terça-feira, 22 de março de 2011

Vencit Omnia Veritas

Veritas
Ah, isto de ter Irmãos,
Uma família Universal,
Que por sinais que nos são familiares,
Por palavras que nos tocam
E nos chamam como fogo
Em noites de Inverno,
E toques como os da amizade
Que nos une e nos dá a Força
E a Vontade de ser maior e melhor,
Na Beleza dos usos e costumes.
Viajantes de sol e de lua,
Sonhos de mundos a que se chega,
Se abraça e se sente
Reconhecido como tal,
Sabedoria que esconde
A Fraternidade Universal;
Em pedra cúbica fechada
Que também pode ser piramidal,
Alçada pelo esquadro e pelo compasso
Nivelada pelo cinzel e pelo maço,
Traçando nela um novo rumo
A que nos leva o fio de prumo.

Ah, isto de ser América, Ásia, Africa, Oceânia
De ser todos os povos num só dia,
E de ser livre como a águia
E enfrentar de frente o sol
E de pousar no cume da montanha,
De a sobrevoar e descer ao vale
Morada do cubo, piramidal;
E abrindo a pirâmide
Vendo nela a cruz do templo,
E abrindo o cubo
Vendo nele a cruz da rosa,
Ouvindo o galopar de cavalos
Ao pulsar dos nossos corações
E na sombra destes, cavaleiros
Ganhando novas dimensões.

Este sentimento universal
Que é ser homem, pedreiro-livre,
Ser Irmão.

Veritas espelhada
No branco e no negro,
Onde demos os nossos primeiros passos.

Autor: Jónatas

terça-feira, 15 de março de 2011

Fernando Valle, Um Homem Um Maçon

Quando me foi pedido para indicar o nome simbólico, não hesitei um segundo a referir o nome de “Fernando Valle”, pretendendo assim prestar homenagem ao Homem, ao Humanista e ao Médico, que foi o Dr. Fernando, esperando também que com a vossa ajuda seja sempre digno de pronunciar o seu nome. Conheci o Dr. Fernando do Valle, no final da tarde do dia 08 de Junho de 1954, quando assistiu ao meu difícil nascimento no Hospital de Arganil, na altura Hospital Condessa das Canas. O parto não correu bem, nasci antes de tempo e a minha mãe esteve ás portas da morte. Após o parto, o meu pai que se encontrava no Hospital, sentado num corredor, foi chamado de urgência ao gabinete do médico. O Dr. Fernando, entrega-lhe uma receita e ordena-lhe: “Vai de imediato à farmácia e traz-me este medicamento”. O meu pai triste, olha para ele e diz-lhe: “Senhor Doutor, não trago dinheiro comigo”. Este responde-lhe: “Ó homem não te falei em dinheiro, diz ao farmacêutico que fui eu que mandei, não te preocupes com o pagamento, ou queres que a tua mulher morra”.

Este foi o primeiro episódio que eu, ainda muito novo, ouvia o meu pai contar, sempre com grande emoção, e, por vezes, com os olhos rasos de lágrimas, relatando aquela época difícil, até mesmo de miséria. Hoje, quando passo junto da casa do Dr. Fernando em direcção á minha terra, vem-me à memória a gratidão sentida que o meu falecido pai lhe tinha. O tempo foi passando, contudo a gratidão nunca foi esquecida, nem o Dr. Fernando se esqueceu de nós, pois, quando a minha mãe o visitava ou o consultava, perguntava-lhe sempre: como está o nosso rapaz?
Certo dia o meu pai foi ter com o Dr. Fernando a fim de este lhe passar um atestado para eu poder entrar na escola primária antes dos sete anos de idade, (era obrigatório na altura). Olhou para o meu pai com aquele sorriso característico dele e pergunta: “como vai o nosso rapaz ?”. E seguidamente, um pouco triste, diz-lhe: “Não te posso passar o atestado pois é competência do Delegado de Saúde de Arganil”, contudo acrescentou: Vai ter com o Dr. Batista para te passar o atestado. Não lhe digas que falaste comigo. O atestado custa 40 escudos. Precisas de dinheiro?. Os anos foram passando, contudo os meus pais nunca deixaram de o visitar ou consultar, com excepção de algumas vezes não o poderem contactar por motivos publicamente conhecidos. Estava eu a cumprir o serviço militar em Coimbra, tinha conseguido uma boleia num camião da fábrica de cerâmica de Coja, de Coimbra para aquela localidade, quando desci do camião junto ao Café Central, vi o Dr. Fernando sentado a uma mesa. Dirigi-me a ele para o cumprimentar. Ele olha para mim e diz-me: “Eu conheço-te?” Quando lhe digo que era de Vila Cova e tinha muito prazer em cumprimentá-lo, diz: “És o filho da Normélia”; rindo para mim com aquele sorriso quase angélico que o caracterizava, acrescenta: “Como vais rapaz ?. Sabes: ainda hoje me pergunto como é que vocês não morreram naquele hospital”.

A primeira vez que ouvi falar que o Dr. Fernando era maçon, tinha eu cerca de nove ou dez anos de idade, através de um episódio que passo a citar: Certo dia o meu falecido pai, na época das colheitas, andava a malhar centeio na eira e eu acompanhava-o naquela tarefa, fazia muito pó e eu apanhei uma infecção num dos olhos, como não passava e tinha muitas dores, fui levado pelo meu pai, a Coja, a casa do Dr. Fernando, aí, ele colocou-me umas gotas nos olhos e mandou-o levar-me novamente dois dias depois, a sua casa, pois estava á espera de uma pomada vinda de Coimbra, de nome “terramicina”, a qual “fazia milagres”, como na altura a título de graça o referiu. Passado um tempo o meu pai foi intimado pela GNR de Arganil para se apresentar em Coimbra na PIDE/DGS. Chegado aí foi confrontado com as seguintes perguntas: “O que tinha ido fazer a casa do Dr. Fernando duas vezes numa semana, pois achavam não ser normal. Se tinha um filho doente por que não se dirigiu ao hospital. E ainda se o meu pai pertencia a alguma sociedade secreta conhecida por maçonaria”. Era muito novo mas lembra-me o meu pai comentar com a minha mãe, relativamente a este episódio, o seguinte: “Porque não deixam o homem em paz?, “Eu sei lá de sociedades secretas, se é maçon ou não”. Não sei o que isso é. Que pertence à seita do Dr. Moura Pinto. Dizem que têm um pacto com o diabo e que matam pessoas, como é possível, se te salvou a ti e ao nosso filho”?. Os anos foram decorrendo, houve a Revolução de Abril, vim para a capital, mas muitas vezes me lembrava deste e outros episódios, procurei livros sobre a maçonaria, fui lendo e durante muitos anos uma grande vontade de fazer parte desta Ordem Maçónica. Fiquei também a saber que o Dr. Fernando era o maçon mais velho do mundo, pois foi iniciado aos vinte anos, tendo falecido aos cento e quatro anos de idade.

São alguns dos muitos episódios que me marcaram relativamente a este Grande Homem que foi o Dr. Fernando Valle. Não é por um sentimento de culto á sua personalidade, mas sim motivado pela grande gratidão que a minha família sempre teve para com ele, bem como os seus valores demonstrados e reconhecidos em toda a região de Arganil e no país, valores como a solidariedade, a fraternidade, igualdade e a justiça social, pelos quais sempre se debateu, tendo assim razão suficiente para adoptar o seu nome como meu nome simbólico.
Um trabalho simples e um Homem Simples!

Autor: Fernando Valle

terça-feira, 8 de março de 2011

A Maçonaria de dentro para fora

A Iniciação não é um fenómeno pontual e momentâneo, mas sim um processo, ainda que possa ser representada numa cerimónia. A Iniciação não se dá, provoca-se. Não é uma experiência sacramental ou mágica, mas sim um processo de aprendizagem psicológica. A Iniciação maçónica não é um caminho de salvação de caráter religioso ou esotérico, mas sim um processo de auto esclarecimento, e é compatível com qualquer fé religiosa ou esotérica que não anule a liberdade do indivíduo, assim como também é compatível – no caso da Maçonaria Liberal – com o agnosticismo e o ateísmo. Mas já não seria compatível com um posicionamento de nihilismo radical que negue qualquer sentido transcendente ou imanente ao mundo, que interprete o Universo como um puro caos sem ordem possível, que negue que, apesar da desordem aparente, haja um Cosmos. A Iniciação maçónica não é o único método de esclarecimento, apenas mais um. Existem outros, inclusivamente existem experiências vitais espontâneas que têm virtualidade iniciática por provocarem um aumento de consciência do indivíduo e uma atitude nova e mais responsável face à vida, como na maternidade e na paternidade, a compaixão pela dor alheia, a emoção estética, a criação artística e a experiência da morte. São experiências iniciáticas, não metódicas mas espontâneas. O método de Iniciação Maçónica está conservado nos rituais, que têm sido elaborados num largo processo de decantação histórica que guardam, cada um em seu estilo particular, uma específica “ecologia” emocional e simbólica, um subtil equilíbrio de gestos e de palavras que não pode ser alterado arbitrariamente. Mas o método maçónico não impõe uma unidade ideológica a quem o pratica… É um marco axiológico geral que admite e exige o pluralismo no seu interior. Baseia-se na funcionalidade dos símbolos construtivos, que articulam um imaginário emancipador da consciência individual, que torna cada Maçom resistente a qualquer manipulação simbólica. Por outro lado, a Loja Maçónica não é um grupo de pressão. Não atribui tarefas aos seus membros que condicionem as vidas privadas, a actividade profissional ou o desempenho de qualquer cargo público: cada um interpreta em consciência o seu compromisso maçónico. As Lojas Maçónicas não fazem proselitismo nem marketing para iniciar ninguém, mas podem dar a conhecer a sua existência. Ninguém é obrigado a guardar segredo da sua condição de Maçom. A Maçonaria não é uma organização clandestina. Todos os Maçons comprometem-se, pelo mero facto de o serem, a tentar viver como cidadãos exemplares. Por outro lado, a Maçonaria não é uma seita, já que não busca a submissão dos seus membros e nenhum guru ou líder, mas prepara para cada um dos seus membros um caminho personalizado até à Mestria. Não admite menores de idade nas Lojas e dirige-se a pessoas livres dotadas de autonomia. Não submete os seus membros a nenhum tipo de direcção espiritual. O método maçónico implica-nos racional e emocionalmente, apela ao nosso lado verbal-racional-consciente e também ao nosso lado não verbal-afectivo-inconsciente. A Loja, na Maçonaria Liberal, reúne a dupla condição de grupo iniciático e sociedade de pensamento. A Maçonaria não é um sindicato de interesses nem uma sociedade mútua, ainda que se comprometa a ajudar os seus membros, na medida das suas possibilidades e dentro do que é lícito. Também não é um clube social, ainda que em seu torno possam nascer vínculos de amizade pessoal e de relação social. Não é uma organização de caridade, ainda que possa apoiar a criação e a manutenção de actividades humanistas e de bem-estar social. Não compete com nenhuma confissão religiosa nem com nenhum partido político, ainda que valorize o valor político da liberdade e o respeito pelos direitos humanos. Não tem uma estrutura predisposta para a acção política organizada nem procura o poder político. Não é, sequer, uma associação cultural ou recreativa, ainda que possa dar lugar a iniciativas culturais ou de lazer. Não é uma empresa comercial nem actua movida por qualquer objectivo de lucro, ainda que esteja interessada em gozar da suficiência económica necessária para o desempenho das suas funções. Combina, na sua organização e funcionamento, a verticalidade iniciática com a horizontalidade democrática. Não está organizada como uma estrutura mundial ou internacional, mas organiza-se nacionalmente em federações de Lojas, que recebem o nome de Grandes Lojas ou Grandes Orientes. O ideal da Maçonaria é “Um Maçom livre numa Loja livre”. A Loja é a base do trabalho maçónico. O fundamento básico da Maçonaria é a experiência de autoconstrução pessoal como a descreveram as irmandades de construtores e que posteriormente foi elaborada como um verdadeiro método de construção pessoal e social: “O que tu fazes, faz-te.” A Maçonaria não propugna uma ideologia política determinada, concreta e detalhada, mas sim valores gerais que se concretizam historicamente: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade.” Não é uma instituição didáctica nem doutrinária. A Loja não ensina, mas suscita, sugere, provoca, desperta, impregna. A Declaração Universal dos Direitos do Homem é uma referência axiológica essencial da Maçonaria. A arquitectura simbólica com que trabalha a Maçonaria pretende que cada Maçom faça da sua vida uma verdadeira Obra de Arte de Sabedoria, Força e Beleza, e do mundo um lugar onde sejam possíveis a Paz, o Amor e a Alegria.

A isso chamamos a Arte Real.

Autor: Álvaro