terça-feira, 9 de novembro de 2021

As Religiões e a Maçonaria

JUDAISMO E MACONARIA

Antes de descrever de forma sucinta algumas semelhanças do simbolismo judaico e maçónico, será importante citar alguns aspetos da cultura judaica, muitas vezes esquecidos ou mesmo ignorados. Começo por citar um texto de Leon Zeldis, Grão-Mestre do Supremo Conselho do R.E.A.A. do Estado de Israel:

"Numa região sacudida pela guerra e pelo terrorismo, profundamente dividida política e pela religião, as lojas maçónicas constituem um oásis de Paz e de Tolerância, onde os homens livres e de boa vontade transcendem as suas diferenças para darem as mãos e o seu espírito, ligados pela aspiração comum de criar um Mundo melhor, aperfeiçoarem-se e de contribuírem para a construção de uma sociedade mais racional, fundada nos princípios da Liberdade, da lgualdade e da Fraternidade."

Existem traços comuns entre rituais, símbolos e palavras judaicas. Um dos Landmarks judaicos é a crença num Deus que criou tudo na nossa existência e que nos deu uma Lei, para ser seguida, incluindo os preceitos morais de relacionamento humano. A crença em Deus (G.A.D.U.), a prece, a imortalidade, a caridade, o agir respeitosamente entre os seus semelhantes fazem parte integrante do ideário maçónico - (maçonaria Teista) - como também no Judaísmo e até na maioria das religiões.

A maçonaria e o judaísmo, tais como os padrões éticos das outras religiões, ensinam­ nos que nos devemos autodisciplinar e manter as nossas paixões em constante contenção. A disciplina ritualística, seja nas sinagogas seja nas lojas maçónicas, auxilia a desenvolver esta virtude.

O judaísmo ensina que todo o ser humano e capaz do bem e do mal, tentando ser fiel a si próprio usando o livre arbítrio para escolher o caminho eticamente correto. A maçonaria ensina aqueles que são moralmente capazes a poderem encontrar a "Luz" na disciplina maçónica, se eles o desejarem por sua própria e livre vontade.

A "Luz" representa um importante símbolo, tanto no judaísmo como na maçonaria. A "Luz " para o maçom é imaterial, ilumina o intelecto e a razão, sendo o objetivo máximo do iniciado maçon que, vindo das trevas, quer caminhar em direção à "Luz ". De igual modo a "Luz" para o judaísmo possui o mesmo significado.

Um dos feriados judaicos é o "Chanukah", a festa da Luz, comemorando a vitória do povo de Israel sobre aqueles que tinham feito da prática da religião um crime punível pela morte (ano 165 da Era Vulgar- os judeus substituem o A.C. e o D.C.).

Outro símbolo compartilhado entre a maçonaria e o judaísmo e o Templo de Salomão. O templo de Salomão representa o "zénite" da religião judaica. Na maçonaria, juntou­ se a figura de Salomão, à construção do Templo, pois os maçons são simbolicamente pedreiros, construtores, geómetras e arquitetos. Os rituais maçónicos estão cheios de lendas sobre a construção do Templo de Salomão. Para os maçons existem, em sentido figurado, três "Salomões": o S. Maçónico, o S. Bíblico e o S. Histórico.

A tradição judaica ensina uma obediência de respeito para com os pais e rabinos. A maçonaria ensina desde a Constituição de Andersen de 1723, o respeito para com a autoridade legitimamente constituída.

 

A MAÇONARIA E O ISLÃO

Sempre existiram relações entre o Ocidente e o próximo Oriente Muçulmano, quer tratando-se das Cruzadas, quer do lmpério Otomano ou mais tarde da Colonização, sobretudo dos franceses e dos ingleses.

É no Egito, com a expedição francesa de Bonaparte, que aparecem os primeiros maçons deixando as "sementes" da maçonaria Universal em terras do lslão.

Em 1748 é fundada a primeira Loja maçónica em Alexandria, com a iniciação de Ismail Pacha durante o período da expedição de Bonaparte e a Loja ISIS do rito de Memphis que teve como primeiro Venerável o General Kleber.

No ano de 1830 os maçons italianos que residiam em Alexandria formam a Loja Carbonari seguida da Loja Menes. Com o rito de Memphis adotado (1867) é fundado o Grande Oriente do Egito e nomeado seu Grão-Mestre o Príncipe Halim Pacha.

Em 1890 o maçom Idris Bey Raghib é eleito G.M. do Egito. Sucede-lhe Redige Tawfik como G.M., o que dá origem a grandes conflitos que originam a suspensão do reconhecimento destas lojas egípcias pela Grande Loja de Inglaterra e da Grande Loja da Escócia.

Mais tarde em 1932, sob a égide da Grande Loja do Oriente de França, funda-se a Grande Loja Nacional do Egito. Durante o ano de 1952 com a queda da monarquia egípcia e a abdicação do Rei Farouk, sobe ao poder Abdel Gamal Nasser grande politico, maçom e membro da Ordem Mística do Egito dos Shrinners. (Todos os shrinners são maçons mas nem todos os maçons são shrinners. Os shrinners pertencem à Antiga Ordem Árabe dos Nobres do Santuário Místico, organização ligada à maçonaria. Entretanto, com a Crise do Suez e a politica no período Nasser, a maçonaria é proibida.

Com a ascensão ao poder do Presidente Anouar Sadate as Obediências lnglesas e Francesas desaparecem e funda-se a Grande Loja do Egito. A subida ao poder de Hosni Mubarak, que chegou a ser acusado de pertencer a maçonaria fora Egipto.

Atualmente com o progresso da lrmandade Muçulmana e a instabilidade politica, sabe-se que a maçonaria egípcia atravessa dificuldades na sua reconstrução.

 

LIBANO

O inicio da maçonaria no Líbano no séc. XIX na década de 1850 coincidem com o estabelecimento de fábricas de seda no vale de Chouf, pelos franceses. Inicialmente as lojas são fundadas pelos franceses e aderentes libaneses.

Duas lojas disputam ainda hoje a paternidade da maçonaria libanesa na Loja Palestina, fundada 1861 pela Grande Loja da Escócia e pela Loja Líbano fundada em 1862 pelo Grande Oriente de França.

A maçonaria Libanesa começa a desenvolver-se nos finais do sec. XIX, no momento em que no lmpério Otomano começa a despontar a revolução dos Jovens Turcos em 1908 e que na época o sonho do Grande Reino Arabe. No ano de 1936 funda-se a Grande Loja Libanesa dos Países Árabes pelo filho do Emir Abdel el-Kader onde mais tarde foi iniciado o Rei Hussein da Jordânia Pai do atual Rei.

De 1920 a 1946, ainda sob o mandato Francês, a maçonaria Libanesa e Síria expande-se com a fundação de varias Lojas. Após a grande revolta de 1925, a maçonaria do Levante quer emancipar-se da tutela das Obediências francesas em parte pelo apoio destes a minoria dos cristãos maronitas. (seguidores do Monge Maroun eremita 410D.C fieis à Sta. Sé). É considerado o despertar dos maçons libaneses face à potencia colonizadora Francesa na Síria e Líbano. Nos anos 50, depois a criação do Estado de Israel, foi criado o Grande Oriente Árabe também conhecido por Christian-Muslin Lodge.

Nota curiosa: são os maçons libaneses muçulmanos os primeiros a denunciar "a doença do lslão", lamentando os atentados do 11 de Setembro de 2001.

 

SIRIA

E na cidade de Aleppo em 1738, vinte e um anos depois do nascimento da maçonaria especulativa, que foi fundada a primeira Loja maçónica.

Com a subida ao poder Medhat Pacha fundaram-se varias Lojas uma das quais em 1878, a Loja Luzes de Damasco, frequentada na época pela elite intelectual da capital. No início da primeira Guerra Mundial, as Lojas maçónicas Sírias foram obrigadas a suspender os seus trabalhos.

Durante o ano de 1922, foi fundada em Damasco, a Loja da Síria sob a égide do Grande Oriente de França . Outra Loja importante no panorama maçónico Sírio foi a Loja Qaysun a Oriente de Damasco.

Atualmente a maçonaria está proibida na Siria, embora o pai do Presidente Hafez el Assad tenha pertencido a Loja Al Fatat de Damasco. (citado Rev. Express, Fev.2009).

Na Síria, antes da catástrofe da guerra e do êxodo a que assistimos hoje, existia já claramente um movimento que preconizava que o lslão deve parar no ano 622 e ficar confinado as relações do homem com o seu Criador. (Nova Leitura do Corão). Este movimento influenciado pelas ideias maçónicas de intelectuais como Ziad Hafez e Mohamed Charour.

 

PALESTINA

É pouca a bibliografia sobre a maçonaria palestina. Sabe-se que a Grande Loja o Egito estabeleceu treze Lojas na Palestina.

Em Jerusalém cerca de 1895 fundou-se a Loja Salomon ou Suleiman com apoio da Grande Loja Nacional do Egito mais tarde também apoiada pela Grande Loja do Canada, a Royal Salomon Mother Lodge do R.E.A.A.

A Loja Nur el Hachemat (Luz da Sensatez ) n°125 foi fundada em 1908 em Jerusalém, a Loja tinha os seus trabalhos em árabe. Cessou a sua atividade durante a Primeira Guerra Mundial retomando os trabalhos em 1924 juntando-se mais tarde a Grande Loja da Palestina em 1933.

Em 1951 a Grande Loja da Palestina era composta por judeus, muçulmanos, cristãos e druzos. Com a criação o Estado Judaico esta Loja parece ter sido desmantelada.

Apesar das relações tensas entre as populações árabes e judias, a Grande Loja Nacional da Palestina fazia grandes esforços para manter candidatos de todas as comunidades: Judeus, Árabes Cristãos (Koptas) Arménios e Druzos, assim como várias lojas compostas quase exclusivamente por Árabes.

O Grande Oriente Árabe Ecuménico, em 2010 e a Obediência Maçónica Francesa de Estudos e Pesquisa, trabalha em conjunto no novo Rito Judeo-Cristao e Muçulmano, também chamado Rito Ecuménico.

Em 2003, em plena Intifada palestiniana, a Loja Galileia e a Loja Fraternidade continuaram os seus trabalhos.

 

EM RESUMO

A colonização francesa no Magreb e em quase toda a Bacia Mediterrânica foi a grande impulsionadora da Maçonaria na Argélia, na Tunísia e em Marrocos. A influencia dos maçons ingleses também foi determinante para o estabelecimento dos valores da maçonaria nesta região.

Hoje quando as forças da intolerância e do fanatismo ameaçam os fundamentos da civilização livre e democrática, e imperativo refletir de novo nos valores da maçonaria, na tolerância, na mora e ainda na construção de uma sociedade mais tolerante, mais livre e mais humana, mesmo que esta tarefa seja feita em circunstancias adversas.

Deixarei para uma próxima prancha as relações da maçonaria no lmpério Otomano e as controversas relações entre a maçonaria e a religião Cristã.


Autor: Aquilino Ribeiro

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Um Especulação sobre a Origem da Maçonaria Especulativa

Esta pequena prancha não teve nenhuma pequisa bibliográfica específica para a sua realização, resultando apenas na destilação das minhas reflexões sobre o assunto e das leituras que fiz sobre o mesmo e assunto adjacentes. Pretendento apenas levantar a questão e ouvir as opiniões dos meus Irmãos, visto que penso que a verdade histórica nunca será conhecida ou comprovada documentalmente.

Quando se entra na Nossa Augusta Ordem, um tema de conversa recorrente é sobre a Grande Loja de Inglaterra, como a primeira instituição maçónica organizada aquando da sua fundação no Verão de 1717, e a sua importânciano desenvolvimento e expansão da Maçonaria. Esta Maçonaria já é especulativa, integrando membros de todas as classes e profissões. Dentro deste contexto, a pergunta que sempre me perturbou foi porque razão se dá em Inglaterra a transição da Maçonaria Operativa para a Especulativa, quando este país até não tinha, quando comparado com outros, grande tradição de pedreiros livres, os construtores das catedrais europeias, que faziam parte da Maçonaria Operativa.

Parece que seria mais lógico que tal desenvolvimento tivesse acontecido na Europa Ocidental, nomeadamente Peninsula Ibérica, França, Península Itálica e Sacro Império Romano, com mais tradições nesse domínio.

Na minha opinião, temos de recuar algumas décadas até 1660 para perceber o que poderá ter acontecido. É nesta altura que se dá a Restauração da Monarquia dos Stuart, família real inglesa de origem escocesa, com o regresso de Carlos II, após dez anos de exílio no seguimento da Guerra Civil Inglesa, da execução de rei Calos I e da experiência “republicana” do Protectorado do puritano Oliver Cromwell.

Esta época, considerada por alguns como um era dourada, é caracterizada por uma renovação e libertação da sociedade inglesa com grande dinamismo no desenvolvimento das artes e ciências. Em 28 de Novembro de 1660 é fundada a Royal Society, a primeira academia de ciências do mundo, por filósofos naturais, como eram chamados os cientistas da altura. Nas lendas da sua fundação é mencionado como inspiração o colégio invisível, termo que aparece em diversos pamfletosrosicrucianos do início do século XVII, que por sua vez parece retirar ideias da Casa de Salomão, descrita na obra Nova Atlântida do famoso filósofo Francis Bancon, um dos fundadores Empiricismo e do Método Científico moderno. Ainda hoje, é uma instituição muito respeitada, e contou entre os seus membros Robert Boyle, Robert Hooke, Isaac Newton, Christopher Wren, Kelvin, Faraday, Maxwell, JJ Thomson, Stephen Hawking e bastantes laureados com o Prémio Nobel.

Um segundo acontecimento relevante foi o Grande Incêndio de Londres ocorrido entre 2 e 6 de Setembro 1666, que se estima que tenha destruído as habitações de mais de 85% da população da cidade, incluindo também a velha catedral de S. Paulo. Esta grande devastação levou certamente que um grande número de pedreiros livres tivesse sido contratado para efectuar a reconstrução da cidade.

A junção temporal destes dois eventos leva-me a concluir, que terá havido, no tempo e nos espaço, uma grande concentração de pedreiros livres e a nova vaga de filósofos naturais que fundaram a Royal Society, e que certamente terá havido contactos entre eles.

A minha especulação começa aqui. Este grupo de filósofos naturais, alguns precussores do Iluminismo do século XVIII, contaram entre os seus membros figuras ilustres que a História consagrou, e numa quantidade invulgar para o mesmo intervalo temporal. Penso que eles terão ficado fascinados com o método simbólico que a Maçonaria usava para a transmissão de conhecimentos e valores. Não nos esqueçamos que, por exemplo, Isaac Newton foi um estudante entusiástico dos mistérios da Alquimia.

É assim natural que os valores maçónicos da Igualdade, Liberdade, Fraternidade, Rectidão e Justiça, e os seus respectivos símbolos seriam muito apelativos a esta geração de homens esclarecidos. E sendo eles homens de ciência, todo o conhecimento antigo de geometria e engenharia que os pedreiros livres possuiam, também deve ter contribuído para esse fascínio.

O respeito e admiração entre os dois grupos deve ter sido mútuo, pelo que devem ter começado a ter reuniões conjuntas, chegando ao ponto dos maçons operativos terem aceite membros fora da sua profissão nas suas Lojas, onde as discussões filosóficas devem ter sido fascinantes. O proxímo passo terá sido certamente, a criação de Lojas Maçónicas puramente especulativas. Tendo Isaac Newton sido presidente da Royal Society entre 1703 e 1727, precisamente na altura se forma a Grande Loja

de Inglaterra, a minha especulção é que ele terá sido uma das figuras mais impulsionou a criação da Maçonaria Especulativa, utilizando o Método Simbólico de transmissão de conhecimentos da Maçonaria Operativa. Apesar de haver provas documentais de que Newton era um adepto da Alquimia e dos Mistérios Antigos Iniciáticos, não existem provas que ele tivesse sido iniciado ou pertencido a alguma Loja Maçónica.No entanto a minha especulação mantém-se: terá sido Newton, juntamente com outros comtemporâneos da Royal Society, incluindo o arquitecto da nova Catedral de S. Paulo, Christopher Wren, os criadores da Maçonaria Especulativa, e na Inglaterra? E terá Newton criado o cálculo diferencial e integral, a teoria clássica da mecânica e da gravidade, tão importantes no desenvolvimento tecnológico da sociedade actual, com base em conhecimentos mais antigos transmitidos pelos pedreiros livres, guardões da altura da Sabedoria Antiga? Ficam as especulações


Autor: Imhotep

segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Silêncio e a Contemplação dos Reflexos da Luz

Desde que iniciei com a ajuda dos meus Q:. I:. o caminho para a Luz fui incentivado a observar e absorver o decorrer dos trabalhos nas sessões em Loja, tendo atenção ao Ritual, aos Cargos, participando no que me é possível e sempre que solicitado.

No inico do meu percurso numa das nossas confraternizações um dos nossos irmãos sugeriu que um tema que um dia pediria a um A:.M:. ou C:.M:. que viesse a acompanhar seria o tema Silêncio, tendo desde essa data esse tema ficado latente nas pesquisas e leituras que fui encontrando e fazendo a minha reflexão.

A primeira questão com que me deparei e que numa primeira fase pareceria mais simples, não o foi. O que é isto do Silêncio? É estar calado? Ou mais que isso?

Recorrendo-me de um dicionário verificamos que si·lên·ci·o provém do latim silentium e é um substantivo masculino que define o estado de quem se abstém ou para de falar, a cessação de som ou ruído, a interrupção de correspondência ou de comunicação, a omissão de uma explicação, o sossego, quietude, calma, o segredo, sigilo, o Toque nos quartéis e conventos, depois do recolher e frequentemente utilizada a palavra como interjeição numa expressão usada para impedir de falar ou pedir que alguém se cale.

Definida a palavra, importa detalhar de forma semiótica a mesma para perceber a sua significação na relação com a Maçonaria. Neste processo de análise levantam-se duas questões que para mim e no trabalho que tenho desenvolvido no desbaste da pedra bruta como A:. e no polimento como C:. têm significados distintos:

- O que é o Silêncio Maçónico?

- O que é Silêncio em Maçonaria?

Começando na demanda da primeira questão, a interrogação remete-me para o significado associado ao Silêncio de Segredo. O nosso Q:.I:. António Arnaut define a nossa A:.O:. como “ discreta” e não secreta já que nada tem a esconder e os Rituais podem ser facilmente encontrados num qualquer alfarrabista, assim é reservada já que por ser iniciática não está aberta ao público e reserva apenas aos M:. o conhecimento de certas práticas e saberes, o que poderá ser considerado o segredo maçónico. Como exemplo de não sermos uma associação secreta temos as recentes eleições em que mutos nos nossos I:. tiveram conhecimento dos resultados na imprensa e não pela nossa A:.O:.

Podemos claro considerar que a Maçonaria como associação de homens livres, de bons costumes, onde seus membros se dedicam ao aperfeiçoamento moral e social através do trabalho constante já foi alvo de diversas perseguições com consequências graves para todos os M:. pelo que a manutenção do Segredo sobre as praticas da Maçonaria eram uma questão de sobrevivência.

Actualmente no caso de Portugal, se podemos considerar que não é fisicamente uma ameaça ser M:., pode ser ainda prejudicial profissionalmente, esta situação é causada pelo desconhecimento e preconceito que o mundo profano tem da nossa A:.O:. e será também aqui importante a nossa acção diária nos nossos actos com Cidadãos e até como G:.O:.L:. para desmistificar esses preconceitos junto do mundo profano o quanto baste para assumirmos o nosso papel tantas vezes esquecido e muitas vezes manchado pela má conduta de alguns M:. ou pela calunia sobre terceiros utilizando a nossa A:.O:. até como uma arma contra um nosso I:. ou profano que até poderá nunca ter sido iniciado.

Vivendo num mundo em constante mutação e com equilíbrios por vezes muito frágeis é importante também manter uma forte vertente discreta para que não seja dado por garantido que não teremos de nos manter vigilantes para a necessidade de estarmos sempre preparados a retornar a práticas mais Clandestinas ou apoiar essas mesmas práticas nos locais onde a Republica e a Democracia estão postas em causa ou já não exista para que não se percam os nossos valores fundamentais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Finalmente e ainda sob a ideia de Segredo temos o nosso juramento que não divulgaremos o que se passa na nossa A:.O:., em todas as sessões prometemos ao nosso V:.M:. não revelar a M:. ou profano algum o que se passou na sessão, o que não serão apenas palavras lidas num Ritual, pois este nosso compromisso é um dos alicerces da nossa união. É nesta componente do Segredo Maçónico que pela confiança mutua exercitamos a nossa fraternidade pelos símbolos, hábitos e costumes que partilhamos e ensinamos aos I:. que a Loja acolhe no seu seio.

Então e além do Segredo Maçónico o que poderá ser igualmente o Silêncio em Maçonaria?

Reflectindo sobre esta questão o meu pensamento vai para o silêncio quase absoluto em que o A:.M:. e o C:.M:. estão confinados nas sessões, o que numa primeira análise não seria uma pratica muito Maçónica pois não estão num patamar de igualdade para com os I:.M:.M…

Para compreender esta discrepância na utilização da palavra fui relembrar o conceito de A:.M:., C:.M:. e M:.M:. socorrendo-me das definições dadas pelo nosso Q:. I:. António Ventura:

A:.M:., - “Titulo do 1 grau de todos os ritos maçónicos. Representa aquele que começa a aprender, o “estagiário”, o Homem na sua primeira infância, carente de protecção, apoio e ensino que trabalhará no desbaste da «Pedra Bruta», de forma a conhecer-se a si próprio e a libertar-se progressivamente dos preconceitos da vida profana”.

C:.M:. – “Titulo do 2 grau de todos os ritos maçónicos. Já está suficientemente instruído para poder acompanhar o mestre na maioria dos trabalhos. Representa o homem na sua juventude espiritual, com iniciativas, mas ainda pouco consciente das virtualidades que possui” (…) “Trabalha simbolicamente no polimento da «pedra bruta», já desbastada pelo aprendiz.”

M:.M.. – “Titulo do 3.º grau de todos os ritos maçónicos. Já possui faculdades para trabalhar por si e para ensinar os outros. Representa o homem maduro, consciente das suas responsabilidades. Só neste grau o maçon atinge a plenitude, pode intervir na Loja, eleger e ser eleito para todos os cargos.”

Lendo estas três definições sou imediatamente remetido para o desenvolvimento cognitivo entre o profano e o M:.M:.

Este desenvolvimento inicia-se na Câmara de Reflexões, na iniciação onde uma da inscrições contem as letras V.I.T.R.I.O.L., estas além de darem o nome a uma Associação paramaçónica, significa Visita Interior Terrae Rectificando que Invenies Occultum Lapidem (Visita o Interior da Terra e Rectificando Encontrarás a Pedra Oculta). Aqui somos transportados para uma certeza, temos de meditar sobre nós próprios e nessa introspecção encontrarmos um exercício que não cessará. Iremos de forma constante procurar formas dentro de nós mediante as experiências que temos de nos melhorarmos como indivíduos e consequentemente como grupo.

Esta perspectiva remeteu-me para as diversas teorias existentes de desenvolvimento sendo que das leituras que fiz a que me pareceu mais alinhavada com o meu pensamento sobre o tema foi a Teoria Cognitiva, esta apesar de já ser datada para alguns estudiosos do tema, ajuda-nos a perceber a nossa forma de aprendizagem cognitiva pois surge na década de 50 com um complemento das teorias comportamentais em que a aprendizagem era apenas efectuada por condicionamento, ou seja estimulo-resposta.

Assim, na teoria cognitiva vemos a definição do termo cognição como o conjunto de habilidades mentais que desenvolvemos para a construção do nosso conhecimento do mundo. Os processos cognitivos envolvem, portanto, as capacidades relacionadas ao desenvolvimento do pensamento, raciocínio, fala, introspecção etc, tendo inicio na infância e estando directamente relacionados com a aprendizagem.

Não pretendo nesta prancha detalhar as diversas correntes cognitivistas defendidas por Piaget, Wallon e outros, pois cada uma delas é digna de um trabalho académico para o qual confesso não tenho formação adequada, no entanto apesar das diferenças entre estas correntes todas procuram compreender como a aprendizagem ocorre no que se refere às estruturas mentais do sujeito e sobre o que é preciso fazer para aprender, num processo de construção de um esquema de representações mentais que se dá a partir da participação activa do sujeito e que resulta na transformação em conhecimento.

Assim e transpondo este processo de aprendizagem para a Maçonaria temos no silencio uma ferramenta fulcral. Estamos no processo de nascer de novo para o mundo, de nos contruirmos novamente e iniciamos assim o processo de caminhar para o conhecimento, o que se faz primeiro por observação depois por repetição e finalmente ao desenvolver o nosso trabalho, podemos fazer aqui um paralelismo com os três primeiros graus maçónicos e os diferentes estágios da aprendizagem da infância à idade adulta tão patente nas viagens da iniciação. Verificamos assim que o silencio em maçonaria é mais que não falar, não é na verdade sequer ser proibido de falar, é ter o direito a ouvir atentamente e meditar sobre o que foi ouvido, num exercício disciplinado que nos permite como A:. e C:. M:. ver coisas que posteriormente teremos menos disponibilidade para ver.

Anteriormente referi que têm surgido questões ao longo do meu caminho no desbaste da pedra bruta como A:.M:. e no polimento como C:.M:., o mesmo sucederá aos M:.Q:.I:. M:.M:. pois todos nós procuramos a verdade num caminho que será eterno. Orgulhosos todos por em determinados momentos nos silenciamos na contemplação dos reflexos da Luz que nos motiva e fortalece os nossos propósitos pois no trabalho estarmos todos os dias um dia mais perto da construção de um Mundo mais justo e perfeito.

Finalmente deixo-vos com uma consideração sobre este tema que me parece pertinente remetendo para a definição de M:.M:. “só neste grau o maçon atinge a plenitude”, pois bem, tal e qual como no mundo profano, sendo o A:.M:. e o C:.M:. remetidos aos silencio não estão efectivamente num patamar de igualdade para com os I:.M:.M:., estão sim num patamar que se poderá dizer até superior pois num gesto de grande fraternidade estes permitem que os primeiros aprendam e evoluam, tendo mais tempo para conseguir contemplar os reflexos da Luz antes de se dedicarem ao trabalho e ensino dos I:. que os seguem.

Na Maçonaria silenciar-se é ouvir.

 

Autor: Armindo Matias