Pranchas





----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Intervenção de António Arnaut na Homenagem Prestada na Sua Terra Natal - Penela



Saúdo-vos a todos e a cada um desta forma cordial, assim vos igualando na minha estima e apreço.
É meu dever, no termo deste almoço de confraternização, dirigir-vos breves palavras para os agradecimentos devidos, as explicações convenientes e para uma reflexão necessária.
Estou muito agradecido a todos: aos obreiros do Jornal Região do Castelo que tomaram a iniciativa deste convívio, à Câmara Municipal de Penela, que a patrocinou e a todos vós, amigos, companheiros e camaradas, que vieram de perto ou de longe para me manifestarem a vossa estima e me oferecerem o ouro da vossa amizade. Não esquecerei este momento alto da minha vida, porque considero a amizade uma verdadeira virtude cívica, tanto mais valiosa e reconfortante por vivermos um tempo sáfaro de afectos. Guardarei como um tesouro a memória e a honra da vossa presença, e o calor sincero que me transmitiram, que me vai ajudar a viver o tempo futuro, apesar das sombras que o habitam. 
Agradeço ainda aos que me dirigiram palavras de saudação e apreço, quer hoje aqui, de viva voz, quer através de textos publicados no suplemento do nosso jornal, coordenado pelo Joaquim Almeida, que muito me sensibilizaram e que um elementar dever de comovida gratidão me impõe referir: do Senhor Presidente da República, Professor Aníbal Cavaco Silva, não apenas pelas referencias generosas que me faz, mas pela valia humanista que reconhece ao Serviço Nacional de Saúde. “Graças a ele - escreve o nosso Presidente – milhares de vidas se ganharam, milhões de seres humanos beneficiaram de mais e melhores cuidados de saúde, em condições de justiça e igualdade”. E acrescento: “ a justiça representa, de facto, o pilar essencial do SNS”. Refiro também, com igual gratidão, os depoimentos de Mário Soares, Vasco Lourenço, António José Seguro, Fernando Lima, Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, Paulo Júlio, António Alves e Alfredo Curcialeiro, Presidente da Junta de Freguesia da Cumeeira. Agradeço finalmente aos que, com a sua arte, deram a este encontro um cunho cultural, a Kumituna, da Cumieira, aos que recitaram poemas meus, Carlos Carranca e Palmira Pedro, aos que me enviaram mensagens de saudação, António Costa, Maria de Belém, José Miguel Júdice e Costa Andrade, entre muitos outros, aos que trabalharam para que tantos amigos aqui se pudessem reunir e confraternizar. Muito obrigado a todos. A gratidão é também uma virtude cívica e eu sou um cidadão que procura não desmerecer da amizade que lhe é tributada. 
Depois de cumprir este dever elementar, quero dar-vos uma explicação por ter aceitado a vossa manifestação pública de apreço, a qual, acreditem, não se coaduna bem com a minha personalidade simples e despretensiosa. Primeiro recusei, mas a teimosia da Palmira Pedro venceu a minha modéstia. Tenho, contudo, uma atenuante: foi-me dito que seria um almoço de âmbito local, quase em família, entre conterrâneos. Fui sensível ao apelo da raiz e pensei que, sendo assim, era uma descortesia recusar. Equacionei a questão e conclui – perdoem a franqueza – que talvez merecesse este almoço festivo. Festivo porque partilhamos o pão, o vinho e a alegria de estarmos juntos. Nasci numa aldeia deste Concelho, amo a minha terra e a minha Pátria, fiz por elas tudo quanto pude, desempenhei honradamente cargos locais e nacionais e tive sempre na minha mente o bem do povo a que me orgulho de pertencer. Foi pelo povo, personificado na gente da minha aldeia e da minha freguesia, e por solidariedade ao seu atávico sofrimento, que me lancei na empresa da criação do Serviço Nacional de Saúde e me tenho empenhado na sua defesa, para que todos, independentemente da sua condição económica e social, tivessem acesso a um bem tão precioso e, ao menos, fossem iguais perante a doença, que era a maior calamidade que podia atingir os pobres, então indefesos e desprotegidos.

Mas o mais importante para mim não é o meu currículo profissional, político ou literário, os três caminhos onde gastei a minha vida e que aqui foram evidenciados por vários oradores. O que conta, verdadeiramente, quando já se vislumbra o fim da caminhada, é poder dizer-vos com total sinceridade, que tenho uma vida limpa e que, voluntariamente, nunca fiz mal a ninguém. Acrescento que sempre fiz aos outros o bem que pude, porque os considero o reverso do meu anverso, ou seja, parte da Humanidade, onde me integro e resumo. Sempre me assumi orgulhosamente homem do povo, filho e neto de pequenos proprietários rurais e artesãos. Posso garantir-vos, sem vaidade, que nunca traí a minha origem. Estive sempre, e continuarei a estar, ao lado dos fracos e oprimidos. Nunca me deixei seduzir pela ilusão das riquezas e pela vanglória do poder. Agi sempre de acordo com as minhas convicções: sou republicano, democrata, socialista e maçon, mas acima de tudo sou português e patriota. Por isso tenho lutado, desde a juventude, por uma sociedade mais livre, mais justa e fraterna, onde a riqueza de uns não seja obtida à custa da pobreza de outros, e onde todos tenham a mesma dignidade e a mesma capacidade de fruição dos direitos humanos fundamentais. Aprendi com Miguel Torga e Fernando Vale que é muito alto o preço de ser livre, autêntico e solidário num tempo onde campeia o servilismo, a hipocrisia e o egoísmo.  
Ponderando estas circunstâncias e pensando que os meus pais, a quem devo o que sou, por me terem ensinado o valor da honra e o sentido do dever, haveriam de gostar deste convívio, acedi à generosa iniciativa dos meus conterrâneos do Concelho de Penela, donde me chamam as vozes avoengas do sangue e da saudade da infância. 
Parafraseando Novalis e Saramago, e refletindo nas encruzilhadas da vida, concluo: ande o homem por onde andar, acabará sempre por voltar a casa, porque é o único lugar onde nos esperam. E agora aqui estou diante de vós, a disfarçar a minha comoção e a lembrar-me da primeira vez que vi as muralhas do Castelo por onde andaram D. Afonso Henriques e o Infante D. Pedro, senhor da vila, acompanhado dum tal Guilherme Arnaut, de quem herdei o nome. Fui chamado ao Delegado Escolar, que era também Presidente da Câmara, por qualquer irreverência à minha professora primária. Quase setenta anos depois volto a Penela, não para ser repreendido, mas para ser acarinhado, certamente porque os meus amigos apreciam a minha antiga e assumida rebeldia contra as injustiças e contra todas as formas de opressão e exploração do homem. 
O Luis Matias, filho como eu da Cumieira, onde ainda tenho casa, citou-me há dias num artigo do nosso Jornal. Porque aquele texto traduz a minha forma de encarar certas desigualdades, aqui o transcrevo: “Não me conformo com as pequenas injustiças. Aceito as grandes, porque são inevitáveis, como as catástrofes, e atestam a impotência dos deuses. Aquela criança descalça, apenas precisava de uns sapatos. Se tivesse nascido sem pés, não era tão grande a minha revolta…”

Permitam agora, para terminar, uma breve reflexão. Sirvo-me da ideia-mestra daquele texto para perguntar: por que há tantas injustiças, se algumas podiam facilmente ser evitadas ou atenuadas? O mundo produz o suficiente para alimentar a sua população e, contudo, morrem diariamente de fome 50.000 pessoas, nossos irmãos, dos quais 18.000 crianças. Portugal têm, reconhecidamente, dois milhões de pobres e outros dois milhões em risco de pobreza acelerada, e mais de um milhão de desempregados. Leio o desânimo, o medo e a fome no rosto amargurado de muitos com quem me cruzo na via dolorosa do quotidiano. O que podemos nós fazer para evitar que este drama se transforme em tragédia colectiva? Quando o sofrimento der lugar à indignação e esta transbordar em revolta, inundando as ruas finalmente despertas pelo clamor dos oprimidos, ainda haverá retorno? 
Falo para um assembleia de amigos de todas as sensibilidades políticas, e não quero melindrar ninguém nem perturbar o júbilo deste dia. Todos conhecem as minhas convicções e o respeito que tenho pelos que pensam diversamente. Sou de esquerda porque é o lado do coração, e é ele que me dói diante de tantas injustiças evitáveis, de tantas desigualdades gritantes, de tanta corrupção à solta e de tanto especulador impune, a lembrar os vampiros do José Afonso. Dói-me a alma por ver esta velha nação, de quase nove séculos, submetida ao jugo dos agiotas nacionais e internacionais, capturada por grandes e pequenos interesses e a caminhar insensatamente para o precipício. São muito poucos, como Mário Soares, que afirmam o seu protesto e denunciam o risco de um “retorno ao fascismo”, perante a falta de humanismo e de ética das Instituições Europeias (D.Notícias, 17/4/2012) e perante a iminente perda da nossa soberania e da nossa identidade. É claro que há sempre a esperança de um novo 1º de Dezembro e de outro 5 de Outubro, duas datas que a incultura de muitos quer banir do nosso calendário cívico. 
O Estado de Direito é o império da lei e não o império dos mercados. A acumulação capitalista, facilitada pela globalização, causou o empobrecimento dos trabalhadores. Os grandes grupos económico-financeiros arruinaram as pequenas e médias empresas que garantiam a maioria dos empregos. É urgente superar o neoliberalismo predador, dignificando e pagando justamente o trabalho, impedindo a apropriação indevida das mais-valias pelos que nada fazem e as remunerações obscenas que são uma afronta aos mais elementares princípios de justiça social. Não pode haver empresas onde administradores ganhem, ou melhor, recebam, 100 vezes mais do que muitos dos seus trabalhadores. É preciso caminhar para o “humanismo económico”, reconstruindo o Estado Social, pago por impostos progressivos e assente em quatro pilares fundamentais: habitação, educação, saúde e segurança social. 
Não precisamos de mais austeridade. Precisamos de mais seriedade na política. É inadiável democratizar os partidos, despartidarizar o Estado e moralizar a vida pública e empresarial. “Há demasiadas mãos sujas com a iniquidade, com a exploração dos fracos ou com as conjuras de interesses”, como afirmou na sua recente homilia pascal o Arcebispo de Braga, D. Jorge Ortiga (Público, 9/4/2012).

Não estou a esboçar uma nova teoria político-social. Estou a procurar conciliar Marx e Maritain, ou, dito de outro modo, estou a conjugar a teoria do lucro e a lei da pauperização crescente dos trabalhadores com o Sermão da Montanha ou das Bem-Aventuranças. Para banir o poder absoluto do dinheiro e a ditadura dos mercados, por forma a recuperar a dignidade e a soberania perdidas, sem esquecer que devemos ser parte activa na construção europeia e na defesa do seu modelo social. O que se impõe, como escreveu Almeida Santos no seu recente livro “Elogio da Política, da República e da Globalização”, é “uma nova síntese entre a liberdade e a igualdade” em que “o modelo individualista e liberal deixasse de exacerbar a liberdade em prejuízo da igualdade “. Até porque, como eu gosto de dizer, só há liberdade entre iguais. 
É claro que temos que pagar aos credores, embora, parafraseando Aristóteles, a dívida seja, quase sempre, resultado do roubo, porque decorrente da usura e do poder do dinheiro gerar dinheiro sem investimento produtivo, nem trabalho. Mas não podemos esquecer que o Estado tem outros credores mais legítimos – os seus cidadãos e contribuintes. De facto, todos somos credores do Estado pelos direitos arduamente conquistados: à saúde, à educação, ao trabalho, à reforma e às outras prestações sociais. Sabemos que Portugal vive, por erros próprios e contaminação da crise internacional, provocada pelos especuladores, um período de grandes dificuldades. Mas só haverá paz social se o sacrifício for equitativamente repartido por todos e não haja subterfúgios nem offshores por onde escapem as grandes fortunas e os magnatas da alta finança. 
Não me resigno a tantas injustiças. Estou contra a corrente, porque é o dever de quem sente e não mente. Não são as reconhecidas dificuldades orçamentais, mas a agiotagem, o compadrio, a submissão aos grandes grupos económicos e a falta de sensibilidade social que põem em causa a sustentabilidade do SNS e demais conquistas de Abril. 
O Estado Social é baseado na solidariedade, que consiste, primariamente, segundo a fórmula conhecida, em que todos se sintam responsáveis por todos. Para tanto, é preciso uma larga intervenção do Estado porque só ele nos representa a todos e pode, sem prejuízo da livre iniciativa, evitar que os fortes explorem os mais fracos, travar a pulsão devoradora do ultra-capitalismo, garantindo a justiça e a paz social. 
É preciso romper o cerco e reabilitar a velha trilogia – Liberdade, Igualdade, Fraternidade. É preciso fazer brilhar o Sol com que se escreve a palavra solidariedade: libertar o étimo perdido, que é também a raiz moral das palavras esperança e justiça. Para isso, os governantes devem ter como único objectivo o bem comum e guiar-se sempre pela gramática da ética e não pela pragmática dos interesses pessoais ou partidários. Só assim Portugal terá futuro. Confio nas novas gerações, aqui representadas pelo meu neto António Arnaut, e nos homens e mulheres de todas as idades que conservaram intacto o sonho da juventude.  
Desculpem se abusei da vossa paciência, mas pareceu-me oportuno deixar esta reflexão aos meus amigos que por caminhos diferentes, querem uma sociedade mais justa e um Portugal melhor. 
Agradeço comovidamente à minha família e a todos os que me honraram com a sua presença. Ao povo da minha terra entrego, em sinal de gratidão e à guarda da Biblioteca Municipal, a minha obra literária, aqui exposta, em trinta e três títulos, de poesia, ficção, ensaio e conferências. Estão dedicados e assinados por mim, com a data de hoje. A todos os amigos gostaria de oferecer, simbolicamente, uma flor. Mas vou antes dedicar-vos um poema desajeitado:

Ofereço-vos um poema em vez duma flor
em lembrança e gratidão: 
a flor murcha, o poema não 
se nele a palavra amor 
bater como bate o coração.

E assim vos reúno num abraço
à mesa redonda da fraternidade
para celebrar o futuro,
esse tempo solidário e sem redil
em que o Sol dissipará
as sombras que tecem a escuridão
e um pássaro cantará,
como no sonho de Abril,
o dia da libertação.                  

Penela, 21 de Abril de 2012 
António Arnaut - Past Grão Mestre Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa

1 comentário:

Mirna disse...

Eu gosto dos poemas, e eu acho que os poemas são melhores do que as flores porque nunca murcham. Meu marido escreve poemas desde que era jovem. Eu o encontrei uma vez quebrou meu pranchas. Eu fui a um lugar para corrigi-lo e lá vi pela primeira vez. No dia seguinte, fui até a prancha e ele me deu um poema. Eu mantê-lo intacto!