terça-feira, 23 de abril de 2013

Poema de Instrução do 2.º Vig. aos Aprendizes

Aprendiz,
Neste Meio-Dia onde me sento,
peço-te que confies no testemunho
Se eu m
orrer hoje,
se nunca mais nos virmos,
Segue andando.
Chegaste até aqui
com a tua esperança e o teu
cansaço
não são os teu pés os que caminham
é o caminho que te vai
levando.
Segue andando.
No andar encontrarás
a verdade que vais buscando.
Mais além do triunfo e do
fracasso
não há impossíveis.
Segue andando.

Aprendiz,
se eu morrer hoje,
se nunca mais nos encontrarmos,
neste lugar do Meio-Dia,
te digo:
O Amor é um tesouro
inesgotável
e estás ao alcance das tuas mãos.
O Amor está esperando.
Não desesperes nunca
Semeador
segue semeando
Outros virão ao caminho
e a tua canção os irá guiando.
Segue andando.


Autor: Osvaldo Maggi, 33º (Oriente Eterno)
Grande Inspector Geral do Supremo Conselho Unificado para a Grã-Bertanha do Rito Escocês Antigo e Aceito - Grande Loja Unida de Inglaterra.
Past-Venerável da Resp. L. Estrela do Ocidente, nº 485, Or. de Lisboa

terça-feira, 9 de abril de 2013

O Mito da Escada de Jacó na Maçonaria

A escada de Jacó é um dos temas mais fantasiosos no pseudo-simbolismo maçônico. Melhor dizendo: as interpretações dessa famosa escada são mitos que passaram de geração em geração.
Antes de qualquer coisa, precisamos saber quem foi Jacó e o que é uma escada em termos alegóricos. Jacó era filho de Isaac e conseguiu enganar o pai fazendo-se passar pelo irmão primogênito. Assim, recebeu a bênção paterna nesses termos: “Que Deus te conceda o orvalho do céu e a fertilidade da terra, trigo e vinho em abundância. Sirvam-te povos e prostrem-se diante de ti nações; sê um senhor de teus irmãos e diante de ti prostrem-se os filhos de tua mãe. Maldito quem te amaldiçoar e bendito quem te abençoar”. E prossegue Isaac dizendo: “Não cases com nenhuma das moças de Canaã. Vai a Padã-Aram, e casa-te lá com uma das filhas de Labão, irmão de tua mãe. Concedo-te a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência, a fim de possuíres a terra em que vives como estrangeiro.”
(Todas estas passagens estão no livro de Gênesis, podem conferir – não estou inventando nada.)
Prosseguindo: “Jacó saiu de Bersabéia e, ao se dirigir para Harã, alcançou um lugar onde se dispôs a passar a noite, pois o sol já se havia posto. Pegou uma das pedras do lugar, colocou-a como travesseiro e dormiu. Então, teve um sonho: Via uma escada apoiada no chão e com a outra ponta tocando o céu. Por ela subiam e desciam os anjos de Deus. No alto da escada estava o Senhor que lhe disse: ‘Eu sou o Senhor, Deus de teu pai Abraão, o Deus de Isaac. A ti e a tua descendência darei a terra sobre a qual estás deitado. Tua descendência será como o pó da terra e te expandirás para o ocidente e para o oriente, para o norte e para o sul. Em ti e em tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Estou contigo e te guardarei aonde quer que vás, e te reconduzirei a esta terra. Nunca te abandonarei até cumprir o que te prometi”. Ao despertar, Jacó disse consigo: “Como é terrível este lugar! Sem dúvida o Senhor está neste lugar e eu não sabia. Isto aqui só pode ser a casa de Deus e a porta do céu”. Atemorizado, levantou-se, tomou a pedra que lhe servira de travesseiro, e a erigiu em estela (monumento monolítico feito em pedra), derramando óleo por cima e chamando ao lugar de Betel (Casa de Deus). 
Jacó fez um voto, dizendo: “Se Deus estiver comigo e me proteger nesta viagem, dando-me pão para comer e roupa para vestir, e se eu voltar são e salvo para a casa de meu pai, então o Senhor será meu Deus. Esta pedra que erigi em estela será transformada em casa de Deus e dar-te-ei o dízimo de tudo que me deres”.

Aí está a origem e o significado da escada “de Jacó” que não é nem escada, nem “de Jacó”. Foi uma visão tida em sonhos de algo apoiado no chão e com a outra ponta tocando o céu. Em sonhos, repito, Jacó percebeu anjos de Deus que subiam e desciam. Mas Jacó não subiu nem desceu pela escada, pois, como ele mesmo disse amedrontado, aquele lugar era terrível, sem dúvida a casa de Deus e a porta do céu (o terribilis est locus iste latino). Jacó não ousou prosseguir porta adentro nem subir escada acima. Apenas tomou a pedra que lhe servira de travesseiro e fez dela um altar comemorativo daquele acontecimento. 

E partiu dali ao encontro de Labão, “pai de Raquel serrana bela” – conforme versejou Camões – “Mas não servia ao pai, servia a ela, e a ela só por prêmio pretendia. Porém o pai, usando de cautela, em lugar de Raquel lhe dava Lia. Vendo o triste pastor que com enganos lhe fora assim negada a sua pastora, começa de servir outros sete anos, dizendo: — Mais servira, se não fora para tão longo amor tão curta a vida!”

Isto posto, pergunto aos meus botões de onde os inventores de Maçonaria tiraram a interpretação de que a “escada de Jacó” significa a ascensão nos Graus? Que maçons são esses que ousaram subir pela escada do local terrível, atravessarem a porta do céu, proeza da qual Jacó jamais pensou em realizar?
Não pretendo escarafunchar toda a literatura maçônica para provar o que digo. Cito apenas o douto Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo em seu monumental Dicionário de Maçonaria (Editora Pensamento) que vê na escada “de Jacó” a representação da “hierarquia dos seres, potestades, mundos e reinos de vida”. 

A escada de catorze degraus em Maçonaria é outra coisa, assunto de outros ritos que não o escocês e outros Graus que não os simbólicos. Portanto nem toda escada deve ser confundida com a do sonho de Jacó.
Para complicar ainda mais as coisas, uma indevida simbiose com a Teologia Católica misturou o sonho de Jacó (hebreu) com as Virtudes Teologais apregoadas, pela primeira vez na História, por Santo Ambrósio de Milão, Santo Agostinho de Hipona, São Tomás de Aquino e São Roberto Belarmino. Essa interação entre simbolismo maçônico e elementos da fé cristã (notadamente a Católica Apostólica Romana) nasceu da tentativa de estabelecer um diálogo entre a fé e a razão. Mas não consta que esses Santos tenham subido a escada “de Jacó” nem que tenham sido iniciados na Maçonaria. Sinto decepcioná-los... 


Continuar batendo nessa mesma tecla (ou nessa mesma escada) é andar em círculos por desconhecer a História e a própria Maçonaria. A escada que aparece num dos painéis do Grau não é a escada dos sonhos de Jacó, embora muitos artistas inflamados delirem ao desenhar anjos no topo da mesma. A escada do painel, que de forma alguma deve constar da decoração das Lojas, pendurada no teto, é uma alegoria referente à elevação moral do homem, e não à caminhada em direção à morada do Altíssimo.


A Maçonaria, não sendo uma religião, há de permanecer à margem de quaisquer sectarismos. Um muçulmano, por exemplo, não verá o Jacó hebreu numa escada nem as virtudes cardinais de São Tomás de Aquino. Um budista menos ainda! Mas todas as religiões entenderão a escada como elevação, valoração e crescimento humanos. 

Autor: José Maurício Guimarães
www.zmauricio.blogspot.pt

terça-feira, 26 de março de 2013

A Carbonária

Sobre a Carbonária, o único escritor, no Brasil, que se dedicou realmente em trazer algum esclarecimento, foi o Irmão Adelino de Figueiredo Lima, por isso, vamos transcrever apenas uma pequena introdução que ele fez da Carbonária: "Nenhuma Sociedade Secreta fascinou tanto as multidões sequiosas de sua liberdade, ou da independência política conquistada à custa de lágrimas e sangue, quanto a Maçonaria Florestal, mais conhecida como "Carbonária", por ter sido fundada pelos carvoeiros da Hannover, como associação de defesa e de acção contra os opressores e assaltantes de sua classe. Constituída no último quartel do séc. XV, ela só veio a entrar na História, como organização de carácter político, após a Grande Revolução Francesa. Na Itália, adquiriu fama de violenta e sanguinária, e introduzida em França por ordem de Napoleão, não tardou em converter-se na mais poderosa força oposicionista ao expansionismo do grande corso, lutando contra ele na França, na Áustria, na Espanha e em Portugal.”

O nome de "Maçonaria Florestal", veio depois que irrompeu, em Itália e França. "Maçonaria", porque os Maçons a propagavam e a protegiam, "Florestal", porque as Iniciações dos seus Membros, lembravam as dos antigos Carvoeiros de Hannover, realizadas nas florestas mais densas, a cobertos das vistas estranhas. 
Os Carbonários, antes de serem investidos nos Segredos da Ordem, passavam por duras provas e prestavam os mais terríveis juramentos, como este, que eram assinados com próprio sangue: "Juro perante esta assembleia de homens livres, que cumprirei as ordens que receber, sem as discutir e sem hesitar, oferecendo o meu sangue em holocausto, à libertação da Pátria, à destruição do inimigo e à felicidade do Povo. Se faltar a este juramento, ou trair os desígnios da Poderosa Maçonaria Florestal, que a língua me seja arrancada e o meu corpo submetido ao fogo lento por não ter sabido honrar a Pátria que foi meu berço.” 
Só depois deste juramento é que o Candidato recebia as insígnias de Bom Primo, – as insígnias de Bom Primo consistiam de um balandrau preto e capuz, tendo bordado, em branco, no peito, um punhal (o punhal de São Constantino), com o cabo no formato cruciforme entrelaçado a uma cruz cristã.) O punhal de São Constantino não constava somente de um desenho bordado no Peito do Balandrau Preto, era também uma arma branca, que todos os Carbonários usavam – também nas suas execuções – como símbolo da Ordem a qual pertenciam. 
O Balandrau Preto, dos líderes, ao invés do Punhal e da Cruz entrelaçados – possuía bordado no peito, em dourado, um sol radiante. 
O brado de guerra dos Carbonários consistia em, cada um, levantar o seu punhal bem alto. Normalmente as reuniões dos tribunais carbonários eram realizadas, a exemplo dos carvoeiros de Hannover, no passado, em plena floresta, bem distante dos olhares curiosos e indevidos. 
Os julgamentos eram implacáveis e os réus, se condenados, eram executados com a máxima eficiência. O Carbonário era, as vezes, juiz e carrasco ao mesmo tempo. Os afiliados (jamais podiam trair a Ordem. Os que traíram, sempre foram exemplarmente executados) tornavam-se Carbonário ou executor das ordens de "Alta Venda". 

Em cada país a Organização da Maçonaria Florestal obedecia ao esquema italiano: 
"Alta Venda", corpo deliberativo superior, composto de um Delegado da cada "Barraca", composta por sua vez por um Delegado de cada "Cabana", e as "Cabanas" eram formadas por um Delegado de cada "Choça". Acima da "Alta Venda" estava porém, a "Jovem Itália", composta por um triunvirato que nas lutas pela Unificação e pela queda do Poder Temporal dos Papas, era constituído por Cavour, Mazzini e Garibaldi. 
A Carbonária Italiana, de princípio, foi protegida pelo Carbonário Lucien Charles Napoleão Murat, General de Napoleão Bonaparte e Princípe de Monte Corvo, filho do Marechal Murat, nascido em Milão, em 1803. Ele abandonou a Itália em 1815, com a derrocada de Napoleão em Waterloo, tendo sido capturado em Espanha. Após a sua libertação, seguiu para os Estados Unidos, em 1825. Ali se casou, tendo retornado a Paris em 1848.
Mais tarde, Murat foi eleito Grão Mestre do Grande Oriente, conseguindo um progresso muito grande no erguimento da Obediência, com a fundação de muitas novas Lojas. 

Um dos elementos que se deve destacar na Carbonária Italiana – não pelos seus actos patrióticos, mas sim pela sua traição à Carbonária – é o Conde Peregrino Rossi. Rossi teve duas atitudes distintas: na mocidade, foi um dos mais activistas e propagandistas dos ideais da Carbonária, merecendo o respeito de todos os Bons Primos. Todavia, de um momento para outro, bandeou-se para as hostes inimigas. 
Rossi aliou-se ao Papa Gregório XVI com a finalidade de conseguir do Papa, condenações às acções dos Jesuítas. Nesse ínterim, morre Gregório XVI e sobe ao Trono de São Pedro o Papa Pio IX, ao qual Rossi se afiliou de corpo e alma. Rossi, que fora até Roma para combater o jesuitismo, volta um fiel defensor dos Irmãos de Inácio de Loyola. É proscrito da Carbonária em 1820 e se torna um novo Saulo, convertendo-se aos ideais do Papa. 
- Era o novo Judas, gritavam em todas as Barracas, de punhal em riste, os Bons Primos, seus antigos companheiros.
Conhecedor que era dos métodos de seus antigos companheiros, Rossi teve muita facilidade de nomear seus líderes e encher as prisões da Cidade Eterna, dando um tremendo golpe no movimento revolucionário.
Rossi cada vez mais se dedicava a uma acção repressiva, sem pensar que, desde a mais humilde Choça à mais pujante Barraca, e com Giuseppe Mazzini tendo o controle de todas as Altas Venda - os punhais de São Constantino eram levantados e descreviam no ar o ângulo recto das decisões fatais. A sentença estava lavrada, terrível e implacável.

Havia sido marcada uma reunião para o dia 15 de Novembro, a 1 hora da tarde, com o Ministro Conde Peregrino Rossi. Dissera Rossi no dia anterior: "- Se me deixarem falar, se me derem tempo para pronunciar o meu discurso, não só a Itália estará salva, como ficará definitivamente morta a demagogia da Península". A demagogia da península era o movimento Carbonário. "- La causa del Papa es la causa del Dio". 
Conde Peregrino Rossi desceu as escadarias e entrou na carruagem que o levaria ao Parlamento. 
Chegando à praça, a carruagem atravessou lentamente a multidão e entrou pela porta do Palácio e foi parar em frente ao vestíbulo, onde Peregrino Rossi foi saudado por assobios e gritos enraivecidos: 
- Abaixo o traidor!
- Morte ao vendilhão da Pátria!

Só então Rossi se apercebeu que nem toda a consciência nacional estava encarcerada na Civiltá Véchia. 
Esboçou um sorriso contrafeito para a multidão e quando se dispunha a continuar a marcha, recebeu um golpe na carótida, especialidade dos Bons Primos, que o fez tombar agonizante. No bolso interno da sobrecasaca, ao ser recolhido o cadáver, foi encontrada a sentença de morte: "Juraste lutar pela unificação da Itália e traíste o juramento! Lembrando: Juro que jamais abandonarei as armas ou desertarei do Movimento Patriótico, enquanto a Itália não for livre e entregue a um governo do Povo, para o Povo. Se eu faltar a esse juramento, prestado de minha livre e espontânea vontade, que o pescoço me seja cortado e o meu nome desonrado e apregoado como o mais vil traidor à Pátria e aos Bons Primos da Carbonária Italiana. Com coisas sérias não se brinca!” 

Como vimos, a Carbonária estava distante da Maçonaria, mas apesar disso, sempre foi confundida com a Maçonaria, até por Maçons bisonhos que acreditam que no passado a Maçonaria executava Irmãos e profanos que não rezassem por sua cartilha. De vez em quando, ouvimos um Irmão dizer que a Maçonaria precisa voltar a ser o que era no passado, e executar os maus elementos da sociedade.

A Maçonaria em tempo algum executou os maus elementos da sociedade. Quem, às vezes fez isso, foi a Carbonária, a Maçonaria não. A Maçonaria sempre foi pacífica, respeitadora da lei e ordem. Só usando sua estrutura fechada para lutar contra os maus regimes políticos e algumas instituições nocivas, mas sempre ordeira e pacificamente. Seus membros, sim, às vezes, independentemente de suas Lojas, se filiavam a movimentos ou grupos vingadores.

Bons Primos Carbonários – Imãos Para Sempre!

Autor: Xico TRolha
Texto extraído do livro "Itambé, Berço Heróico da Maçonaria no Brasil", Ed. "A Trolha", 1996.