sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

As Ferramentas do Companheiro Maçon e as Cinco Viagens

O Grau de Companheiro, é o segundo grau dentro do Rito Escocês Antigo e Aceito e do Rito Francês. Juntamente com o primeiro e o terceiro, estes graus são denominados Graus Simbólicos. Ser Companheiro, significa ser o laço de união entre o Aprendiz e o Mestre. Não sendo já Aprendiz e sem ter alcançado ainda a posição de Mestre, o Companheiro coloca-se como se fora o fiel de uma balança imaginária, equilibrando posições, aspirações e tendências.

O Aprendiz deverá assim passar da posição de prumo, que significa estar de forma correta e precisa em qualquer situação na vida, quer familiar, quer profissional ou ainda fraternal, à posição de nível, se comprovadamente tais propósitos foram cumpridos, ou seja, se ele se considerar um homem são, vertical e ativo. O nível, simbolicamente, ensina-nos que devemos pautar a nossa vida dentro do equilíbrio, a fim de que as nossas ações se ajustem à perfeição desejada, dando o equilíbrio necessário para que a nossa obra seja permanente e estável, na medida justa e satisfatória. Assim, o nível e o prumo formam o dualismo perfeito e conduzem à sabedoria.
Quando somos iniciados como Aprendizes de Maçom, e passamos das trevas à luz, somos submetidos a três viagens simbólicas que nos transportam através dos quatro elementos da Natureza, Terra, Água, Ar e Fogo. Para continuar a progredir os trabalhos, e continuando no crescimento pessoal, o Aprendiz deve iniciar cinco novas viagens que o levarão a atingir o grau de Companheiro. Tendo já vencido três viagens durante a cerimónia da sua Iniciação soma, agora, oito viagens.

O Companheiro maçom deve transcender do mundo concreto, (o Ocidente), ao mundo abstrato ou transcendente (o Oriente), o mundo dos Princípios e das Causas, atravessando a região obscura da dúvida e do erro (o Norte), para voltar pela região iluminada pelos conhecimentos adquiridos (o Sul), constituindo cada viagem uma nova e diferente etapa de progresso e de realização. Ora durante essas viagens simbólicas vão sendo usadas algumas das ferramentas do grau de Companheiro, as quais passo a descrever.
 
Primeira Viagem
Ferramentas: Maço e Cinzel, simbolizando a Vontade ativa, firme e perseverante e o Livre Arbítrio; fortifica-se a Vontade para chegar ao Livre-Arbítrio.
Esta primeira viagem simboliza o período de um ano, que o Companheiro deve empregar em aperfeiçoar-se na prática de cortar e lavrar a Pedra Bruta que aprendeu a desbastar, enquanto Aprendiz, com o maço e o Cinzel.
O Maço representa a força, a energia necessária para a execução de qualquer trabalho. O Aprendiz precisa da força e da energia do Maço para que as ações pensadas possam ser efetivamente realizadas. Com o maço desbasta-se a matéria, que é a desagregação da parte não desejada. Por consequência deste efeito de força e precisão, o maço representa o poder destrutivo, e, se não for utilizado com extremo cuidado e muita inteligência, compromete seriamente a Obra de Construção Individual, ao mesmo tempo que se transforma num potencial perigo para a estabilidade do edifício social. Podemos tirar uma boa lição desse instrumento tão contundente, usando-o em nós mesmos para retirar as arestas de nossa pedra bruta, com um objetivo de autoaperfeiçoamento.
A maçonaria é uma escola, mas é viável a autoeducação, pois, em vez de esperarmos que alguém nos bata para aparar as nossas arestas, podemos fazer isso nós mesmos, através de uma atitude mais suave e precisa. Reconhecer os próprios erros já é uma prática de desbastamento do espírito, ainda embrutecido da inteligência humana.
O Cinzel - Instrumento do grau de Aprendiz, que, com o maço, serve para desbastar simbolicamente a pedra bruta, que é uma alegoria à personalidade não educada e polida, e representa o intelecto. Possui o poder de cortar, dar forma, abrir caminho através da matéria. É um instrumento de aprimoramento.
O Cinzel significa a capacidade de enxergar aquilo que é preciso mudar, deve ser a autocrítica do Maçom que, apoiada pela força de vontade, fará com que consiga o desbaste necessário da sua ‘pedra bruta’. Para isso, o Aprendiz Maçom deve possuir qualidades morais, sentimentos bons e generosos (linha da virtude), uma mente bem-dotada e educada (linha da direção) e uma natureza espiritual pura e profunda (linha do discernimento), os quais serão utilizados nas suas obras.
Em síntese a utilização do Maço e do Cinzel na primeira viagem leva o candidato a Companheiro maçom a compreender, que o uso combinado das duas ferramentas, ou seja, o uso harmónico da força inteligente, aplicada ao carácter, que é a pedra bruta da personalidade profana, resultará numa pedra polida, apta a ser integrada no seu Templo Interno.
 
Segunda Viagem
Ferramentas: Régua e Compasso. As ferramentas que o candidato leva na sua segunda viagem, são de uma natureza inteiramente diferente daquelas com que executou o seu primeiro trabalho. A régua e o compasso agora destinadas à segunda viagem, são ferramentas leves e de precisão que, além de se destinarem a verificar e a dirigir o trabalho executado com as anteriores ferramentas, têm ainda um objetivo puramente intelectual.
A Régua e o Compasso, simbolizam a Harmonia e o Equilíbrio. Com elas podem-se construir todas as figuras geométricas existentes.  A linha reta, que é traçada com o auxílio da régua, representa a direção retilínea de todos os nossos atos, dado que é dever de todos os maçons nunca se desviarem no seu progresso da exatidão pela qual constantemente se orientam na procura do caminho mais justo e sábio.
Com o compasso, filosoficamente, o homem constrói-se a si próprio. Para que resulte num templo apropriado a glorificar o grande arquiteto do universo, torna-se indispensável saber usar cada um dos principais instrumentos da construção. O compasso mede os mínimos valores até completar a circunferência e o círculo onde fixamos uma das hastes do compasso. E, girando sobre nós próprios, poderemos executar então com facilidade o projeto perfeito.
Por outro lado, o compasso é a procura incessante pela justiça. A régua traça a linha de conduta e o compasso traça um círculo que indica o alcance da nossa linha de conduta e é o emblema da sabedoria e da prudência.
 
Terceira Viagem
Ferramentas: Nesta viagem o compasso é substituído pela alavanca, mantendo-se na mão esquerda a régua. A alavanca é o símbolo da força, servindo para erguer os mais pesados fardos; moralmente, ela representa a firmeza de caráter, a coragem indomável do homem independente e o poder do amor à Liberdade.
A Alavanca, em lugar do Compasso, é o emblema do poder que, em conjunto com as nossas forças individuais, multiplica a potência do esforço e possibilita o desempenho de grandes tarefas.
O seu formato, de per si, sugere essa força; basta-lhe um ponto de apoio para erguer um peso enorme sob a simples pressão muscular de um braço. Arquimedes dizia: " Dai-me um ponto de apoio e erguerei o mundo", manifestação filosófica no sentido de valorizar o "ponto de apoio".
Na nossa vida quando nos deparamos com algum obstáculo a ser removido e que implica um esforço impossível, o Maçom deve evocar a alavanca e buscar esse "ponto de apoio".
Às vezes a solução está perto de nós e não a visualizamos porque a nossa atenção está voltada para o obstáculo. A lição da alavanca é que não há peso que não possa ser removido, pois a alavanca suspende e desequilibra o peso, fazendo com que este se mova.
Existindo o problema, ao lado estará a solução, basta encontrá-la. O "ponto de apoio" é quem suporta todo o peso do obstáculo e, assim, revela-se a parte mais importante. Numa fraternidade, cada irmão constitui um "ponto de apoio", e unidos representam a alavanca. Devemos aprender a usar esse poder que só a maçonaria propicia.
 
Quarta Viagem
Ferramentas: Régua e Esquadro que simboliza os propósitos segundo o ideal que inspira.
O Esquadro que forma um ângulo reto representa a retidão de nossas ações; o Maçom na sua linguagem simbólica diz que pauta a sua vida "dentro do esquadro". Tudo está na dependência da retidão, tanto na horizontalidade como na verticalidade. Seguindo-se as hastes do esquadro, teremos dois caminhos que se vão afastando, quanto mais distantes seguirem; isso ensina-nos que, se a nossa vida for conduzida de forma correta, encontraremos o caminho da verticalidade espiritual e o da horizontalidade material. Este instrumento é imprescindível na construção; caso não for usado, teremos uma obra torcida, sem equilíbrio e pronta para ruir.
 
Quinta Viagem
Esta viagem é realizada com uma ferramenta final, a Trolha, ou colher de pedreiro. A trolha serve normalmente para alisar o cimento do reboco, deixando uma superfície lisa e perfeita. Simbolicamente pode ser considerado como um instrumento que simboliza a tolerância, o amor fraternal. Da mesma forma que o pedreiro passa a trolha para alisar o cimento, o Maçom passa a trolha nos seus irmãos quando perdoa e aplaina as suas diferenças e as suas imperfeições. A trolha assume-se assim como um símbolo da paz que deve reinar entre os irmãos.
No total são 9 as ferramentas do Grau de Companheiro, as quais estão representadas no Quadro de Loja referente a este grau. Para além das já mencionadas, o Maço, o Cinzel, a Régua, o Esquadro, o Compasso, a Alavanca e a Trolha, temos ainda o Nível e o Prumo.
Na verdade, estas ferramentas dizem-nos que, apesar de todo os conhecimentos transmitidos, não basta estarmos no caminho da virtude, e nela nos conservarmos para chegarmos à perfeição, são necessários ainda muitos esforços, estudo e pesquisas.
A atuação do Maçom não se restringe à loja, pois é seu dever exercer a verdadeira postura maçónica no mundo profano, agindo com tolerância, prudência e respeito pelo ser humano.
Portanto, a evolução maçónica depende de muito trabalho e esforço, seja nos três anos de aprendiz ou nos cinco anos de companheiro. As viagens demonstram que com muita dedicação pessoal, e com o uso adequado dos instrumentos possamos evoluir no nosso trabalho. Dessa forma, alcançando o objetivo de lapidar a pedra bruta e chegarmos a um resultado justo e perfeito.

Autor: António Egas Moniz

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Carta ao Egoísmo

Sinto-me distante, e não me refiro a este espaço em particular, mas ao reconhecer-me ostracizado da humanidade em geral, fruto não de um desinteresse fugaz, mas de algo mais profundo e hermético; é resultado do egoísmo de estar centrado em mim, nos meus problemas, nos meus anseios, nos meus temores. 

Este egocentrismo não é introspetivo nem endémico nem fruto das circunstâncias que nos assolam nestas últimas semanas, mas algo muito anterior, profundamente extrospectivo e assustadoramente extenso.

Enquanto penso nesta retórica, toca o telefone e, vocifero para o meu íntimo: mais uma chamada ao trabalho. Errei; era alguém importante, com a importância daqueles indivíduos que na nossa vida são símbolos da força e do otimismo; mas desta vez ouço um homem enfraquecido, onde perpassa o desanimo e o temor; à distância do telefone, vi o medo no seu rosto.

Falhei no propósito tão almejado de lhe transmitir confiança, como antes tantas vezes me tinha sido oferecida; fosse por necessidade ou por conveniência, senti o ceder das pernas e sentei-me, no mesmo assento que tantas vezes usara, mas desta vez soou diferente; sucumbi ao desalento.

Perante novo harpejar do telefone, forcei-me a erguer desta minha poltrona desconfortável, e desta vez o cético em mim não falhou, era trabalho. Granjeadas as matérias laborais, surge inevitavelmente a retórica em torno da pandémica e, quando pensei que nada me iria sobressaltar nesta interlocução, é com assombro que ouço um jovem instruído apregoar a sua revolta pelo facto de os hospitais do seu país estarem a receber enfermos de França e de Itália. Ainda tentei o diálogo em torno da solidariedade, mas fiquei inerte quando retorquiu “…e um dia se não houver camas disponíveis nos nossos hospitais, como trataremos dos nossos?” Esta frase, e em particular a prevalência do vocábulo “nossos”, gerou em mim a consternação da descoberta de uma certeza; a certeza de que solidariedade, igualdade e fraternidade não estão enraizados no íntimo de todos os homens.

Findo o dia, finamente recolho ao meu leito, esforçando-me por afastar do pensamento que este destino é de alguma maneira merecedor desta humanidade que forma indesejada o abraçou.

Como em tantos outros dias, já o descanso pernoitava nas gentes da minha casa, quando por alguma inusitada razão, olhei para a minha companheira de sempre; aquela que constantemente me julga pelo meu ar soturno e negativo mas que desta vez, e talvez pela primeira vez, me fez encontrar nos seus olhos cerrados um singular brilho no olhar, que me transmitiu a mais genuína e singular esperança.

Acordei e procurei junto da janela o desassossego das ruas e o agitar das crianças a caminho da escola, mas nada soava; nada senão o agora ensurdecedor ruido do chilrear dos pássaros que nunca antes havia escutado. Teriam estado sempre ali, no beiral da minha janela, ou terão ocasionalmente despontado a pretexto de uma recém-chegada primavera?

De regresso à agitação possível de quem está confinado à mesma morada, reparo na exuberância com que ecoa nestas quatro paredes o riso e as gargalhadas dos meus gaiatos, enquanto brincam com nada, literalmente com nada; há quanto tempo não sentia tão grande alegria, apenas fruto da mais pura inocência!

Por muito inusitada que seja esta retrospectiva, decidi não me perder em reflexões, até porque não sei se em algum momento no tempo serei capaz de me demitir deste egoísmo que me define; mas soube aprender o significado e alcance dessa mesma palavra, sei revoltar-me contra ela e estou decidido a lutar arduamente contra quem a defende, mesmo sendo eu próprio.

De regresso a esta realidade que chamamos levianamente dia-a-dia, constato o quão antagónica é a vida hoje quando comparada com de um passado que, por estar tão próximo, o mais honesto seria chama-lo de presente; volto a ser egoísta, pois sem o assolo da enfermidade e envolto pelo calor da família e no conforto do lar, infiro sem displicência que já não há dia-a-dia; esta, como tantas outras palavras, perdeu todo o significado para quem está a enfrentar o sobressalto da doença, para quem a reclusão forçada obriga ao distanciamento da família e para quem todos os dias abandona a segurança da sua morada para socorrer os que padecem desta sinistra enfermidade.

E da mesma forma que perdemos uma palavra encontramos outra, no altruísmo destes homens e mulheres; será na abnegação destas homéricas gentes que encontrarei o derradeiro arquétipo de ensinamento para eu derrubar a minha própria muralha de egoísmo?

Experienciamos um momento no tempo de natureza tão notável que as gerações vindouras o irão encontrar inscrito nos livros de história, em páginas e folhas tão extensas como as que emolduram os grandes acontecimentos, aqueles que pela sua dimensão definem a humanidade; a esta distância no tempo, creio que ninguém se atreve a medir o real alcance destas palavras, mas uma coisa podemos dar como certa, o mundo jamais será o mesmo.

É raro não encontrar um escrito de Fernando Pessoa, ou de um qualquer dos seus heterónimos, que não nos proporcione alguma forma de ensinamento, pensamento, consideração ou opinião sobre um qualquer assunto, e esta prosa não poderia terminar com tamanha exceção:

Por mim, o meu egoísmo é a superfície da minha dedicação. O meu espírito vive constantemente o estudo e no cuidado da Verdade, e no escrúpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade.

Reconheço que o sentido intelectual que esse Serviço da Humanidade toma em mim, em virtude do meu temperamento, me afasta, muitas vezes, das pequenas manifestações que em geral revelam o espírito humanitário. Os actos de caridade, a dedicação por assim dizer quotidiana são cousas que raras vezes aparecem em mim, embora nada haja em mim que represente a negação delas.

Em todo o caso, reconheço, em justiça para comigo próprio, que não sou mais egoísta que a maioria dos indivíduos, e muito menos o sou que a maioria dos meus colegas nas artes e nas letras. Pareço egoísta àqueles que, por um egoísmo absorvente, exigem a dedicação dos outros como um tributo.



Autor: Álvaro de Campos

terça-feira, 9 de novembro de 2021

As Religiões e a Maçonaria

JUDAISMO E MACONARIA

Antes de descrever de forma sucinta algumas semelhanças do simbolismo judaico e maçónico, será importante citar alguns aspetos da cultura judaica, muitas vezes esquecidos ou mesmo ignorados. Começo por citar um texto de Leon Zeldis, Grão-Mestre do Supremo Conselho do R.E.A.A. do Estado de Israel:

"Numa região sacudida pela guerra e pelo terrorismo, profundamente dividida política e pela religião, as lojas maçónicas constituem um oásis de Paz e de Tolerância, onde os homens livres e de boa vontade transcendem as suas diferenças para darem as mãos e o seu espírito, ligados pela aspiração comum de criar um Mundo melhor, aperfeiçoarem-se e de contribuírem para a construção de uma sociedade mais racional, fundada nos princípios da Liberdade, da lgualdade e da Fraternidade."

Existem traços comuns entre rituais, símbolos e palavras judaicas. Um dos Landmarks judaicos é a crença num Deus que criou tudo na nossa existência e que nos deu uma Lei, para ser seguida, incluindo os preceitos morais de relacionamento humano. A crença em Deus (G.A.D.U.), a prece, a imortalidade, a caridade, o agir respeitosamente entre os seus semelhantes fazem parte integrante do ideário maçónico - (maçonaria Teista) - como também no Judaísmo e até na maioria das religiões.

A maçonaria e o judaísmo, tais como os padrões éticos das outras religiões, ensinam­ nos que nos devemos autodisciplinar e manter as nossas paixões em constante contenção. A disciplina ritualística, seja nas sinagogas seja nas lojas maçónicas, auxilia a desenvolver esta virtude.

O judaísmo ensina que todo o ser humano e capaz do bem e do mal, tentando ser fiel a si próprio usando o livre arbítrio para escolher o caminho eticamente correto. A maçonaria ensina aqueles que são moralmente capazes a poderem encontrar a "Luz" na disciplina maçónica, se eles o desejarem por sua própria e livre vontade.

A "Luz" representa um importante símbolo, tanto no judaísmo como na maçonaria. A "Luz " para o maçom é imaterial, ilumina o intelecto e a razão, sendo o objetivo máximo do iniciado maçon que, vindo das trevas, quer caminhar em direção à "Luz ". De igual modo a "Luz" para o judaísmo possui o mesmo significado.

Um dos feriados judaicos é o "Chanukah", a festa da Luz, comemorando a vitória do povo de Israel sobre aqueles que tinham feito da prática da religião um crime punível pela morte (ano 165 da Era Vulgar- os judeus substituem o A.C. e o D.C.).

Outro símbolo compartilhado entre a maçonaria e o judaísmo e o Templo de Salomão. O templo de Salomão representa o "zénite" da religião judaica. Na maçonaria, juntou­ se a figura de Salomão, à construção do Templo, pois os maçons são simbolicamente pedreiros, construtores, geómetras e arquitetos. Os rituais maçónicos estão cheios de lendas sobre a construção do Templo de Salomão. Para os maçons existem, em sentido figurado, três "Salomões": o S. Maçónico, o S. Bíblico e o S. Histórico.

A tradição judaica ensina uma obediência de respeito para com os pais e rabinos. A maçonaria ensina desde a Constituição de Andersen de 1723, o respeito para com a autoridade legitimamente constituída.

 

A MAÇONARIA E O ISLÃO

Sempre existiram relações entre o Ocidente e o próximo Oriente Muçulmano, quer tratando-se das Cruzadas, quer do lmpério Otomano ou mais tarde da Colonização, sobretudo dos franceses e dos ingleses.

É no Egito, com a expedição francesa de Bonaparte, que aparecem os primeiros maçons deixando as "sementes" da maçonaria Universal em terras do lslão.

Em 1748 é fundada a primeira Loja maçónica em Alexandria, com a iniciação de Ismail Pacha durante o período da expedição de Bonaparte e a Loja ISIS do rito de Memphis que teve como primeiro Venerável o General Kleber.

No ano de 1830 os maçons italianos que residiam em Alexandria formam a Loja Carbonari seguida da Loja Menes. Com o rito de Memphis adotado (1867) é fundado o Grande Oriente do Egito e nomeado seu Grão-Mestre o Príncipe Halim Pacha.

Em 1890 o maçom Idris Bey Raghib é eleito G.M. do Egito. Sucede-lhe Redige Tawfik como G.M., o que dá origem a grandes conflitos que originam a suspensão do reconhecimento destas lojas egípcias pela Grande Loja de Inglaterra e da Grande Loja da Escócia.

Mais tarde em 1932, sob a égide da Grande Loja do Oriente de França, funda-se a Grande Loja Nacional do Egito. Durante o ano de 1952 com a queda da monarquia egípcia e a abdicação do Rei Farouk, sobe ao poder Abdel Gamal Nasser grande politico, maçom e membro da Ordem Mística do Egito dos Shrinners. (Todos os shrinners são maçons mas nem todos os maçons são shrinners. Os shrinners pertencem à Antiga Ordem Árabe dos Nobres do Santuário Místico, organização ligada à maçonaria. Entretanto, com a Crise do Suez e a politica no período Nasser, a maçonaria é proibida.

Com a ascensão ao poder do Presidente Anouar Sadate as Obediências lnglesas e Francesas desaparecem e funda-se a Grande Loja do Egito. A subida ao poder de Hosni Mubarak, que chegou a ser acusado de pertencer a maçonaria fora Egipto.

Atualmente com o progresso da lrmandade Muçulmana e a instabilidade politica, sabe-se que a maçonaria egípcia atravessa dificuldades na sua reconstrução.

 

LIBANO

O inicio da maçonaria no Líbano no séc. XIX na década de 1850 coincidem com o estabelecimento de fábricas de seda no vale de Chouf, pelos franceses. Inicialmente as lojas são fundadas pelos franceses e aderentes libaneses.

Duas lojas disputam ainda hoje a paternidade da maçonaria libanesa na Loja Palestina, fundada 1861 pela Grande Loja da Escócia e pela Loja Líbano fundada em 1862 pelo Grande Oriente de França.

A maçonaria Libanesa começa a desenvolver-se nos finais do sec. XIX, no momento em que no lmpério Otomano começa a despontar a revolução dos Jovens Turcos em 1908 e que na época o sonho do Grande Reino Arabe. No ano de 1936 funda-se a Grande Loja Libanesa dos Países Árabes pelo filho do Emir Abdel el-Kader onde mais tarde foi iniciado o Rei Hussein da Jordânia Pai do atual Rei.

De 1920 a 1946, ainda sob o mandato Francês, a maçonaria Libanesa e Síria expande-se com a fundação de varias Lojas. Após a grande revolta de 1925, a maçonaria do Levante quer emancipar-se da tutela das Obediências francesas em parte pelo apoio destes a minoria dos cristãos maronitas. (seguidores do Monge Maroun eremita 410D.C fieis à Sta. Sé). É considerado o despertar dos maçons libaneses face à potencia colonizadora Francesa na Síria e Líbano. Nos anos 50, depois a criação do Estado de Israel, foi criado o Grande Oriente Árabe também conhecido por Christian-Muslin Lodge.

Nota curiosa: são os maçons libaneses muçulmanos os primeiros a denunciar "a doença do lslão", lamentando os atentados do 11 de Setembro de 2001.

 

SIRIA

E na cidade de Aleppo em 1738, vinte e um anos depois do nascimento da maçonaria especulativa, que foi fundada a primeira Loja maçónica.

Com a subida ao poder Medhat Pacha fundaram-se varias Lojas uma das quais em 1878, a Loja Luzes de Damasco, frequentada na época pela elite intelectual da capital. No início da primeira Guerra Mundial, as Lojas maçónicas Sírias foram obrigadas a suspender os seus trabalhos.

Durante o ano de 1922, foi fundada em Damasco, a Loja da Síria sob a égide do Grande Oriente de França . Outra Loja importante no panorama maçónico Sírio foi a Loja Qaysun a Oriente de Damasco.

Atualmente a maçonaria está proibida na Siria, embora o pai do Presidente Hafez el Assad tenha pertencido a Loja Al Fatat de Damasco. (citado Rev. Express, Fev.2009).

Na Síria, antes da catástrofe da guerra e do êxodo a que assistimos hoje, existia já claramente um movimento que preconizava que o lslão deve parar no ano 622 e ficar confinado as relações do homem com o seu Criador. (Nova Leitura do Corão). Este movimento influenciado pelas ideias maçónicas de intelectuais como Ziad Hafez e Mohamed Charour.

 

PALESTINA

É pouca a bibliografia sobre a maçonaria palestina. Sabe-se que a Grande Loja o Egito estabeleceu treze Lojas na Palestina.

Em Jerusalém cerca de 1895 fundou-se a Loja Salomon ou Suleiman com apoio da Grande Loja Nacional do Egito mais tarde também apoiada pela Grande Loja do Canada, a Royal Salomon Mother Lodge do R.E.A.A.

A Loja Nur el Hachemat (Luz da Sensatez ) n°125 foi fundada em 1908 em Jerusalém, a Loja tinha os seus trabalhos em árabe. Cessou a sua atividade durante a Primeira Guerra Mundial retomando os trabalhos em 1924 juntando-se mais tarde a Grande Loja da Palestina em 1933.

Em 1951 a Grande Loja da Palestina era composta por judeus, muçulmanos, cristãos e druzos. Com a criação o Estado Judaico esta Loja parece ter sido desmantelada.

Apesar das relações tensas entre as populações árabes e judias, a Grande Loja Nacional da Palestina fazia grandes esforços para manter candidatos de todas as comunidades: Judeus, Árabes Cristãos (Koptas) Arménios e Druzos, assim como várias lojas compostas quase exclusivamente por Árabes.

O Grande Oriente Árabe Ecuménico, em 2010 e a Obediência Maçónica Francesa de Estudos e Pesquisa, trabalha em conjunto no novo Rito Judeo-Cristao e Muçulmano, também chamado Rito Ecuménico.

Em 2003, em plena Intifada palestiniana, a Loja Galileia e a Loja Fraternidade continuaram os seus trabalhos.

 

EM RESUMO

A colonização francesa no Magreb e em quase toda a Bacia Mediterrânica foi a grande impulsionadora da Maçonaria na Argélia, na Tunísia e em Marrocos. A influencia dos maçons ingleses também foi determinante para o estabelecimento dos valores da maçonaria nesta região.

Hoje quando as forças da intolerância e do fanatismo ameaçam os fundamentos da civilização livre e democrática, e imperativo refletir de novo nos valores da maçonaria, na tolerância, na mora e ainda na construção de uma sociedade mais tolerante, mais livre e mais humana, mesmo que esta tarefa seja feita em circunstancias adversas.

Deixarei para uma próxima prancha as relações da maçonaria no lmpério Otomano e as controversas relações entre a maçonaria e a religião Cristã.


Autor: Aquilino Ribeiro