terça-feira, 9 de junho de 2009

Uma sobremesa indigesta

Num dia de Fevereiro tive um almoço muito diferente do habitual. Os meus convivas eram pessoas que então mal conhecia. No entanto, sendo amigos de um grande amigo, naturalmente os considerei amigos.
Este almoço não era meramente social, mas destinava-se a uma «entrevista». É certo que já estou habituado a entrevistas feitas por alguém com um gravador e com um cansativo fotógrafo a dizer para sorrir ou olhar para aqui ou para acolá. Mas esta era muito diferente. Como sobremesa foram-me colocadas uma série de perguntas que implicavam uma reflexão difícil e complexa, na qual procurei ser o mais honesto possível com os meus interlocutores e comigo mesmo, apesar de ser colocado perante graves dilemas. O choque de valores fundamentais é sempre algo muito complicado. Confesso que os achei óptimos temas para alguns dos meus modestos contos...
No final fui convidado a ler e assinar um pequeno documento, onde me eram colocadas duas questões. A primeira referia-se a partilhar os ideais da Maçonaria. Por aquilo que então sabia, não tive dúvidas em concordar.
Mais complicada para mim foi a segunda, na qual eu deveria dizer que aceito a existência de um Deus. Assim mesmo, com maiúscula! Tive de conversar com os meus interlocutores sobre o significado exacto da pergunta.
De facto já tinha conhecimento de que na Maçonaria há uma referência frequente ao Grande Arquitecto do Universo. Mas ali estava preto no branco a palavra «Deus».
Na conversa que se seguiu, percebi melhor o sentido da pergunta. A palavra «Deus» não tinha ali a conotação vulgar na nossa cultura. Seria antes admitir que existe uma «força» ou «algo», que levou ao aparecimento de tudo quanto nos rodeia, desde a pedra da calçada até à mais longínqua galáxia e que continua a governar os grandes acontecimentos que ocorrem no Universo. Perante a explicação dos meus convivas, a resposta à pergunta passava a ser positiva.
Por uma questão de honestidade acho ser meu dever explicar as minhas ideias sobre o assunto.
Na minha opinião, o órgão mais importante e que melhor distingue o ser humano é o cérebro. E se o temos, acho essencial que o usemos. Por isso não me parece que se deva simplesmente «acreditar». Devemos tentar perceber, pensar nos assuntos, analisar os factos, ponderar os argumentos a favor e contra. Só depois de um estudo, que nalguns casos deve ser aprofundado até onde as nossas capacidades o permitirem, se devem extrair conclusões. Aí deveremos dizer «penso que» ou «admito que» e não «acredito que». Naturalmente que haverá questões para as quais não temos uma resposta lógica. Mas acho que dizer «não sei» é um acto de coragem e deve constituir um incentivo a mais estudo, a mais trabalho.
A cosmologia actual considera que o nosso Universo terá começado com um fenómeno extraordinário a que, por graça, foi dado o nome de «Big Bang» (BB). Tudo quanto existe nesse Universo, matéria e energia, espaço e tempo, terá tido a sua origem nesse momento. Se o BB foi acto de um Deus ou se resultou de um ciclo de contracções (big crunch) e expansões alternadas, a ciência não o conseguiu esclarecer até à data. Portanto daqui não se poderá concluir sobre a existência ou não de Deus, mas tenho de admitir que uma força (ou um conjunto de forças) deu origem ao nosso Universo.
Por outro lado, bastará possuir conhecimentos elementares de física para se saber que matéria e energia são uma só e que uma se pode transformar na outra. Foi preciso muito tempo para que os físicos concluíssem que ambas obedecem a um conjunto de «forças» e que estas se podem resumir a quatro fundamentais: gravidade, electromagnética, nuclear fraca e nuclear forte. Parece também cada vez mais evidente, que todas elas estão de algum modo relacionadas entre si e uma das grandes buscas da ciência actual é precisamente a criação de uma teoria que as consiga unificar a todas, a chamada Teoria de Grande Unificação.
De qualquer forma terão sido essas forças (ou afinal uma só) quem, desde o início do nosso actual Universo, governou todas as suas transformações e parece evidente que assim deverá continuar a acontecer. Como não vejo qualquer problema em que se chame «Deus» a essas forças ou ao seu conjunto, não havia motivo para não assinar.

Autor: Carl Sagan

Nota de edição:
O episódio acima descrito sobre a aceitação da existência de "Deus" refere-se a condição particular a outra obediência maçónica que não a do Grande Oriente Lusitano, onde tal condição não é imposta por norma de exclusão de dogmas. Assim e sob reserva do profundo respeito pelas normas e preceitos de todas as obediências maçónicas, entendeu-se no entanto, interessante a publicação do texto em causa, pela globalidade didáctica do seu conteúdo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Nome Simbólico - Charles Darwin

Charles Darwin, naturalista inglês, nasceu em 12 de Fevereiro de 1809 em Sherewsbury, filho de Robert Darwin e de Susannah Wedgood. Com 17 anos, Darwin deixou Sherewsbury para estudar medicina na universidade de Edinburgh. Repelido pelas práticas cirúrgicas sem anestesia (ainda desconhecidas na época) em 31 de Dezembro de 1831 ele aceita o convite para tornar-se membro de uma expedição científica a bordo do navio Beagle. Assim Darwin passa cinco anos de (1831 a 1836) navegando pela costa do pacifico e pela América do Sul. Durante este período, o Beagle, aportou em quase todos os continentes e ilhas, Darwin fora chamado para exercer as funções de geólogo, botânico, zoologista e o homem de ciência, esta viagem foi uma preparação fundamental para a sua vida subsequente de pesquisador e escritor. Em todo o lugar, Darwin reunia grandes colecções de rochas, plantas e animais que imediatamente, enviava à sua pátria.
Após o seu regresso a Inglaterra, Darwin iniciou um caderno de notas sobre a evolução dando assim os primeiros passos para a teoria da origem das espécies. No começo, o grande enigma era explicar o aparecimento e o desaparecimento das espécies. Assim surgiram na sua cabeça várias questões por que se originavam as espécies? Por que se modificavam com o passar dos tempos? Depois disso, nasceu a famosa doutrina Darwinista da selecção natural, da luta pela sobrevivência ou da sobrevivência dos mais aptos, pedra fundamental da origem das espécies. Nessa altura Darwin estava a mudar a crença contemporânea sobre a criação da Vida na Terra.
No livro “Origens das Espécies”, Darwin defende duas teorias principais: A da evolução biológica - todas as espécies, plantas e animais; que vivem hoje, descendem de formas mais primitivas – e de que esta evolução ocorre por selecção natural; Os princípios básicos da teoria sobre a evolução, embora existam controvérsias em torno deles; Darwin tentou mostrar que a selecção natural tende a modificar as características dos indivíduos ao longo de gerações, podendo gerar o aparecimento de novas espécies. No mundo de hoje o evolucionismo surge como uma doutrina extraordinariamente actual e dotada de argumentos capazes de criar roturas com o tradicionalismo e as convenções clássicas, conduzindo o Homem a uma reabordagem constante da sua própria evolução biológica. No Universo e na Vida, em todas as suas manifestações, o evolucionismo pressupõe, serem mais plausíveis à mudança dos organismos vivos, Darwin, teve oportunidade de observar diferentes fenómenos da natureza que lhe despertaram a curiosidade e que viriam a ser pilares no desenvolvimento da sua teoria.

A razão por que escolhi Charles Darwin, foram duas, ignorando eu se Charles Darwin pertenceu à nossa Augusta Ordem, no entanto, penso que o seu profundo e prolongado trabalho, tal como a sua vontade de saber cada vez mais e a busca da verdade são aspectos que estão perfeitamente de acordo com o espírito que deve dirigir a actividade de todos os maçons. Identifico-me plenamente com este espírito e de aí ter escolhido o seu nome para o usar simbolicamente entre nós; A segunda razão, porque como ele, eu também sou um amante da natureza um estudioso de aves conhecendo quase todas as espécies as diferenças entre machos e fêmeas e coleccionador de aves (perto de setecentas criadas em cativeiro pelo prazer de as poder observar de perto).

Autor: Charles Darwin

terça-feira, 26 de maio de 2009

Desbastar a pedra bruta

Desbastar a pedra bruta, aproximando-a da sua forma final – esta é a tarefa ou trabalho simbólico a que todo o Aprendiz tem de se dedicar para chegar a ser um obreiro que domine inteiramente a sua Arte.
Neste trabalho simbólico, o Aprendiz é simultaneamente obreiro, matéria-prima e instrumento. Ele próprio é a pedra bruta, emblemática do seu ainda muito imperfeito desenvolvimento, é a pedra que tem de converter em perfeição interior enquanto se mantém no estado latente dessa evidente imperfeição, por forma a que possa ocupar o lugar que lhe corresponde no edifício para que está destinada.
Todavia, dado que a Perfeição é infinita e, no seu estado absoluto, inatingível, unicamente podemos aspirar a nos acercarmos da perfeição que nos for dado conceber, no estádio do progresso em que nos encontrarmos. O nosso progresso desenvolve-se, pois, através de graus sucessivos de perfeição relativa, enquanto, por um lado, o próprio reconhecimento da nossa imperfeição – a pedra bruta – e, por outro, o de um ideal que desejamos, são as primeiras condições indispensáveis para que possa haver esse trabalho.
Tal tarefa consiste em despojar a pedra bruta das suas asperezas, pondo primeiro em evidência o estado de rudeza da pedra; depois, rectificando-a, alisando-a e desbastando todas as protuberâncias que a afastem da forma harmoniosa que é necessário conferir-lhe.
É importante notar que não se trata de aproximar a pedra da forma de um determinado modelo exterior, se bem que este possa servir de incitamento e de inspiração, mas que o modelo ou perfeição têm de ser procurados no seio dessa mesma pedra.

Autor: Álvaro