sexta-feira, 4 de junho de 2021

O Triângulo

Sendo o triângulo uma forma geométrica que sempre me despertou curiosidade de entre as outras, foi o que escolhi para poder elaborar o presente texto. Este símbolo geométrico faz parte da minha vida profissional. Uso um triângulo metálico principalmente para medições angulares de segmentos ósseos com desvios anómalos que serão a seguir corrigidos com osteotomias (cortes do osso) e reconstrução dos mesmos na sua forma natural. 

São muito poucas as formas geométricas básicas das quais se compõe toda a diversidade da estrutura do universo. Cada uma delas é dotada de propriedades únicas e detém um simbolismo esotérico que permaneceu imutável ao longo da história humana. Todas essas formas geométricas básicas podem ser facilmente produzidas por meio dos dois instrumentos que os geómetras têm usado desde a aurora da história - a régua e o compasso. Figuras universais, a sua construção não exige a utilização de nenhuma medição; ocorrem em todas as formações naturais, nos reinos orgânico e inorgânico. 

O triângulo "Polígono formado por três lados e por três ângulos internos, cuja soma das suas amplitudes é igual a 180º". Esta definição, esconde, por detrás da sua simplicidade aparente, toda uma significação, toda uma simbologia, que através das idades, dos séculos e das civilizações, o homem nunca ignorou e sempre soube respeitar, consciente ou inconscientemente.

É uma figura geométrica que se encontra na base de toda a filosofia maçónica. Não existe qualquer referência precisa de como e quando surgiu. 

Já nos achados arqueológicos da antiga Mesopotâmia foram encontrados desenhos de triângulos inscritos sobre peças de cerâmica perto de 7.000 anos a.C. 

Uma tábua de argila de 3.700 anos da Babilônia, conhecida como Plimpton 322, é o registo mais antigo conhecido de conceitos de trigonometria, segundo essa interpretação, a trigonometria teria surgido na região da Mesopotâmia cerca mil anos antes que na Grécia antiga.

Em seguida, os sumérios usaram com frequência triângulos que faziam parte de seus costumes.

Fatos elementares sobre triângulos foram apresentados por Euclides na sua obra “Elementos” aproximadamente há 300 anos a.C.

O auge da devoção aos triângulos floresceu no Egito, onde representa praticamente a secção vertical da construção das pirâmides, assim como de suas faces. Esse traçado é então elevado ao grau de divindade e sua forma responde a dimensões precisas. A importância desse símbolo contribuiu para carregar significados divinos até lhe impor o valor de “Criação do Mundo.”

A Constelação do Triângulo (Triangulum) ou Triângulo Boreal era também conhecida pelos Gregos como Deltoton", devido à semelhança com a letra do seu alfabeto, Δ (Delta maiúsculo). Segundo Eratóstenes, representava a foz (Delta) do rio Nilo

Formado por três triângulos entrelaçados, o Valknut é um símbolo religioso pertencente ao paganismo Nórdico e Germânico em norueguês significa “nó dos que caíram em batalha”, de modo que está relacionado com o culto aos mortos e, logo, a Ódin

Parece óbvio que todas as civilizações procuraram introduzir elementos simbólicos nas formas construídas em torno de um triângulo. Um dos significados primordiais é a posição do triângulo equilátero apontando para cima representando a mulher (símbolo feminino) e a ponta para baixo referindo-se ao homem (símbolo masculino). Esse recurso simbólico tem a particularidade de ser invertido considerando-se que o triângulo apontando para cima é uma representação refinada do sexo do homem e que a ponta para baixo corresponde à parte íntima da mulher

De uma maneira mais geral, “O Triângulo evoca a ideia da Trindade”, que é encontrada:

- No Hinduísmo: Brama (Criador); Vishnu (Conservador); Shiva (Destruidor).  

- Triângulo utilizado nos frisos ornamentais na Índia, na Grécia, em Roma, com significado constante: fogo e sexo masculino, água e sexo feminino, conforme a posição do vértice.

- Triângulo, símbolo do fogo em alquimia, também símbolo do coração.

- No Egito incluem: a Tríade de Mênfis, composta do deus Ptah, sua esposa Sekhmet e seu filho Nefertum.

- A Tríade Osiriana: Osiris, Isis, Horus.

- A Tríade Tebana: Amon, Mut, Khonsu. 

- Na Pérsia: Auramazda, o Mestre; Ormazd, o Sábio Gênio; 

Vohu Mano, o bom pensamento; Asha Vahista a justiça mais perfeita.

- Nos Celtas, tínhamos o triângulo representado nos aspetos da mãe terra: virgem, mãe e anciã.

- No Cristianismo:  Deus Pai, Filho (Jesus) e Espírito Santo, onde temos seres distintos, mas que são a mesma essência, um só.

Poderíamos multiplicar os exemplos de “trindades” na maioria das religiões.

Até na Filosofia verificamos a simbologia do triângulo associada a uma trindade, Platão, definia: Ser (modelo perfeito), Devir (cópia do modelo) e Recetáculo (espaço, lugar).

Para compreendermos melhor todos esses significados, podemos usar como base o que as escolas esotéricas dizem do significado do triângulo. Visto como a trindade divina, podemos compreender todas as religiões como um lado a harmonia, o outro a sabedoria e, por fim, a perfeição.

Se prestarmos atenção em todos os significados de cada cultura, perceberemos que o triângulo é um símbolo da soma, que necessita de dois elementos complementares para dar origem a um terceiro, assim como a soma da vida e da morte, que dá resultado à evolução do homem, ou luz e trevas, que resultam em conhecimento, dentre outros.

José Adelino Maltez, na sua obra o Abecedário Simbiótico define o triângulo como a figura fechada que está colocada entre o círculo e o quadrado, entidade intermediaria entre a substância e a matéria, entre o espírito e os sentidos.

Refere que as várias formas do triângulo têm a ver com os quatro elementos: o equilátero é a forma elementar da terra. O retângulo é o espírito da água. O escaleno é o espírito do ar. E, o isóscele é o fogo elementar simbolizando a divindade, a harmonia, a proporção.

Entre os triângulos está o Delta Luminoso, ou o Triângulo Sublime, um isóscele em que o vértice é 36º e os dois ângulos da base, mais larga, de 72º, tal como o frontão do templo, com 108º no vértice superior, correspondendo ao chamado número de ouro.

O triângulo é a forma pela qual também são expressas o Símbolo da Liberdade, Igualdade e Fraternidade; do passado, presente e futuro; da sabedoria, força e beleza; do nascimento, vida e morte; da luz, trevas e tempo; da tese, antítese e síntese; entre outras em boa verdade, a natureza do homem e das coisas, contendo em si o perfeito conhecimento, o “verbo” divino.

No nosso avental, o triângulo formado na abeta, mais o avental composto em 2 (dois) outros dois triângulos, quando somados representam simbolicamente as 3 (três) Formas Vivas do Homem, sendo, “Corpo, Alma e Espírito”.

Também está presente na forma de Delta nas lojas do 1º grau, a que preside (oriente), e nas lojas e insígnias de numerosos graus superiores, com formas variadas.

São em forma de triângulo o Altar do 1º e 2º Vigilante e o Altar que suporta o livro da Lei, e a posição destas 3 também em forma de triângulo. 

O simbolismo do triângulo cruza se com o do número Três. O Três é universalmente um número fundamental que exprime uma ordem intelectual e espiritual, em Deus, no Cosmos e no Homem.

Três é, por excelência, um número maçônico (juntamente com cinco e sete).

O Livro da Lei Sagrada, o Esquadro e o Compasso constituem as Três Grandes Luzes.

São Três as colunas do Templo: Jônica, Dórica e Coríntia, simbolizando a Sabedoria para criar, a Força para seguir e a Beleza para ornamentar.

São 3 graus a divisão da Maçonaria Simbólica: Aprendiz, Companheiro e Mestre (2º Landmark).

São Três as luzes que se acendem após a entrada do Venerável Mestre e até a sua saída.

Também são o Sol, a Lua e o Venerável da Loja. O sol equivale a razão. 

A Lua, à imaginação, que reveste as ideias e o Venerável que significa o princípio que mistura os dois anteriores.

- São três as virtudes teológicas; três são os elementos da Grande Obra Alquímica: o Enxofre, o Mercúrio e o Sal.

- Três designa também os níveis da vida humana: material, racional e espiritual ou divino. São ainda três as fases da evolução mística: purgativa, iluminativa, unitiva.

- Enfim, Três é o número pelo meio do qual o binário é devolvido à unidade.

- O ternário exprime-se por diversos símbolos gráficos: o tridente, a trinácria (triplo peixe com uma só cabeça) e, mais simplesmente, o triângulo.

Fica muito por dizer sobre este tema. Ao juntar todas estas vertentes, arquitetónica, religiosa, espiritual e filosófica verifico que a simbiose entre estes conceitos culmina num resultado final desejável traduzido na construção do nosso Templo Interior, no mundo profano e no plano divino.

O nosso trabalho exige a conjugação destas três dimensões de forma harmoniosa para que seja plenamente conseguido.


Autor: Viktor Frankl

domingo, 23 de maio de 2021

Quadro "o Delta com o Olho que Tudo Vê”


Há 5 anos iniciei um percurso diferente na minha vida. Tive a oportunidade de aprender a pintar a acrílico e não a desperdicei. Então, rapidamente percebi que o que me aliciava era captar e projetar na tela a alma de quem retratava. Essa alma sentia-a no olhar pois, quando interagimos com alguém nos fixamos nos olhos do nosso interlocutor. Daí a facilidade e o meu enorme prazer de pintar os olhos dum rosto inspirador.

Faz agora 9 meses que abracei esta instituição, a maçonaria, que vou aprendendo a compreender e a integrar aperfeiçoando-me a mim próprio. A páginas tantas, surgiu espontaneamente em mim a vontade de pintar representando o Delta com o “olho que tudo vê”.

É este pois, o resultado desse impulso. Como para além dos irmãos maçons estão presentes muitos convidados, passo a explicar o significado do que aqui está representado:

Assim…
O Delta 4ª letra, em forma de triângulo, do alfabeto grego. símbolo da tripla força indivisível do poder supremo do divino e da natureza. Os 3 lados do triângulo representam a sabedoria, a força e a beleza. As suas 3 pontas têm a ver com o passado, o presente e o futuro. No seu conjunto, o triângulo, representa a eternidade.

O “olho que tudo vê”, simboliza o verbo, o princípio criador, a omnisciência da razão suprema, do dever e da consciência. Esse olho não manifesta qualquer orientação, não correspondendo, pois, nem ao lado direito (futuro) nem ao lado esquerdo (passado) sendo simétrico, centrado, equilibrado (transcendência do presente).

Com um especto humano, pode corresponder a um Ser superior que me observa, podendo igualmente ser eu próprio num processo de introspeção. Sou observado e observo-me.

O Compasso e o Esquadro, na maçonaria surgem sempre representados juntos como uma associação entre o espírito e a matéria. O compasso será a medida na pesquisa e o esquadro a medida na acção.

O Compasso representa a amplitude do pensamento. Símbolo da justiça agente da medição dos atos humanos e da infalibilidade e imparcialidade do divino. O Compasso com os braços abertos para o ocidente, mostra que a emanação do espírito e do conhecimento proveniente do oriente deve ter como alvo aqueles que aí (no ocidente) se encontram.

O Esquadro, resultado da união da linha vertical com a horizontal é o símbolo da retidão, e também da acção do Homem sobre a matéria e sobre si mesmo.
Simboliza também a equidade, a moralidade dos nossos atos revelando o rigor do carácter e identificando-se com a ideia do justo.

O Esquadro com as pontas voltadas para oriente significa que o trabalho do aprendiz não deve ser só especulativo, mas deve sim ter um reflexo útil no mundo material. Assim, o Compasso (símbolo do espírito, elemento activo) sobre o Esquadro (símbolo da matéria, elemento passivo) simbolizam a supremacia do conhecimento espiritual sobre a matéria representando, pois, o equilíbrio das virtudes maçónicas.

O Sol e Lua correspondendo ao princípio da dualidade presente na natureza (bem e mal, homem e mulher, dia e noite, quente e frio, positivo e negativo, activo e passivo, etc.), representam os conhecimentos que devem ser adquiridos pelo maçon tanto na luz como nas trevas.

O Sol fonte de luz e de calor é o símbolo da existência e da vida, da saúde, do equilíbrio, e da força.

A Lua como princípio passivo e feminino é símbolo da instabilidade, da mudança, da imaginação e da sensibilidade. A Lua em quarto crescente corresponde à adolescência, fase em que o Homem é sujeito à aprendizagem universal (representando igualmente o inconsciente coletivo e a memória).

Por último: A letra G surgiu na maçonaria como substituição da letra hebraica iod de Jheova (sinónimo de o princípio). Com vários significados, é a primeira 1ª letra de: God /Deus; Geometria, Geração - perpetua-se, Gravidade- força que determina o equilíbrio entre matéria e o seu movimento, Génio - capacidade que o homem tem de interligar ao mais alto nível, Gnose - conhecimento da moral e da ética, bases do progresso/evolução
humana Grande Arquiteto do Universo.


Autor: João Bosco

domingo, 9 de maio de 2021

O Valor Solidariedade nos Nossos Dias

O Estado moderno nasce com Maquiavel. O pensamento político medieval, herdeiro dos conceitos do Império Romano e da romanização dos Bárbaros, era subordinado à teologia, à filosofia e ao direito. Do ponto de vista social tinha gerado o Feudalismo. Com Maquiavel inaugura-se a ideia de estado absoluto, de predomínio do Príncipe sobre os cidadãos exercendo o poder de forma pragmática. Deste modo, o pensamento maquiavélico – historicista, antropocêntrico, pessimista, autoritário, laico e por vezes antirreligioso – separou historicamente a Igreja do Estado.

Do séc. XVI ao séc. XVIII o absolutismo foi-se desenvolvendo, a ponto de se chegar a legitimar de forma transcendente, pelo direito divino dos reis. A evolução política da França, a partir das guerras da religião do séc. XVI, documenta este processo: depois de Richelieu e Mazarino terem lançado os fundamentos do Estado central e enfrentado os resquícios das feudalidades, Luís XIV, ele próprio temperado pelas dificuldades da Fronda, traçou e cumpriu uma estratégia de engrandecimento e reforço do poder do estado sobre a sociedade e a nação francesas e do poder absoluto do monarca sobre o Estado.

Ao longo do séc. XVIII este modelo vem a vigorar na Áustria, Rússia, Prússia, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal e Nápoles, em réplicas mais ou menos conseguidas. Esta asfixia dos povos e das nações deu origem a movimentos filosóficos de repúdio e a novas formas conceptuais de organização política, de que é exemplo modelar a teoria da separação de poderes de Montesquieu. É o início do Iluminismo, a entrada no Século das Luzes, no qual a Maçonaria tem um papel importante, senão o mais importante.

Da Revolução Francesa saem os três valores, que no fundo são nossos e ainda hoje celebramos: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Assim, o séc. XIX vem a ser o século dos Estados constitucionais liberais, os quais assumem uma forte neutralidade ideológica, porém num quadro jurídico de humanismo laico, ainda que, como observa Jaime Nogueira Pinto, se lhe possa assacar uma certa componente ideológica, ao defenderem “uma certa concepção de individualismo liberal oligárquico, uma espécie de democracia de notáveis em que a liberdade e a propriedade eram os valores fundamentais”.

No entanto, a partir de meados do séc. XIX a Revolução Industrial vem criar enormes concentrações de riqueza, possibilitando que famílias, ou mesmo indivíduos, tenham condições de concorrer com os Estados em importância e sobretudo em Poder. Por contraponto, e apercebendo-se do que será o futuro com esta receita (capitalismo selvagem, por um lado, Estado não intervencionista, por outro), Marx e Engels publicam em 1848 o Manifesto Comunista, propondo uma organização dos estados nova e completamente revolucionária.

Estas duas novas forças vão digladiar-se na primeira metade do séc. XX. Na Europa, Itália, Alemanha, Espanha e Portugal caem em regime de ditadura de Direita. E embora fascismo, nazismo, conservadorismo rural e corporativismo sejam realidades diferentes, às vezes mesmo muito diferentes, elas são organizáveis numa mesma categoria: regimes ditatoriais com prevalência do económico sobre o político. Por seu lado, a Rússia segue a via do comunismo, integrando como União Soviética uma série de Estados satélites. A França, como de costume, experimenta de tudo, desde Léon Blum à República de Vichy e à ocupação hitleriana.

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, no entanto, saem triunfantes os valores da liberdade, os nossos valores, os valorespor que lutaram os nossos irmãos antigos. Durante os trinta anos seguintes, os chamados anos dourados, a Europa é governada por forças moderadas, herdeiras do liberalismo democrático, com alternância entre a democracia cristã e a social-democracia.

Porém, com o advento da revolução tecnológica aconteceu algo semelhante ao que já acontecera na revolução industrial. O centro moderado esbateu-se. A Democracia Cristã, personalista e solidária, desapareceu algures no tempo, permitindo uma deriva para um liberalismo, ou neoliberalismo, desenfreado e novamente selvagem. A social-democracia, socialista e igualitária, em contraponto com a ditadura do proletariado do chamado socialismo científico, paradoxalmente perde a voz com a implosão da União Soviética, a que se seguiu a mudança de regime também na China, e deixa de contar como força política relevante, reduzindo-se a mero porta-voz de temas menores, embora importantes, como os direitos dos animais ou os direitos das minorias. A revolução tecnológica está a conduzir-nos, nestes tempos, de novo à prevalência do económico sobre o político, levando-nos a novas formas de exploração selvagem que nenhum modelo anterior pode ou sabe combater.

Estamos, portanto, num momento de transição em que iremos sair da Idade Contemporânea em direcção ao desconhecido. Ora, é neste momento que mais uma vez a Maçonaria, que sempre iluminou os grandes saltos históricos da evolução da Humanidade, tem uma palavra a dizer e um papel principal a desempenhar.

Observe-se que dos nossos valores iniciais, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a Liberdade está felizmente conquistada. A Fraternidade está disponível. Resta-nos cumprir a Igualdade. E a globalização pôs a nu o enorme atraso da Humanidade na promoção da Igualdade.Já foi aqui em Loja referido, há pouco tempo, como a revolução tecnológica, a robótica, a inteligência artificial e todas estas conquistas científicas estão a destruir milhões de postos de trabalho. Tentar defender os postos de trabalho contra o avanço tecnológico será como tentar desviar o curso de um rio com uma tábua.

Se, nesta conformidade queremos glorificar o direito e a justiça, queremos, enfim, fazer Maçonaria, temos de invocar um novo valor para nos nortear: a solidariedade. Este será o novo valor essencial para a promoção da igualdade entre os Homens.

Falta solidariedade quando se fecham fronteiras a quem, fugindo da guerra, só deseja uma oportunidade para, em paz, reiniciar a sua vida; Falta solidariedade quando se luta cinicamente na parte rica do mundo por 35 horas de trabalho semanal e nunca se tem uma palavra acerca daqueles que, na China, são obrigados a trabalhar 60 horas por semana para, apenas, sobreviver; Falta solidariedade quando se não critica o autêntico esbulho de matérias-primas a um continente inteiro – a África – sem que se promova que lá sejam instalados meios de produção que permitam um modo de vida condigno aos seus habitantes, aliás até há pouco chamados depreciativamente indígenas.

O mundo actual está a sofrer de um vergonhoso défice de solidariedade. É aqui que eu penso que nós, maçons, honrando os nossos antigos, temos uma palavra a dizer e nos devemos colocar na primeira fila da solidariedade, como forma privilegiada de combater pela igualdade contra a tirania, como é nossa obrigação.

Aqui têm, meus irmãos, as minhas reflexões acerca da viragem que o mundo enfrenta nos nossos dias. Infelizmente, porém, embora seja para mim claro que só através de uma porfiada lutaa favor da solidariedade poderemos cumprir os nossos ideais, não tenho mérito nem talento para ousar indicar um caminho, e por isso me desculpo por estas reflexões conterem mais dúvidas do que conclusões. Penso, no entanto, que estas reflexões são úteis para que todos possamos contribuir para aquilo que aqui nos reúne: combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o direito, a justiça, a verdade e a razão.

Com poucas certezas, estou porém certo e seguro relativamente à importância que o valor solidariedade hoje tem e continuará a ter para nós.


Autor: Bocage