domingo, 7 de agosto de 2022

Uma Curta Reflexão Sobre o Ágape

O ágape na atual maçonaria especulativa não é uma exclusividade da atual maçonaria especulativa. O ágape é tão antigo quanto as escolas de mistérios no planeta Terra. Se engana o maçom que pensa que o ágape foi  inventado pela maçonaria e que após as sessões ele faz  algo jamais visto no mundo. O ágape sempre fez parte das reuniões entre os Iniciados, inclusive desde a antiguidade. 

Entretanto, o modo como o ágape vem sendo conduzido pela atual maçonaria especulativa está cada vez mais distante do verdadeiro sentido do ágape para uma ordem iniciática como a maçonaria. Cada vez mais o ágape vem sendo conduzido como uma mera confraternização entre os irmãos após as sessões. Assim como no mundo profano as pessoas se reúnem pelos mais diversos motivos para comer e beber, os maçons têm conduzido o ágape como uma mera reunião de comes e bebes entre amigos, esquecendo-se do carácter sagrado do ágape que deve haver na maçonaria, pois a maçonaria é sagrada e o sagrado deve gerar o sagrado, assim como o profano gera o profano. O ágape na maçonaria não deve ser uma mera confraternização entre irmãos, mas deve ser o que sempre foi para os Iniciados: uma parte do ritual.

Autor: Freud

segunda-feira, 25 de julho de 2022

Os Mitos Fundadores e o estado Atual da Maçonaria

Quando dizemos que a Maçonaria Moderna, também chamada especulativa, nasceu em 1717 estamos correctos. Então porque continuamos a ouvir dizer coisas como “Jesus Cristo era maçon?”  Vejamos.

A partir da década de 1730 surge, em França, André Michel de Ramsay (1686-1743). Nascido de uma família nobre escocesa, é licenciado em Humanidades e Filosofia pela Universidade de Edimburgo. Chega a França em 1709 e é, durante algum tempo, preceptor de príncipes. Foi aceite como membro da Royal Society em 1729 e provavelmente iniciado na Loja Horn em 1730. Em França, vai frequentar os círculos maçónicos parisienses, tendo publicado, em 1737, um texto sob a forma de discurso de boas vindas dirigido a jovens iniciados, onde refere:

“No tempo das Guerras Santas na Palestina, vários príncipes, senhores e cidadãos uniram-se, professaram o voto de reconstruir os templos dos cristãos na Terra Santa e empenharam-se por meio de um juramento a empregarem a sua ciência e os seus bens na reconstituição da sua arquitectura primitiva. Instituíram vários sinais antigos e palavras simbólicas, retiradas do legado da Religião, para se distinguirem no meio dos infiéis (…). Esses sinais e essas palavras só eram comunicados àqueles que prometiam solenemente, e muitas vezes ao pé dos altares, jamais os revelar (…). Pouco tempo depois, a nossa ordem uniu-se directamente com os cavaleiros de São João de Jerusalém. Desde então as nossas lojas adoptaram o nome de Lojas de São João em todos os países”. Criou-se, assim, o mito de que a maçonaria remonta aos Templários.

Em 1619 são publicados três documentos: Fama Fraternitatis (Ecos da Fraternidade) que é um manifesto político e religioso que sugere o advento de um mundo novo: o reino de Deus, associado ao triunfo do protestantismo sobre o catolicismo; Confessio Fraternitatis (Profissão de Fé da Fraternidade), que expõe em pormenor a doutrina da fraternidade; e um terceiro, apresentado como uma narrativa autobiográfica de Christian Rosenkreutz, as suas Núpcias Alquímicas. Segundo o mito, baseado nestes livros aparecidos no início do séc. XVII, em 1378 teria nascido de uma família pobre da nobreza alemã Christian Rosenkreutz (ou Rosacruz), que terá recebido a sua educação num mosteiro. Por volta dos dezasseis anos põe-se a caminho de Jerusalém, onde acabará por não chegar porque o seu périplo se transformou numa viagem iniciática. No misterioso Oriente encontra inúmeros sábios, que lhe ensinam o árabe, matemática, filosofia e alquimia. De regresso à Alemanha, reúne à sua volta alguns companheiros que conhecera no convento. O seu emblema é uma cruz vermelha, no centro da qual figura uma rosa da mesma cor. Os irmãos elaboram uma linguagem criptográfica que é reservada unicamente aos iniciados. A revelação desta confraria a partir dos textos referidos e na sequência da pretensa descoberta da tumba de Rosenkreutz, em 1604, suscita um entusiasmo excepcional, e só na Alemanha são-lhe dedicados, entre 1614 e 1620, mais de duzentos escritos, tendo aparecido uma ordem iniciática ainda hoje existente que reclama seguir os preceitos daquela antiga associação. Mas afinal, na sua biografia, publicada apenas em 1799, o Pastor Johann Valentin Andreae (1586-1654) confessou que aquelas mistificações eram de sua autoria, uma simples brincadeira de juventude, quando estudava teologia em Tübingen. Não obstante, ainda hoje há quem afirme que a maçonaria provém daquela irmandade (a que terá pertencido Sir Francis Bacon), criada a partir daquele mito e ainda hoje existente, que terá ficado cem anos adormecida, aparecendo então no início do séc. XVIII.

Ora o que acontece é que desde que o Homem existe que sempre se perguntou não só para onde vai, mas também de onde vem. A incapacidade de explicar o seu início ou, mais abrangente, o início do Universo, desde tempos imemoriais o tem levado à especulação e à concepção do Divino. Nas sociedades mais primitivas, o Divino foi associado aos astros, nomeadamente aos dois astros mais visíveis, o Sol e a Lua. E, como o Homem sempre foi cioso dos seus conhecimentos, por um lado, e o poder resultante da informação pode ser perigoso, por outro lado, os saberes passaram a ser transmitidos não de forma universal mas apenas a alguns escolhidos – os iniciados.

Andando para trás o mais que nos é possível, podemos remontar à que deve ser uma das mais antigas sociedades secretas conhecidas – os vigilantes – a qual teve origem na Suméria. Também conhecidos como “filhos de Deus”, e, em hebreu, como Eyrim (Irim), eram influenciados pela astroteologia e pelo culto da serpente (kundalini), também muito primitivo.

É a tradição desta mitologia e sua forma de transmissão que chega à sociedade hebraica, inspirando a construção do Templo de Salomão. Estas sociedades têm duas características fundamentais: dogma religioso e sociedade secreta. Por outro lado, é também concebida sob esta influência a sociedade secreta dos sacerdotes no Egipto. Como se sabe só estes – iniciados – tinham conhecimento dos mais importantes saberes, nomeadamente o da construção das pirâmides. Esta organização iniciática egípcia influenciará, por sua vez, a escola hermética de Alexandria, também iniciática, esta por necessidade de secretismo uma vez que era perseguida pelos dogmas fundamentalistas das “religiões reveladas”, que conseguem destruí-la materialmente, com o incêndio da biblioteca da Alexandria (um mistério atribuído tanto aos Cristãos como aos Muçulmanos), e depois espiritualmente, com as perseguições da Inquisição. Provavelmente nunca faremos ideia do prejuízo causado no saber da Humanidade com as perseguições religiosas da Idade Moderna, que destruíram virtualmente a escola hermética e os seus saberes ancestrais, desconhecedores da epistemologia moderna mas baseados em empirismos riquíssimos, de diversa proveniência.

Nestas purgas, a Igreja não hesita em destruir também uma instituição saída do seu próprio seio, a qual também tentou aceder e preservar os segredos iniciáticos do passado: os Templários. Também estes uma organização iniciática, preservaram de tal forma os seus segredos que eles nunca foram revelados, mesmo com o ataque de surpresa que lhes foi feito por Filipe, o Belo e pelo Papa Clemente V, numa das “operações policiais mais extraordinárias de todos os tempos”, no dizer de Duc de Lévis-Mirepoix.

Diz-se que Gervásio de Beauvais, preceptor templário em França, durante o seu interrogatório pela Santa Inquisição terá afirmado: “- Há na ordem uma lei tão extraordinária, da qual se deve guardar segredo, que qualquer cavaleiro preferiria que lhe cortassem a cabeça do que revelá-lo a alguém”. Ora a Maçonaria actual não é nada disto, porque nasceu nos primórdios do séc. XVIII. Mas também é isto, fundamentalmente por duas razões: primeira, porque recebeu influência de todas as ordens iniciáticas que a precederam. 

Como se viu, já se falou em vigilantes, em astroteologia (sol, lua, oriente, ocidente, setentrião, meio-dia, zénite, nadir) e até no sinal de primeiro grau. Tendo chegado mais tarde, somos um pouco herdeiros do que já existiu; segunda, porque somos hoje a ordem iniciática mais organizada, mais forte e mais relevante.

Certo é, porém, que não devemos confundir maçons com iniciados. Jesus Nazareno, dito Cristo, foi seguramente um iniciado. Mas não foi um maçon porque a Maçonaria ainda não existia.

É muito provável, no entanto, que fossem estas razões, sobretudo a influência das ordens iniciáticas anteriores, e bem assim as confusões criadas por figuras como os citados André Michel de Ramsay e Valentin Andreae, entre outros, que levaram Pike, no seu texto Morals and Dogma, a garantir que a Maçonaria nasceu de antigos mitos pagãos. Ter-se-á enganado, um homem como Pike? Sim e não. Sim, porque a Maçonaria tem data de nascimento, e é posterior. Não porque ela absorveu os saberes anteriores, provavelmente ainda enquanto operativa, para se inspirar, tendo inclusivamente copiado algumas das crenças, e sobretudo formas de organização. Como única ordem iniciática relevante que chegou aos nossos dias, ela conservou influências anteriores nos seus rituais, e conseguimos perceber que estes se basearam em mitos que podemos encontrar em quase todas as ordens iniciáticas anteriores: nos adoradores de estrelas da Suméria, nos construtores do Templo de Salomão, nos construtores das pirâmides do Egipto (a ser verdade o que circula na internet a elevação aos graus capitulares vai beber ao mito de Osíris) e, sem serem mitos, nos saberes Templários e Herméticos. Aqueles que têm acesso ao Ritual do Grau de M:.

M:. podem constatar isto a págs. 5-6.Na verdade, nos dias de hoje só nós, maçons, nos interessamos por estas tradições, as conhecemos aprofundadamente e as seguimos. Como tal, nós, maçons, somos actualmente os guardiães de todos os saberes antigos  remanescentes das perseguições religiosas desde Constantino à Revolução Francesa. Com o nosso fim, extinguir-se-iam inevitavelmente as reminiscências desses tempos, com as suas diferentes formas de saber. 

Por isso mesmo, os filhos da viúva jamais podem morrer.

Compete-nos transportar este testemunho que recebemos daqueles que tantos sacrifícios fizeram para o preservar, e entrega-lo às gerações futuras com Beleza, Força e Sabedoria


Autor: Bocage

sábado, 7 de maio de 2022

O Udyat

Recuando até à época em que as lendas, as fábulas e os mitos eram as narrativas que conduziam a vida dos povos, contemplemos Osíris, o senhor do sol e Ísis, a senhora da lua e da magia, que à época grassavam no Egito e cujo reino crescia com eles em beleza e sabedoria; eram amados por todos, talvez com a exceção de Seth, que sentia crescerem dentro de si a ira e a inveja pelos feitos do seu irmão Osíris. 

Quando um dia se vê afastado do Egito, fruto dos seus afazeres bélicos, Osíris deixa Ísis a governar no seu lugar, o que enche o coração de Seth de cólera e ciúme; a quando do regresso triunfante de Osíris, Seth, juntamente com 72 fiéis amigos, oferecem-lhe as boas vindas na forma de um soberbo banquete, no final do qual presenteia a multidão com um magnífico sarcófago em ouro, destinado a quem melhor se lhe adequasse; sabendo já de antemão que este havia sido moldado ao figurino Osíris, o mais alto e forte de entre todos os presentes, eis que quando chega o momento de Osíris vestir o dito sarcófago, Seth e os seus súbditos de imediato o enclausuram no seu interior, arremessando-o de seguida ao rio mais próximo, o Nilo.

Após incontáveis tormentas, Ísis consegue reaver o sarcófago e o corpo de Osíris e é durante o subsequente ritual, cujo propósito é reacender a vida em Osíris, que ambos se unem como que num ato sagrado, que tem como consequência o engravidar de Ísis; findo o empreendimento, e enquanto ambos repousavam de tamanho labor, Seth, envolto pela escuridão, desfaz o corpo de Osíris em 14 pedaços que dispersa por todo o Egito.

Ísis, ainda com o coração dorido de tristeza e com o corpo cansado do fardo que transporta no seu ventre, mantém a perseverança na busca do seu amado Osíris e, com incansável obstinação, consegue encontrar todos os fragmentos do seu amado; todos menos um, pois o falo de Osíris tinha servido de nutrimento a um peixe, e estava para sempre perdido.

Socorrendo-se novamente da magia, Ísis reúne mais uma vez o corpo de Osíris, mas como este estava agora incompleto já não podia ser o senhor da vida, passando desde então a presidir ao mundo dos mortos. Não me atrevo a fazer qualquer correlação de valor entre o membro em falta e o destino final do pobre Osíris, afinal esta narrativa é apenas uma lenda.

Mas a contenda de Ísis perdura, desta vez como zelosa protetora do seu já nato filho Hórus, que desde sempre sofreu diversos atentados por parte do seu tio Seth. Mas esta frágil criança cresceu e com o tempo transformou-se num guerreiro hábil, como seu pai Osíris havia sido, e assim têm início as contendas entre Hórus e Seth na forma de inúmeras e sangrentas batalhas, todas elas, diga-se, ganhas por Hórus; após cada triunfo, Hórus apela às divindades Egípcias reinantes a restituição das terras e do título de seu pai, mas a resposta na forma de indiferença, concluía apenas no retomar das contendas. 

Eventualmente Hórus dá-se a um hiato neste conflito e socorre-se de Ísis para que esta o auxiliasse junto dos restantes deuses que, por deferência à sua patrona, finalmente concedem os direitos de herança a Hórus.

E é precisamente com o desfecho desta contenda que principia a nossa história, quando no decorrer de uma destas sangrentas e últimas batalhas, Seth vilipendia o olho esquerdo a Hórus; sua mãe Ísis substitui-o por um poderoso amuleto, de nome Udyat, que capazmente recupera parcialmente a visão de Hórus.

É desta forma que o olho de Hórus se afirma como uma representação da omnisciência do seu homónimo Hórus, o deus sol, e num símbolo da vitória do bem sobre o mal; os egípcios representavam-no por um desenho estilizado misturando um olho de falcão e um olho humano. Símbolo da vida, da integridade, da sorte, da vitória da luz sobre as trevas, o olho de Hórus aparece em medalhões, esculturas e pinturas por todo o antigo Egito; é por esta iconografia que se define a natureza sagrada do faraó. 

O olho de Hórus, também conhecido por olho que tudo vê, era também o símbolo da casa da luz, onde se praticavam os mistérios, a religião esotérica dos egípcios, e onde não só os sacerdotes aprendiam a sua arte sagrada como era também a paragem onde a família real era iniciada nos mistérios da Arte Real. 

Este símbolo ancestral é compartilhado entre muitas religiões, falsas religiões, cultos e organizações ocultas, mas sempre com o mesmo simbolismo associado à divindade.

Avançando na linha do tempo, enquanto os judeus ignoraram Hórus e seu olho mítico, os gregos fazem do filho de Osíris, o deus criança Harpócrates, com virtudes tão numerosas quanto indefinidas; já os cristãos deixarão passar os séculos antes de associar, num mesmo grafismo, o olho que tudo vê a um símbolo geométrico particular, mas disso já falaremos.

A título de curiosidade, e não como evidência histórica, no primeiro século da era Cristã, o símbolo do olho que tudo vê foi encontrado esculpido na chamada Tumba Talpiot, descoberta em Jerusalém na década de 1980, e que se especulou poder ter pertencido à família de Jesus de Nazaré.

Mas foi durante o período medieval, em particular no século XVII, que este símbolo foi introduzido nas catedrais e noutros edifícios religiosos da Igreja Católica Romana; ele está presente nas catedrais de Aix-la-Chapelle e Chartres; na igreja Saint-Roch em Paris, ou na Capela Real de Versalhes, entre muitas outras. Está presente sim, mas sob uma fisionomia muito diferente daquela do olho de Hórus; trata-se de um triângulo contendo no seu âmago um olho sem pestanas ou pálpebras, complementado por uma nuvem e por raios de luz.

Este triângulo, cognominado de delta, provém em nome e figurino da quarta letra do alfabeto grego, e é representado como um triângulo equilátero, figura considerada perfeita por ter os seus ângulos e lados iguais; é um dos mais insignes e ancestrais símbolos representativos da Divina Trindade, e sobre o qual se fundamentam diversas religiões: Osíris-Ísis-Hórus dos Egípcios, Brahma-Vishnu-Shiva dos Hindus, Nara-Nari-Viraj dos Brâmanes, Ami-Nuah-Bel dos Caldeus e Pai-Filho-Espírito Santo dos Cristãos. Para a Escola Mística, o delta representa também as forças criadoras primordiais da filosofia hermética, Enxofre-Sal-Mercúrio.

A agregação destes dois símbolos, o delta e o olho que tudo vê, sugere a perfeição da consciência divina na sua totalidade e na sua natureza e é uma iconografia que sobrevive à passagem do tempo de uma forma invulgar, permanecendo imutável em significado ao longo de séculos.

Apenas para não omitir uma das representações mais conhecidas deste figurino, o olho que tudo vê aparece ainda representado dentro de um triângulo como parte de uma pirâmide inacabada, símbolo comumente associado ao grupo illuminati, e presente, a título de exemplo, nas notas americanas de um dólar. 

E uma vez que estamos num templo maçónico, peço-vos que por um instante que fixem o olhar a oriente, enquanto regresso ao antigo Egito e ao simbolismo associado a Hórus. Neste tempo era crença que o seu olho direito representaria a informação concreta, controlada pelo lado esquerdo do cérebro e representado pelo sol, e simbolizava o masculino, sendo responsável pelo entendimento das letras e dos números; por sua vez o olho esquerdo representaria a informação abstrata, controlado pelo lado direito do cérebro e representado pela lua, simbolizando o lado feminino, dotado de sentimentos, intuição e capacidade de perscrutar o lado espiritual. Passaram três milénios, mas permaneceu uma inegável similitude simbólica.

É sem perder o vislumbre desta simbologia de conjunto que, no nosso templo maçónico, entre as referidas representações do Sol e da Lua, do lado oposto à entrada e encimando a cadeira do Venerável Mestre, encontramos um símbolo designado por Delta Luminoso.

Enquanto do interior emana o supra citado olho que tudo vê, a envolvente não se trata de um triângulo equilátero senão de um triângulo isósceles, em que a base é maior do que os dois outros lados, iguais entre si, para que o ângulo do topo do triângulo tenha 108˚; com estas medidas de ângulos internos, a razão entre a base e a lateral corresponde exatamente a 1,618033989, o número de ouro, e a tradução numérica da proporção divina encontrada em inúmeros exemplos na natureza.

Os seus três lados podem perfeitamente traduzir a divisa Liberdade, Igualdade, Fraternidade; já os três vértices podem significar passado, presente, futuro e o triângulo, no seu todo, significar eternidade; os três ângulos, sabedoria, força, beleza, são atributos divinos e representantes dos três reinos da natureza, ou das três fases da vida humana, o nascimento, a vida e a morte.

De regresso ao Delta, este surge como um dos mais importantes símbolos maçónicos; nos ritos teístas ele representa a presença da divindade, enquanto nos ritos deístas ou agnósticos ele simboliza a sabedoria.

Neste contexto é importante esclarecer que, quando estudamos a verdade revelada à luz do livro sagrado, temos o problema da existência de Deus pela revelação ou pela fé e nesse caso somos teístas; já quando estudamos o mesmo problema à luz da razão, dentro da verdade intuída, somos deístas ou agnósticos; agnóstico é aquele que acredita na existência de Deus, mas que, ao mesmo tempo afirma que a razão humana não tem condições de provar ou negar sua existência.

São teístas, por exemplo, o Rito de York e o Rito Escocês Antigo e Aceito, em certas Obediências e Grandes Lojas, pois têm no Livro Sagrado a representação da verdade revelada. Já noutras obediências, como o GOL, o Rito Escocês Antigo e Aceito assume-se como deísta, exigindo aos seus obreiros a crença no Grande Arquiteto do Universo e num Livro Sagrado, quaisquer que estes sejam; o Rito Francês ou Moderno é deísta, agnóstico e adogmático porque não adota o Livro Sagrado, não invoca o Grande Arquiteto do Universo e promove liberdade total de pensamento. 

E este discernimento é importante porque, habitualmente, nos ritos teístas encontra-se no centro do delta a letra hebraica “IOD” que é a primeira letra do nome hebraico de Deus e que portanto representa a própria divindade. Já nos ritos deístas ou agnósticos, o delta é representado na sua forma simples, mais usualmente designada por Delta Flamejante ou Delta Luminoso, com raios irradiando dos limites do triângulo, por vezes inscrito numa nuvem, e simboliza a sabedoria e o Grande Arquiteto do Universo.

O Delta pode ainda conter no seu interior a letra “G”, cujo significado normalmente se reserva aos Companheiros, mas sobre o qual se pode adiantar, sem grande mácula, que os antigos maçons operativos empregavam esta letra como referência a ciência da geometria.

A maçonaria não é uma religião, mas determina que seus membros acreditem num ser criador, independentemente de como nós o entendamos, pois o primeiro e fundamental Landmark é a crença em Deus como sendo o Grande ou Supremo Arquiteto do Universo, o ser que do seu plano mais elevado, governa o universo com Sabedoria, Força e Beleza. É precisamente ao contemplarmos o olho que tudo vê que rapidamente nos recordamos que o Grande Arquiteto do Universo está sempre presente e a observar os nossos atos e todos os nossos pensamentos; prova disso é o momento da iniciação, quando o neófito finda as suas provas e tem o primeiro vislumbre da luz, pois é nesse preciso instante que ele se vê diante do Grande Arquiteto do Universo, na simbologia do delta luminoso. 

A maçonaria é tão rica em símbolos como na pluralidade de significados associada a esses mesmos símbolos; mas esta multiplicidade tem uma razão de ser; estes são os sinais que nos guiam e que nos despertam o pensamento, e por isso têm que ser interiorizados, sentidos, criticados e aclamados.

A este propósito, deixo-vos as palavras não só sábias como apropriadas do meu homónimo Álvaro de Campos:

Símbolos? Estou farto de símbolos...
Mas dizem-me que tudo é símbolo.
Todos me dizem nada.
Quais símbolos? Sonhos.
Que o sol seja um símbolo, está bem...
Que a lua seja um símbolo, está bem...
Que a terra seja um símbolo, está bem...
Mas quem repara no sol senão quando a chuva cessa,
e ele rompe as nuvens e aponta para trás das costas
para o azul do céu?
Mas quem repara na lua senão para achar
bela a luz que ela espalha, e não bem ela?
Mas quem repara na terra, que é o que pisa?
Chama terra aos campos, às árvores, aos montes.
Por uma diminuição instintiva,
porque o mar também é terra...

Bem, vá, que tudo isso seja símbolo...
Mas que símbolo é, não o sol, não a lua, não a terra,
mas neste poente precoce e azulando-se
O sol entre farrapos finos de nuvens,
Enquanto a lua é já vista, mística, no outro lado,
e o que fica da luz do dia
doura a cabeça da costureira que para vagamente à esquina
onde demorava outrora com o namorado que a deixou?
Símbolos? Não quero símbolos...
Queria, pobre figura de miséria e desamparo 
que o namorado voltasse para a costureira.

Autor: Álvaro de Campos