terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A Republicana Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo

Carolina Beatriz Ângelo nasceu na Guarda em 1877. Foi a primeira mulher a votar em Portugal em 1911; no ano anterior tinha sido implantada a República. O seu marido Januário Barreto era um activista republicano.

Após a sua conclusão do curso de medicina, foi a partir de 1906 que conseguiu conciliar a sua profissão com a sua actividade de defensora da igualdade, do direito das mulheres, da paz, do direito ao voto, pelo direito ao divórcio, alertou para a insuficiência das leis da família, do alargamento do serviço militar às mulheres, integrando movimentos femininos, da implantação da República, da Maçonaria.
Aderiu, com outras quatro médicas – Adelaide Cabete, Domitila de Carvalho, Emília Patacho, Maria do Carmo Lopes, ao Comité Português da agremiação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes; Grupo Português de Estudos Feministas, Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Participou nos Centros Escolares Republicanos. Fez parte do I Congresso Nacional do Livre Pensamento, ocorrido em Abril de 1908. Fundou com Ana de Castro Osório a Associação de Propaganda Feminista, considerada a primeira organização sufragista portuguesa.
O ambiente político a partir de 5 de Outubro de 1910 inspirado por valores da Revolução Francesa oferecia agora uma maior liberdade e um contexto propício para a luta por direitos que até então tinham sido abafados pela Igreja e pela Monarquia.

A republicana Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, tornou-se neste ambiente uma defensora de causas nobres pela liberdade e pela igualdade. Pode-se bem imaginar o esforço acrescido de uma mulher em conseguir não só uma licenciatura em medicina e primeira cirurgiã portuguesa (3), constituindo uma das profissões masculinas da altura, como também pela luta de direitos numa época em que as mulheres não tinham voz.
É assim neste contexto em que vivia Carolina Beatriz que fez despertar a sociedade em que vivia nos seus primeiros passos de República para a Liberdade, Igualdade e Fraternidade, não fosse ela Maçom adoptada pela Loja Humanidade.
Neste ambiente político ou social conturbado desta época, importa exactamente referir que a Carolina é uma excepção deste ambiente e fora do seu tempo histórico. E isto porque ao lutar pelo direito ao voto das mulheres não o fez somente pela luta por um direito como também contra um preconceito. Possivelmente hoje lutaria pelos direitos dos homossexuais à igualdade por exemplo. E porque não, lutar também, por uma voz mais expressiva da Maçonaria.
Importa agora referir na sua vida curta, alucinante e activa, alguns momentos de luta e de conquista, numa altura em que a VOZ da mulher não se ouvia. Numa época em que as mulheres tinham poucas oportunidades e eram tratadas como objectos. De facto pertencia a um grupo necessariamente minoritário não no sentido numérico mas no sentido do sexo fraco com menores direitos e deveres na sociedade.
Desta actividade podemos aferir que Carolina Beatriz lutou pela liberdade e defesa dos direitos de todas as pessoas: à educação, mas sobretudo pela igualdade entre o homem e a mulher pelos direitos e deveres iguais para ambos os sexos.
Esta actividade que Carolina conseguiu conciliar com a sua carreira médica e com sucesso, para mim o que mais se destaca foi o fato de ter conseguido o direito a voto, sendo esse direito retirado logo depois e que só veio a recuperar-se em condições de igualdade mais de 60 anos depois.

Vale a pena ler o seu requerimento efectuado no dia 4 de Abril de 1911 com o seu pedido de inclusão nos cadernos eleitorais na Comissão de Recenseamento. As suas alegações foram remetidas para o ministro do Interior, António José de Almeida, responsável pela legislação eleitoral:
“Carolina que enviuvou cedo, essencialmente justificava no seu requerimento os seguintes requisitos previstos na lei:”
(…) Não só sabe ler e escrever, mas é chefe de família, vivendo nessa qualidade com uma filha menor, a cujo sustento e educação prevê com o seu trabalho profissional, bem como aos demais encargos domésticos (…)”
- Em sequência de indeferimento, apresentou recurso, entregue em 24 de Abril de 1911 no Tribunal da Boa-Hora e invocava quer o decreto, com força de lei, de 14 de Março de 1911, quer artigos do Código Civil.” .

Em 28 de Abril, numa decisão histórica, João Baptista de Castro (pai de Ana de Castro Osório), Juiz da 1.ª Vara Cível de Lisboa, proferiu sentença favorável à médica, mandando incluí-la nos cadernos eleitorais. Eis o considerando final da sentença, citado por Magalhães Lima numa entrevista ao jornal A Vanguarda, poucos dias após o acto eleitoral:
“Considerando que excluindo a mulher, apesar de ser uma ilustração, como a reclamante, de ser eleitora e ter intervenção nos assuntos políticos – só por ser mulher, como se diz a folhas n.º 6, verso – é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano, porquanto desde que a reclamante tem todos os predicados para ser eleitora não pode arbitrariamente ser excluída do recenseamento eleitoral, porque onde a lei não distingue não pode o julgador distinguir; por isso, em obediência aos verdadeiros princípios da moderna justiça social: Julgo procedente e provada a presente reclamação e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral em preparação no lugar e com os requisitos precisos. Intime-se”.

Foi assim que Carolina Beatriz se tornou a primeira mulher a exercer o direito de voto em Portugal, ou em qualquer outro país da Europa do Sul. Segundo a Revista Alma Feminina (Janeiro-Fevereiro de 1922): «Não foi uma vitória feminista, mas foi um ato de rebeldia contra o preconceito da superioridade de sexo.» No entanto esse direito, que ainda por cima era restrito, foi-lhe mais tarde negado assim como a todas as mulheres:
“A lei foi alterada a 3 de Julho de 1913 e ratificada em 1 de Julho de 1915. Deste modo, foi eliminada radicalmente do sufrágio universal a possibilidade de voto aos analfabetos e aos cidadãos portugueses do sexo feminino.”
Em 1916, o Senado defendeu o voto para as mulheres diplomadas, o que foi recusado pela Câmara dos Deputados. Nova insistência em 1918, pelo deputado Jacinto Nunes, teve igual fim. Só em 1931, o direito de voto foi concedido a algumas mulheres, as que possuíssem um curso secundário ou superior”. Mais tarde o Estado Novo viria a quebrar os sonhos dos portugueses e os ideais da democracia. Deixou de existir a igualdade e com ela a liberdade.

A República comprovou ser sinónimo de liberdade e de igualdade, sem a qual muito possivelmente hoje não poderia proferir estas palavras, no entanto, a história continua a mostrar-nos que um preconceito se sobrepõe aos princípios adquiridos pela própria República, e parece que ignoramos todos os momentos da nossa história em que conseguimos vence-lo.
É importante lembrar neste ano em que se celebra o centenário da República que a revolução republicana defende os valores democráticos e de igualdade e de cidadania para todos.

Esperamos que a Carolina Beatriz Ângelo continue a ser lembrada como uma maçon que lutou pela liberdade das mulheres, e pelos caminhos de luta que abriu pela igualdade, e consigamos que a humanidade seja uma! Sem ser dividida em preconceitos, em raças ou sexo.

In "A Republicana Dr.ª Carolina Beatriz Ângelo, a Liberdade, a Igualdade, ou só um Quadro na Parede? G. R. G. Rodrigues"

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Ferramentas

Cada profissão possui a sua ferramenta específica. E a Maçonaria afina pelo mesmo diapasão. Ou seja: na aprendizagem maçónica é necessária a utilização simbólica de ferramentas - inicialmente para desbastar a pedra bruta, para depois erguer uma edificação de estabilidade e solidez permanentes.
É, pois, fundamental para os Maçons, seleccionarem com frequência uma ferramenta, a fim de com ela prosseguirem o trabalho de construtores para que foram iniciados.
É que para nós, Maçons, o maior desafio, que exige aturada experiência e dedicado empenho, é a construção do nosso próprio templo interior.
O trabalho que se nos impõe é, pois, o de construir, de fora para dentro do nosso microcosmo, um templo digno de receber os nossos Irmãos com fraternidade e solidariedade.
É evidenciado o quanto temos todos vindo a laborar, em ordem à prossecução de tão nobre objectivo de uma forma justa e perfeita.

Autor: Álvaro

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Alberto Bargossi

Pela enorme amizade que me liga à “Família Bargossi” desde 1989, é difícil encontrar os adjectivos, as palavras correctas para falar desta ilustre e fraterna Família italiana. Foram até ao momento, e na sequência da minha ida regular à Universidade de Bolonha desde 1989, mais de vinte anos de contacto e de conhecimento mútuo, de troca de ideias e de experiências vividas e sofridas que me levaram à procura contínua de uma aprendizagem de valores morais, de ética, de tolerância, de fraternidade, de solidariedade, de justiça e de firmeza de carácter e me fizeram sentir preparado para me iniciar nesta Augusta Ordem, com o objectivo de adquirir uma nova “missão” para a minha vida. Assim, na Universidade de Bolonha encontrei mais do que um complemento à minha formação de médico. Adquiri mais do que conhecimentos de novas tecnologias na área da terapêutica e do diagnóstico da Aterosclerose que, de forma inovadora, vim a introduzir no nosso país. Na Universidade de Bolonha encontrei uma Família de acolhimento que viria a promover profundas mudanças no meu modo de pensar.

A escolha do meu nome simbólico encerra uma dupla homenagem; à Família Bargossi, na pessoa de Nazario Sauro Bargossi (Pai) e ao seu filho Alberto Mario Bargossi.

Nazario Sauro Bargossi (1919 - 1988) nasceu na cidade de Forlì em 1919, na região italiana de Emília - Romana, cidade com uma extraordinária herança política, cultural e de resistência antifascista. Na cidade de Forlì nascera também Aurelio Saffi (1819 -1890), figura que inspirou Nazario Sauro Bargossi e que em grande parte moldou o seu espírito revolucionário.
Aurélio Saffi, foi um político activo durante a unificação italiana e figura proeminente do “Radicalismo Republicano”. Foi discípulo de Giuseppe Mazzini (1805 - 1872), líder do movimento do “Ressurgimento Italiano”. O Professor Giuseppe Mazzini defendia um projecto de unificação italiana “vindo de baixo”, ou seja, de cariz popular, em oposição à elite liberal – conservadora, monárquica liderada por Camillo Paolo Filippo Giulio Benso, Conde de Cavour, (1810 – 1861). Mazzini era grande devoto da unificação italiana e foi membro da sociedade dos carbonários italianos que, a exemplo dos jacobinos franceses na época da Primeira República da França (1792 - 94), esperava que a futura unificação italiana resultasse de um grande levantamento popular, se bem que estimulado e dirigido pela intelligentsia italiana. O mundo de Giuseppe Mazzini, bem ao contrário do de Cavour, era o dos conclaves clandestinos nas “catacumbas republicanas”, dos ”pátios” das universidades, das redacções dos jornais radicais, frequentados por escritores, por advogados, por estudantes e professores, que seguiam Mazzini com devoção apostólica, certos da acção definitiva do “povo”. O “Mazzinismo” não deve ser visto apenas no seu contexto peninsular italiano, porque Mazzini era adepto da causa “Europeia”, ou seja, de uma “Europa Unificada”. Imaginava uma confederação de estados europeus convertidos ao “Republicanismo Popular”.

Voltando à Família Bargossi, o pai de Nazario Sauro Bargossi, Amilcare Bargossi, nasceu na cidade de Faenza (região Emília - Romana) e foi chefe de estação dos Caminhos de Ferro italianos, tendo viajado e permanecido em inúmeras cidades italianas ao longo do exercício das suas funções profissionais. Foi também perseguido pelo regime vigente, fascista. Foi sempre fiel aos ideais de Liberdade, Igualdade e Universalidade de Mazzini e do Republicanismo Radical. Foi voluntário da Legião Italiana Garibaldina (1914), tendo combatido na 1ª Guerra Mundial, nomeadamente na Batalha de Argonne (França). Foi feito prisioneiro pelos Austríacos e permaneceu no Campo de Prisioneiros de Mauthausen (Áustria) até ao fim do conflito da 1ª Guerra Mundial (1918).
Amilcare Bargossi deu a seu filho, o nome do seu grande amigo Nazario Sauro para perpetuar a sua memória. Nazario Sauro (1880 - 1916) foi um exemplar militar naval italiano, Comandante – de – Fragata da Marinha Real Italiana, patriota convicto, um lutador pela liberdade, expoente do “Irrequietismo Italiano Istriano” e foi fuzilado por traição aos Austríacos no dia 16 de Agosto de 1916. Amilcare Bargossi, mesmo perseguido pela polícia monárquica italiana encontrava-se frequentemente com o seu amigo, Nazario Sauro em Ravena, quando o seu navio de guerra aí atracava, trocava informações consideradas subversivas, material de propaganda dos seus ideais republicanos e de liberdade para os seus amigos correligionários. Valores esses que foram transmitidos a seu filho Nazario Sauro Bargossi, assim como, os valores de lealdade, de tolerância, de capacidade crítica construtiva e de intransigência moral.
Nazario Sauro Bargossi foi um óptimo estudante, formado na área financeira, tendo efectuado uma brilhante carreira na banca italiana, desde simples funcionário a dirigente de topo, nomeadamente na “Banca de Credito Italiana”.
Recrutado, como Oficial militar, prestou serviço no Exército italiano no Corpo Alpino – Guarda de Fronteira – e na Córsega.
Inicia então, a sua colaboração activa com grupos opositores ao fascismo italiano, em especial com o grupo opositor denominado “Justiça e Liberdade”.
Em 1943, liga-se às Forças Aliadas que desembarcam na Sicília, depois em Salerno e participa activamente na libertação da cidade de Nápoles, tornando -se “Oficial de Ligação à Milícia Civil Popular Napolitana”.
Foi o primeiro Presidente do Instituto Aurélio Saffi, com a missão de divulgar a vasta obra deste político republicano italiano. Ao longo da sua longa carreira bancária, que exerceu em várias cidades italianas, foi fundador de várias Lojas Maçónicas italianas, contribuindo para a propagação dos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Na sua vida, ainda foi um membro activo do Partido Republicano Italiano e da Associação Mazziniana Italiana. Publicou a biografia e divulgou a obra de Aurélio Saffi, seu conterrâneo.
Em 1946, foi um dos fundadores do Movimento Federalista Europeu (MFE) com Altiero Spinelli (fundou as filiais de Ancona, de Ferrara e de Forlì, a qual tem o seu nome).
Depois do Golpe Armado de Pinochet no Chile (1973), contra o Governo Democrático e Popular de Salvador Allende tornou-se Presidente da “Comissão Italiana Para Um Chile Democrático”.
Faleceu na cidade de Bolonha no dia 28 de Outubro de 1988.

Quando faleceu, Nazario Sauro Bargossi deixou dois filhos; um filho, de nome Alberto Mario Bargossi e uma filha, de nome Maria Luisa Bargossi.
Actualmente a filha Maria Luísa Bargossi, Arquitecta de profissão, educada no espírito.
Mazziniano e Republicano, de Tolerância e de Liberdade, exerceu desde muita nova de idade, intensa actividade política em Forlì, inicialmente no Partido Comunista Italiano e depois no Partido Democrático. É actualmente Vereadora da Autarquia de Forlì.
O filho, Alberto Mario Bargossi, nasceu na cidade de Bolonha, no dia 11 de Março de 1948, desde muito novo embebido nos ideais de Tolerância, Lealdade e Justiça incutidos pelo seu pai Nazario Sauro Bargossi, foi um activo anarquista – republicano enquanto estudante de Medicina na Universdade de Bolonha, nunca descurou os estudos, tendo-se licenciado em Medicina e Cirurgia em 1977, com a classificação máxima. É Especialista em Higiene e Medicina Preventiva, em Cirurgia Geral, em Patologia Clínica (1983) e em Medicina do Desporto (1986).
Exerceu a sua carreira médico-profissional no Hospital Universitário Sant`Orsola – Malpighi da Universidade de Bolonha. Foi Director do Serviço de Patologia Clínica (1981 - 2006) e reformou-se em 2006, como Dirigente de 1º Nível do Serviço Nacional de Saúde Italiano.
Foi Professor Contratado de Patologia Clínica da Escola de Especialização de Medicina do Desporto da Universidade de Bolonha (1986 - 1998) e “Visiting” Professor da Universidade de Gd`ansK.
Publicou, até ao momento, inúmeros artigos/trabalhos científicos nas áreas da Patologia e Química – Clínica Aplicada, da Medicina do Desporto e da Nutrição Humana.
Desde 1975, é Consultor da Federação Italiana de Luta (Greco-Romana e Estilo Livre), e de Judo – Comité Olímpico Nacional Italiano e ainda da Federação de Ciclismo Italiana – Comité Olímpico Nacional Italiano. De 1992 a 1998 foi Consultor da Federação Italiana de Futebol – Comité Olímpico Nacional Italiano. De 1999 a 2006 foi Consultor da Federação de Ciclismo Italiana – União Ciclista Internacional, para o Controlo de Substância Abusivas.
Exerceu vários Cargos de Direcção em inúmeras Sociedades Científicas Italianas e Internacionais (Presidente da Associação Italiana de Fitness e Medicina, Membro do Colégio e ex. Presidente da Associação Italiana de Ciclismo).
Nos últimos anos tem desenvolvido intensa actividade de divulgação dos ideais maçónicos de Liberdade, Igualdade e Fraternidade na região Emília – Romana, tal como seu pai fizera anteriormente.

Atendendo à vida exemplar de luta permanente contra a ignorância, a prepotência, com uma enorme firmeza de carácter, de justiça e de luta pelos ideais de Liberdade, Igualdade e Solidariedade de Nazario Sauro Bargossi e de Alberto Mario Bargossi, é fácil agora entender a escolha do nome simbólico maçónico de Alberto Bargossi.

Autor: Alberto Bargossi