quarta-feira, 21 de março de 2018

História de uma Flor: A Miosótis

De traço descomplicado e sem nenhuma beleza invulgar, a miosótis é uma flor primaveril, de silhueta pequena e delicada, com 5 pétalas simétricas e aveludadas que podem assumir a cor azul, rosa, branca ou amarela.

Originária das terras frias dos czares, as suas mais de 7 dezenas de espécies distintas proliferam pelas serranias da generalidade dos continentes, passando despercebida nos campos mais verdejantes, nas montanhas mais recônditas e até nas vitrinas das mais intrigantes floristas.

É nas lendas medievais que ganha a sua notoriedade e também o seu nome; é costumeiramente conhecida por “não-me-esqueças”, adquirindo idêntico significado em Inglês “forget-me-not”, em Alemão “vergissmeinnicht”, em Espanhol “nomeolvides” e em Italiano “Nontiscordardimé.

Reza a lenda, que num dia de Primavera dois jovens apaixonados se encontravam na margem de um rio, quando a formosa donzela avistou um ramo de miosótis a flutuar nas suas águas, tendo ficado maravilhada pela sua beleza. O jovem cavaleiro, com tanto de impetuoso como de tolo, de imediato se lança líquido turbulento deste flúmen com o intuito colher tão bela flor, mas acaba por não resistir à sua imponente corrente, dirigindo como último suspiro de vida à sua amada as palavras: "Não-me-esqueças". Encerra a lenda que a partir desse dia a miosótis passou a crescer nas ourelas dos rios para que mais nenhum homem ou mulher tivesse que perecer em sua penitência.

Fabula-se ainda que Adão, enquanto estava no Jardim do Éden a nominar as plantas, se terá esquecido desta miudinha flor; quando interpelado, de imediato responde que dai em diante seria conhecida por “não-me-esqueças”, para que jamais lhe faltasse à memória o seu nome.

Das muitas lendas que ficam por contar, e mais uma vez sem qualquer pretensão religiosa, fica a referência à bonita variante azul da Miosótis, que teria nascido das lágrimas derramadas por Maria, mãe de Jesus.

O tempo passou e com ele se cogitaram lendas inauditas ao mesmo tempo que as antigas se reinventaram ou mesmo se desvaneceram, mas na cultura popular ficou para sempre o significado da miosótis como símbolo de recordação, de fidelidade e de amor verdadeiro. É sem perder este traço de memória que, no período entre a primeira e segunda grande guerra, época de grandes provações, desponta esta delicada flor de cor azul como símbolo das organizações de caridade Alemãs, com o particular significado “não se esqueçam dos pobres e desamparados”.

Mas é mais tarde no século XX que a miosótis adquire um simbolismo com tanto de particular como de íntimo com a Maçonaria, fruto de um dos períodos mais negros da história da humanidade.

Esta narrativa principia quando em 1920 o general Erich Von Ludendorff, herói alemão da primeira grande guerra, inicia uma campanha antissemítica e antimaçônica, consagrada no seu livro Aniquilação da Franco-maçonaria, no qual, além de uma pouco idónea exposição desta instituição, reparte entre esta e o povo judeu a atribuição de culpa pelo fracasso da Alemanha na primeira grande guerra; sem casualidade, o mesmo defenderia Hitler poucos anos mais tarde no seu livro Mein Kampf.

É no ano subsequente a esta ultima publicação que a nossa flor é pela primeira vez consignada em Maçonaria, quando serve de oferenda aos participes na comunicação anual da grande loja "Zur Sonne" em Bremen; vivia-se na Alemanha uma época de intensa inquietação social e de profunda crise económica, com a generalidade da população a passar por grandes privações, mais tarde profusamente acentuadas pela grande depressão de 1929. O intento de distribuir a miosótis neste convénio, foi precisamente o de lembrar os irmãos para o papel solidário e de caridade que a grande loja deveria desempenhar junto desta sociedade destroçada.

Deste tumulto social reafirma-se o poder do partido nacional-socialista, que na primavera de 1934 toma a primeira de muitas deliberações antimaçónicas, interditando a admissão no partido a todos os Maçons que não tivessem renegado a Maçonaria antes do final de Janeiro de 1933. Nesse mesmo ano, o ministro do interior Hermann Göering emite um decreto exortando as ordens Maçónicas à dissolução voluntária, não sem antes as submeter de forma clandestina à violência das SS e das SA, o que promove a saída de numerosos irmãos das suas lojas. É neste contexto sociopolítico que a "Grande Loja do Sol", ciente dos riscos eminentes, adota prudentemente a pequena miosótis como símbolo mais discreto, em detrimento do tradicional esquadro e compasso.

O previsível desfecho dá-se em 28 de Outubro de 1934 quando, por decreto, o Ministro do Interior Wilhelm Frick rotula as lojas Maçónicas como hostis ao estado e em 17 de Agosto de 1935 estas são formalmente dissolvidas e todos os seus bens confiscados, selando em definitivo o destino da Maçonaria na Alemanha nazi.

Não obstante, este epílogo foi apenas transitório, assim como o sofrimento dos nossos irmãos, pois em 1935 surge um novo ímpeto persecutório na figura de Reinhard Heydrich, à data chefe de polícia de segurança; verdadeiramente obcecado com os Maçons e determinado a purgar a sua influência no mundo intelectual e académico, cria a seção II/111 das SS, especificamente incumbida de observar os Maçons com influência na opinião pública; mais tarde, no prelúdio da grande guerra e já como chefe do Escritório Central de Segurança do Reich, estabelece a nova Seção VIIB1, particularmente diligente na investigação, vulgo açoitamento, da Maçonaria e dos seus membros.

O principiar da guerra traz o intensificar da persecução à Maçonaria, com o prosseguimento no arresto dos bens e propriedades de muitos Maçons, e mais tragicamente com a sua deportação para campos de concentração, onde forçosamente ostentavam nos seus trapos de prisioneiros o triângulo vermelho invertido, insígnia dos presos políticos.

É também neste ínterim que, de forma algo inusitada, o regime nazi permite a amnistia dos membros da Maçonaria que dela se houvessem desvinculado até Abril de 1938; ainda que nunca tenha cessado o seu martírio pelo partido nacional-socialista pelas SS, muitos irmãos são mesmo incitados a integrar as fileiras da Wehrmacht.

Para enquadrar o papel da nossa flor neste período, recuemos até 1936, ano em que a organização de caridade "Winterhilfswerk" efetua uma primeira coleta de fundos com tenção solidária, distribuindo a miosótis como símbolo deste gesto participativo; o uso das palavras caridade e solidariedade talvez seja desadequada ou mesmo injurioso, pois quer esta quer as subsequentes ações da “Winterhilfswerk” têm como propósito último liberar os fundos estatais para o esforço de guerra.

Esta coincidência, como qual metáfora simbólica, talvez tenha sido o elemento percursor da generalização do uso da miosótis como símbolo circunspecto da Maçonaria, permitindo aos Maçons o reconhecimento e a descrição necessárias à sua sobrevivência durante as trevas do nazismo. É pelo menos assim que se narra a história, dada ausência de assento nos livros de que em algum momento entre 1939 e 1945 a miosótis tenha sido utilizada pelos nossos irmãos. Fará sentido esta afirmação, quer seja por crermos que dificilmente o regime nazi aceitaria o uso rotineiro de qualquer simbologia que não lhe prestasse direta vassalagem, quer seja pelo facto de grande parte dos registos Maçónicos desta época e geografia terem sido suprimidos.

Desta cronologia sobeja-nos o emaranhado de datas, de factos e de especulações, mas desta teia não se pode apagar a memória dos irmãos que foram torturados e assassinados durante o regime nazi; essa horrível incerteza estima-se entre 80.000 a 200.00, em toda a Europa ocupada.

É no recobro deste holocausto que em 1947, do meio dos escombros de uma Alemanha destroçada, se reerguem as colunas da "Grande Loja do Sol", pela mão do seu anterior grão-mestre Beyer, e que renasce a nossa flor na forma de um pequeno pin, como símbolo da primeira convenção anual dos Maçons sobreviventes ao genocídio da grande guerra.

É pois seguindo este mesmo fio condutor que em 1948, e em memória a mais de uma década de perseguições, o irmão Theodor Vogel, mestre na loja "Zum weißen Gold am Kornberg" em Selb, toma a iniciativa de forjar pins na forma de miosótis e de os ofertar na primeira convenção anual das grandes lojas unidas da Alemanha, consolidando com este gesto simbólico esta flor como bandeira Maçónica. Mais tarde, e já como grão-mestre da grande loja AFuAM, brinda os presentes da Grande Conferência Maçónica em Washington com idênticos pins, transportando a simbologia da miosótis através do Atlântico.

No presente, a miosótis é utilizada amenamente em todos os hemisférios, na mesma forma consentida de um pin de lapela, em deferência para com todos os irmãos que ao longo da história sofreram em nome da Maçonaria. É com esta memória, e na mesma forma material, que ainda hoje este símbolo é oferecido aos novos mestres Maçons na Alemanha, aos quais é desvendado o seu significado, para nunca se perca a história de coragem, honra e fraternidade dos Maçons que sobreviveram, e dos que não sobreviveram, ao jugo do nazismo.

Esta flor, com tanto de exíguo no porte como de imenso no simbolismo, renasce como signo da fraternidade, um dos pilares da Maçonaria, e subleva-se como um dos emblemas mais representativos da Maçonaria na Alemanha.

No epílogo desta prosa, plena de factos e de lendas, não posso deixar de vos transmitir o sentimento que perdurou em mim depois de granjear estes traços; na diversidade das suas 74 espécies revejo a pluralidade da Maçonaria, mas na unidade do seu significado contemplo o nosso laço singular como irmãos; na simplicidade e na descrição da sua forma realizo a frugalidade e recato da nossa instituição mas no momento e na forma em que foi e é oferendada a maçons e profanos, revisito um princípio que deve governar qualquer instituição maçónica, quer no seu íntimo quer para o seu exterior; a solidariedade.

Findo o epílogo, resta-me uma confissão; o narrar desta história surgiu fortuitamente e com tanto de insuspeito como de gracioso, na forma da oferta de um irmão pelo qual nutro uma especial e singular amizade e respeito; tal como à pouco mais de um ano um solitário individuo teve a fortuna de encontrar na Ilha do Corvo a myosotis azorica, uma das plantas mais raras do mundo e que se temia extinta, também este homem teve a felicidade de se encontrar, no talhe de uma rara família de homens extraordinários e de nobres valores; a Maçonaria.

O seu porte discreto e a sua forma simples e impoluta não foram motivos o bastante para impedir um sentido tributo do nosso Fernando Pessoa, na forma de três curtas estrofes que parecem dizer tanto ou mais que a prosa pretérita:

Das flores o não-me-esqueças
É talvez a mais pequena.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem se vale a pena.

Uma coisa é a verdade
E outra coisa é ser feliz.
Se vens dizer-me a verdade,
Vê lá bem o que ela diz.

Tudo é o que a gente quer
E o que está dito é só dito.
Se vens dizer-me a verdade,
Sabes bem se eu acredito?

Autor: Álvaro de Campos

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

O meu corpo jaz


Querido Irmão Jónatas,
Partiste demasiado cedo, mas com a certeza que a tua luz permanecerá para sempre em nós.

Não tendo forma justa de homenagear alguém que tanto nos deu, tomamos a liberdade de partilhar as tuas palavras, que por tantas vezes nos iluminaram: 

"Meu corpo jaz fechado em pedra cúbica,
Por momentos é Rosa,
É luz, na cruz aberta,
Cinco pétalas vermelhas ...
Pútrida a carne,
Em alma transmutada,
De onde renasce aprendiz,
Sempre aprendiz,
Muita pedra há que polir na caminhada,
Em que o Mestre é Outro
Que não eu."

Até um dia no Oriente Eterno.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Retoma dos Trabalhos

Leitores do blog Grémio Estrela d’Alva,

Por vezes, as ausências mais sentidas são aquelas que são mais difíceis de explicar, e por isso, na falta de palavras para justificar estes quatro anos de interregno, remetemo-nos à frase do poeta…  saudade não é falta, é a presença imortalizada dentro de nós mesmos!

Pegando nesse mote, e sempre com a memória dos textos que partilhámos no passado convosco, anunciamos a retoma da actividade deste blog, em data coincidente com o 109º aniversário da nossa R:.L:. Estrela d’Alva.

É já a partir do dia 16 de Dezembro de 2017, que iremos retomar as nossas publicações regulares, pelo que ficaremos muito gratos não só pela divulgação desta mensagem, como também pelos vossos comentários e contributos.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

O Símbolo e o Templo

Em jeito de proclamação maçónica: Temos consciência do muito pouco que sabemos. Queremos saber mais – é a primeira Luz. Queremos saber, como os nossos Irmãos querem. Queremos alcançar, por revelação simbólica, o que não conseguimos até agora. E conseguiremos? Alguém de todo conseguiu?
Todos nós, Irmãos, temos de comum, o querer construir o nosso Templo, como templo perfeito, o que é acto de Sabedoria e de Força. A essência da Maçonaria está na procura. Mas na procura pensada, e harmónica, o que é acto de Beleza. E para a procura, o meio é o Símbolo e o fim é o Templo – o nosso templo – que vamos construindo, transformando a pedra bruta em pedra cúbica. Este o princípio e o fim.

O Humano, o ser humano desumaniza-se naturalmente com a vida. Os valores que, como na natureza, de si brotavam no início, foram sendo, primeiramente contrariados e depois tendencialmente substituídos por outros, de menor exigência e por fim, erradicados. O Mundo dos Valores é vítima, quase indefesa. Pensamos no entanto que, mesmo submerso, o nosso Mundo dos Valores tem memória, pequena embora. E é dessa memória – notável bóia de salvação do homem - que alguns partem para a Luz. E por via dessa Luz, o Mundo dos Homens Justos e de Bons Costumes está à nossa mão. O nosso Templo está em construção, sólida.

Decididamente diremos que, embora sem o domínio consciente do Segredo, tivemos um momento de sorte – chamamo-lo assim com convicção – quando os Irmãos nos aceitaram na Ordem, porque um amigo nos quis também seu Irmão. Nós, só muito excepcionalmente e sem tal chamamento, teríamos possibilidade de partilha de valores e auscultar tão criticamente a nossa consciência, como agora o fazemos na nossa Viagem Maçónica. Agnósticos como somos, fiéis à matéria e aos sentidos, nada crentes no além e nos Deuses, convictos que é aqui que os Homens se compensam porque só aqui vivem e aqui esgotam a vida, diremos com plena certeza, no Final da Vida, que vivemos felizes porque maçons. Doutro modo, morreremos espiritualmente confortados, após uma vida feliz, porque maçons. Ou doutro modo ainda: - Pedreiros Livres, Livres Pensadores, trabalhadores do Templo que não se acabou – nunca se acaba porque os valores mudam – morreremos compensados porque Maçons.
 
A linguagem maçónica é simbólica. O símbolo é a expressão, as mais das vezes, do indizível. O símbolo é síntese. Começamos esta parte da prancha com afirmação de louvor, por alguns ensinamentos da obra “Maçonaria - Raízes e Segredos da Sua História” de Wilmshurst, que faz uma alusão aos compiladores das pranchas de Iniciação, associadas a cada grau da Maçonaria. Diz então que as ditas pranchas, “pretendem expor a doutrina do sistema e interpretar os símbolos e rituais. Mas estas pranchas – continua a dizer – necessitam duma interpretação. Na verdade, não são concebidas com grande astúcia e sigilo. Os seus compiladores foram confrontados com a dupla tarefa de dar uma expressão fiel da doutrina esotérica, se bem que parcial, encobrindo-a ao mesmo tempo para que o seu sentido lato não fosse compreendido sem algum esforço e esclarecimento e transmitisse pouco ou nada aos não merecedores ou imaturos para a Gnose ou para o ensino da Sabedoria. Eles desempenharam essa tarefa com notável sucesso e de uma forma que provoca admiração daqueles que podem apreciá-lo devido ao seu profundo saber...”. 
Isto dito, para concluir que os rituais dos vários graus, resultaram de compilações, levadas a efeito por quem conhecia a linguagem simbólica e o ritual ou rituais que a complementam; que foi tudo feito, encobrindo-se aos profanos a luz e iluminando os Irmãos, o que revela o carácter esotérico da mesma linguagem e rituais.

As referências escritas que fizemos, leva-nos a concluir que o símbolo maçónico, o ritual, a alegoria, são criações do homem. E como criações do homem, a revelação ou conhecimento intrínseco do símbolo está na directa proporção das capacidades intelectivas de cada um isto é, para uns, certamente que menos dotados ou menos emocionados, o acesso à mudez do símbolo, torna-se mais difícil. Para outros a revelação é menos difícil. Não obstante, estamos decididamente no domínio do terreno, do material, do Homem e das suas virtualidades, sendo que o símbolo é o meio para atingir o fim maçónico - o Templo, ou seja o nosso templo.
 
Pois bem, a dificuldade está, de facto, na construção do Templo perfeito. Para melhor enquadramento, relembramos o Grão-Mestre António Arnaut, na sua obra “Introdução à Maçonaria”, onde escreve: “vejamos pois qual o caminho dos caminhos, onde todos, chamados liberais ou ditos regulares, se possam encontrar, na tarefa, sempre inacabada, de aperfeiçoar a pedra bruta e de Construir o Templo interior”. 
Antes escreveu: “Num tempo despojado de valores éticos morais, dominado por um capitalismo infrene, sem alma nem regras, que enredou o homem em novas e mais sofisticadas servidões, o que pode e deve fazer a Ordem Maçónica para transformar o mundo de selvagem em humano. Há, seguramente, vários caminhos, e todos são válidos se conduzirem a uma sociedade mais justa e perfeita. Mas estou em crer que é no regresso à espiritualidade Maçónica que se construirá o verdadeiro humanismo”. 
De seguida esclarece o sentido dos dois conceitos, escrevendo: “Espiritualidade é o primado dos valores do espírito, da consciência, do ser, em contraposição ao materialismo dominante, ou seja, à ânsia do ter”. 
Eloquentemente escreve de seguida: “Só a descida à nossa consciência, onde jaz a palavra perdida, permite a descoberta do eu absoluto, como dizia Sérgio, e o encontro do outro, como elo da mesma cadeia universal. Humanismo é a doutrina moral que reconhece o homem como fim e como valor superior, na expressão de Sartre, centro do mundo, medida de todas as coisas. Por isso, todas as reformas e conquistas sociais só terão sentido ético se servirem a dignidade do homem e contribuírem para a fraternidade e harmonia colectivas”. O nosso Templo. 
Dito isto, pensamos que estávamos certos quando inicialmente considerámos que o segredo é o Templo, a construção do nosso templo. Templo que é , depósito vivo e emocional do nosso Mundo de valores, da nossa Consciência. Mundo inicialmente puro, depois quase completamente apagado e que num momento de sorte, colhido por uma centelha de Luz, começa o seu trabalho de reconstrução, com Força, Beleza e Sabedoria, elevando valores, e militando na Justiça e nos Bons Costumes. Donde que o Templo seja Princípio e Fim; e também expressão do homem, como valor superior e capaz de, por virtude própria, se elevar. O Templo, o nosso templo, a construção do nosso templo é, em nosso entender, de facto o segredo. O trajecto pensado, não obstante ter sido pensado em português, na nossa língua, leva-nos às sínteses emocionadas que serão de futuro, as âncoras valiosas da nossa consciência. E este trajecto, trabalhado e as mais das vezes emocionante, com símbolos, é de facto irrevelável, até porque e no fundo se perdeu. Ficamos com o produto, pois a viagem não deixou rasto. 

De facto, perguntarmo-nos do processo de aquisição dum valor, que passámos a ter, quando antes, com maior ou menor dificuldade o conseguíamos esquecer, é ficarmos sem resposta. É facto que o valor é hoje nosso e em circunstância alguma o vamos ofender. O porquê desta alteração, conseguiremos justificá-lo mas o trajecto na nossa consciência, esse é indizível, embora tendo acontecido. Numa síntese: O trabalho solitário ou apoiado, teve um resultado, mas o trajecto e o momento da passagem do valor pensado para valor constituído, embora acontecido, é indescritível porque é Segredo da nossa Consciência. E com a constituição de novos valores, nasceu um homem novo, exactamente o Iniciado Maçon; doutro modo, o iniciado encontrou-se com o eu absoluto ou com o outro que ele não era. Para este desiderato, ao maçon foram ensinados símbolos, palavras e toques, para além de ter sido sujeito e objecto da cerimónia de iniciação. 
Com a iniciação o maçon conhece o ritual maçónico e daqui se concluí que a construção do seu templo, passa pela interpretação simbólica e pelo trabalho ritualista, apenas apreensível a quem foi iniciado. A dialéctica interior do maçon, que o leva à construção do seu templo, parte duma proposição que começa por negar, mas a ela chega como valor, usando os símbolos e a sua interpretação, num percurso de grande labor mental, de grande capacidade de análise e já próximo dos homens superiores. Esta dialéctica, que obviamente continua, até ao decesso, é mais ou menos especulativa consoante o conhecimento do símbolo for mais ou menos profundo. Podemos talvez dizer que a maçonaria pode estar, como qualquer ciência, na primeira linha de combate contra a fragilidade humana. Poderemos também entendê-la como a heroína invulnerável e a combatente pela Humanidade dos Direitos e dos Valores.
 
Mas fechemos o círculo da nossa proposição maçónica, o maçon não se esgota na especulação interior pois assume uma postura militante e actuante, de acordo com os valores que constitui. Não é nem pode ser apenas asceta ou filósofo. Atente-se nos caminhos que percorre da Liberdade, Igualdade e Fraternidade bem como da Justiça, Verdade, Honra e Progresso, para concluir que é no Mundo Profano, no Mundo da relação com os outros que o maçon exprime a Riqueza e a Virtude dos Valores que o Iluminaram. Daí que o Sapientíssimo Grão Mestre nos incite, na sua obra referida, às manifestações de exemplaridade cívica, familiar, profissional; à exemplaridade da nossa vida. Pois bem, louvando-nos no entendimento magnífico do Simbolismo maçónico, fixemos que, símbolos nossos são também os próprios Irmãos, quando as suas vidas são verdadeiramente exemplares. 
Assim concluía com o maior louvor: “ O maçon é o mais Solitário dos Solidários”, frase “mágica” do nosso Irmão Espinosa na sessão comemorativa dos 80 anos de maçon do nosso Irmão Fernando Vale.

Autor: Freud

sábado, 14 de dezembro de 2013

105.º Aniversário Estrela D'Alva

A R. L. Estrela D'Alva comemorou mais um Aniversário, comemorou 105 anos de trabalho em prol da Liberdade, da Fraternidade, da Justiça Social no âmbito do Grande Oriente Lusitano, da Maçonaria Portuguesa e da Maçonaria Universal.

Em jeito de memória, conforme consta no Dicionário de Maçonaria Portuguesa de A. H. Oliveira Marques, o nome “Estrela D’Alva” foi dado pela primeira vez a uma Loja, em Coimbra no ano de 1871. Esta Loja só funcionou até 1873. Mais tarde, em Coimbra, entre 1908 e 1912, começou a existência da Loja Estrela D’Alva, com o n.º 289, o que indica que é regular, portanto inscrita no Grande Oriente Lusitano. Em 1937, existe documentação que a Loja esteve instalada em Algés. Durante a clandestinidade desenvolveu os seus trabalhos principalmente em Lisboa.  
Mantendo sempre a ligação e sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano, após o 25 Abril de 1974, o Grande Secretário -Geral do Conselho da Ordem, exarou o seguinte despacho: ‘’ em 1911 a loja tinha o n.º 289. Pela circular n.º 9 de 16 de Março de 1935 figura como tendo abatido colunas, em data anterior. Nesta data – Dezembro de 1974 – regulariza-se no Grande Oriente Lusitano Unidos, com 14 obreiros e julgo que deve manter o mesmo n.º da antiga titular ‘’.  
Tem o timbre: "Augusta, Benemérita e Respeitável Loja Capitular, Areopagita e Consistorial Estrela D’Alva n.º 289 sob os Auspícios do Grande Oriente Lusitano ".

No primeiro livro de actas, na primeira acta desse livro, em 11 de Dezembro de 1974, apresentaram-se ao trabalho 16 Obreiros! Estes membros, mesmo estando a Maçonaria ilegalizada desde 1935 pela ditadura do Estado Novo, trabalharam grande parte da sua vida na clandestinidade, sem sede ou instalações, com a proibição de reunião, contornando os informadores da PIDE, lutando pela Liberdade. Alguns, em consequência das dificuldades e proibições, sofreram grandes sacrifícios, sentindo-se na sua própria vida e da sua família.

Nestes longos anos de trabalho regular, muitos e muitos passaram pelas colunas desta Loja, alguns nomes já ouviram na chamada do início, mas outros há que contínua e abnegadamente mantiveram acesa a chama, não deixaram esmorecer os Valores e Princípios da Maçonaria, combateram pelas nobres causas da Liberdade, dos Direitos Humanos e Sociais. Nestes anos em que o testemunho foi passado por gerações e que foram atravessados por múltiplos acontecimentos, como a Implantação da Republica, Estado Novo e a sua Ditadura, a privação da Liberdade e dos Direitos Humanos, a clandestinidade, uma guerra colonial, o alvorecer da Liberdade em Abril de 74, temos que prestar a nossa homenagem aos Maçons que nos antecederam, pela grande competência e extraordinária dedicação aos valores da Maçonaria e por manterem as colunas bem erguidas e irradiar com esplendor e brilho a Justiça, a Verdade, a Honra e o Progresso.

Renovamos os valores e principios da Ordem Maçónica e  como um dos principais  objectivos da Maçonaria é o da procura da Verdade nos seus mais variados aspectos e utiliza como linguagem, fundamentalmente, a linguagem simbólica, apelamos, por isso, para que conjuntamente trabalhemos na construção do Templo para que seja possível atingir a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade Universal.    

Autor: Hugo Grócio 

sábado, 7 de dezembro de 2013

Sebastião Magalhães Lima – Um Idealista

Sebastião de Magalhães Lima foi uma das figuras emblemáticas do republicanismo português nas últimas duas décadas do século XIX e depois nas duas primeiras da centúria seguinte. Fez parte do Directório do Partido Republicano Português durante muitos anos, teve um papel destacado na propaganda na imprensa e na qualidade de prolífero publicista e conferencista.
Foi autor de uma vasta obra – uma trintena de títulos entre livros e folhetos – sem contar com uma intensa colaboração em revistas e jornais, incluindo os que dirigiu durante muito tempo, como O Século, Vanguarda e A Folha do Povo, e que ficaram célebres nessas décadas que antecederam a mudança e regime.

Poucos republicanos, como ele, alcançaram uma projecção internacional de tanto destaque, conferida, em larga medida, pela sua militância pacifista – foi co-fundador da Liga Portuguesa da Paz em 1899 – nas associações de imprensa e do livre-pensamento e também pela sua qualidade de Grão-mestre do Grande Oriente Lusitano Unido Supremo, Conselho da Maçonaria Portuguesa. Essa notoriedade além-fronteiras facilitou a sua acção como «caixeiro-viajante da República», como foi designado, utilizando esse prestígio em benefício da consolidação da jovem República Portuguesa. Foi amigo de Anatole France, Vitor Hugo, Kropotkine, Frederico Passy, Gladstone, Jean Jaurés, Amilcare Cipriani, Millerand, Salmeron, Max Nordeau e Pi y Margal.

No entanto, tendo em conta um currículo de tal dimensão, a sua carreira política depois de 1910, foi modesta. Tomando assento na Assembleia Constituinte e depois no senado, até 1915, mas com raras presenças, entre cortadas com frequentes idas ao estrangeiro; ocupou por breves semanas a pasta da Instrução no governo saído da Revolução de 14 de Maio de 1915, que derrubou Pimenta de Castro. Bem pouco, afinal, para uma biografia tão extensa e relevante, embora ele próprio tenha declarado que só muito instado aceitou.
Para uma personalidade com os contactos internacionais que possuía, a Presidência da República não teria sido demais. No entanto, nas eleições presidenciais de 1911 teve um único voto em 217, e nas de 1919 também um voto solitário em 181. Nas de 1923, quando foi eleito Teixeira Gomes, chegou a formar-se uma comissão para promover a sua candidatura, animada por Teófilo Braga, Botto Machado e Alexandre Ferreira. Mas em vão: sem o apoio das forças partidárias, teve um voto num total de 197... Decididamente, os tempos não eram favoráveis aos idealistas.
É que Magalhães Lima foi, acima de tudo, um idealista com uma certa dose de ingenuidade.

O facto de ter sido republicano desde os tempos de estudante não toldou a sua capacidade crítica, fazendo diversas intervenções, durante a Primeira República, no sentido da pacificação do campo republicano e da correcção de erros que estevam a ser praticados. Republicano federalista, apesar de as suas ideias não terem sido consagradas na Constituição de 1911, nem por isso renunciou a elas, que também se incluíam uma constante preocupação social que lhe granjeava um enorme prestígio entre as classes trabalhadoras.
Ao longo da sua vida, Magalhães Lima foi um modelo de honestidade e de coerência em relação aos seus ideais. Numa entrevista de 1911, afirmava: «Se for preciso recomeçar a minha vida para defender a Liberdade fá-lo-ei sem a menor hesitação. Sempre com a Liberdade contra a Reacção, venha esta de onde vier! O que enfim lhe posso assegurar é que vigiarei de perto a marcha da República e que qualquer recuo ou estacionamento será absolutamente impossível, seja qual for o governo. Tenho de resto uma absoluta confiança no espírito republicano que hoje domina o país, e que, acredita, ninguém já hoje poderá sofrear. O meu temperamento foi sempre o de um propagandista e nessa situação me conservarei ao lado dos meus amigos com a mocidade espiritual e a dedicação republicana que felizmente não me abandonaram ainda...».

Ascendeu a Grão-Mestre da Maçonaria em 1907, num dos mais longos mandatos na história maçónica portuguesa, o qual apenas terminou com o seu falecimento em 1928. Sendo um dos maçons mais prestigiados internacionalmente, durante este período foi o grande impulsionador da republicanização da organização, conspirando activamente para a implantação do regime republicano em 1910, apoiando múltiplas tentativas revolucionárias durante as fases mais exaltadas da Primeira República Portuguesa. Foi nesse contexto que em 6 de Dezembro de 1918, teve a sede do Grande Oriente Lusitano assaltada por populares que acusavam a Maçonaria de estar por detrás do atentado frustrado à vida de Sidónio Pais ocorrida na véspera e que foi preso e maltratado no Governo Civil de Lisboa por alegadas relações com José Júlio da Costa, o jovem republicano que praticou aquele acto.

Foi Grã-Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito em 1919.
Em 1921 fundou a Liga Portuguesa dos Direitos do Homem.
Faleceu em Lisboa a 7 de Dezembro de 1928, já sob o governo da Ditadura Nacional, mas ainda assim o seu funeral reuniu dezenas de milhares de pessoas.

Foi um dos maçons portugueses mais conhecidos e prestigiados fora de Portugal, e um dos Grão-Mestres com mais longo mandato na história maçónica portuguesa (1907 a 1928), coincidente com o período de maior apogeu da Maçonaria em Portugal. Na sua última mensagem como Grão-Mestre, em 1928, condenou a opressão que um regime ditatorial impusera ao seu país desde 1926, afirmando que os conceitos de Pátria e de Liberdade eram sinónimos!

Obras: Para além de uma vasta obra dispersa por periódicos vários e panfletos, é autor das seguintes monografias:
Martírio de um anjo; Amour et Champagne; Um drama íntimo; Fatalidade e o destino; Cambiantes da comédia humana; Estrelas e nuvens; A beira-mar; Um dia de noivado; A Actualidade (estudo económico-social); A Federação Ibérica, 1892 (edição francesa); A Guerra e a Paz (conferência); A Obra Internacional (edição portuguesa e edição francesa), 1897; A Questão do Banco Nacional Ultramarino, 1879; A Revolta (1.ª Parte), A Revolta (2.ª Parte); A Senhora Viscondessa (romance), 1875; Costumes Madrilenos, 1877; Da monarquia à república: história da implantação da república em Portugal, 1910; Episódios da minha vida: memórias documentadas, 1928; Miniaturas Românticas, 1871; O Centenário [de Camões] no Estrangeiro (conferência realizada na Sociedade do Geografia de Lisboa no dia 11 de Novembro de 1897), Lisboa, 1897; O Congresso de Roma, 1904; O Federalismo, 1898; O Livro da Paz, 1895; O Papa Perante o Século; O Primeiro de Maio, 1894; Os Estados Unidos da Europa, 1874; O Socialismo na Europa, 1892; Padres e Reis, 1873; Pela Pátria e Pela Republica, 1891; Paz e Arbitragem, 1897; Teoria da humanidade; Pena de morte; As subsistências.


Autor: Júlio Verne

terça-feira, 26 de novembro de 2013

António Arnaut desafia Maçonaria a rejeitar "capitalismo opressivo"

"Todos aqueles que sentem o povo e a Pátria não podem ficar calados, sob pena de serem cúmplices do drama social que estamos a viver", declarou António Arnaut à agência Lusa, a propósito de dois livros da sua autoria que vão ser apresentados no sábado, em Coimbra.
Na sua opinião, a ordem maçónica, que integra há várias décadas, "devia realmente intervir" e condenar publicamente "este capitalismo opressivo", tanto no país, como a nível global. 
"A Maçonaria devia ter dito aquilo que disse o papa Francisco: o neoliberalismo faz os fortes mais fortes, os fracos mais fracos e os excluídos mais excluídos", disse.

Para António Arnaut, escritor, advogado e um dos fundadores do PS, "trata-se, aqui, de intervenção no plano dos direitos humanos, da dignidade do homem e da própria defesa da identidade e da soberania da Pátria". A Maçonaria "devia ter uma palavra e tem estado calada", disse. 
"Devia fazer alguma coisa. Devia realmente utilizar os instrumentos do ofício: a régua e o esquadro, que significam a retidão e a justiça, e o compasso, que significa o livre pensamento e a liberdade", acrescentou.

Os dois últimos livros de António Arnaut - "Alfabeto íntimo e outros poemas" e "Iluminuras - Adágios, incisões e reflexões" - serão apresentados no sábado, às 15:00, na Casa Municipal da Cultura de Coimbra, pelo professor universitário Seabra Pereira e pela jornalista Clara Ferreira Alves, respetivamente. 
Numa das reflexões, na segunda obra, o "maçon" e antigo grão-mestre do GOL - Maçonaria Portuguesa questiona o papel da instituição "perante as chagas de pobreza e sofrimento que assolam o mundo e cobrem de desespero o corpo exausto de Portugal". 
Defendendo que, num tempo "de tantas desigualdades e injustiças evitáveis, não basta proclamar os princípios", afirma que, "se a Maçonaria não tiver lugar na consciência coletiva, não está na consciência individual dos que juraram lutar pelos seus valores".

A política, o socialismo e a solidariedade são conceitos que motivam outras das reflexões do autor, que dissertaainda sobre o Serviço Nacional de Saúde, do qual foi o principal impulsionador, e o atual líder da Igreja de Roma, o papa Francisco, entre diversos assuntos. "Chegámos a este ponto mais por culpa dos socialistas, dos social-democratas e democratas-cristãos do que propriamente dos neoliberais", disse à Lusa. 
António Arnaut acusou aqueles "que passaram para o neoliberalismo, que se venderam", dando os exemplos de Tony Blair (antigo primeiro-ministro britânico) e Gerhard Schroeder (ex-chanceler alemão), "que hoje são administradores de grandes empresas".

Os dois novos livros "são formas de intervenção poética, cívica e ética nos momentos nublados que vivemos, em que o sol não aparece ou só brilha para alguns", sintetizou.

O escritor António Arnaut, antigo grão-mestre do Grande Oriente Lusitano (GOL), exortou hoje a Maçonaria a rejeitar o "capitalismo opressivo" em Portugal e no mundo, lamentando o seu silêncio.

"In Lusa"

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Harmonia no Templo

Peço-vos que as cogitações que a seguir partilho convosco sejam entendidas como algo de muito íntimo e subjectivo. Não pretendo, pois, dizer como deve ser ou o que deve ser a Harmonia num Templo, mas dar-vos apenas o meu testemunho pessoal sobre algumas formas – que se plasmam ora numa plataforma espiritual ora no plano físico – que contribuem para que eu sinta a existência e harmonia no Templo.

Sinto Harmonia num Templo quando, de facto, quer a forma de os Irmãos se movimentarem dentro dele quer as palavras que pronunciam – ritualísticas ou não – induzem vibrações que permitem ao espírito e à mente o completo alheamento do mundo profano e a integral concentração na beleza dos trabalhos. 
No decurso dos anos tenho ouvido alguns Irmãos Mestres dizerem-se fartos das sessões de Loja, argumentando que, cito, “aquilo é sempre a mesma coisa, com as pessoas a fazerem sempre o mesmo”. É nessas alturas que constato que, embora, em tese, qualquer pessoa possa entrar para a Maçonaria, seguramente que a Maçonaria não entra em qualquer pessoa. E fico atónito por não serem capazes de entenderem que é precisamente nessa repetição, que atravessa séculos e culturas, que a Maçonaria se reencontra a cada passo com a sua gloriosa história, revivificando-se num presente que a todos nós cabe fortalecer, para se projectar num futuro onde o seu papel na construção de uma sociedade mais livre, mais justa, mais fraterna e mais solidária jamais desmereça os mais elevados ideais que nortearam os nossos maiores e que a cada um de nós cabe, no presente, o honroso papel de transmitir aos futuros Iniciados.

Sendo a radiodifusão a minha origem profissional, tenho a esperança que me perdoem a mistura do que sinto, com algo que li algures mas que me sinto incapaz de situar. É que, nas sessões maçónicas, os Irmãos emitem vibrações através dos seus pensamentos, sentimentos e ações; para além do mais, o próprio Templo é um grande emissor de ondas. Nestas circunstâncias, pode produzir-se uma enorme harmonia quando coincidem todas as vibrações emitidas, o que significa que passam a possuir uma largura de banda e uma frequência que correspondem ao verdadeiro espírito maçónico.

Reconheço que, antes de sermos Maçons, ou melhor, antes de franquearmos a porta do Templo, temos uma vida profana, quantas e quantas vezes marcada por tristezas, angústias, desilusões e constrangimentos da mais diversa ordem. E por isso peço a generosidade da vossa clemência para aquilo que muito compreensivelmente aceitarei considerarem uma extrapolação grosseira e despropositada do que a seguir ouso referir. É que me atrevo a afirmar que numa sessão de Loja existem não uma, mas duas cadeias de união. 
Porque considero que a primeira delas emana da finalidade mais importante do nosso Ritual de abertura, que é a de ser o instrumento facilitador para uma transição mental desde o ambiente profano até ao mundo maçónico, fazendo com que todos e cada um dos Irmãos se unam para o início da atividade que os levou ao Templo. Para isso e por isso exorto incansavelmente cada um dos Iniciados a que para sempre se deixem impregnar do esoterismo que emana dessa parte do ritual, que, no meu fraco entendimento, não deve ser cumprida de forma aligeirada, para que todos os Irmãos possam acompanhar e reflectir no profundo significado de cada um daqueles momentos. Por eles passa o início da Harmonia de uma sessão no Templo. 

Autor: Álvaro

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Nome Simbólico: Imhotep

O nome Imhotep está revestido de grande riqueza e significado simbólicos, a diversos níveis.
Comecemos pelo plano etimológico: traduzindo do Antigo Egípcio, Imhotep significa literalmente “Aquele que vem em Paz”. Por si só, o significado literal do seu nome transmite uma mensagem poderosa, uma das grandes virtudes que a Humanidade deve tentar alcançar, consequentemente um objectivo nobre para qualquer maçom, e para o qual eu pretendo contribuir com o meu trabalho, pensamentos e acções.

Historicamente a figura de Imhotep está envolta de grande mistério. Viveu no século XXVII AEC (2700-2600 AEC), no final da segunda e princípio da terceira dinastia egípcia. Vindo do povo, conseguiu chegar a Vizir, equivalente a primeiro-ministro, tendo acima dele apenas o faraó, e segundo alguns autores foi-lhe dado o título honorífico de “Irmão do Faraó”. É o personagem histórico não-monarca mais conhecido do antigo Egipto. A sua titularia conhecida mais completa é: “Chanceler do Rei do Baixo Egipto, Médico, Primeiro em linha depois do Rei do Alto Egipto, Administrador do Grande Palácio, Nobre Hereditário, Sumo Sacerdote de Heliopolis, Construtor, Carpinteiro-chefe, Escultor-chefe, e Chefe dos Fazedores de Vasos”.

A sua fama e importância foi tal, que diversos mitos apareceram em torno do seu nascimento, sendo que num deles Imhotep era filho do deus egípcio Ptah, deus dos artífices e dos arquitectos, patrono dos escultores, carpinteiros, ferreiros e construtores de navios, em suma ligado a tudo aquilo que se possa criar com as mãos.
Homem de muitos talentos, a fazer lembrar as grandes figuras do Renascimento Europeu, distinguiu-se na política, na filosofia, na religião, na magia, na arte, na astronomia, na medicina, na arquitectura e na engenharia.
O mistério à sua volta adensa-se ainda mais pelo facto do seu túmulo ainda não ter sido encontrado, sendo actualmente considerado como uma espécie de “Santo Graal” da Egiptologia, pensando-se que deve estar nas proximidades do complexo funerário do Faraó Djoser em Saqqara. 
Conhecido no seu tempo como curandeiro e médico, é considerado como o pai da Medicina por ser o primeiro conhecido pelo seu nome na História Registada da Humanidade (após a invenção da Escrita) ligado ao campo da Medicina e Cirurgia. Referido em antigos textos médicos com o papiro Edwin Smith do século XVI AEC, que se trata de reprodução mais recente de um texto atribuído a Imhotep, com mais de 90 termos anatómicos e os sintomas e curas de 48 doenças ou casos são descritos nesse documento. Na sua época outros dois nomes surgem ligados à medicina Hesy-Ra e Merit-Ptah, não se sabendo se viveram antes, durante ou depois da vida de Imhotep, mas a fama deste último e os registos históricos acabam por eclipsar os anteriores.
Após a sua morte foi elevado à condição de semi-deus, sendo feitas oferendas e ex-votos no seu túmulo para a cura de doentes. Cerca de 525 AEC foi deificado como o deus da Medicina no panteão egípcio, e substitui Nefertum na grande tríade de Mênfis como filho do deus Ptah. Mais tarde os gregos da Antiguidade Clássica prestaram-lhe culto identificando-o como o conhecido deus grego da medicina Asclepius.
O eminente médico britânico do século XIX Sir William Osler considerou-o como “a primeira figura de um médico a sair claramente do nevoeiro da Antiguidade”

É o primeiro arquitecto conhecido pelo seu nome, sendo por isso considerado o pai da Arquitectura e da Engenharia, numa altura em que o conceito de Arquitectura englobava os campos actualmente separados da Arquitectura e da Engenharia. É-lhe atribuído a autoria daquele que é tido como o primeiro e mais antigo edifício de pedra da humanidade, a Pirâmide de Degraus em Saqqara, e o complexo funerário circundante pertencente ao Faraó Djoser.
Tratando-se de algo completamente novo na história da Humanidade, sendo a prova disso o facto de não ter chegado nenhum vestígio arqueológico semelhante ou anterior, Imhotep teve não só de inventar e desenvolver técnicas especiais para a extracção, transporte, trabalho da pedra e acabamento, enfim transformar a pedra bruta em pedra polida, tema tão caro à nossa Augusta Ordem Maçónica; bem como de desenvolver técnicas de gestão e logística para levar um projecto de uma escala até então nunca vista a bom porto, ou seja a uma boa concretização.
A utilização, pela primeira vez na História, da pedra como material de construção tinha um objectivo muito claro e preciso, criar palácios para a Eternidade, tema tão caro aos egípcios com a sua religião ressurreicionista. É por isso que alguns autores lhe chamam como o inventor da Eternidade. O valor simbólico é de tal maneira intrínseco e óbvio que qualquer explicação adicional parece supérflua.
A partir desta altura, os egípcios passaram de uma construção de madeira e tijolos de lama para uma arquitectura mais imponente, monumental e duradoura em pedra que chegou até aos nossos dias, causando-nos ainda hoje sentimentos de assombro e admiração.

Crê-se que foi iniciado nas mais secretas escolas de conhecimento e místicas existentes durante a sua vida. Uma possível prova disso será o facto de ter chegado a Sumo Sacerdote de Heliópolis, os seus conhecimentos de artesão e o lugar político a que ascendeu. Talvez terá transformado algumas delas ou criado novas, com ligação ao trabalho da pedra. Quem sabe se a Maçonaria não descende directa ou indirectamente de uma delas?
Por todos estes motivos, Imhotep é considerado o primeiro génio da Humanidade, destacando-se nos mais variados campos do conhecimento científico, filosófico, esotérico e místico, estando nele bastante interligados, como nos mais conhecidos nomes do Renascimento Europeu, cientistas e alquimistas como Newton. Para mim e para alguns autores de renome, Imhotep é a primeira centalha de génio que tirou a Humanidade da Escuridão para a Luz, outro tema também tão caro à Maçonaria. Ele representa o despertar da Civilização.
Ao escolher nome simbólico de Imhotep, pretendo seguir os passos de tão extraordinário personagem, quer ele tenha sido real ou simbólico, pois foi a primeira vela na Iluminação da Humanidade para sair das trevas para a Civilização. nos diversos planos, material e espiritual fazendo uma fusão perfeita de ambos. Pretendo com o trabalho da minha pedra bruta, construir o meu Palácio da Eternidade, o legado que deixarei para as gerações futuras através de actos e palavras.

Autor: Imhotep

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Aquilino Ribeiro, um nome simbólico

A escolha do nome que quero adoptar prende-se com a profunda admiração que sempre tive pela Obra do escritor Aquilino Ribeiro (1885-1963). Maçon, entrou para a Loja Montanha do GOL a convite de Luiz de Almeida ligado GL de Portugal.
No ano de 1906 passa a viver em Lisboa tendo iniciado a carreira de escritor e jornalista. Em 1907 adere à Carbonária. É preso. Mais tarde, a 12 Janeiro de 1908 evade-se da prisão e em Maio foge para Paris. No final de 1910, após a proclamação da republica, regressa a Portugal, voltando depois para França com o propósito de continuar os estudos. Em 1927 envolve-se numa conspiração politica, é perseguido, volta de novo para Paris. 

Homem de convicções fortes deixou para trás o Seminário para se tornar jornalista e escritor. Aquilino teve uma vida cheia de aventuras, que incluiu a de guardar dinamite que viria a explodir no seu quarto (numa casa na Rua do Carrião à Estrela, onde morrem um médico e um comerciante e escapa com vida o estudante Aquilino Ribeiro), duas fugas da prisão, anos de exilio e temporadas na clandestinidade, escondendo-se na Beira e no Minho, territórios que conhecia bem e cujas paisagens descreve demoradamente em muitos dos seus livros. 
Era um cidadão do mundo. Na sua obra cabe um século inteiro, com as vezes e revezes. Na sua vida coube um romantismo aventuroso, sempre lutou contra as injustiças e despotismos vários. Nunca se vergou nem às sotainas da sua adolescência, nem às prisões, a juízes, monarcas ou ditadores. 

Em 1932 entra clandestinamente em Portugal, fixa-se em Abravezes, Viseu. Entretanto, é amnistiado e fixa-se na Cruz Quebrada. No ano seguinte instala-se o Estado Novo de Salazar.
Não cabe aqui a vasta obra de Aquilino, dos livros e textos literários publicados. Nunca deixando o seu sentido de luta contra a Ditadura Salazarista, em 1949,  é membro activo da Comissão eleitoral do General Norton de Matos.
Dedica-se ao ensino e junta-se ao Grupo Seara Nova. No ano de 1959, é-lhe movido um processo censório pelo seu romance "Quando os Lobos Uivam". Em 1960, é proposto ao Prémio Nobel da Literatura pelo Prof .Catedrático Francisco Vieira de Almeida, tendo mais de uma centena de intelectuais e figuras publicas subscrito a proposta. Em consequência deste facto o regime político resolve salvar a face ao arquivar o processo e Aquilino é abrangido por uma amnistia.
Em 1958, já com 74 anos, continua a luta e é um dos promotores da campanha eleitoral de Humberto Delgado. Em 1963, publica "Tombo do Inferno". No dia 27 de Maio de 1977 morre no Hospital da CUF com 77 anos.

Adoptar um nome simbólico de um grande Homem será sempre abusivo, a estatura intelectual e de lutador por causas como a Liberdade e a Justiça é ideal politico que se insere no ideal do Maçon e são razões sobejas para adoptar o seu nome.
A adoção do nome de Aquilino Ribeiro tem a ver com os valores que o escritor (homem livre) pugnou e que na sua obra transparece, com os quais hoje perfilho sintetizados na divisa universal da maçonaria: Liberdade com ordem, Igualdade com respeito e Fraternidade com justiça.
Não aceitou dogmas, embora na sua adolescência tivesse passado pelo seminário, combateu a opressão, a miséria , o sectarismo e a ignorância.
Combateu a corrupção e considerou o trabalho como um direito e um dever, valorizando igualmente o trabalho manual e o trabalho intelectual.
Virtudes que são cultivadas pelos maçons, coma a crença numa sociedade justa e mais perfeita, força aglutinadora que congrega os “homens livres e de bons costumes”.

Autor: Aquilino Ribeiro