidade deixe de ignorar a Declaração Universal dos Direitos Humanos, para que as empresas respeitem a Declaração da OIT relativa aos princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, para que as famílias cumpram a Convenção Sobre os Direitos das
Crianças e para que todos os cidadãos sejam sensíveis a Declaração do Rio sobre Ambiente e Desenvolvimento. Só assim será possível. Nós, temos responsabilidades por grandes acontecimentos na História da Humanidade nos séculos passados. E neste século? O que estamos dispostos a fazer?

Em última análise será a pressão da opinião pública que determinará uma nova era no comportamento dos políticos, dos empresários e das organizações. E a sociedade vai-nos empurrar para uma mudança profunda.
As pessoas querem mais garantias no plano social, da sustentabilidade ambiental e do respeito pela dimensão humana de qualquer projecto económico, público ou privado. Nós, os Maçons, temos que liderar a mudança necessária para a construção de uma nova ordem económica e social, pensando globalmente e agindo localmente.
Há Catedrais que faltam construir. Haja na Maçonaria força para o fazer.

Autor: Teseu

terça-feira, 9 de junho de 2009

Uma sobremesa indigesta

Num dia de Fevereiro tive um almoço muito diferente do habitual. Os meus convivas eram pessoas que então mal conhecia. No entanto, sendo amigos de um grande amigo, naturalmente os considerei amigos.
Este almoço não era meramente social, mas destinava-se a uma «entrevista». É certo que já estou habituado a entrevistas feitas por alguém com um gravador e com um cansativo fotógrafo a dizer para sorrir ou olhar para aqui ou para acolá. Mas esta era muito diferente. Como sobremesa foram-me colocadas uma série de perguntas que implicavam uma reflexão difícil e complexa, na qual procurei ser o mais honesto possível com os meus interlocutores e comigo mesmo, apesar de ser colocado perante graves dilemas. O choque de valores fundamentais é sempre algo muito complicado. Confesso que os achei óptimos temas para alguns dos meus modestos contos...
No final fui convidado a ler e assinar um pequeno documento, onde me eram colocadas duas questões. A primeira referia-se a partilhar os ideais da Maçonaria. Por aquilo que então sabia, não tive dúvidas em concordar.
Mais complicada para mim foi a segunda, na qual eu deveria dizer que aceito a existência de um Deus. Assim mesmo, com maiúscula! Tive de conversar com os meus interlocutores sobre o significado exacto da pergunta.
De facto já tinha conhecimento de que na Maçonaria há uma referência frequente ao Grande Arquitecto do Universo. Mas ali estava preto no branco a palavra «Deus».
Na conversa que se seguiu, percebi melhor o sentido da pergunta. A palavra «Deus» não tinha ali a conotação vulgar na nossa cultura. Seria antes admitir que existe uma «força» ou «algo», que levou ao aparecimento de tudo quanto nos rodeia, desde a pedra da calçada até à mais longínqua galáxia e que continua a governar os grandes acontecimentos que ocorrem no Universo. Perante a explicação dos meus convivas, a resposta à pergunta passava a ser positiva.
Por uma questão de honestidade acho ser meu dever explicar as minhas ideias sobre o assunto.
Na minha opinião, o órgão mais importante e que melhor distingue o ser humano é o cérebro. E se o temos, acho essencial que o usemos. Por isso não me parece que se deva simplesmente «acreditar». Devemos tentar perceber, pensar nos assuntos, analisar os factos, ponderar os argumentos a favor e contra. Só depois de um estudo, que nalguns casos deve ser aprofundado até onde as nossas capacidades o permitirem, se devem extrair conclusões. Aí deveremos dizer «penso que» ou «admito que» e não «acredito que». Naturalmente que haverá questões para as quais não temos uma resposta lógica. Mas acho que dizer «não sei» é um acto de coragem e deve constituir um incentivo a mais estudo, a mais trabalho.
A cosmologia actual considera que o nosso Universo terá começado com um fenómeno extraordinário a que, por graça, foi dado o nome de «Big Bang» (BB). Tudo quanto existe nesse Universo, matéria e energia, espaço e tempo, terá tido a sua origem nesse momento. Se o BB foi acto de um Deus ou se resultou de um ciclo de contracções (big crunch) e expansões alternadas, a ciência não o conseguiu esclarecer até à data. Portanto daqui não se poderá concluir sobre a existência ou não de Deus, mas tenho de admitir que uma força (ou um conjunto de forças) deu origem ao nosso Universo.
Por outro lado, bastará possuir conhecimentos elementares de física para se saber que matéria e energia são uma só e que uma se pode transformar na outra. Foi preciso muito tempo para que os físicos concluíssem que ambas obedecem a um conjunto de «forças» e que estas se podem resumir a quatro fundamentais: gravidade, electromagnética, nuclear fraca e nuclear forte. Parece também cada vez mais evidente, que todas elas estão de algum modo relacionadas entre si e uma das grandes buscas da ciência actual é precisamente a criação de uma teoria que as consiga unificar a todas, a chamada Teoria de Grande Unificação.
De qualquer forma terão sido essas forças (ou afinal uma só) quem, desde o início do nosso actual Universo, governou todas as suas transformações e parece evidente que assim deverá continuar a acontecer. Como não vejo qualquer problema em que se chame «Deus» a essas forças ou ao seu conjunto, não havia motivo para não assinar.

Autor: Carl Sagan

Nota de edição:
O episódio acima descrito sobre a aceitação da existência de "Deus" refere-se a condição particular a outra obediência maçónica que não a do Grande Oriente Lusitano, onde tal condição não é imposta por norma de exclusão de dogmas. Assim e sob reserva do profundo respeito pelas normas e preceitos de todas as obediências maçónicas, entendeu-se no entanto, interessante a publicação do texto em causa, pela globalidade didáctica do seu conteúdo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nome Simbólico - Charles Darwin

Charles Darwin, naturalista inglês, nasceu em 12 de Fevereiro de 1809 em Sherewsbury, filho de Robert Darwin e de Susannah Wedgood. Com 17 anos, Darwin deixou Sherewsbury para estudar medicina na universidade de Edinburgh. Repelido pelas práticas cirúrgicas sem anestesia (ainda desconhecidas na época) em 31 de Dezembro de 1831 ele aceita o convite para tornar-se membro de uma expedição científica a bordo do navio Beagle. Assim Darwin passa cinco anos de (1831 a 1836) navegando pela costa do pacifico e pela América do Sul. Durante este período, o Beagle, aportou em quase todos os continentes e ilhas, Darwin fora chamado para exercer as funções de geólogo, botânico, zoologista e o homem de ciência, esta viagem foi uma preparação fundamental para a sua vida subsequente de pesquisador e escritor. Em todo o lugar, Darwin reunia grandes colecções de rochas, plantas e animais que imediatamente, enviava à sua pátria.
Após o seu regresso a Inglaterra, Darwin iniciou um caderno de notas sobre a evolução dando assim os primeiros passos para a teoria da origem das espécies. No começo, o grande enigma era explicar o aparecimento e o desaparecimento das espécies. Assim surgiram na sua cabeça várias questões por que se originavam as espécies? Por que se modificavam com o passar dos tempos? Depois disso, nasceu a famosa doutrina Darwinista da selecção natural, da luta pela sobrevivência ou da sobrevivência dos mais aptos, pedra fundamental da origem das espécies. Nessa altura Darwin estava a mudar a crença contemporânea sobre a criação da Vida na Terra.
No livro “Origens das Espécies”, Darwin defende duas teorias principais: A da evolução biológica - todas as espécies, plantas e animais; que vivem hoje, descendem de formas mais primitivas – e de que esta evolução ocorre por selecção natural; Os princípios básicos da teoria sobre a evolução, embora existam controvérsias em torno deles; Darwin tentou mostrar que a selecção natural tende a modificar as características dos indivíduos ao longo de gerações, podendo gerar o aparecimento de novas espécies. No mundo de hoje o evolucionismo surge como uma doutrina extraordinariamente actual e dotada de argumentos capazes de criar roturas com o tradicionalismo e as convenções clássicas, conduzindo o Homem a uma reabordagem constante da sua própria evolução biológica. No Universo e na Vida, em todas as suas manifestações, o evolucionismo pressupõe, serem mais plausíveis à mudança dos organismos vivos, Darwin, teve oportunidade de observar diferentes fenómenos da natureza que lhe despertaram a curiosidade e que viriam a ser pilares no desenvolvimento da sua teoria.

A razão por que escolhi Charles Darwin, foram duas, ignorando eu se Charles Darwin pertenceu à nossa Augusta Ordem, no entanto, penso que o seu profundo e prolongado trabalho, tal como a sua vontade de saber cada vez mais e a busca da verdade são aspectos que estão perfeitamente de acordo com o espírito que deve dirigir a actividade de todos os maçons. Identifico-me plenamente com este espírito e de aí ter escolhido o seu nome para o usar simbolicamente entre nós; A segunda razão, porque como ele, eu também sou um amante da natureza um estudioso de aves conhecendo quase todas as espécies as diferenças entre machos e fêmeas e coleccionador de aves (perto de setecentas criadas em cativeiro pelo prazer de as poder observar de perto).

Autor: Charles Darwin

terça-feira, 26 de maio de 2009

Desbastar a pedra bruta

Desbastar a pedra bruta, aproximando-a da sua forma final – esta é a tarefa ou trabalho simbólico a que todo o Aprendiz tem de se dedicar para chegar a ser um obreiro que domine inteiramente a sua Arte.
Neste trabalho simbólico, o Aprendiz é simultaneamente obreiro, matéria-prima e instrumento. Ele próprio é a pedra bruta, emblemática do seu ainda muito imperfeito desenvolvimento, é a pedra que tem de converter em perfeição interior enquanto se mantém no estado latente dessa evidente imperfeição, por forma a que possa ocupar o lugar que lhe corresponde no edifício para que está destinada.
Todavia, dado que a Perfeição é infinita e, no seu estado absoluto, inatingível, unicamente podemos aspirar a nos acercarmos da perfeição que nos for dado conceber, no estádio do progresso em que nos encontrarmos. O nosso progresso desenvolve-se, pois, através de graus sucessivos de perfeição relativa, enquanto, por um lado, o próprio reconhecimento da nossa imperfeição – a pedra bruta – e, por outro, o de um ideal que desejamos, são as primeiras condições indispensáveis para que possa haver esse trabalho.
Tal tarefa consiste em despojar a pedra bruta das suas asperezas, pondo primeiro em evidência o estado de rudeza da pedra; depois, rectificando-a, alisando-a e desbastando todas as protuberâncias que a afastem da forma harmoniosa que é necessário conferir-lhe.
É importante notar que não se trata de aproximar a pedra da forma de um determinado modelo exterior, se bem que este possa servir de incitamento e de inspiração, mas que o modelo ou perfeição têm de ser procurados no seio dessa mesma pedra.

Autor: Álvaro

terça-feira, 12 de maio de 2009

a rosa - iniciação

todos nós. não importa quem, nem como. viemos de algum lugar distante e de diferentes formas caminhamos para outro espaço. perante isto, ou nos perdemos uns dos outros ou consideramos a hipótese de que nos vamos encontrar, lá, nesse lugar, com tudo o que temos para nos dar.

existem dois. apenas dois. momentos estruturantes nas nossas vidas. todos os outros são decorrentes destes: o nascimento e a morte. por equívoco, por cultura, educação ou por pura e simplesmente nunca termos pensado no assunto, julgamos que durante uma vida - esta a de hoje - só podemos nascer e morrer uma vez. também neste caso podemos pôr a hipótese de não ser assim. longe de conjecturas niilistas ou eternalistas, talvez possamos nascer e morrer a cada instante e assim estruturarmos o nosso ser a cada inspiração e expiração.

é necessário ter a consciência de que a cada nascimento e cada morte estamos sozinhos. sempre. por isso são os dois momentos fundadores da nossa existência. nascemos e morremos porque estamos sós. Krishnaji disse um dia que a verdade é uma estrada sem caminho. se nos mantivermos nessa estrada sem a ideia (o conceito) de estar a percorrer algo, caminhamos livres, a cada passo mais livres, e no que respeita ao nosso conhecimento dos outros vamos deixando-os também livres para o encontro, sem procura, da verdade.

na nossa estrada, tudo pode ser experimentado mas nem tudo tem de ser experimentado. é até uma impossibilidade física. tão simples como pensarmos que por mais que nos dedicássemos não conseguiríamos ler todos os livros do mundo, ouvir todos as musicas, escrever todos os poemas. temos de fazer escolhas e o único guia, mestre, lama, guru, swami, que podemos ter é aprender a nascer e a morrer.

observar ser juízo os nascimentos e as mortes do outro, dos muitos «outro» que connosco se cruzam, é um ensinamento fundamental. e, para começar, observar o outro é saber que reconhecer sinais nele, o principal é saber que é preciso amar esse outro, para além da atracção ou da repulsa. não nos escondermos no acto de amar. essencialmente não amar esperando que sejamos amados. porque, é tão imensamente simples, amando somos já amados.

no entanto, é evidente, que necessitamos de vários tipos de amor. e assim é preciso não ter medo de aprender a conduzir o outro a nos amar como nós o amamos. sermos nós a dar o primeiro passo e dar tempo ao outro para que também ele aprenda a necessidade de amar, sem culpa, apego ou desespero. amar alguém é libertá-lo e ao mesmo tempo não o deixar. voltar de novo. ser uma morada presente para aqueles, todos e para o um, que amamos. nascer e morrer para isso.

eis o trabalho de uma vida. não nos deixemos enredar pela ideia de que vamos ter muitas vidas para isto (ainda que as possamos ter) e deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. ou ainda, pensar que a nossa alma velará pelo amor que podemos dispensar. é uma responsabilidade nossa. hora a hora. dia a dia.

como prática, pensemos que nascemos a cada inspiração e que morremos a cada expiração. dediquemos a isso a nossa capacidade de concentração. com o tempo e com um trabalho constante esta realidade tornar-se-à clara para nós. a esta aprendizagem talvez possamos chamar iniciação.

Autor: Hugo Pratt (o facto de o texto estar escrito exclusivamente em minúsculas é propositado)

terça-feira, 21 de abril de 2009

Lembra-te Abril

O soldado sonhava com a sua terra,
com a sua mulher, e queria voltar.

Disseram-lhe que era um herói,
e que morria como um herói
com duas balas no peito.

Mas ele não queria ser herói:

O soldado sonhava com a sua terra,
com a sua mulher, e queria voltar.

O torturado caía de um lado para o outro da cela.

Ele lera Marx, e lembrava-se do profeta Isaías:
«O lobo e o cordeiro pastarão juntos».

Ele acreditava, e o seu crime era acreditar.
Uma pancada forte de mais no crânio,
e não puderam fazer mais nada com ele:

deitaram-no para uma cova,
e cobriram-no com terra e pedras.
E todos viram crescer o trigo negro da raiva.

Lembra-te, Abril, dos que não voltaram!
Lembra-te, Abril, dos que não tiveram cravos na boca
!

Autor: Adriano Rosa (1º Prémio Literário Jornal A Maré, Espinho: 1983)

terça-feira, 14 de abril de 2009

O homem que não morreu

Naquele tempo era perigoso contrariar o mandato dos céus, e o deus que havia protegia os poderosos. A religião dos homens e a lei dos fortes eram defendidas por velhos sacerdotes e severos juizes. Bastava uma palavra infeliz, um acto qualquer incompreendido e a justiça haveria de encontrar um criminoso. O homem que tinha sido julgado sem dúvida cometera uma ofensa grave, mas não podia recordar-se do seu crime. Um outro deus era o seu, mas esse outro amaldiçoara-o a cumprir um calvário de sangue. Nenhum deus ama a liberdade, e o que está escrito tem que ser seguido. Também o seu deus tinha fracassado perante os destinos inexoráveis. O homem que tinha sido condenado deixara de acreditar no seu deus, e apenas lamentava o tempo perdido dos que o tinham escutado. Homens e mulheres comuns que seriam perseguidos por causa da sua palavra.
O homem que tinha sido condenado sabia demais e via para além do seu deus. O seu deus era casmurro e malicioso o suficiente para cumprir as escrituras. Um velho nojento e embevecido ainda com a sua imagem nos confins do universo. A vaidade corrompe os deuses, e até os homens mais próximos e amigos. Mas nada disso interessava já, nem o tempo em que procurou o sentido da festa. Cedo demais tinha julgado o seu deus diferente e a humanidade disponível para a alegria. Cedo demais, repetia para si. Qual tinha sido o seu primeiro milagre, o seu primeiro erro? Agora estava morto ou julgá-lo-iam como tal. A injúria dos homens é irreparável. Para quê regressar? O corpo foi entregue a José que o cobriu com um lençol fino que comprara, trataram-no como a um morto e como deveria ser. Também o centurião que certificou a sua palidez julgou estar perante um cadáver.

Acordou naquela manhã envolto em ligas e o rosto coberto por um sudário. Apenas podia mexer as mãos, e foi assim que se sentiu vivo. Enjoado com o lento despertar numa gruta fria, o homem que não morreu contemplou outros corpos enfaixados e inertes a seu lado. A morte é uma coisa estranha, uma forma suprema de quietude e silêncios. Por fim aceitou a consciência de que estava vivo, a luz do sol brilhava lá fora e pressentia que outra vida o esperava. Mover a pesada pedra estava fora das suas possibilidades, o homem que tinha sido condenado rastejou para a fresta que o religava ao mundo e à realidade dos vivos, escavando com tempo o seu triunfo inútil. Voltou a questionar a sensatez de um regresso. Quem quererá morrer duas vezes?
Entre arbustos próximos retirou as ligas que o apertavam, nódoas de sangue e suor. O homem sentiu o sol percorrer a sua nudez, reparou como eram horrorosas as suas chagas. Como viver uma vida honrada, ser apenas um homem mais e sem mistérios? Estranhou a sensação da água num riacho próximo, um outro baptismo de vida. Não podia arriscar-se a ser descoberto. Regressou cauteloso, era como se não conhecesse mais mundo que o espaço para onde tinha rastejado. Fazer a viagem da morte para a vida é uma oportunidade única e não conseguiu dormir na noite após a sua ressurreição.

Contemplou um amanhecer inteiro pela primeira vez, sem uma missão a cumprir. Não podia ocultar-se eternamente. Arrepiava-se diante daquela palavra… eternidade! Como poderia ter mentido tantas vezes sobre a bondade do seu deus? Estava perdido nestes pensamentos quando um grupo de mancebos desviou a pedra da entrada para roubar os panos de linho aos cadáveres. Não se moveu, porque não é crime roubar quem não precisa. Além disso as questões da lei nunca lhe interessaram, ou não tivesse violado o sábado ao curar enfermos e a colher espigas para comer diante dos fariseus. Recordava-se agora dos seus pecados. Enquanto os mancebos disputavam o linho, o homem que tinha sido condenado pensava que o amanhecer é sempre belo, e olhou para a estrada e as anémonas cor de púrpura por onde os mancebos escapavam, atravessando mais adiante os loureiros bravos.

O homem que tinha saudado a luz de um novo dia notou então que três mulheres se aproximavam, silenciosas como se viessem chorar a morte de alguém. Custava-lhe ainda enfrentar a luz de um novo dia, mas reconheceu Madalena. Atrás seguiam a mãe de Tiago e Salomé. Não quis falar-lhes, tinha que desabituar-se de transmitir esperanças. Era melhor que a morte fosse tida como natural e inevitável, o elo que falta entre os homens e os deuses. Sem a morte, pensou, a arte e todas as religiões seriam improváveis como coisas humanas.
Mas o seu corpo não estava na gruta, na verdade ele estava vivo e não podia contrariar a sua ressurreição. Não queria voltar a morrer apenas para fazer a vontade dos homens e do seu deus, mas não sabia como viver. Não sabia para que servia a vida. Apenas não queria ser descoberto pelos soldados. Nem pelos discípulos. Poderia falar com Madalena, pedir auxílio e um esconderijo temporário mais seguro que uns arbustos. As três mulheres repararam na pedra movida e no lugar vago do seu corpo. Mas o homem que não morreu tinha que manter o mistério do seu desaparecimento, ninguém o encontraria.

Apenas Madalena, a beleza que o surpreendeu junto a um poço de água. Deveria, pois, saciar a sua sede? Amar a beleza num corpo mortal que envelhece. Amar sem o propósito de salvar a humanidade inteira para fugir à responsabilidade de um único beijo. O filho de deus saberia amar? Suportaria conhecer o amor, e o remorso que fica sempre depois do amor? O deus que fora o seu nada sabia do sofrimento humano porque lhe ordenara que morresse na cruz, por um amor sem substância e sem fim.
Deveria agora esgueirar-se por caminhos sombrios, amar é o maior perigo que pode acontecer a um homem! Madalena estava só na sua tenda, queria libertar-se da memória daquele homem solitário que a tinha olhado de maneira diferente. Entre o mistério e o pranto, aguardava sem saber. O homem que não morreu entrou sem alarde, e olhou para Madalena como quem desperta de um sono profundo. Sou apenas um homem, disse-lhe. Madalena reconheceu-o e voltou a tratar-lhe das feridas.
O homem que não morreu encontrou o tempo para chorar ser filho de um deus que não queria. Beijou lentamente os pés de Madalena, abraçou-se às suas delicadas coxas e permaneceram calados, enquanto Madalena lhe afagava os cabelos. O amor não precisa de palavras nem de orações. Sentiu o sangue latejar quando se deitou com Madalena. As mãos percorreram os rostos, e descobriu que os humanos fazem amor conservando mútuo o olhar. Dar a outra face é isto mesmo, partilhar o êxtase e o segredo dos afectos. O filho de deus tinha finalmente ressuscitado da morte de não amar.

Autor: Adriano Rosa (A David Herbert Lawrence, porque escreveu a novela intitulada The man who died).

terça-feira, 17 de março de 2009

Zeca Afonso - Canção de embalar

Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti

Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar

Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor

Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer

Autor: Zeca Afonso – Canção de Embalar

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Um nome simbólico - Hugo Pratt

Foi na manhã do meu décimo segundo aniversário.
Antes de sair, o meu irmão, tinha deixado a minha prenda. Uma fábula, uma aventura, um conhecimento muito especial protagonizado pela personagem que todos gostaríamos de ser: Corto Maltese. Falo do livro «Fábula de Veneza», da autoria de um dos maiores romancistas e desenhadores de banda desenhada do séc. XX – Hugo Pratt.
Era Verão, uma manhã quente de Agosto. Eu, sem sequer imaginar a viagem que aquele livro me iria proporcionar, sentei-me displicente num sofá a desfolhá-lo. Página a página fui tomando conhecimento de um mundo de cuja existência nem suspeitava, numa Veneza ocupada pelo exército torcionário de Mussolini.
Num labirinto oculto nos subterrâneos da cidade, «Corto Maltese», o homem impoluto, corajoso, implacavelmente justo e bom, tem por missão encontrar um objecto, um objecto que é um símbolo, um sinal: a «Clavícula de Salomão». Perseguido pelos «guardas negros» de Mussolini, «Corto» refugia-se no secreto gueto judaico de Veneza. Inadvertidamente, «Maltese» vê-se literalmente caído num templo Maçónico enquanto decorre uma sessão de Loja. São estes homens que o hão-de conduzir até à «Clavícula de Salomão», ao mesmo tempo que o protegem e acolhem fraternalmente, mesmo não sendo ele Maçon.

Nessa manhã de Agosto, viajando pelas palavras e desenhos de Hugo Pratt, começaram a formular-se no meu pensamento todas as perguntas sobre esta associação de homens, revestidos de estranhos paramentos, dispostos a combater a tirania de um ditador, organizados em segredo na críptica parte de uma cidade, prontos a ajudar um outro homem a combater pela justiça e pela liberdade. Quem seriam eles? Quem seriam afinal os Maçons e a Maçonaria?
Sem Hugo Pratt talvez não tivessem surgido tão cedo as primeiras pesquisas, os encontros com os primeiros maçons que conheci e que afinal eram os mais próximos familiares, talvez a estante do adolescente que fui não se tivesse composto com os poucos livros disponíveis que então se encontravam sobre a «Construção do Templo».
Nunca mais esta marca se apagou e foi para Hugo Pratt que dirigi o meu primeiro pensamento na «Câmara de Reflexões», no dia da minha Iniciação. É possível que nesse momento, enquanto redigia o «Testamento Filosófico», tenha voltado a ser o menino de doze anos no dia do seu aniversário.

Mais tarde soube da filiação Maçónica de Pratt. Reconheci outros sinais noutros dos seus escritos, como no romance «A Balada do Mar Salgado». Fui, enfim, sabendo da sua relação com os mais altos valores Maçónicos.
Agora que Pratt já partiu para o Grande Oriente Eterno, retomo em sua homenagem a lembrança do primeiro momento de encontro com a Maçonaria. E, não só em homenagem a ele, mas a todos os que resistiram a uma Europa nazi, mantendo acesas as chamas da Sabedoria, da Força e da Beleza, chamo a mim o simbolismo do seu nome. Tomo eu a missão do viajante que procura, mesmo sob as maiores dificuldades, o sublime «Selo de Salomão».

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Linguagem simbólica

A Maçonaria, em relação à sua linguagem simbólica, não é original, já que a maior parte dessa mesma linguagem é adaptação de diversas linhas de pensamento e de influência. Mas a imensa riqueza cultural da Maçonaria está alicerçada na ampla flexibilidade e tolerância em relação às diversas correntes de pensamento, admitindo as mais variadas linhas filosóficas que contribuam para a construção de homens de elevados padrões morais, éticos e espirituais. Cada Maçon é, desde o momento da sua iniciação, induzido no caminho do auto-conhecimento e da auto-construção, com base nos seus próprios valores de referência, respeitando o pensamento dos seus Irmãos e buscando o seu próprio crescimento espiritual sem intermediação de ninguém. Os nossos trabalhos têm vindo a ser cada vez mais propiciadores desse caminho que é aberto a todos os seus obreiros. Não existe estrutura forte que não seja baseada na fortaleza de cada um dos seus elementos. Hoje, como sempre, foi dado mais um importante passo nesse sentido.

Autor: Álvaro

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Porquê René Descartes


Apesar de ter feito inumeras pesquisas e nada ter encontrado de concreto, da ligação física de René Descartes com a maçonaria, muito de seus conceitos tem efeito sobre aquilo que se defende no meio maçónico. Desde a combinação que Descartes fez da geometria com a algebra, conceito muito apreciado pelos maçons, temos a sua filosofia que muito me inspirou procurar mais informações sobre o mesmo. Uma personalidade dominante da história intelectual ocidental, foi um filósofo fisiologista e matemático francês. Cedo na sua vida, descobriu que tinha talento para matemática e filosofia na perseguição da verdade. O esteio da fisiologia de Descartes pode ser resumida por sua famosa frase em latim: “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo).
“Observo em nós apenas uma única coisa que nos pode dar justa razão para nos estimarmos, a saber: o uso do nosso livre-arbítrio e o domínio que temos sobre as nossas vontades. Pois as acções que dependem desse livre-arbítrio são as únicas pelas quais podemos com razão ser louvados ou censurados, e ele torna-nos de alguma forma semelhante a Deus ao fazer-nos senhores de nós mesmos, desde que por cobardia não percamos os direitos que nos dá. Assim, creio que a verdadeira generosidade, que faz um homem estimar-se a si mesmo no mais alto grau em que pode legitimamente estimar-se, consiste somente, por uma parte, em que ele sabe que não há algo que realmente lhe pertença a não ser essa livre disposição das suas vontades, nem por que ele deva ser louvado ou censurado a não ser porque faz bom ou mau uso dela; e, por outra parte, em que ele sente em si mesmo uma firme e constante resolução de fazer bom uso dela, isto é, de nunca deixar de ter vontade para empreender e executar todas as coisas que julgar serem as melhores. Isso é seguir perfeitamente a virtudes.” René Descartes, in 'As Paixões da Alma'

Olhando para uma rica filosofia apresentada nas obras de René Descartes, percebo a grande ligação que há no conceito de alma, e para tanta riqueza de pensamento, ele sempre se refugiava em lugares de severa meditação, sem com isso sentir-se só. Fazia de momentos seus, momentos de ligação com um ser superior. A ligação entre nossos pensamentos encontram-se em momentos de reflexão, em que me vejo só, e para mim estar só, não significa vazio nem solidão, significa circunstância. Enquanto que a solidão para mim, é quando não se consegue encontrar a nossa própria alma, quando nos perdemos de nós mesmos. Descartes teve grande influência no desenvolvimento da filosofia, repercutindo nos estudos da matemática, ciências e também nos campos da justiça e da teologia, influenciando muitos filosofos europeus e tendo muito impacto sendo chamado o pai da filosofia moderna.

Foi esta uma das razões que me levou a adoptar o seu nome “RENÉ”, pensar livremente, com independência, com valorização do homem, com verdade, com generosidade, com justiça, sabedoria e irreverência, enfim, Solidário e Fraterno, com a humildade que me caracteriza.

Autor: René

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sociedade humana e harmonia

Será a harmonia por si só o mecanismo central regulador da evolução da sociedade humana? Como evolui uma sociedade regida pelo conceito fundamental da harmonia? Esta, uma questão que se coloca com particular actualidade e acuidade, sobretudo num momento em que a Humanidade está confrontada com as mais diversas formas de intolerância. Daí a importância crescente que a Maçonaria desempenha neste mundo globalizado, em que aos iniciados é conferida a responsabilidade de defender os sublimes valores da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade. Neste panorama global da espiritualidade humana, a Maçonaria merece ser referida de forma muito especial. Enquanto organização iniciática que antes de tudo é, a Maçonaria constitui uma das vias possíveis na procura da Verdade, tendo por principais objectivos, por um lado, o aperfeiçoamento moral dos seus membros e, por outro, o progresso da Humanidade inteira, sendo os seus principais cunhos a harmonia e a tolerância fraternal entre todos os seus membros. É, pois, uma via simbólica que constitui um dos mais potentes motores de aperfeiçoamento da Humanidade, capaz de recriar o homem total que retorna à Unidade Primordial.

Autor: Álvaro