quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

Estrela d'Alva - 114 anos

É bonito o Alva! Manso, claro, calado, sem a tragédia do Doiro, nem a grandeza do Tejo, é bem o rio da Beira, que define a Beira. O Mondego envenenou-se em Coimbra dum lirismo de borla e capelo, que o comprometeu...

Com estas palavras de Miguel Torga, principia a nossa história:
A região do Vale do Alva tem na sua narrativa uma contenda entre três rios, o Mondego, o Alva e o Zêzere, todos nados na Serra da Estrela. 
Estes três irmãos tornam-se um dia desavindos em torno de qual seria o mais destemido e, para porem termo à contenda, consentem numa corrida, de cujo vencedor seguiria soberano.
O Mondego ergueu-se com a alvorada e deslizou silencioso e discreto, mas não secreto, de forma a não atrair as atenções dos seus irmãos. Baixou serranias e perpassou as regiões da Guarda, Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim e, depois da Raiva e da Aguieira, logo se fortalece de seus primos, ditos ribeiros, alcançando por fim a Coimbra. 
O Zêzere, suspeitoso e atento, saiu de imediato em seu encalço; oculto por entre fragas, é sem desvios que passa Manteigas, Guarda e Fundão, mas essa afoiteza e precipitação logo o desnortearam e este, de cansaço, se vem a perder nas águas do Tejo.
O Alva, tal romântico utopista, passou a noite a contemplar as estrelas, perdido em divagações dignas de um sonhador aspirante a poeta. Quando finalmente anuiu para com a alvorada, já só vislumbrou os seus irmãos ao longe. Como que num laivo de fúria, rompeu tempestuosamente entre montes e rochedos, penhascos e vales e, quando o fervor da vitória já ecoava no seu íntimo, eis que se depara com o Mondego já muito adiantado em direção às águas do oceano.
O Alva ainda tentou arredar o seu Irmão do leito, mas desta vontade apenas sobraram umas réstias de espuma e um Mondego triunfante e altivo.

E é desta lenda que nos atrevemos a retirar um tríplice simbolismo, conexo à origem e fundação da Loja Estrela d’Alva.
Em primeiro remontamos à sua génese; tal como um rio tem a sua nascente, foi em 1871 que, em Coimbra, surgiu uma Loja com o nome Estrela d’Alva, cuja generalidade dos Maçons que dela faziam parte, mantiveram sempre fortes ligações familiares, precisamente ao Vale do Alva.
Em segundo, e sem sair da geografia do Vale do Alva, região serrana copiosa em adversidades naturais, mas abundante em gentes determinadas, que sempre se gladiaram pelo progresso, pela justiça, pela igualdade e em prol dos mais desfavorecidos. 
Encerramos o vértice desta trilogia na forma de uma homenagem a uma ínfima terriola, erguida por esse mesmo povo operário, que com o mesmo nome da fábrica onde laboravam batizaram terra que os abrigou; essa industria já findou, mas a vilarejo esse, permanece com o mesmo nome; o nome de Estrela d’Alva.
Nesta narrativa de 3 irmãos que, em igualdade, partem na demanda do conhecimento, estão plasmados valores e princípios com os quais todos nos devemos reger, como sejam a determinação, a honra e o ensejo em progredir, em nos aperfeiçoarmos. 
Mas hoje, mais do que o nome, pretendemos homenagear o trabalho dos Maçons que mantiveram esse mesmo epíteto vivente até aos dias de hoje.

Dos Irmãos que ergueram primeiramente a Loja sob o nome Estrela d’Alva, em Coimbra no ano de 1871, perdeu-se a memória nos livros de história, ficando inscrito o ano de 1908 como ano do seu levantamento de colunas, coincidentemente o ano em que é fundada em Torrozelo, por dois Irmãos de sangue, a filarmónica Estrela d’Alva.

Nestes 114 anos foram muitos os obreiros que, abnegadamente, se entregaram à causa Maçónica e à defesa intransigente dos Direitos Humanos e da Liberdade, nomes como os que escutámos na chamada de há pouco, cuja dedicação particular à Loja e ao Grande Oriente Lusitano nos compadece de enaltecer:
- João Carlos Costa, pelo seu trabalho no Grande Oriente Lusitano entre 1919 e 1931.
- Raul Weelhouse, pelo seu trabalho no Grande Oriente Lusitano entre 1931 e 1944.
- Luis Bettencourt, pelo seu trabalho no Grande Oriente Lusitano entre 1944 e 1988.
- José Pascoal Gomes, pelo seu trabalho no Grande Oriente Lusitano, no Conselho da Ordem e no Internato S. João.
- António Reis, pelo seu trabalho como Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano entre 2001 e 2011

Amados e odiados, temidos e cobiçados, os maçons desde sempre foram perseguidos, e desde sempre resistiram às maiores atrocidades cometidas contra si, empenhando-se incansavelmente na busca do aperfeiçoamento moral e intelectual do individuo e da sociedade, na procura de Verdade, Honra e Progresso e na transmissão dos valores de Tolerância, Solidariedade, afirmando-se contra a injustiça, a intolerância social e religiosa, a corrupção, a falta de ética e moral, as desigualdades sociais e enaltecendo o Mérito, o Trabalho e a Paz. 
Hoje recordamos esses Irmãos, na esperança que, através do nosso trabalho, possamos perpetuar a sua memória.

Autor: Fernando Valle

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Ética e Moral da Humanidade

Ao longo do dia, perante de pessoas, coisas e situações, muitas avaliações ou preconceitos são eliminados constantemente.
Desde que o mundo é mundo, é assim. 
O ser humano vive sob doutrinas das coisas: o bem e o mal, o certo e o errado, e o que diferencia cada um, tem a ver com a boa índole refletida na boa conduta frente à sociedade, orientada por regras de bem viver, que precisam ser respeitadas.
Não deve ser confundida com as leis, mas está relacionada com o sentimento de justiça social. Princípios ou valores morais como a ética, são peças chave para a harmonização dos grupos, para que haja um equilíbrio, bom funcionamento social, possibilitando que ninguém saia prejudicado. Assim diz a teoria. Nesse sentido, ética é um tema recorrente, pois, está atrelada à vida, ao quotidiano do homem.
Nos dias de hoje, muitos citam a palavra “ética”, mas, quando questionados, não conseguem explicá-la nem defini-la. Por isso, o nosso objetivo é abordar o conceito de ética de modo a tornar mais claro o seu entendimento a partir de uma reflexão sobre a mesma nos dias atuais. 

Numa primeira análise, a ética remete-nos à norma, à liberdade e à responsabilidade. Falar em ética significa falar de liberdade, pois não faz sentido falar de norma ou de responsabilidade se não partimos da suposição de que o ser humano é realmente livre para agir, ou pelo menos deve sê-lo.
A norma diz como devemos agir. E, se devemos agir de tal modo, é porque também podemos não agir deste mesmo modo. Isto é, se devemos obedecer, é porque podemos desobedecer ou somos capazes de desobedecer à norma. Também não haveria sentido falar de responsabilidade, se o condicionamento ou o determinismo fosse tão completo a ponto de considerar a resposta como mecânica ou automática.
Por outro lado ao afirmarmos que o determinismo é total, não se pode falar de Ética; pois a Ética refere-se às ações humanas, e, se elas são totalmente determinadas de fora para dentro, não há espaço para a liberdade, como autodeterminação e, consequentemente, não há espaço para a Ética.

Ao falar sobre um dos ramos da filosofia dedicado aos assuntos morais que norteiam o meio social, é necessário refletir sobre os dilemas da conduta dos indivíduos, na contemporaneidade, em todos os âmbitos sociais, começando na família, na escola, no trabalho e assim sucessivamente. Pensando seguidamente nos descaminhos dos seres humanos, refletidos na violência, na exclusão, no egoísmo e na indiferença pela sorte do semelhante e até mesmo da sociedade.
Atualmente, a ética abrange uma vasta área, podendo estar relacionada com temas ligados ao ambiente familiar, escolar, profissional, econômico, social e político. Existem códigos de ética profissional que indicam como o indivíduo se deve comportar no âmbito da sua profissão. Nos dias atuais com um mundo cada vez mais globalizado e competitivo, as pessoas preocupam-se com a ética nos seus negócios mostrando-se cada vez mais eficazes para competir com sucesso e obter resultados positivos.
Um outro exemplo a ser citado é na esfera política onde a sociedade tem exigido cada vez mais a moralidade de seus agentes e representantes e consequentemente mais “condenando” as ações que saqueiam os cofres públicos tirando do povo os recursos que deveriam ser empregues na prestação de serviços à população (educação, saúde, segurança, infraestrutura).
Na esfera política há que destacar a importância que os conceitos de democracia e direitos humanos assumiram, e que são também, de caráter moral, como por exemplo, a partir da discussão em torno dos conceitos de liberdade, igualdade e justiça social.

Mas o que é certo, o que é errado? Existe uma série de discussões políticas relativas aos direitos de grupos sociais as quais devem ser percebidas como questões morais: a questão do aborto, por exemplo, que ocasiona grande polémica quando posto em discussão, os direitos dos deficientes, a eutanásia, entre outras questões. 
São temas complexos que perpassaram o tempo, e hoje resultam em discussões que esbarram no senso ético para a resolução de cada situação no seu tempo.
Diretamente relacionada ao aspeto político, a ética remete-nos também à noção de cidadania e à vida em comunidade com o objetivo da realização das pessoas. A ética na cidadania procura refletir sobre o comportamento humano do ponto de vista das noções de bem e de mal, de justo e injusto, abrangendo as normas morais e as normas jurídicas; a ética na cidadania procura um meio em que as pessoas possam interagir na sociedade obedecendo a tais leis morais para um bom desempenho da comunidade humana.
Se partirmos do princípio, de que ninguém nasce com normas morais incorporadas, temos que admitir que é pela educação que o indivíduo tem a oportunidade de construir a sua personalidade moral. Numa sociedade competitiva e individualista como a que vivemos, pode assim parecer utopia aspirar a valores como a justiça baseados na reciprocidade e no compromisso pessoal. 

Assiste-se todos os dias ao retrato de países que esquecem esse “princípio da vida”. Nem preciso será dizer quem é que mais sofre com esse descompromisso. Nesse descompasso, patologias sociais como as desigualdades e a corrupção aumentam, ficando a sociedade cada vez mais sensível a crise dos valores morais e sociais.  Isto atinge a humanidade de modo geral.
A ética supõe a necessidade de reflexão sobre valores sociais num meio, reduzido ao individualismo e à competitividade, o que torna necessário, mais do que nunca, uma preocupação com a sociedade. Sim, porque a crise da Humanidade é uma crise moral. É evidente a falta de ética em vários âmbitos. 
A discussão sobre a justiça social é também uma discussão moral, admitindo que os valores das ações sociais estejam deturpados devido à lógica do sistema vigente. Bem e mal, certo e errado, justo e injusto cederam lugar ao sentimento de sobrevivência, do “salve-se quem puder” ou do interesse pessoal e particular numa sociedade exploradora, que mascara a liberdade, condição fundamental para a realização de ações morais.
Contudo, vivemos numa sociedade, onde o mundo se tornou uma grande aldeia global. É incrível como se atinge um nível de inter-relacionamento que nos permiti falar num mercado mundial que determina a produção, a distribuição e o consumo de bens, e numa cultura da virtualidade real, que liga todos os pontos do globo e influencia comportamentos. Durante esse processo fala-se ainda de uma “ética do mercado”.
Por um lado, a todos estes aspetos sociais e globais, é fundamental que cada ser humano esteja consciente de que não bastam as reflexões, é preciso mudar conceitos, ter condutas condizentes com o que harmoniza a sociedade em todos os seus segmentos. 
Não se pode ignorar que, tanto no âmbito das relações humanas, como políticas, economia, enfim, fatores sociais, constantemente são feitos julgamentos de carácter moral. Basta observar que um grande espaço nas discussões entre amigos, na família ou no trabalho abrange aqueles sentimentos que pressupõem juízos morais: indignação, rancor, sentimentos de culpa e vergonha.

Contudo, não há receitas para o bem agir o compromisso consigo, com os outros, com as novas gerações exige um estado de alerta constante. Viver sob os moldes da moral não é tarefa simples nem fácil, mas há a possibilidade de participar num mundo moral. E o que podemos infirmar de uma forma conclusiva, é que os problemas éticos presenciados na atualidade não se vão resolver apenas por tentativas isoladas de educação ou instrução ética dos indivíduos. 
É preciso vontade individual, política e social, para puder alterar as condições geradoras das mazelas sociais como a violência, a corrupção, a exploração, vicissitudes dos que estão à margem da sociedade. Por outras palavras: não basta “reformar o indivíduo” para “reformar a sociedade”; é preciso reformar ambos. Um projeto moral desligado de um projeto político fracassaria. Os dois processos caminham juntos, pois formar o ser humano plenamente moral, ético, só é possível na sociedade que também se esforça para ser justa e democrática, com direitos igualitários para todos, sem exceção.
De acordo com Aristóteles, sendo a ética a ciência que estuda o comportamento humano com ênfase, tanto nos valores individuais como nos valores do individuo perante a comunidade a qual pertence, é indispensável exigir de cada um, e da sociedade mais seriedade e dignidade nos seus atos sejam eles políticos, sociais, culturais, religiosos ou morais. 

É sempre importante fazer uma análise de como a ética está presente na nossa vida nos dias atuais, pois observa-se que certos valores que cada indivíduo assimila no decorrer da sua formação como pessoa, muitas vezes adquiridos na  sua família, escola, enfim, valores necessários numa procura como guião, através das nossas escolhas, entre o certo e o errado, o bem e o mal, ou seja, possuímos uma liberdade de escolha que nos torna mais responsáveis pelas nossas ações e que nos incentivar a colocar em prática o nosso respeito e dignidade, tendo em conta o bem comum de todos os que nos rodeiam.

Autor: John Locke

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

A Letra G

Inicio esta prancha com uma alegoria ao seu epílogo, categorizando-a desde logo como um texto inacabado; não por não me querer alongar na minha prosa, mas sim por uma assumida inaptidão e também por considerar que este se tratará possivelmente do único símbolo maçónico cujo significado não parece ser inteiramente esotérico, diria mesmo que emana exoterismo; pode esta justificação porventura parecer um contrassenso, mas legitimo-a do mesmo modo que explico o porquê da letra G fazer parte da simbologia maçónica… uma inquietude de interrogações.

O primeiro vislumbre da letra G surge formalmente ao companheiro Maçon precisamente durante a sua iniciação do respetivo grau. Mas em boa verdade esta figura não é estranha nem para o companheiro Maçon , nem para o mundo profano, ou não fosse muito possivelmente, ou mesmo certamente, o símbolo maçónico mais conhecido dentro e fora do templo; este popular quadro completa-se encimado pelo compasso e encerrado descensionalmente pelo esquadro, ambos servindo de moldura à letra G no seu centro. 

Antes de tentar efetivar um percurso histórico, vou diretamente ao âmago do seu significado; temos como aceção mais consensual dentro da nossa Augusta Ordem, a letra G como monograma de gravitação, de geometria, de geração, de génio e de gnose.

A gravitação é a força fundamental que rege o movimento e o equilíbrio dos corpos e governa a harmonia no universo; a geometria é a antiga e contemporânea arte, vulgo a ciência, de todas as espécies possíveis de espaços, que no Maçon desperta a acuidade do espirito e delimita o seu devaneio; a geração é a força vital que é o garante da perpetuação das espécies e que lança o embrião para se decifrar o enigma da vida; o génio é a inteligência humana a brilhar no seu mais vivo esplendor e de que o homem deve fazer uso para se guiar a si e aos seus semelhantes no caminho da justiça e da verdade; a gnose é o mais amplo conhecimento, que intui no homem a vontade de aprender sempre mais, e se define como o principal fator do progresso.

Estes cinco significados, comuns no número e no momento ao grau em que foram dados a conhecer, não só o definem, como devem ser os guias no percurso de aperfeiçoamento do companheiro maçom, e em boa verdade de qualquer pessoa de bem.

Tal como os cinco sentidos descritos na primeira viagem do companheiro nos permitem ver, compreender e guiarmo-nos pelo mundo físico, estes cinco termos são em igual medida os símbolos que nos orientam dentro do mundo inteligível, pois é através do espírito que é aprimorada a construção do nosso templo interior; abandonámos o rude desbastar de uma pedra bruta em detrimento de um cinzelar mais cuidado de uma pedra que, ainda que não estando polida já se nos apresenta de forma menos grosseira.

Mas dentro da maçonaria contemporânea há distintos significados para a letra G, tais como os representativos da inicial de Grandeza, no contexto do homem como a mais perfeita obra da criação, de Gomel, palavra hebraica que significa benfeitor, de Grande Arquiteto do Universo, de Glória a um ser superior ou de Deus, visto ser a sua primeira letra idiomas tão diversos como o Inglês (God), o Alemão (Gott), o Holandês (God), nas Línguas Escandinavas (Gud), o Sírio (Gad), o persa antigo (Goda), entre outros.

Estamos assim perante um símbolo algo único; a letra G acaba por se transfigurar como um símbolo rebelde que parece desvirtuar a característica de universalidade da generalidade dos símbolos maçónicos; na forma de reparo de consciência, talvez tenha sido precisamente essa singularidade que motivou o meu interesse.

Na procura de algum fundamento, iniciemos assim a nossa busca pelo significado etimológico da letra G, principiando precisamente pela sua génese; a letra G é possivelmente das mais contemporâneas do alfabeto dito moderno; enquanto grande maioria das letras deriva do alfabeto grego, com naturais raízes no alfabeto fenício, esta letra tão particular surge no seu grafismo atual apenas na primeira metade do século III em Roma, na forma de uma variante fonética da letra C, na qual tem as suas origens. Uma vez que me refiro apenas ao traço e não à fonética, omito propositadamente as referências pretéritas ao Gama Grego e ao seu progenitor o Gimel Hebraico.

Assim sendo, as suas raízes simbólicas não poderão ser anteriores a este tempo, pelo menos no sentido literal; em termos ideográficos, é de notar que esta letra tem uma notável semelhança com o símbolo alquímico do sal, sendo aliás este um possível preceito de o escrever com um único traço; esta alegoria não tem qualquer presença física no simbolismo atual, o que talvez seja uma pena pois o sal é-nos introduzido no ritual de aprendiz como símbolo da temperança, virtude que deve privilegiar todo o maçon.

Ainda sem abandonar a sua forma, Nagroski refere que a lera G não é mais do um signo que representa o nó; se levarmos esta aceção no mais lato sentido, ganhamos toda a fisionomia e simbolismo do nó do amor, da corda de nós e da cadeia de união. Ainda que intrincada, é uma atribuição pela qual tenho um especial apreço, apesar de não existirem referências que o substanciem no simbolismo da atual maçonaria.

Sem nos desviarmos do traçado histórico, e viajando de forma inusitada até à idade média do século XIV, vivia-se uma época em que o conhecimento era reservado a uma elite, nomeadamente as pessoas de ascendência nobre ou com elevadas posses materiais.

Talvez a mais emérita exceção fosse a Geometria, que era tida como uma ciência sagrada na verdadeira acessão da palavra, pois esta era a mãe da arquitetura, medular na construção dos mais importantes edifícios da época, as catedrais. Esta arte era aprendida de forma simbiótica entre os iniciados no ofício e aplicada no seu templo da época, o próprio recinto de trabalho; assim era o processo de instrução e aperfeiçoamento dos nossos irmãos operativos. Como que profetizando este preceito da maçonaria operativa, já Pitágoras penejava na porta do seu templo “Só entra aqui quem conhece a geometria”.

Justifica-se assim com toda a naturalidade que a presença da letra G no Templo Maçónico contemporâneo é representativa da Geometria como ciência maçônica, não fosse esta inicial comum do termo nos principais dialetos maçónicos, o francês, o latim, o alemão e o inglês, onde lhe incorporo o português não só por adequação mas também graças a uma súbita e efêmera brisa de patriotismo. Contextualizando, a letra G figura como origem da Arte Real, progredindo e evoluindo no talhe da maçonaria especulativa que hoje nos une como irmãos, como o alicerce para o uso de todas as ferramentas do maçom.

E da história da geometria chegamos com naturalidade à história da maçonaria, ou pelo menos assim o havia idealizado.

Olhando para os registos do início do século XVIII em Inglaterra, fonte comum de conhecimento maçónico, não há claras evidências de como (surge), de onde (provém) e qual (o significado) da letra G; não parece derivar diretamente dos maçons operativos da Idade Média, a não ser pela sua eventual e já referida ligação com a Geometria, nem fazer parte das decorações arquitetónicas das antigas catedrais. Se surgiu no simbolismo maçónico sob a influência dos alquimistas, cabalistas, templários ou rosa cruzes, ou se foi introduzida em algum momento posterior a 1717, quando a primeira Grande Loja foi estabelecida na Apple-Tree Tavern em Londres, parece impossível, se não muito difícil de determinar.

A primeira referência escrita encontrada surge precisamente num dos antigos manuscritos maçónicos, também referidos como Old Charges, mais precisamente no Manuscrito de Sloane nº 3329, datado de forma imprecisa em torno de 1700, no qual a letra G é referida como sendo O Grande Arquiteto e Inventor do Universo ou Aquele que foi Levado para o Topo do Pináculo do Templo Sagrado. 

Em termos cronológicos, e entre os anos de 1700 e 1727, situamo-nos num vazio, pois não parece haver evidências de que a letra G tenha feito parte de qualquer elemento simbólico das lojas maçónicas; há uma única menção na imprensa de 1726, com a convocatória para várias palestras sobre Maçonaria Antiga, onde se inclui da temática do significado da letra G; o detalhe destas palestras parece ter ficado apenas nas memórias dos presentes na época. 

Em 1727 surge uma referência de grande relevo, e novamente num dos antigos manuscritos, o Manuscrito de Wilkinson, onde pela primeira vez a letra G é referenciada com o significado de Geometria. Desta data em diante a iconografia da letra G surge de forma bastante mais regular, sem alterações substantivas ao seu simbolismo.

Com fundamentos mais ou menos difusos, a verdade é que tudo caminharia no sentido conciliador tendo a letra G como símbolo da Geometria ou mesmo de Grande Arquiteto do Universo, isto é, se a sua história tivesse tido o mérito de terminar neste momento, mas entre o século XVIII e XIX surge uma nova significação que tem tanto de natural, à época, como de divergente. 

Recordemos que se vive um tempo de profusa inovação na maçonaria, sendo inclusive em torno de 1730 que se dá em Inglaterra a clara definição dos três graus simbólicos. É também na cultura anglo-saxónica, profundamente teísta, que aparecem as primeiras interpelações à letra G como referência ao Grande Geómetra do Universo, mas curiosamente é em França, em 1744, que pela primeira vez se lavra nos livros esta letra como a inicial representativa de Deus, ou mais concretamente de God em Inglês, o que de certa forma marca um momento de viragem no significado deste símbolo. 

A florescência, vulgo, evolução da maçonaria e do significado dos seus símbolos é não só natural como salutar; não pode o Maçon aperfeiçoar-se se a própria instituição não perpetrar por esse mesmo caminho; mas o que distingue o percurso deste símbolo é que, no meu entender, além da pluralidade de significados já descrita, consequência do normal polir da pedra, existe uma profunda bifurcação do seu sentido, que inclusive alimenta a separação entre a maçonaria dita regular e a maçonaria liberal. De qualquer forma, são estas duas noções algo distintas que perduram até aos tempos de hoje, fruto da própria história da maçonaria.

Numa perspetiva puramente pessoal, far-me-ia mais sentido procurar um caráter conciliador no significado da letra G, eventualmente à luz do que é universal, intemporal e transversal entre culturas, sexo, raças e credos, como sejam as já referidas gravitação, geração, génio, gnose e muito em particular a geometria, que permanece até aos dias de hoje como a raiz e fundamento de todas as artes e das ciências; assim o afirmo, mas não o firmo, deixo-o apenas como prova de conceito.

E deste modo algo inconclusivo e prosaico concluiria esta prancha, não fosse uma referência encontrada primeiramente na obra de 1860, “A Lexicon of Freemasonry” de Albert G. Mackey, um irmão que ocupou diversos cargos na Grande Loja da Carolina do Sul e no Supremo Conselho do grau 33; de notar que ainda que não me considere inteiramente saciado com a solidez das fontes, esta referência é encontrada em inúmeros escritos maçónicos dos séculos XIX e XX.

O autor, ou autores, descrevem a existência de uma jurisdição independente, apelidada de Concelho da Trindade, a qual conferia três graus cristãos com claras referências à crucificação; o primeiro desses graus, denominado de “Os Cavaleiros da Marca Cristã e Guardas do Conclave”, consta ter sido organizado pelo Papa Alexandre IV, o que a situa entre os anos de 1254 a 1261. Tendo como finalidade a defesa pessoal do papa, foi formada chamando os mais nobres cavaleiros da Ordem de São João de Jerusalém, também conhecida por Ordem dos Hospitalários e mais recentemente por Ordem de Malta. 

E em todos os escritos lidos detive-me perante a mesma figura, que porventura trará um novo princípio para a nossa letra G; a joia desta ordem, que em muito precede a maçonaria especulativa e grande parte das fontes citadas neste texto, é descrita como uma placa triangular de ouro, com sete olhos numa das faces e, no lado oposto mas cardinal, uma estrela de cinco pontas que contém no seu âmago uma letra G.

Lembremo-nos pois do início desta prancha, a quando da descrição do painel de companheiro, e visualizemos no nosso íntimo estas duas imagens tão separadas no tempo quanto próximas na efígie. Ainda que esta evidência não nos traga esclarecimento quanto ao significado simbólico atual, a imutabilidade do grafismo cria um interessante fio condutor, que se estende na história durante mais de sete séculos.

Resta-me pois concluir que, tal como é unanimemente aceite entre diversos autores, a letra G é um verdadeiro enigma maçónico, que suscita tanto de diversidade interpretativa como de especulação desvirtuada. É possível que o próprio tempo e história se tenham encarregues de, ao invés de polir acertadamente o seu sentido, o tenham desbastado em demasia, fragmentando-o em anacrónicos e displicentes significados; no extremo oposto, talvez o seu significado último faça parte do percurso de cada irmão na busca do segredo maçónico, associado assim à normal e salutar pluralidade de interpretação característica da maçonaria. 

E é nesse sentido que, na busca do esclarecimento, regresso ao puro esotérico para conceber a letra G não na sua forma solitária mas ladeada pela estrela flamejante como elemento potenciador da sua essência; essência essa que estará porventura sequestrada na palavra Graal, para a qual é inicial nos léxicos antigos e modernos; mas não me entendam erradamente; este Graal não se refere ao Graal cristão, mas sim ao dos antigos celtas, que o tinham como um recetáculo com a forma de uma vasilha, o qual transmutava os alimentos nele colocados para que estes adquirissem o sabor mais aprazível para quem os experimentava, dando-lhe força e vigor. 

É cativante este binómio entre a estrela flamejante e o G deste Graal ancestral; conforme sugere Boucher, é como que o despertar do fogo criador que alimenta o nosso espírito e que nos permitirá um dia atingir a mestria, isto se formos verdadeiramente capazes de ser livres-pensadores e de nos libertar do cárcere redutor que são as definições herméticas atribuídas à generalidade dos nossos símbolos e à letra G em particular.

A todos os irmãos interessados no tema, não posso deixar de recomendar o notável texto do irmão Harry Carr, inscrito no volume 76 das regulares transações da loja Quatuor Coronati de 1963.

Como tem sido meu apanágio, partilho uns breves pensamentos do meu homónimo Álvaro de Campos, desta vez sobre a forma de prosa da sua obra edita:

O segredo da Maçonaria é simplesmente este - que todas as religiões são igualmente verdadeiras, que dizer Júpiter ou Jeová é, não dizer coisas diferentes, mas como quem diz a mesma coisa em línguas diferentes. Deve haver portanto tolerância para com todas as religiões - tolerância às avessas da do chamado livre-pensador, que tolera a todas porque considera todas falsas. Um Maçon pode ser tudo menos ateu.

Isto está dito nas constituições de Anderson, embora veladamente dito, e a interpretação literal do texto, do Grande Oriente de França, é errónea. Não se podia dizer isso explicitamente porque quase ninguém entraria para a Ordem, se se dissesse. É depois de estar na Ordem, de atingir a sua essência e espírito, que este segredo se atinge.

Todas as religiões, embora verdadeiras, são contudo simbólicas; como a própria Franco-Maçonaria. Isto é, os seus ritos e dogmas, os seus deuses e rituais, são verdadeiros, mas como símbolos, não como realidades.

Os inimigos do Símbolo são a Ignorância, que esquece ou não sente que ele é símbolo; (...)

E assim matam o símbolo, e o Sentido (a Palavra) do símbolo se perde, a religião se materializa (morre), e só na pessoa do seu entendedor externo (o candidato) pode ser verdadeiramente ressuscitada.


Autor: Álvaro de Campos