terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Pentagrama

Constituindo o Pentagrama um dos Símbolos mais carismáticos da Maçonaria, pareceu-me oportuno fazer uma reflexão sobre este símbolo, para o que me socorri do apoio da Respeitável Loja "Os Fiéis Obreiros da Baixa Califórnia".
Assim, os algarismos 1 e 2 na parte lateral esquerda de um Pentagrama representam o Masculino e o Feminino. No ângulo superior encontra-se o signo de Júpiter. Nos braços está o signo de Marte, símbolo da força. No centro encontra-se o caduceu de Mercúrio - representando a espinha dorsal e os signos de Vénus e Mercúrio. Nos lados do caduceu estão o Sol e a Lua. As duas alas representam a ascensão do fogo sagrado ao longo da espinha dorsal, como no tantrismo e na alquimia sexual. Aos pés do Pentagrama aparece o signo de Saturno. A espada é o falo masculino. Mas também ali se encontram a Chave e o Selo de Salomão. Cada uma das cinco pontas representa um elemento - Ar, Fogo, Terra, Água e Espírito. As letras gregas alfa e ómega representam o princípio e o fim. O Cálice simboliza o vaso da abundância, que contém a bebida da imortalidade. Por outro lado, penta significa cinco em grego, alfa é a primeira letra daquele alfabeto e grama significa letra na mesma língua.
Hoje participámos, pois e uma vez mais, numa sessão pletórica de significado.

Autor: Álvaro

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Carlos

Para o bem e para o mal nasci Angolano, Angola foi e será sempre a terra do meu coração.
Como alguns saberão vivi uma parte dolorosa da história daquela terra, o que não me faz esquecer as muitas e gratas recordações que dela também tenho. Lembro-me das farras aos sábados e das madrugadas de domingo, que se lhe seguiam, passadas na praia cantando. Eram das poucas ocasiões que tínhamos para estar em grupos sem que a policia nos considerá-se incómodos para o regime vigente.
Uma das músicas obrigatórias era Muxima cuja tradução para português significa coração pois a considerávamos um hino a Angola, tocada e cantada na praia olhando o nascer do Sol sobre a baía de Luanda, respirando tranquilidade, ouvindo aquela guitarra e a voz de soul de Liceu, um dos músicos de serviço e autor da mesma.
Numa farra perguntei a Liceu porque todas as suas canções eram em kinbundo, dialecto que eu não entendia e se tal não constituía um perigo para um território geograficamente dividido por rios, com vários grupos étnicos e dialectos
Liceu sorriu, e disse-me, é o dialecto que domino e é o que o povo daqui entende.
-- De chofre pergunta-me:
-- Que achas da música?
-- Respondo:
-- Sente-se, vive-se, e ver as mães a dançar como se estivessem a embalar crianças, só tu arranjavas esta coreografia, e só sendo africano se pode ter este sentimento.
-- Pois, fico satisfeito por brancos gostarem da minha música, é de propósito.
-- Porque?
-- Temos de lutar por uma sociedade multicultural, somos angolanos.
-- Insisto, porque não em português?
-- Não te preocupes. Se o português não for a nossa língua oficial nunca seremos um País.
-- Tens razão, vou dançar este merengue.
Curiosamente este homem nascido na Republica Democrática do Congo (um de 24 irmãos) tinha sido registado Angolano, e eu nascido numa cubata no Bembe, norte de Angola, tenho no bilhete de identidade nascido no Fundão, pois meu pai recusava que os filhos fossem brancos de segunda.
Conhecido por Liceu Vieira Dias, ou simplesmente Liceu, alcunha dada por ter sido um dos primeiros negros angolanos a terminar o secundário no Liceu Salvador Correia, foi preso no final da década de cinquenta, e desterrado mais de uma década no campo de concentração do Tarrafal em Cabo-Verde, pela sua luta pela Liberdade e Independência de Angola, à qual sempre se manteve fiel.
A sua grande sensibilidade musical e cultural, assumindo a oralidade tradicional africana, fá-lo iniciar um trabalho de resgate cultural, procurando relançar músicas tradicionais e a elas dar arranjos modernos sem perder as suas essências originais.
Reconhecido como o pai da música angolana criou o género rítmico-canção denominado por semba. Deve-se-lhe ainda a introdução do reco-reco e das congas na música e ritmos de Angola sendo na viola acústica que mais se evidenciou.
Iniciou a carreira artística em 1947, fundando a banda musical Ngola Ritmos, o seu veículo de intervenção.
Liceu Vieira Dias um dos fundadores do MPLA, manteve-se coerente na defesa dos seus princípios e valores, como a liberdade, o multiculturalismo, a não violência e o diálogo. Com efeito os caminhos seguidos de confronto e de partido único baseados em concepções importadas sempre contaram com a sua oposição mantendo-se fiel a um modelo pluricultural e pluriracial para Angola baseado numa evolução com Liberdade. Assim em 1975 no congresso do MPLA em Lusaka, procurando evitar a guerra civil iminente, torna-se dissidente formando com outros moderados o movimento denominado Revolta Activa.
Este homem simples, que muito me ensinou da cultura angolana, e com quem aprendi que a defesa dos valores e princípios fundamentais em que acreditamos não têm preço tinha como seu primeiro nome Carlos.
É em sua homenagem que escolhi o meu nome simbólico.

Autor: Carlos

SABER MAIS:
Liceu Vieira Dias nasceu a 1 de Maio de 1918, na República Democrática do Congo. É unanimamente considerado o “pai da música popular angolana”. Tendo as violas acústicas como base, ele introduziu a dikanza (reco reco) e as ng’omas (tambores de conga) nas suas canções. A sua carreira musical começou, em 1947, quando, com Domingos Van-Dúnem, Manuel dos Passos, Mário da Silva Araújo, e Nuno Ndongo fundou o Ngola Ritmos, um grupo “histórico” da música popular angolana.
Três anos depois, a banda é reforçada com Amadeu Amorim, Belita Palma, Euclides Fontes Pereira, José Cordeiro e Lourdes Van-Dúnem. As músicas eram cantadas em kimbundu acompanhadas de violão e percussão. O seu som tornou-se muito popular na década de 50, sobretudo nas áreas urbanas, onde a audiência era favorável à sua mensagem politizada e nacionalista. O filho Carlitos Vieira Dias é o sucessor do enorme legado histórico e musical de Liceu Vieira Dias.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Santo

Como é consabido, o significado da linguagem maçónica afasta-se daquele que é vulgar e generalizadamente utilizado no mundo profano. Vem isto a propósito da palavra "santo" que quer dizer "puro" e "escolhido". Ocorreu-me esta analogia porque os Maçons são, na sua essência, homens de bons costumes e que são escolhidos para enformarem a comunidade a que pertencerão. Em hebraico, por exemplo, santo diz-se "kadosch", que é o nome do trigésimo grau maçónico filosófico no Rito Escocês Antigo e Aceite. E embora a Maçonaria não venere os santos da Igreja Católica, na maçonaria filosófica existe um grau denominado de "Santo André". Santificado significa, pois, sancionado, aquele que é escolhido e aceite. Afinal, como escolhidos e aceites são todos os Maçons. E uma vida santificada significa viver exteriorizando amor ao próximo, que é uma das virtudes maçónicas por excelência. Veja-se, pois, como palavras iguais assumem significados diferentes consoante sejam proferidas no mundo maçónico ou no mundo profano. Seria, por exemplo, verosímil ouvir-se dizer a um profano que tivesse terminado uma obra que os trabalhos decorreram de forma justa e perfeita? Não! Mas é isso precisamente que acontece na Maçonaria.

Autor: Álvaro

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

“O Iniciado Fernando Pessoa IV”

"Deixei enquanto iniciado que o meu olhar subisse e percorri, com o mesmo olhar melancólico, a sala que mais parecia um santuário sagrado pertencente ao Mundo Antigo e passei em revista a Assembleia de irmãos que me rodeavam e ia pensando que enquanto iniciado era, pessoa pouco significante naquela sala que era um quadrado e no seio daquelas quatro paredes”

Fernando Pessoa eminente defensor das ideias maçónicas conjugadas com o progresso social e a valorização humana, toma como principal fonte das suas obras e das suas intervenções os mistérios maçónicos, os princípios sociais e o amor ao próximo que se torna evidente pela vida que leva, pelos países onde residiu, pelos seus escritos e pelos heterónimos.
Será sempre um exagero, mas torna-se bastante encorajador procurar uma relação de ideias e princípios entre o Grande Fernando Pessoa e a simples pessoa que eu sou. Porém num sentido lato no que respeita ao trajecto e á vida do Fernando Pessoa e num caminho mais reduzido e também mais curto, que é o meu, considero que ambos procuramos combater o erro e procuramos o bem da humanidade!

Fernando Pessoa afasta-se cada vez mais dos caminhos da religião tradicional, longe da igreja organizada, segue uma via pessoal, sentindo a necessidade de percorrer um caminho iniciático, definindo-o como um estádio neo-pagão, que influencia a produção dos seus heterónimos Alberto Caeiro, Ricardo Reis e António Mora. A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem.

Seria Fernando Pessoa Maçon?Porventura uma pergunta sem uma resposta afirmativa. Contudo se nos debruçarmos e revisitarmos a sua vida, as suas obras e a sua luta damo-nos conta facilmente que tudo indica que o tenha sido sem que hajam escritos que o testemunhem. Para Fernando Pessoa a Maçonaria compõe-se de três elementos: o elemento iniciático, pelo qual é secreta; o elemento fraternal; e o elemento a que chamou humano – isto é, o que resulta de ela ser composta por diversas espécies de homens, de diferentes graus de inteligência e cultura.
No elemento iniciático e o fraternal, onde reside essencialmente o espírito maçónico, a Ordem é a mesma sempre e em todo o mundo. No elemento humano, a Maçonaria – como aliás qualquer instituição humana, secreta ou não – apresenta diferentes aspectos, conforme a mentalidade de Maçons individuais, e conforme circunstâncias de meio e momento histórico, de que ela não tem culpa. Nesta perspectiva, toda a Maçonaria gira, porém, em torno de uma só ideia – a "tolerância"; isto é, o não impor a alguém dogma nenhum, deixando-o pensar como entender. Por isso a Maçonaria não tem uma doutrina. Tudo quanto se chama "doutrina maçónica" são opiniões individuais de Maçons, quer sobre a Ordem em si mesma, quer sobre as suas relações com o mundo profano.
Deixemos a Maçonaria aos Maçons e aos que, embora o não sejam, viram, ainda que noutro Templo, a mesma Luz. Deixe a Antimaçonaria àqueles Antimaçons que são os legítimos descendentes intelectuais do célebre pregador que descobriu que Herodes e Pilatos eram Vigilantes de uma Loja de Jerusalém.

(E) foi então que, para te vingar
E à maneira de santo, os arreliar
Desceste mansamente à terra
Perfeitamente disfarçado
E fizeste entre os homens da razão
Um milagre assignado,mas cuja assignatura se erra
Quando em teu dia,
S. João do Verão,
Fundaste a Grande Loja de Inglaterra.
Isto agora é que é bom,
Se bem que vagamente rocambolico.
Eu a julgar-te até catholico,
E tu sahes-me maçon.
Bem, ahi é que ha espaço para tudo,
Para o bem temporal do mundo vario.
Que o teu sorriso doure quanto estudo
E o teu Cordeiro
Me faça sempre justo e verdadeiro,
Prompto a fazer fallar o coração
Alto e bom som
Contra todas as fórmulas do mal,
Contra tudo que torna o homem precario.
Se és maçon,
Sou mais do que maçon - eu sou templário!

Autor: Fernando Pessoa, IV


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

A Alquimia do Pão

Rasgar a terra como quem rasga a alma,
E no nigredo lançar a semente
De trigo ou de milho,
Cantos de seara, ceifada
Por mãos enrugadas nos tempos;
Branquedo farinha,
Amassada e fermentada,
Pela cruz macerada,
Levedando em pousio,
Como se da terra fosse
O que seu ventre gerou;
Levada à fornalha
No amareledo das chamas,
E levado ao rubredo do fogo,
Renascido das cinzas :
O Pão,
Que é nosso e de cada dia,
Que no regaço de Isabel Rosa seria.

Autor: Jónatas

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Solstício de Inverno

A Maçonaria tem duas festas anuais celebradas em todos os países onde se encontra estabelecida; as Festas de S. João. Comemoradas em 24 de Junho, no Solstício de Verão, dedicada a S. João Baptista e, a segunda, a 27 de Dezembro, no Solstício de Inverno, consagrada a S. João Evangelista. O Solstício de Verão é o Solstício da Esperança! O Solstício de Inverno e o reconhecimento do Verbo! Estas festas nada mais são do que a perpetuação do antigos cultos à fertilidade, comemoradas pelos teutónicos, gregos e outras civilizações antigas.
Aproxima-se mais um Solstício de Inverno, em que viveremos a noite mais longa do ano, no nosso hemisfério, como que num recolhimento uterino desejado.
O Sol afastou-se do hemisfério norte. O Inverno é a época para semear.
Os frutos da colheita anterior já se encontram recolhidos. É o momento para seleccionar os melhores frutos, obter as suas sementes e voltar a semear, porque há frutos que se estragaram, apodreceram ou não se desenvolveram. Há que eliminar estes e guardar os melhores.
Há mais frio e mais escassez de tudo.
Os membros da tribo reúnem-se à volta da fogueira onde há luz e calor. O fogo é a representação do Sol que se ausentou. Juntos apoiam-se e compartilham do que têm. O momento transforma-se então, em celebração e cerimónia.
É a noite da solidariedade, do amor e da esperança!

Que este Solstício nos traga de volta à comunhão com as coisas do Universo e com o Universo das coisas da Natureza…
Que as luzes dos centros comerciais e outros holofotes não sejam demasiado ofuscantes e nos permitam, ainda, uma certa dose de humanidade, de reconciliação dos afectos…
Que a esperança se faça verbo, imagem e certeza….

Estamos convosco, desejando-vos um Solstício de LUZ e saudando o RENASCIMENTO de todos Nós.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cento e Uma Estrelas

Cento e Uma estrelas se tornam visíveis.
Sete Cavaleiros as vêem.
Três espadas se erguem.
Sob o dossel, Salomão grava o seu Selo.
Separados nos meridianos,
Unidos em Cadeia,
Norte e Sul caminham para Oriente.
Nas trevas bateu à porta-baixa o Peregrino
«Que quereis para ele meus Irmãos?»
«A Luz!»
Que a Luz seja dada a quem a sabe pedir.
Que as Colunas se levantem em uníssono para o receber.
Do Meio-dia à Meia-noite
Seja o trabalho tão intenso
Que cansados possam os Obreiros
Ir em busca da justa recompensa.
Reine a Paz então. Guarda, franqueai a saída dos Pedreiros!
«A Luz Brilha Mesmo na Obscuridade Mais Profunda»
Sobre todos brilha já na Abóbada Celeste
A Estrela d’Alva

Autor: Hugo Pratt

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

101.º Aniversário Grémio Estrela D'Alva


Comemoramos o 101.º Aniversário do Grémio Estrela D’Alva, comemoramos 101 anos ao serviço da Maçonaria e da Liberdade nos princípios e antigos mistérios da Ordem Maçónica, bem como na construção do nosso templo interior e da nossa memória colectiva e histórica, numa Casa de Trabalho e Amor Fraternal. Em mais um aniversário, permitam que não sejamos fastidiosos a reler a nossa memória desde 1871 de Coimbra até a actualidade, permitam, antes que reflictamos sobre os Símbolos e os Ideias Maçónicos.


Para os maçons há alguns valores absolutamente fundamentais e que são de todos bem conhecidos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No entanto, relacionados em maior ou menor grau com estes, há outros valores que se revestem também de grande importância. Ideais tão belos como, os Direitos Humanos, a Paz, a Justiça e a Tolerância, Tolerância em relação às doutrinas religiosas e políticas, pois a Maçonaria está acima e fora das rivalidades que as dividem. Para os que abraçam os ideais maçónicos, estes conceitos correspondem a valores que o são por si mesmos, ou seja, que não resultam de qualquer dogma, princípio religioso ou corrente filosófica. É de facto notável, mas a Maçonaria permite adquirir valores espirituais sem requerer uma adesão a qualquer crença. A Maçonaria, uma vez que aceita no seu seio pessoas das mais diversas crenças, incluindo as «não crenças», não poderá ser considerada uma religião, pelo que para ela os grandes ideais da humanidade são valores por direito próprio e a sua realização algo absolutamente necessário à felicidade das pessoas. Os maçons não defendem esses valores para colher quaisquer benefícios terrenos ou celestiais, mas porque os consideram como inerentes à condição humana. Não há dúvida, de que quando alguém toma consciência de que todas as pessoas têm os mesmos direitos, independentemente da raça, do sexo, da crença ou dos bens materiais de cada um, a prática dessas virtudes torna-se algo tão natural como respirar.
A ideia mestra em que assenta a Maçonaria é de facto extraordinária. Na sua raiz está a união das pessoas livres e de bons costumes. No seu método de trabalho há diversos rituais e um grande número de simbolismos e alegorias. O resultado final é a indicação da direcção dos grandes valores da humanidade e a sua busca permanente e incessante.

A franco-maçonaria é uma associação que guarda bem vivas certas formas tradicionais dos ensinamentos secretos iniciáticos. Dentro da maçonaria, há uma só forma de interpretação, a simbólica. Por isso não é religião nem se confunde com a filosofia. Esta forma de diálogo foi herdada de distintas escolas, e é a forma mais simples de fixar uma ideia que se esconde num simples desenho, a forma mais simples de apresentar um símbolo. Mas o símbolo pode ser apresentado por uma escultura em qualquer material e os próprios instrumentos de trabalho dos maçons operativos eram usados como símbolos da actividade maçónica e dos valores maçónicos. A maçonaria especulativa herdou esses símbolos que continuam bem vivos até nas insígnias usadas no exercício dos rituais maçónicos. Igualmente as lendas podem fornecer símbolos maçónicos. E a mais comum, que é a Lenda de Hiram, só foi acrescentada á simbólica maçónica entre 1730 a 1740. Também a mitologia fornece os símbolos mais antigos, designadamente os deuses egípcios e alguns deuses da mitologia grega e romana. A própria Iniciação, tida claramente como o momento mais importante da vida maçónica, é, através da forma ritual específica, a forma simbólica de o homem iniciar uma nova vida de iniciação espiritual. O maçom nasce com a iniciação, que é simbolicamente o momento em que o recipiendário inicia uma modificação do seu regime existencial, abraçando o projecto fundamental da Maçonaria e da sua essência profunda, a sua ética.

Os símbolos podem cumprir seus objectivos para diversos fins. Ninguém desconhece, também, que a bandeira do nosso país é o símbolo do país Portugal, como comunidade independente, e do regime republicano sob que vive. A Maçonaria, por seu lado, tem os seus símbolos próprios através do significado que os diversos símbolos podem contribuir para o conhecimento da espiritualidade maçónica, da sua ética, da sua fraternidade.
A interpretação de um compasso, um esquadro, fala-nos da rectidão ou da universalidade que deve observar todo o maçom. Mas isso é só um exemplo, se se quer básico, de todos os símbolos existentes para os membros desta Ordem, pois há muitos símbolos maçónicos que foram esquecidos no tempo, inclusive para os próprios maçons actuais, são pouco conhecidos, quer porque foram representações de um certo período já passado, ou porque já não são tão necessários, por falarem de ideias que se fixaram no tempo ou se terem considerado como socialmente já realizadas.
O que revela que a Maçonaria não é uma teoria estratificada no tempo, mas antes uma forma de ser e de estar que evolui consoante mudam os conhecimentos da perseverança maçónica em prol da paz, da justiça e do entendimento entre todos os povos, independentemente da sua origem, crença, convicção, sexo ou cor da pele. Os maçons sempre deixaram vestígios ou sinais escondidos nas suas obras de arte, os quais só poderiam ser compreendidos por seus próprios pares, essa forma de dialogar no tempo constitui quase uma língua própria dos antigos maçons, todos os símbolos das suas ferramentas, dos seus valores éticos, seus ideais, eram plasmados ou modelados nas suas pinturas ou esculturas e preenchiam os seus escritos.

Autor: Júlio Verne

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Nome Simbólico: Rudyard Kipling

Quando nos anos 60 o meu pai foi nomeado para uma comissão de serviço em Moçambique, antes de partir deu-me uma cópia do poema “ SE “ de Rudyard Kipling, e disse-me para me orientar pelos seus ensinamentos...
Eu assim fiz, li-o e interpretei-o à luz da minha juventude, e desde essa altura sempre o SE me acompanhou até aos dias de hoje. Ainda me lembro de chegar ao fim “… então sim, és um Homem meu filho…” e achar que afinal para vir a ser um homem teria que fazer muito mais por mim e pelos outros, do que o que até então julgava se limitaria a estudar, ter uma profissão e casar.
Ainda hoje presente, pois por baixo das tecnologias, as nossas virtudes e fraquezas permanecem, e quem as compreenda (… sem querer ser superior nem bom demais…) está no caminho para o aperfeiçoamento. Sinto que de tanto ler e reflectir o SE de Rudyard Kipling, , não só influenciou a minha maneira de estar e de ir subindo os degraus da vida (…se souberes sonhar sem viver de sonhos…), como me predispôs a olhar duas vezes para as coisas (…se souberes tratar o triunfo e o desastre como impostores que são …) e valorizar sempre o lado humano das situações. Com efeito apesar da minha formação e quase toda a minha actividade profissional, terem sido em áreas técnicas, foi justamente o olhar para as pessoas por trás da máquinas e dos papeis, o colocar-me nos seu sapatos, (…se contigo contarem mas sem de ti disporem…) o não só falar, mas acrescentar às situações,e às acções dos outros (…se souberes preencher o minuto que passa …), dizia foram todos estes valores pessoais que me ajudaram a acrescentar valor ao que vivi e, creio eu, a ser um homem. Estes meus princípios, a partir dos quais me propus a minha melhoria pessoal aquando a minha Iniciação Maçónica, levaram-me à escolha natural do meu nome simbólico.

Joseph Rudyard Kipling, nasceu em Bombaim em 1865, filho de um Maçon, John Lockwood Kipling que tinha ido para a Índia como Director Principal duma Escola de Artes. A sua infância foi infeliz e conservadora: aos 5 anos de idade Rudyard é levado pelos pais para Inglaterra para viver com uma família adoptiva, que o faz seguir para o Colégio United Services, onde faz a sua escolaridade. Acabado o colégio, regressa à Índia e logo entra como membro da redacção da revista “ Gazeta Civil e Militar” em Lahore. É aí que Kipling redescobre a sua terra natal, e se descobre começando adesenvolver sua escrita. Dizia que, depois do fecho da revista se escapulia para a zona velha da cidade para sentir o místico da atmosfera colorida e dos seus antigos, ganhando uma capacidade de absorção do histórico por osmose, que lhe permitiu interiorizar vivências de situações e sensações, matéria bruta essa que vai polir ao longo de meio século de produção literária. Na sua biografia é mencionada a Maçonaria como a via que lhe permitiu o acesso aos vários estratos da sociedade; a Maçonaria Livre era um culto que transcendia castas e sectores sociais, e era o único espaço, num país fortemente selectivo e hierarquizado, onde aderentes de diferentes religiões se podiam encontrar. A sua estadia na Índia durou até 1889, após o que regressa a Inglaterra onde se estabelece no meio literário.
Á medida que o seu génio ia sendo reconhecido, muitas honrarias lhe foram atribuídas, contudo Kipling humildemente, apenas aceita as de natureza literária, sendo em 1907 o primeiro escritor Inglês a receber o Prémio Nobel da Literatura.
A vida Maçónica de Rudyard Kipling, começa aos 20 anos de idade na Loja da Esperança e Perseverança em Lahore, onde colabora como Secretário. Mais tarde em Londres é membro honorário de várias Lojas e é membro fundador da Loja dos Construtores das Cidades Silenciosas, loja ligada à Comissão de Pedras de Túmulo que usa uma inscrição de Kipling em todos os cemitérios que ornamenta com o dizer “ que os seus nomes vivam para sempre”.
Nos Estados Unidos Kipling recebe o Laureato de Poesia em Edimburgo, onde se forma uma nova Loja, e é também membro da “ Philalethes Society”, uma organização de escritores Maçons . Encontram-se reflexos da vivência maçónica de Kipling nas principais áreas dasua obra: Poemas maçónicos, tais como, A Loja Mãe, e A Noite do Banquete; Contos baseados na maçonaria como O Homem que queria ser Rei, e os relacionados com a Loja de Fé e Trabalho; E, ainda numerosas alusões maçónicas, que decoram muitos dos seus poemas e contos, de uma forma aparentemente casual. Rudyard Kipling usou a maçonaria, como a pedra base da sabedoria das suas palavras, da beleza da sua história, e da força e assertividade das suas narrativas.
O seu mais famoso poema SE, que se diz escrito por Kipling para o seu filho, é inspirado pela sua própria vida, os seus triunfos e desastres, e as suas relações com os outros. Kipling ao escrever o poema vem assim dar-lhes sentido ao passar a seu filho as suas conclusões, saberes e ensinamentos:

Se souberes estar sereno quando todos em volta
Estão perdendo a cabeça e te lançam a culpa;
Se estiveres confiante quando de ti duvidam,
Mas souberes desculpar que duvidem de ti;
Se fores capaz de esperar sem perder a paciência
E se, caluniado, a ninguém calunias;
Se quando te odiarem não odiares também,
Sem querer ser superior nem parecer bom demais
Se tu souberes sonhar e não viver de sonhos
E se souberes pensar mas sem deixar de agir,
E puderes defrontar o Triunfo e o Desastre,
Tratando-os por igual como impostores que são;
Se suportares ouvir verdades que disseste
Torcidas por velhacos para convencer ingénuos;
Se vires desfeito aquilo para que tens vivido
E o construíres de novo com ferramentas gastas;
Se és capaz de juntar tudo que tiveres ganho
Para tudo arriscar numa cartada só,
E se souberes perder e começar de novo
Sem palavra dizer da perda que sofreste;
Se consegues que nervos, braços e coração
Te vão servindo sempre mesmo já exaustos,
E se seguires para a frente quando já não tens nada
A não ser a vontade intensa de vencer!
Se com falar às massas não perderes a virtude
E de privar com Reis não deixares de ser simples;
Se amigo ou inimigo não puderem melindrar-te;
Se contigo contarem mas sem de ti disporem;
Se souberes preencher o minuto que passa
Com sessenta segundos utilmente vividos,
É tua a Terra inteira e tudo que ela tem
E – o que é mais ainda – és um Homem meu filho!

Autor: Rudyard Kipling

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Ao princípio era o Verbo

O meu fado é alquimia de um chapéu
E de uma gabardine abandonada,
De corpo que partiu e sem morada
E ao meu veio bater três pancadas,
De quem também os óculos perdeu
E sussurrou: - Eu sou a enxada,
Que o meu corpo não enterrou
E em ti fico em última morada,
Para que grites o que não gritou;
E subas à montanha e às ameias do castelo,
E lá desveles o que só eu desvelo
A criança, Imperador deste vasto império,
Que é o verbo a que a Pátria me levou.

Autor: Jónatas

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Vianna da Motta - A Sinfonia e a Pátria

José Vianna da Motta nasceu em S.Tomé em 1868. Foi um dos maiores pianistas, pedagogo e musicógrafo do seu tempo, tendo desenvolvido uma técnica absolutamente brilhante, dando ao piano um destaque jamais atingido até então. Estudou no Conservatório de Lisboa entre 1875 e 1881, com o apoio da Casa Real Portuguesa, que também lhe concede uma bolsa para continuar os estudos em Berlim no ano de 1882. Em 1885 foi aluno de Liszt e Weimar e dois anos mais tarde trabalhou com Hans Von Bülow em Frankfurt. Em 1895 é iniciado na Loja Ave Labor nº192, fundada no mesmo ano, a Oriente do Porto com o nome simbólico “Bontempo”, em homenagem ao compositor e Maçom Português João Domingos Bontempo, de quem era admirador, tendo atingido o 3º Grau do REAA ao fim de um ano. Viveu em Berlim até ao eclodir da I Guerra Mundial em 1914. Em 1915 assumiu a regência da classe de piano do Conservatório de Genebra. Em 1919 foi nomeado Director do Conservatório de Lisboa, cargo que exerceu até ao limite de idade – 1938. Foi professor de Piano, em casa, até ao fim da vida. Incentivou desde sempre a divulgação da música, criando, entre várias iniciativas, a Sociedade de Concertos, com concertos aos Domingos para possibilitar as pessoas que trabalhavam toda a semana, pudessem ouvir música. Desde muito cedo Vianna da Motta perguntava “e não se podia arranjar bilhetes mais baratos para os estudantes?” A sua carreira de concertista foi até 1945. Em 1927 a participação de Vianna da Motta nas comemorações do Centenário da morte de Beethoven, foi considerada pela crítica Germânica como um acontecimento memorável. Morreu em 1948 em Lisboa com 80 anos de idade.

Teve vários alunos que se destacaram, como por exemplo Sequeira e Costa que começou em 1956 a organizar o Prémio Viana da Mota para jovens pianistas e que criou em 1995 a The Vianna da Motta International Foundation, organização sem fins lucrativos que gere o Viana da Motta International Music Competition, bem como a etiqueta discográfica VMF e os arquivos históricos. A Obra de Vianna da Motta tem uma grande influência de Liszt e Wagner, além do nacionalismo Russo. Escreveu música para Piano, Coral, Sinfónica, de Câmara, Canções. Mas, sem dúvida, a sua obra mais importante é a Sinfonia À Pátria em Lá Maior Op.13.
Esta Obra, mais do que reatar a via sinfónica de João Domingos Bontempo no princípio do Século XIX, é principalmente uma reacção à humilhação dos portugueses causada pelo Ultimato inglês de 1890.
Numa altura em que Portugal se encontra mergulhado num profundo atraso económico e cultural, Vianna da Motta ergue a sua voz num grito patriótico de encorajamento para que Portugal reencontre o seu esplendor. Vianna da Motta disse uma vez que “o problema da música portuguesa se solucionaria encontrando um Camões que fosse musico”.
Curiosamente foi Camões e os Lusíadas que o inspiraram na composição desta sinfonia.

Assim, o Allegro Eroico começa por:
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandioso e corrente;
Dai-me uma fuga grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito ascende e a cor ao gesto muda.
O Adagio Molto em Fá sustenido maior, transporta-nos a outro clima emocional:
Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos assim tão concerttados
Que dous mil acidentes namorados.
O Vivace, em Ré Maior, tem funções de Scherzo, exercidas com uma liberdade formal tendente ao rapsódico. Bastaram-lhe 2 versos de Camões:
Mil práticas alegres trocavam
Risos doces, subtis e argutos ditos
Aqui aproveitou duas canções populares oriundas de Viseu – As Peneiras e da Figueira da Foz – O Folgadinho. Outro tema que serve também de musette é a invenção de Viana da Mota, que parece também recolhido de um cancioneiro. O último andamento – Andande Lugrube- Allegro Agitato, é o que reflecte a influência de Lszt. Começa por exprimir a “decadência” da:
(…) Pátria - que está metida
(…) há rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza
Mas evoca também “a luta” e antevê o” Ressurgimento”. Os temas do Allegro inicial, incluindo o mais marcial, servem à preparação e à arquitectura do majestoso conclusivo, à optimista antevisão de un “ressurgimento” Este Quarto Andamento Andante Lúgubre – Allegro Agitato/ Decadência – Luta – Ressurgimento, é uma estrutura perfeita, Maçónica, Triangular – A Ordem saída do Caos da Decadência, Ressurgindo através da Luta.

Pátria (do Latim “patris”, terra paterna) indica a terra natal ou adoptiva de um ser humano, que se sente ligado por vínculos afectivos, culturais, valores e história. Este conceito, tem sido usado pelo poder político para manipular as massas de uma maneira obtusa, para melhor servir os seus intentos, recorrendo à opressão e à humilhação levando à ignorância e à revolta interior com essa “pátria”, passando por cima dos conceitos mais Nobres de Unidade Nacional, que nada têm a ver com o nosso triste passado Salazarento e outros de triste memória.
Neste momento não nos interessa analisar o Ultimato Inglês. Não está em causa o Império. Provavelmente, na altura também o mais importante seria a atitude dos “Bretões”, com quem tínhamos uma tão antiga aliança. É neste ano de 1890 - que Alfredo Keil compõe A Portuguesa (com letra de Henrique Lopes de Mendonça), inspirado na força da Marselhesa e no Fado Português. Foi também um grito de revolta contra o Ultimato, adoptado pelos Republicanos e proibido pela Monarquia. A letra na altura era diferente – dizia “contra os bretões” e quando foi adoptado como Hino Nacional após 1910, passou a dizer “contra os canhões”. Alteração óbvia…

Voltando à Sinfonia À Pátria de Vianna da Motta, é estranho como é tão pouco conhecida do público português. Há algumas biografias do autor em que é visto como grande Pianista e Pedagogo, mal se falando da sua obra. Realmente deixou de compor muito cedo, por volta dos 30 anos, por se incompatibilizar com os “modernos”, mas toda a sua obra é admirável. Esta extraordinária Sinfonia já foi ouvida e aplaudida por todo o Mundo. Aqui, na Pátria que lhe cabe, muito pouco. Será o nosso instinto de expansão? Dar novos Mundos ao Mundo e deixar “a casa desarrumada”? Não foi essa a intenção de Viana da Mota quando, que depois de tanto sucesso “lá fora” decide vir “para casa” contribuir para o ensino da música em Portugal. Espantou muita gente é certo, mas como bom e Leal Maçom, usou o Génio em prol da Humanidade, neste caso da sua Pátria.

Autor: José Francisco Esteves

Obras Consultadas: A Sinfonia em Portugal – Alexandre Delgado; Dicionário da Maçonaria Portuguesa de A.H. de Oliveira Marques
Documentários: Viana da Mota por Barahona Fernandes, Fontes do Som por António Vitorino de Almeida, Notas sobre a Sinfonia À Pátria por João de Freitas Branco.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A Maçonaria e a Implantação da República

O Livro "A Maçonaria e a Implantação da República" reúne documentos inéditos. 
O esboço da disposição à volta da mesa dos participantes da reunião secreta entre responsáveis das estruturas legais e clandestinas do movimento revolucionário, a 29 de Setembro de 1910, é um dos documentos inéditos reunidos no livro ‘A Maçonaria e a Implantação da República’. Desconhece-se contudo o que foi decidido no encontro. Nunca se saberá se as deliberações estavam nos papéis que o médico psiquiatra Miguel Bombarda queimou logo após ser ferido por quatro tiros disparados por um tenente de Infantaria e seu antigo doente mental, na manhã do dia 3 de Outubro 1910. O revolucionário que estaria encarregue da coordenação das acções civis faleceu naquele mesmo dia, mas a República venceu, faz amanhã 99 anos.
O ano centenário da República em Portugal deverá divulgar muitos aspectos inéditos da sua história mal conhecida. O livro, editado em parceria pela Fundação Mário Soares e o Grémio Lusitano, constitui um primeiro passo a par da exposição ‘Quem fez a República’, que será inaugurada na sede da Fundação Mário Soares, em São Bento, Lisboa, e se destina a fazer itinerância pelo País a partir de Janeiro de 2010.
Os documentos inéditos do livro prefaciado conjuntamente por Mário Soares e António Reis, Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano, foram reunidos e anotados por Simões Raposo Júnior, que os manteve durante muitos anos resguardados fora de Lisboa. Foi ele quem fez o esboço da reunião realizada na sede do Directório do Partido Republicano Português.
Pela localização feita no documento (2º andar do prédio de esquina da rua Serpa Pinto com o largo de S. Carlos, “duas últimas sacadas”), identifica-se o prédio onde no 4º andar nascera a 13 de Junho de 1888 o poeta Fernando Pessoa e, actualmente, é inteiramente ocupado pela sociedade ABBC Advogados, de Azevedo Neves, Benjamim Mendes, Bessa Monteiro, Carvalho & Associados.
De antes da reunião para planear a revolução data o concertar dos grupos revolucionários. Machado dos Santos e António Maria da Silva, ambos presentes na reunião, eram elementos da Carbonária e também membros da comissão de resistência da maçonaria. Significativas são ainda as cartas de apoio à República que aparecem no livro como respostas das lojas maçónicas a uma circular secreta enviada a toda a estrutura em Junho de 1910.
Quem é quem na reunião do DirectórioNo documento inédito estão os nomes dos presentes e também dos responsáveis pelas estruturas revolucionárias. A lista inclui Simões Raposo, da Comissão de Resistência da Maçonaria; Machado Santos, da Comissão de Resistência, representava o grão-mestre adjunto da Maçonaria, José de Castro, no estrangeiro; José Cordeiro Júnior, da Comissão de Resistência; António Maria da Silva, da Venda-Jovem Portugal , integrou a Comissão de Resistência como representante das organizações civis revolucionárias; José Barbosa, do Directório do PRP; Inocêncio Camacho, secretário substituto, na efectividade, do Directório do PRP, eleito em 2009; almirante Cândido dos Reis, da Direcção Revolucionária; Manuel Martins Cardoso, da Loja Acácia e Comissão de Resistência; dr. Eusébio Leão, secretário do Directório do PRP; José Relvas, membro efectivo do Directório do PRP e representante do grão-mestre Magalhães Lima; dr. Miguel Bombarda, da Comissão de Resistência e da Direcção Revolucionária, representava António José de Almeida, ausente por doença.
Documentos destruidos antes da morteO 5 de Outubro sofreu com a morte do psiquiatra Miguel Bombarda, que devia coordenar a acção dos civis. No dia 3, foi varado por quatro balas de pistola disparadas pelo tenente de Infantaria e doente mental Aparício Rebelo.
Antes de ser levado para o Hospital de São José queimou alguns papéis que tinha da reunião com Simões Raposo.
Número de Maçons subiu muito entre 1906 E 1910António Lopes, Museu Maçónico afirma que "O número de maçons aumentou continuamente entre 1906 e 1910, fruto da estratégia de multiplicação de Lojas, incentivada pelo Grande Oriente Lusitano Unido. Se em 1906 existem 85 Lojas registadas, em 1910 o seu número ascende a 153, às quais se juntam 82 Triângulos".

Livro recomendado a ler, consultar e guardar, pela importância dos documentos publicados e na contribuição para fazer e interpretar a história da implantação da República.

Autor: Grémio Estrela D'Alva

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sabedoria e humildade

Para os maçons há alguns valores absolutamente fundamentais e que são de todos bem conhecidos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade. No entanto, relacionados em maior ou menor grau com estes, há outros valores que se revestem também de grande importância. Refiro-me a ideais tão belos como a Paz, a Justiça e a Tolerância.
Para os que abraçam os ideais maçónicos, estes conceitos correspondem a valores que o são por si mesmos, ou seja, que não resultam de qualquer dogma, princípio religioso ou corrente filosófica. É de facto notável, mas a Maçonaria permite adquirir valores espirituais sem requerer uma adesão a qualquer crença.
A Maçonaria, uma vez que aceita no seu seio pessoas das mais diversas crenças, incluindo as «não crenças», não poderá ser considerada uma religião, pelo que para ela os grandes ideais da humanidade são valores por direito próprio e a sua realização algo absolutamente necessário à felicidade das pessoas. Os maçons não defendem esses valores para colher quaisquer benefícios terrenos ou celestiais, mas porque os consideram como inerentes à condição humana. Não tenho dúvidas de que quando alguém toma consciência de que todas as pessoas têm os mesmos direitos, independentemente da raça, do sexo, da crença ou dos bens materiais de cada um, a prática dessas virtudes torna-se algo tão natural como respirar.
A ideia mestra em que assenta a Maçonaria é de facto extraordinária. Na sua raiz está a união das pessoas livres e de bons costumes. No seu método de trabalho há diversos rituais e um grande número de simbolismos e alegorias. O resultado final é a indicação da direcção dos grandes valores da humanidade e a sua busca permanente e incessante.

O facto de a Maçonaria ser uma organização iniciática onde se faz uma aprendizagem lenta e gradual baseada no estudo, na meditação e no convívio entre os Irmãos e possuir uma estrutura hierarquizada, mas que globalmente não tem um “chefe supremo” ou um “mentor” pois há um grande número de Obediências independentes, permite-lhe proporcionar aos seus membros uma preparação mais sólida e um aperfeiçoamento contínuo.
De facto, a primeira tarefa do maçon é a construção do seu próprio «eu» enquanto obreiro de uma causa que não conhece fronteiras. Essa tarefa significa que o maçon deve preocupar-se não só em estudar para aumentar os seus conhecimentos e meditar para os interiorizar, como também tomar consciência dos males do meio em que está inserido e procurar combatê-los com as ferramentas que a sua aprendizagem lhe vai proporcionando. Por outras palavras, o maçon deve procurar desempenhar com a maior das correcções o papel que a sua vida em sociedade lhe impõe. Ao fazê-lo já estará a melhorar o mundo.
Mas em momento algum deverá considerar-se perfeito e menos ainda um sábio seja lá do que for, pois nunca ninguém sabe tudo e a sabedoria é um pilar fundamental desse nosso aperfeiçoamento. Por pouco que seja, será sempre possível melhorá-lo.
Mais, o maçon também nunca deverá sentir-se orgulhoso dos seus progressos ou dos seus conhecimentos, pois se tal lhe acontecer demonstra uma enorme fragilidade do seu espírito maçónico e que dá valor ao que é secundário. A vaidade e o orgulho cegam-nos e impedem-nos de corrigir as nossas falhas. A ausência de modéstia é sinal de que algo está mal na preparação de um maçon e a arrogância está nos antípodas do espírito maçónico.
Só depois de minimamente consolidada essa construção “interior” o maçon estará apto a unir de forma útil os seus esforços aos dos outros Irmãos na interminável luta pelo bem comum, ou seja, pelos grandes ideais da Humanidade.

Autor: Carl Sagan

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Silêncio

Silêncio ...
Silêncio que vem
Do trono de Salomão,
Silêncio de Rei ...

Silêncio ...
Silêncio da palavra perdida,
Rio sem margens,
Choro do Além ...

Silêncio ...
Silêncio dos impossíveis
Que nos corre dos dedos,
Que nos corre dos medos.

Silêncio ...
Silêncio do amor e da morte
Renascido das cinzas.

Silêncio ...
Silêncio Paixão
Rosa de flor,
Cruz de Redentor ...

Silêncio ...
Silêncio de poeta,
Hermético, alquímico,
Silêncio ao rubro.

Silêncio ...
Silêncio de Cadeia de União,
Silêncio Irmão,
De S. João de Inverno
De S. João de Verão.

Autor: Jónatas

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Quem Somos?

Os meus voos pela Maçonaria continuam, agora sustentados pelo aprendizado e reforçados pela solidariedade que nos une. Foi-me confiado um novo voo, o voo pelo sentimento de solidariedade, o voo que só agora tive capacidade para fazer, uma vez que consegui libertar-me de determinados vínculos que o poderiam por risco. Neste voo, na procura de respostas para “Quem somos?” sou orientado pela igualdade e para tal foi me ensinado o uso da alavanca e da régua, só assim e agregado ao uso do malho, do cinzel e do esquadro será possível continuar o meu percurso pelo sentimento da fraternidade. Tornei-me num obreiro da inteligência construtora, resultado de um aprendizado fiel e perseverante e assim parti para este voo, com o espírito de eterno aprendiz e mantendo sempre presente os deveres e responsabilidades que não deixo de cumprir e que se somaram à minha nova condição, sendo fruto do meu crescimento. Sinto-me capaz de começar agora, cresci, e começo a relacionar os elementos do conhecimento como, a Geometria, a Geração, a Gravidade, o Génio, a Gnose bem como a Luz do centro da loja em que fui aceite.
No meu percurso pelo estudo da Maçonaria Moderna, descobri as nossas origens ”de onde viemos” que me prepararam para saber “Quem somos?”, o meu voo é iluminado por uma luz suave, uma luz que não tem irradiações resplandecentes e nem um poder iluminativo igual ao do sol, e por um compromisso fiel à Vida. Assim, e suportado pelos raios dessa luz, cultivo o meu próprio génio sem nunca me esquecer, que o uso que lhe der poderá conduzir-me à liberação do Espírito ou a Escravidão da Matéria. “Quem somos?”, está sempre presente na minha trajectória e sob o tríplice aspecto de “produto da evolução da natureza”, de “ser individual dotado de auto-consciência e razão” e de “expressão ou manifestação directa da Vida única, para a qual tende constantemente com seu progresso” o que me vai permitir voar com todas as preocupações e estudos necessários ao meu crescimento.

Esta viagem enigmática tem que ser feita pelo meu Eu interior e leva-me ao estudo das propriedades dos números, e agora na minha rota tenho novos número, novos símbolos, novos caminhos para descobrir. Entro assim no reino da experiência do sensível através dos vários elementos que se cruzam no microcosmos, macrocosmos e na essência, e voo orientado pelo o fogo, pelo ar, pela terra e pela água. O Fogo ilumina o Oriente; o Ar o Ocidente; a Terra o Sul e a Água o Norte, tornam-se na minha ferramenta de orientação e delimita e constitui toda a natureza e essência do meu voo. Aprendi neste voo, que esta ferramenta relacionam-se não só com a matéria mas também com a essência, o Fogo com a vontade e com a imaginação, o Ar com o pensamento, como juízo e com a reflexão, a Água com o sentimento, com a emoção e com a sensação e a Terra, por fim, com a percepção, com o sentido prático e com a acção. Sou assim orientado neste meu voo e apoiado nas decisões que devo tomar e nas rotas que devo seguir. Nesta trajectória e com todo o apoio que me é facultado, sou orientado assim, para um elemento, um elemento superior aos anteriores e com ele é me permitido voar para um novo estágio, ou seja, do domínio da matéria ao da Vida e da Inteligência.

Aprendi que pela obra deste elemento, segundo o Gênesis, apareceram os animais sobre a terra, a razão da existência e que tudo o que me apoia neste voo advém dele. Ao deparar com ele descobri, que este é o ponto de intercessão dos dois Princípios ou elementos primordiais, que levam na simbologia hermética o nome do Sol e da Lua e torna-se no ponto de origem dos elementos ordinários que se tornaram nas ferramentas que me ajudam nesta viagem e me fazem crescer. Voei e cresci, agora sei a razão, o porquê, as ferramentas que me foram dadas acrescidas à energia do Homem e aos sentidos dão sentido ao meu voo e orientam-me as rotas que devo seguir.

O voo que me esforço por conseguir dota-me de alguma audácia e por isso sou tentado a responder à pergunta que me fez inciar este voo (Quem somos?). Essa pergunta leva-me a olhar para trás e faz-me sentir mais que nunca como um eterno aprendiz, pois “somos homens livres e de bons costumes …” somos Maçons.
Como resultado disso gostaria de partilhar com todos, e no fundo também como forma de agradecimento por tudo o que senti, que sinto e vivo no nosso templo maçónico, além do privilégio de ter a possibilidade de poder crescer como ser humano. Desta forma, cito um pequeno texto que expressa o que me vai na alma e que faz parte de todos nós: “Templo Maçônico é a atmosfera de amor, de verdade e de justiça formada pela união de corações ávidos das mesmas esperanças sequiosos de idênticas aspirações porque sem esse isocronismo de acção, sem essa elevação, poderá haver quando muito, grupos de homens, nunca porém Maçonaria”.

Autor: Ícaro

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Thomas Arne - Nome Simbólico

Thomas Arne nasceu no seio de uma família de estofadores, em Londres, em Março de l710 e morreu na mesma cidade em 5 de Março de 1778. Thomas Augustine Arne teve uma educação católica e, para agradar à sua mãe, uma devota senhora, escolheu, ainda em criança, o seu segundo nome: Augustine. Católico, apaixonado desde muito cedo pelas Musas de Orfeu, venceu o desejo do seu Pai, que queria ele seguisse advocacia, motivo por que o Pai o pôs a estudar em Eton. No início da sua carreira debateu-se com algumas dificuldades por não poder exercer cargos musicais na Igreja Anglicana, cargos que abriam sempre, como também na Igreja Católica, noutros países, evidentemente, muitas portas. Mas, neste caso, estamos perante a tolerância dos inventores do liberalismo… Homem dedicado, rebelde, perseverante e até precipitado por vezes, venceu. Triunfou, e triunfou merecidamente! Rodeou-se de figuras da música e usou, se assim se pode dizer, a sua família. Ensinou canto à sua irmã Susannah, que veio a ser um célebre contralto e ao seu jovem irmão Richard, os quais cantaram em muitas das suas obras.
Em 1734 Susannah casou-se com o dramaturgo Theophilus Cibber, razão por que, enquanto cantora, ficou conhecida pelo nome de Mrs Cibber. Em 1737, Arne casou-se com Cecilia Young, uma cantora famosa, um soprano, que cantara muitas vezes nos elencos händelianos. Durante os dez anos que se seguiram ao casamento, Cecilia cantou nas óperas do seu marido. Como se pode ver, o nosso homem rodeou-se de talentos musicais e teatrais.

Um nota curiosa deste ambiente artístico do século XVIII. Susannah, a irmã de Thomas Arne, separou-se do marido, fugindo com outro homem, alegando que o marido a tratava mal, e o nosso homem também se separou, legalmente, da sua mulher Cecilia, alegando que ela endoidecera. Esta, por seu turno, alegou que ele tinha constantes relações extra-matrimoniais. Arne pagou-lhe uma razoável pensão…, às vezes! Ela teve de recorrer. Depois da separação, Thomas começou uma relação com uma jovem aluna de canto, Charlotte Brent, também um soprano. Parecem tempos modernos. O século XVIII foi um século, realmente, iluminado, o século do Aufklärung, “à frente”, como diriam hoje os jovens, isto sem estar a promover a separação. Aliás, no último ano da vida de Arne, ele e a mulher reconciliaram-se, mas O Tempo, essa figura mitológica, muito ao gosto do classicismo, não deixou que ficassem juntos mais anos. Foi apenas uma nota para dar o tom da época.

Em 1738, Arne, já no auge da carreira, foi um dos membros fundadores da Society of Musicians, mais tarde chamada Royal Society, juntamente com Händel, com William Boyce, e com Johann Christoph Pepusch.
Entre muitas outras, a ópera Alfred, de 1753, anteriormente, uma máscara estreada em 1740 para o Príncipe de Gales, Frederick e, posteriormente, em 1745, tocada em versão de oratória, foca a figura do Rei Alfred, rei do século IX, que combateu os invasores Dinamarqueses…, os Vikings. Patriotismo? Referência à Maçonaria “renascida”, “rejuvenescida” nas Ilhas Britânicas? A música, a literatura e o teatro serviram sempre de veículo de cifras que, de outro modo, não poderiam ser difundidas. Dois séculos antes, o próprio Shakespeare…

Escutemos o final da ópera Alfred, de Thomas Arne. Temos um coro, pelo conjunto dos cantores, intercalado com solos.
Pois é, é o Rule, Britannia, na sua versão original, composto sobre o texto do poeta e dramaturgo escocês James Thomson. De uma graciosidade virtusosa que só os ingleses conseguem na música, não? Embora Thomas Arne tenha adoptado algumas regras da ópera séria italiana, foi, juntamente com William Boyce, um dos expoentes máximos da música britânica deste século XVIII. E Arne fez história, nem que fosse apenas pelo Rule Britannia…
Não se confunda este belo coro e solos com o Hino Nacional Britânico, o God Save the Queen, ou… the King, consoante as circunstâncias…
Os segmentos instrumentais revelam-nos uma graciosidade, um raffinement, que não é aquele a que estamos habituados quando escutamos o Rule, Britannia! A versão difundida, por exemplo nos Concertos Prom, no Royal Albert Hall, é uma versão patrioteira, mas não patriota, do nacionalista século XIX e, por isso, berrada e medonha… Arne compô-la como ouvimos, com ligeireza e graça. Em primeiro lugar, é o gosto do elegante século XVIII, já a caminho do rococó, em segundo lugar, Thomas Arne queria exaltar o povo britânico, mas como…? Arne foi uma Maçon e esta ópera, na sua primeira versão de 1740, a de uma Máscara intitulada Alhtred, foi, como acima referido, encomendada por Frederico, Príncipe de Gales, ele também um Maçon. Que possíveis conclusões podemos, então, tirar do Rule, Britannia, Britannia Rule the waves, Britons never, ever, ever shall be slaves. Na versão que escutámos, em vez de shall, como escrito no poema, ouvimos will. Quem serão estes livres homens que nunca se deixarão escravizar? Os britânicos, com certeza, mas numa referência aos Maçons em geral? Muito possivelmente. Daí também a necessidade da harmonia…
Artaxerxes, “An English Opera”, como foi anunciada na estreia de 1762, foi talvez a ópera que ficou na História, como sendo a sua melhor obra, mas convém lembrar que muitas delas perderam-se ou chegaram até nós incompletas. A dada altura, Artaxerxes, príncipe e, mais tarde, Rei da Pérsia, canta uma ária que começa com o seguinte verso: “Mesmo que uma nuvem convidativa esconda o Sol, ele está lá presente, com as suas chamas!”

Arne ficou conhecido também pelo nome de Doctor Arne porque, em 1759, a Universidade de Oxford concedeu-lhe o título de Doctor of Music, daí muitos panfletos terem anunciado concertos seus do seguinte modo: “Dr. Arne at Vauxhall Gardens,” um dos jardins onde se tocavam concertos no Verão e para o qual Thomas Arne foi o compositor oficial desde 1745, com algumas interrupções. As classes médias consolidavam os seus haveres e instalavam-se confortavelmente. Passeavam pelos jardins (parece que os Verões nessa altura eram melhores em Londres…) e iam aos concertos pelo fresco da tarde. Parece agradável!
Thomas Arne, enquanto homem livre e consciente, foi um dos primeiros homens a bater-se pelos Direitos de Autor. Em 1741, data do nascimento do seu filho Michael, o único que viria a ter, Thomas Arne ao pôr um processo em tribunal anunciou, e citamos: “Dado que Mr Arne tem, de Sua Majestade, registada a Real Patente para imprimir e publicar as suas obras, humildemente agradece que nenhuma Senhora ou nenhum Cavalheiro encorajem cópias piratas” sic e continua, mais adiante: “E como o Mr Arne está longe de querer ofender, nos seus legítimos direitos, seja que dono de loja for, torna público que quem plagiar ou imprimir as suas obras, será processado segundo a Lei”. Homem de fibra!

Para finalizar, devo explicar as razões pelas quais escolhi este nome simbólico, o gosto pela música de Thomas Arne, foi, sem dúvida, uma delas; o facto de ele ter sido um freemason, com certeza, mas, talvez, e sobretudo, o facto de se ter batido firmemente pela defesa dos Direitos de Autor porque se existe uma Catedral em que todos nós, em conjunto, anonimamente, trabalhamos, há uma outra, que é o nosso próprio templo e esse tem nome, devemos protegê-lo.

Autor: Thomas Arne

terça-feira, 1 de setembro de 2009

O Olho e a Visão

O Sol lança no espaço muitos milhões de fotões por segundo, uma parte dos quais atinge a Terra, atravessa a atmosfera e ilumina a sua superfície. Seria de grande utilidade para os seres vivos que habitavam a Terra primitiva desenvolver detectores dessa Luz que lhes permitissem localizar predadores e presas à distância, ou evitar obstáculos e moverem-se mais depressa. Foi o que o ramo animal dos seres vivos fez: a certa altura, no lento processo da evolução, os olhos foram “inventados”. Conhecemos cerca de nove tipos de soluções diferentes para a visão e podemos agrupá-los, pela sua arquitectura óptica, em olhos tipo câmara, como os nossos, ou olhos compostos, como nos insectos.
Nos olhos tipo câmara, a luz passa por um orifício de pequenas dimensões e as imagens formam-se na parede oposta, sem grande definição. Este sistema, designado por "pinhole" e é usado nas câmaras fotográficas. Ver com mais pormenor e de modo mais rápido implica o alargamento do orifício por onde a luz entra, mas também o desenvolvimento de lentes que fazem convergir os raios de luz e permitem a formação de imagens nítidas nos olhos tipo câmara. Uma solução completamente diferente para a visão encontrada pelos seres vivos é a dos olhos compostos, como nos insectos, crustáceos e alguns moluscos. Os trilobites, compreendendo um vasto grupo de animais há muito extinto, também possuíam olhos compostos, bem como o Anomalocaris, um gigante predador dos mares do Câmbrico (há 540 milhões de anos).
Os olhos compostos, são formados por centenas de pequenas unidades fotoreceptoras, os omatídeos, que captam individualmente uma pequena parte da imagem que está à sua frente. O grau de nitidez da imagem obtida depende do número de omatídeos presentes. Com menos de 100, mal conseguem distinguir as formas dos objectos. Mas, uma libelinha pode ter 30 mil omatídeos, o que faz dela uma espécie de águia dos insectos.
O olho humano, tipo câmara, possui um pequeno orifício, a pupila que aumenta ou diminui de diâmetro deixando passar mais ou menos luz. Os raios de luz atravessam o cristalino (a lente do olho) de modo a fazer convergir os raios de luz no fundo do olho e formar uma imagem nítida, embora invertida. O fundo do olho é revestido pela retina onde existem 15 a 20 milhões de células fotoreceptoras.
Os cones e os bastonetes, estas células absorvem fotões de luz (informação electromagnética) que convertem em informação química e impulsos eléctricos. Nestas células da retina existe uma proteína, a rodopsina, que possui no seu centro uma molécula, o 11-cis-retinal. Esta molécula muda de estrutura tridimensional quando é excitada por um único fotão e neste estado excitado passa a designar-se por All-trans-retinal. Em qualquer dos estados, esta molécula está ligada à proteína rodopsina. A absorção de só um fotão pelo 11-cis-retinal provoca uma alteração na estrutura tridimensional da rodopsina, que é suficiente para desencadear uma cascata de reacções bioquímicas que levam à variação de 1 mV no estado eléctrico da membrana celular.
Na essência, um fotão é convertido em movimento atómico, o que altera transitoriamente a polaridade eléctrica de uma membrana celular. Esta informação é transmitida ao cérebro através de impulsos eléctricos que lhe permitem ‘perceber’ a captação de luz proveniente do exterior do corpo. Todos os impulsos eléctricos gerados na retina, são reunidos no disco óptico onde está implantando o nervo óptico responsável por levar essa informação até ao cérebro.

Mas a visão não se resume à captação da luz pelo Olho. O olho é um órgão adaptado a essa função, permitindo a formação de imagens da paisagem exterior na retina. Esta reage à luz e desencadeia uma cascata de eventos moleculares que transmitem a informação sensorial até ao cérebro. Neste, uma série de processos como a memória e o reconhecimento, integram a informação e dão-nos uma imagem completa do exterior. Afinal, precisamos do cérebro para ver. O cérebro tem um grande papel na integração e compreensão da sensação visual que nos chega do exterior. Ao receber os impulsos eléctricos da retina através do nervo óptico, o cérebro procede à integração dessa informação. A reconstrução da imagem visual do mundo exterior é um processo complexo no qual o reconhecimento de formas e a memória têm um papel decisivo. Aliás, enquanto sonhamos, somos capazes de produzir imagens que os nossos olhos nunca viram, fruto da capacidade do cérebro em as construir.
É que o mundo que nos rodeia existe mesmo quando não o conseguimos ver por falta de luz. Sabemos que na penumbra os nossos olhos têm muita dificuldade em distinguir objectos. Por outro lado, uma deficiência visual pode impedir a visão dos objectos, mesmo na presença de luz. Por isso o cérebro reconstrói as imagens que lhe chegam. Por exemplo, existe uma zona na retina, o “ponto cego”, que não possui células fotoreceptoras.
A parte da imagem que aí é projectada pelo cristalino não é transferida ao cérebro, mas, este consegue reconstruir essa informação em falta de forma a podermos ver o mundo que nos rodeia sem “interrupções". Os nossos olhos não permitem a captação da radiação ultra-violeta (U-V). No entanto, as flores evoluíram por haver animais com olhos, especialmente insectos, que permitem a polinização entre plantas diferentes, ao transportarem os grãos de pólen de umas flores para outras.

A coevolução entre os insectos e as plantas com flores é uma história fantástica, se não houvesse insectos talvez não existissem flores, pelo menos como as conhecemos! Aquilo que aos nossos olhos se apresenta como uma pétala amarela pode possuir um padrão colorido muito mais rico e estruturado para um insecto que “vê” radiação U-V. Esta capacidade faz com que os insectos vejam “jardins ultravioletas”, como Richard Dawkins os chamou. Também as aves vêem no U-V e isto permite-lhes reconhecer outros padrões e distinguir entre dois indivíduos que aparentam cores semelhantes aos olhos Humanos, assim, nem todos os corvos são pretos para os outros corvos!

Autor: Charles Darwin

terça-feira, 21 de julho de 2009

Violenta colisão com Júpiter

É a segunda vez que é detectada uma colisão num planeta de grandes dimensões.
Júpiter foi atingido este fim-de-semana por um grande corpo celeste – um cometa ou astróide ainda por identificar. A fenda aberta à superfície tem milhares de quilómetros, mas não deixa de ser uma pequena mancha face ao tamanho do gigante vermelho, que é 2,5 vezes maior que todos os outros planetas do sistema solar juntos. Segundo o astrónomo Leigh Fletcher, do Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, em Pasadena, Califórnia, a fenda aberta deverá ter as dimensões da Terra. Sobre o tamanho do objecto que atingiu Júpiter ainda não há qualquer informação, disse Carolina Carnalla Martinez, também do laboratório. De acordo com os cientistas, o mais provável é ter-se tratado de um cometa. A observação volta a chamar a atenção para a importância dos astrónomos amadores. Anthony Wesley, um amador australiano, estava a fazer observações rotineiras de Júpiter no domingo à noite quando percebeu uma mancha com vários milhares de quilómetros na região do pólo sul do planeta. Como podia tratar-se de uma tempestade, manteve o telescópio apontado àquela direcção durante mais 15 minutos – o suficiente para suspeitar de um impacto. Sem saber, fez com um telescópio de 37 centímetros (os profissionais têm no mínimo 10 metros) aquilo que poderia ter passado ao lado da NASA. De Murrumbateman, na Austrália, contactou o Laboratório de Propulsão a Jacto da NASA, em Pasadena, Califórnia. "Nunca esperei ver nada assim", comentou o astrónomo Leigh Fletcher. Depois de receberem o alerta, e como tinham uma observação marcada no telescópio de infravermelhos do Havai, que é controlado a partir de Pasadena, os cientistas da NASA puderam confirmar a colisão. Segundo o astrónomo Glenn Orton, o impacto pode ser considerado de média dimensão e é semelhante ao observado em 1994 também em Júpiter. Na altura, foi publicado na revista científica “Science”, 21 fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 abriram uma fenda gigante à superfície.
Os cientistas acreditam que as grandes extinções na Terra, de que é mais conhecido o fim da era dos dinossauros, possam ter sido desencadeadas pelo embate de cometas. O maior terá acontecido há 251 milhões de anos e levou ao desaparecimento de 90 por cento das espécies marinhas e 70 dos vertebrados terrestres.

Autor: Carl Sagan