
Esta assunção toma um carácter ainda mais estranho, quando existe a ideia de que na Maçonaria, existem referências, seja a livros sagrados (Bíblia, Alcorão, Tora, ... etc.) seja a apóstolos (designadamente a S. João) seja ainda ao conceito de “Grande Arquitecto do Universo”.
Para quem não conheça, tudo isto toma um aspecto quase de uma actividade sombria e ritualista com algum “paganismo” à mistura. Para esta imagem, tem contribuído, quer a “discrição” que caracteriza a vida e a actividade maçónica, no “fazer” e “construir” sem se esperar qualquer reconhecimento público, quer a postura oficial, nomeadamente da Igreja Católica sobre a Maçonaria, decorrente da excomunhão que por aquela lhe foi feita expressamente no passado em relação a católicos maçons, atitude que tem sofrido progressivamente novos contornos de direccionamento para todos aqueles que atentem contra a Igreja Católica sem menção expressa de serem maçons.
Para a compreensão deste posicionamento das duas entidades ou organizações, torna-se necessário compreender, não só os princípios e filosofias que as regem, como também a interpretação de cada uma delas sobre a outra, o que, naturalmente nem sempre é fácil, porquanto ambas assentam em princípios fundamentais da vida em sociedade.
Por um lado, a Maçonaria ao não aceitar quaisquer dogmas, ou melhor ainda, não aceitar a imposição de quaisquer dogmas, deixa a cada indivíduo a liberdade de escolha das suas convicções, nomeadamente religiosas, e assim, todas as religiões (incluindo a atitude ateísta e agnóstica) assumem igual importância e respeito, podendo o maçon, para acto de juramento, adoptar o livro que entenda como sagrado, seja este de carácter religioso ou outro em alternativa, designadamente a Constituição de Andersen, tido como basilar e regulador na actividade maçónica.
Assim, a referência ao “Grande Arquitecto do Universo” procura personificar indistintamente a entidade sagrada para cada maçon, independentemente da sua convicção religiosa, para que assim, e de forma universal, todos os maçons se sintam unidos na sua actuação e respeito mútuo dos seus credos.
Por outro lado, e apesar de a Igreja Católica ter contado entre o clero, figuras importantes que foram igualmente maçons, tem adoptado e mantido uma postura de distanciamento em relação à Maçonaria, não revendo nesta uma actuação que lhe conceda particular atenção ou protagonismo especiais. Para esta situação, têm contribuído igualmente situações de crispação, sobretudo quando a Igreja Católica e Governos se encontraram próximos nas suas actuações e posicionamentos de Estado, que de algum modo colidiram com os princípios maçónicos, nomeadamente quando estavam em causa os direitos fundamentais do pensamento livre dos cidadãos. Foi exemplo disso, a situação anterior a 1974 em que o Estado e a Igreja Católica assumiam uma atitude política, em muitas casos cúmplice, enquanto toda a actividade maçónica estava proibida, sendo os maçons, profusamente perseguidos e presos, face aos seus ideais de Liberdade e de Justiça que não se coadunavam com política de ditadura.
É assim, fácil de concluir, que a Maçonaria e a Religião, qualquer que seja o seu credo, não têm porque ter quaisquer antagonismos, sendo de esperar que tanto a Maçonaria como as várias religiões, em que a Igreja Católica seja uma delas, em coro, não negligenciem nem ignorem nem promovam quaisquer situações de injustiça ou outras em que estejam em causa os valores da vida e da dignidade humanas.
Deste modo seria e será de esperar que ambas, em coro e de forma natural e implícita, defendam a evolução do indivíduo, com base nos princípios morais e cívicos universalmente aceites como de bons costumes, em que todo o Homem deve ser livre, promover a Honra e a Justiça, alcançando a evolução interior, com base no seu Trabalho, no respeito pela Vida e numa atitude Solidária e Fraternal.
Autor: Sheikh