sexta-feira, 27 de outubro de 2023

José da Silva Carvalho

José da Silva Carvalho, nasceu em 19 de Dezembro de 1792, na pequena aldeia de Vila Dianteira, S. João de Areias, filho de humildes lavradores  que viviam do sustento do que a terra produzia.

Com dificuldades, conseguiram que o filho frequentasse o Colégio das Artes em Coimbra e mais tarde, em 1800, a Faculdade de Direito da Universidade, onde se formou em 1805.

Em 1810 foi colocado como Juiz de Fora em Recardães e em 1814 nomeado Juiz dos Orfãos na cidade do Porto.

Foi nessa altura que se iniciou na política em que tanto se notibilizou.

Descontente com a ingerência inglesa na vida política do país, em 1818, juntamente com Manuel Fernandes Tomás, José Ferreira Borges e João Ferreira Viana, fundaram a Associação Revolucionária, denominada O SINÉDRIO, de grande impotância para o triunfo da Revolução Liberal de 1820.

Saindo vitoriosa a revolta, Silva Carvalho, foi eleito membro da Junta Provincial preparatória para as Cortes.

Mais tarde fez parte da Regência do Reino até ao regresso de D. João VI do Brasil, onde se tinha refugiado aquando da primeira "invasão francesa".

Após a chegada do Rei a Lisboa, 3 de Julho de 1821, foi-lhe confiado a pasta da Justiça. Nesse mesmo ano, era obreiro da Loja 15 de Outubro, ao Vale de Lisboa, o qual tinha o nome simbólico de Hydaspe, da qual foi Venerável e de 1823 a 1839, ocupa o cargo de 8º. Grão Mestre do Grande Oriente Lusitano.

Ainda no ano de 1823, deu-se a revolta absolutista e Silva Carvalho foi perseguido e forçado a emigrar para Inglaterra, a fim de salvar a vida.

Em 1826 aclamado rei D. Pedro IV, outorgou a  Carta Constitucional, a que se seguiu uma amnistia e assim Silva Carvalho regressou a Portugal, contudo, desiludido com o governo, retirou-se da vida política e foi viver para a  aldeia que o viu nascer.

Em 1828 foi novamente alvo de perseguissões por parte dos absolutistas com a chegada de D. Miguel a Portugal, conseguir fugir com a ajuda dos seus conterrânios, disfarçado de criado, rumando a Lisboa e dali novamente para Inglaterra. Este é um dos episódios que o povo da aldeia ainda conta, por ter sido transmitido de pais para filhos até aos dias de hoje.

Em 1832 estando no exílio foi nomeado Auditor Geral do Exército Libertador e no mesmo ano, foi nomeado por do Pedro IV ministro da Fazenda, em substituição de Mouzinho da Silveira e poucos meses depois ministro da Justiça e regressa a Portugal.

Em 24 de Setembro de 1834 morre D. Pedro IV e Silva Carvalho, pela terceira vez teve de fugir do país. Regressa em 1838, jura a Constituição, contudo encontra algum descontentamento no país, no entanto continua a sua carreira de legislador e de magistrado.

De 1840 a 1856 ocupa os cargos de 1º. Grão Mestre do Grande Oriente do Rito Escocês e de 1º. Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do grau 33º. afecto ao Grande Oriente do Rito Escocês. Foi igualmente o primeiro Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

Recusou por várias vezes títulos de nobreza que o rei D. Pedro IV o quis homenagear, dizendo sempre que os títulos não lhe cobriam a sua origem plebeia, bem como de um filho orgulhoso de humildes trabalhadores rurais e ao mesmo tempo queria que “o seu nome chegasse puro á posteridade como o recebera de seus pais”.

José da Silva Carvalho, faleceu em Lisboa no dia 5 de Setembro de 1856 e foi sepultado num túmulo sem pompa nem epitáfio, no Cemitério dos Prazeres, no talhão das figuras ilustres de Portugal.

Esta pequena prancha biográfica, tem como finalidade não só lembrar aos mais jovens quem foi Silva Carvalho, mas também não deixar cair no esquecimento este nosso Ir.’., que embora tenha partido para o Oriente Eterno há 158 anos, nos possa servir de inspiração pelo seu exemplo de humildade, honradez, de justiça, tolerância, serviço do bem comum sem nada esperar ou pedir em troca e o seu amor á liberdade que tanto prezava, valores estes, que um “homem livre e de bons costumes” se deve pautar.


Autor: Fernando Valle

sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Damião de Goes

A temática da adopção de um nome simbólico é ela própria um tema interessante e que merecia ser mais explorada em prancha a isso dedicada.

A raíz histórica que encontrei desta prática remontam ao Rito Adonhiramita, praticado no Brasil, mas foi adoptado por outros Ritos e Obediências, em particular aqueles que trabalham em contextos em que a pertença à Maçonaria é mal quista e alvo de perseguições, para proteger a identidade dos Maçons no mundo profano.

O Nome Simbólico é escolhido pelo neófito entre personagens virtuosos, Maçons ou não, que se encontrem no Oriente Eterno e que tenham contribuído para a Humanidade, a Pátria, a Sociedade ou a Maçonaria. A pessoa escolhida torna-se o patrono do novo Maçom, que em Loja só será conhecido por este nome.

Esotericamente, ao receber seu Nome Simbólico, o Maçon Adonhiramita passa a ter a guarda, a proteção e o exemplo de um espírito luminoso, com ricos exemplos de virtudes, e que será como uma espécie de Anjo da Guarda, mensageiro do GADU.’.

Permitam-me então que vos fale um pouco sobre Damião de Goes.

Nascido em Alenquer a 2 de Fevereiro de 1502 de um pai com ligações à aristocracia e mãe descendente de 3ª geração de fidalgos flamengos estabelecidos em Portugal, contava apenas nove anos quando entrou ao serviço da Corte como pajem de lança, onde travou amizade com o princepe D. João (futuro D. João III), ambos da mesma idade. Em 1518 recebeu moradia como moço de câmara de D. Manuel I.

A sua formação na corte deu-lhe a oportunidade de tomar contacto com diferentes áreas do saber, das letras, onde estudou latim e os clássicos gregos, à música, passando pela matemática; conheceu também políticos e diplomatas que o prepararam para as missões de representação do país que viria a ser chamado a desempenhar muito cedo na sua carreira.

Em 1523, aos 20 anos, D. João III nomeou-o para o lugar de secretário da Feitoria Portuguesa de Antuérpia - um dos centros do movimento humanista europeu - onde a sua ascendência flamenga e ao seu domínio do latim, à época a língua usada nos meio diplomáticos, lhe permitiram desempenhar o cargo com reconhecida eficácia e sucesso.

Entre 1528 e 1531 efectuou várias missões diplomáticas e comerciais na Europa, conhecendo a Inglaterra, Danzig e o Grão-Ducado da Lituânia, na região do Báltico, Poznań e visitado demoradamente a Corte de Cracóvia na actual Polónia.

Na missão à Dinamarca e Polónia realizada em 1531, visitou Lübeck e Wittenberg, cidade onde travou conhecimento com Martinho Lutero e Philipp Melanchthon, dois dos principais impulsionadores da reforma protestante.

Em 1532 matriculou-se na Universidade de Lovaina (Leuven), um dos principais centros de conhecimento da Europa, período no qual traduziu para latim o livro da embaixada do Imperador da Etiópia a D. Manuel I, que publicou com o título Legatio Magni Indorum Imperatoris Presbyteri Joannis ad Emanuelem Lusitaniae Regem in 1513. Nesse mesmo ano visitou Friburgo, cidade onde conheceu Desidério Erasmo, mais conhecido por Erasmo de Roterdão, e Basileia onde se encontrou com Sebastian Münster, matemático, professor de hebreu e conhecido luterano, e com Simon Grynaeus, humanista, latinista, helenista, teólogo e filósofo ligado ao movimento de reforma protestante na Alemanha.

Em 1533, em Paris, conviveu com o frade franciscano frei Roque de Almeida, também ele ligado à defesa das ideias da reforma protestante.

De regresso a Portugal foi convidado por D. João III para tesoureiro da Casa da Índia, cargo que não aceitou, deixando o serviço da corte para ir em peregrinação a Santiago de Compostela e, de seguida, para Estrasburgo e Basileia onde se dedicou a tempo inteiro ao estudo e ao aprofundamento dos ideais humanistas. Mudou-se em 1934 para Friburgo, onde partilhou casa com o humanista holandês Erasmo de Roterdão que o guiou nos estudos e influenciou nos escritos. Neste período manteve um grave conflito com o jesuíta português Simão Rodrigues, que acusava Damião de Goes de estar próximo das visões heréticas (entenda-se reformistas) e contra a doutrina católica.

Entre 1534 e 1538 frequentou a Universidade de Pádua, onde pode travar conhecimento próximo com os humanistas italianos Pietro Bembo, um futuro cardeal, Lazzaro Buonamico e Jacopo Sadoleto, outro influente humanista e bispo, defensor da conciliação com as facções mais moderadas da Reforma. Para além de contactar com as grandes figuras do humanismo do seu tempo, visitou Veneza, Roma e a Itália de norte a sul.

Conheceu também Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, que foi propositadamente de Veneza a Pádua para se desculpar do comportamento desrespeitoso de Simão Rodrigues, ficando ele e os companheiros hospedados na sua casa.

Terminados os estudos em Pádua, em 1538 regressou a Lovaina. Nesse mesmo ano, com autorização do rei D. João III, casou com Johanna van Hargen, nascida por volta de 1515 em 's-Gravenzande (Holanda), com quem viveu até ela falecer em 1569 e teve nove filhos.

O casal permaneceu em Lovaina durante seis anos, entre 1539 e 1542, durante os quais, publica vários opúsculos de temática humanista e historiográfica, entre os quais Commentarii rerum gestarum in India (1539) e Fides, religio moresque Aethioporum sub imperio Preciosi Joanni (1540).

Neste período, totalmente integrado na comunidade, participou activamente na defesa da cidade de Lovaina, tendo sido feito prisioneiro durante a invasão francesa da Flandres. Após um ano de cativeiro em França, às ordens do rei Francisco I de França, foi libertado em 1544 por intervenção de D. João III de Portugal, regressando a Lovaina onde pública Aliquot Opuscula.

O imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, quis expressar o seu reconhecimento pelos serviços prestados, elevando-o a fidalgo de cota de armas da Flandres, honra que lhe foi confirmada por el-rei D. Sebastião de Portugal.

Em 1545 a convite do rei D. João III, regressou a Portugal com a família para ser mestre do príncipe D. João. Apesar do prestígio pelo seu percurso intelectual e pelas amizades que contraíra na Europa e da evidente protecção régia, foram-lhe no entanto movidos dois processos no Tribunal do Santo Ofício, o primeiro dos quais, logo em 1545, ao ser acusado de heterodoxia e denunciado à Inquisição pelo seu antigo companheiro de estudos, o padre Simão Rodrigues, ao tempo o preceptor do príncipe herdeiro D. João e pouco depois nomeado por Inácio de Loyola como primeiro provincial da Província Portuguesa da ordem Jesuita. Beneficiando da protecção de D. João III, os processos da Inquisição foram arquivados.

Em 1546 publicou em Lisboa a obra Urbis Lovaniensis obsidio.

A 3 de junho de 1548 foi nomeado 11º guarda-mor dos arquivos reais da Torre do Tombo, cargo que ocupou até 1571.

Em 1554 publicou, em Évora, a obra Urbis Olisiponensis Descriptio.

Em 1558 foi escolhido pelo cardeal-infante D. Henrique para escrever a crónica oficial do reinado de D. Manuel I de Portugal. Tendo à sua disposição as fontes documentais do arquivo régio, Damião de Góis deu início à sua obra de cronista, completando o trabalho em 1565. Em 1566 saíram a primeira e segunda partes da Crónica do Felícissimo Rei D. Manuel. Em 1567 saíram as terceira e quarta partes e foi impressa a Crónica do Príncipe Dom João.

Versátil e culto, para além de cronista e escritor, fez-se músico, compositor, colecionador de arte e mecenas. Entre as obras por si coleccionadas é frequentemente atribuído o tríptico de As Tentações de Santo Antão, do pintor holandês Hieronymus Bosch.

As suas obras humanistas e historiográficas foram amplamente reconhecidas na esfera intelectual europeia que frequentou, sendo editadas em várias cidades europeias, o que lhes conferiu ampla difusão.

Em Portugal, no entanto, a sua visão humanista e, em particular, os seus contactos com reformadores e intelectuais considerados heréticos, levantaram profunda suspeição junto do clero português, que não aceitou os seus escritos.

A Crónica do Felícissimo Rei D. Manuel apesar do rigor historiográfico, gerou grandes animosidades junto de algumas famílias da nobreza, que se consideraram diminuídas pela narração do autor. A sua publicação marca o início do declínio da reputação de Damião de Goes. Em 1567 foi reimpressa a primeira parte da crónica, com revisões que marcam a vitória dos cortesãos sobre o cronista.

Pouco depois, em 1571, já sem a protecção do seu amigo El-Rei D. João III, e com muitas inimizades e invejas na corte, regressam os problemas com o Tribunal do Santo Ofício. Foi preso em condições degradantes que lhe causaram um acelerado declínio físico.

Com 69 anos de idade, prisioneiro, sente-se, cito, muito velho e doente, tão cheio de feridas e sarna por todo o corpo que me falta pouco para me julgarem leproso e quase não tenho já forças para me suster sobre as pernas.

No isolamento do cárcere, não deixa de conservar o seu espírito de homem culto e de letras rogando aos carcereiros que me mandem emprestar um livro em latim para ler, qual lhes parecer, porque estou apodrecendo de ociosidade e com o ler se me passam muitos pensamentos.

Sujeito a um longo e penoso processo e em outubro de 1572 condenado a cárcere perpétuo

como hereje, luterano, pertinaz e negativo. Transferido para o Mosteiro da Batalha, esteve preso de Abril de 1571 a Dezembro de 1572, em condições particularmente duras, sendo-lhe confiscados todos os bens.

Veio a falecer em Alenquer a 30 de Janeiro de 1574. A sua partida para o Oriente Eterno está ainda hoje envolta em obscuridade e não existem registos fidedignos dos seus derradeiros anos.

Presume-se que nos seus últimos dias foi liberto do cárcere e retornado Alenquer, sua terra natal, despojado de bens e da sua relevância social. Diz-se, com fraco suporte documental, que foi encontrado morto junto a uma lareira com uma lesão craniana.

Investigações recentes revelaram, no entanto, que o crânio que se encontrava em seu túmulo, o qual apresentava marcas de uma fissura horizontal no occipital que lhe teria causado a morte, não tem correspondência genética com um presumível descendente dos nossos dias.

Terá sido acidente, assassinato pelos seus inimigos, a própria Inquisição a queima-lo na fogueira, depois de não o ter conseguido condenar à fogueira inquisitorial por intervenção de alguns amigos de Damião que gozavam de influência?

Tudo isso é irrelevante face à grandeza deste Português que, abrindo-se ao Mundo e nele buscando o conhecimento que cá ainda não encontrava, se tornou maior que a Pátria de vistas curtas que honrou e tornou mais reconhecida, não somente como terra de homens valentes que deram novos mundos ao mundo e dele trouxeram novos sabores, vestes e demais riquezas com que inundaram as principais cortes europeias, mas também como uma terra de conhecimento e cultura.

Foi a memória deste Homem que eu humildemente tento honrar e reavivar com a escolha do seu nome para meu Nome Simbólico. Porque também eu Português, tive o privilégio de ter uma educação cuidada e completa onde pude cultivar o gosto por adquirir conhecimento em áreas muito díspares e abrangentes; mas foi ao abrir-me a experiências fora das nossas fronteiras que senti o meu espírito a alargar-se; que intuí a riqueza de saberes que estão ao nosso alcance ao abraçar sem preconceitos a forma de olhar o mundo de outros povos e credos; que assimilei verdadeiramente (ou iniciei o meu caminho para assimilar) que os Homens são fundamentalmente todos iguais no que desejam e procuram e que os cambiantes com que cada cadinho cultural nos tinge, mais do que dividir-nos, dão-nos uma oportunidade única de nos somarmos e enriquecermos, desde que mantenhamos um espírito aberto à diferença e livre de preconceitos e dogmas.

Que o espírito livre de Damião de Goes me ilumine, nesta caminhada que agora estou a iniciar.


Autor: Damião de Goes




terça-feira, 14 de março de 2023

Da Dialética entre Moral e Ética ao Ser Consciente

Se há temática que sempre me seduziu foi o esquadrinhar dos princípios morais e do julgamento ético e essa nossa capacidade, como indivíduos, de avaliar o mundo de forma sublime, por comparação com os demais seres vivos ditos inteligentes; e se de sapiência discorro, porque não incluir nesta paragona as modernas engenhocas, copiosas em algoritmia da agora tão parangonada inteligência artificial?

Mas este não é o fascínio do estudioso erudito que procura o sentido da vida, nem do douto engenheiro que busca o segredo da omnisciência das máquinas; é antes o fascínio do estupido ignorante, que ainda que sendo ocasionalmente um estudioso e rotineiramente um engenheiro, somente quer saber o que nos torna tão singulares ao ponto de conseguir granjear estes traços na forma de letras, as letras na forma de palavras, as palavras na forma de frases e as frases na forma deste prosaico arranjo que apelido de texto, e que hoje partilho com os meus irmãos.

Mas, comecemos pelo princípio, e esse, pela ordem consagrada no título refere-se à moral. Do latim não a distinguimos claramente da ética, pois de ambas tiramos idêntica significação relativa aos costumes. Mas esta réstia de ambiguidade cessa na etimologia, pois na verdade vejo-as de forma profundamente distinta, ainda que complementares.

No meu entender a moral não é mais do que o conjunto de regras, de preceitos e de leis aplicadas no quotidiano por cada individuo, orientando as suas ações e os seus julgamentos sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau.

Mas a moral padece de um inconveniente, pelo menos na minha interpretação; ela é relativa, temporária, mutável; há moral entre biltres e patifes, entre quem mata e segrega a refugio das leis, entre quem politiza sob pretexto do bem comum, entre quem comete atrocidades sob o duto da religião. A moral está intrinsecamente ligada ao tempo, espaço e grupo social e cultural em que discorre e por isso não é nem pode ser universal. De certa forma a moral é externa ao indivíduo, pois habitualmente precisa de ser ensinada e vulgarmente precisa de ser imposta.

Talvez os mais alheios se interroguem de como podem coexistir diferentes morais? Para os presentes certamente que é universalmente aceite que matar outro ser humano é errado, ainda que em outras pátrias a pena de morte seja legal, moral e aceite; mesmo tempo, lugares distintos. Nesses mesmos prados, há bem pouco tempo, estava institucionalizada a segregação monocromática de raças, para hoje ser considerado algo abominável e moralmente errado; apenas mudou o tempo, não o lugar.

Tal como no passado distante, neste tempo, no nosso tempo, a moral difere; seja na forma da vivência poligâmica de um Muçulmano, do kilt festivo de um Escocês ou da nudez de uma tribo da Amazónia.

Seguindo a ordem no rótulo deste desvario linguístico, chegamos à ética; e essa, para mim, vai um pouco, ou muito mais além, quando a defino como o conjunto de conhecimentos extraídos do comportamento humano, na tentativa de explicar as regras da moral de forma racional e fundamentada, independentemente do espaço social e cultural em que se inserem.

Procurando intencionalmente ser redutor, a ética é não mais do que uma reflexão sobre a moral, o seu estudo filosófico, baseada em conceitos temporais e não temporários, e por isso é verdadeiramente universal, e por isso é uma virtude.

Ser ético significa ter a capacidade de perceção dos conflitos entre o que nos narra o coração e o que é cogitado no cérebro; é ao juízo ético que cabe o papel de trilhar o caminho entre a emoção e a razão e de assim inventar o equilíbrio mais consentâneo para as nossas ações.

Da simples diligência de devolver um cunho perdido por um descuidado transeunte, passando pelo gesto fraterno em socorrer um irmão em aflição, até ato espontâneo do desconhecido que, sem receio pela sua vida, invade um carro em chamas para resgatar uma anónima criança, tudo são comportamentos éticos, porque simplesmente os realizámos convictos que seriam as atitudes corretas.

Alguns chamar-me-ão infame pateta por me atrever a tal destrinça, achando porventura que a moral é a ética do quotidiano e que de ética vivem os médicos, advogados, engenheiros, clérigos e políticos; noutro tempo e lugar diria que isso não é ética, é deontologia e faz parte da filosofia moral contemporânea. Mas olvidem-se das minhas ultimas palavras, pois iria refugiar-me nos mestres como Espinoza, Kant ou Savater para responder, pois ainda que moralmente correto, por certo que os mesmos filósofos que me criticam não achariam ético citar terceiros.

Então como descrever a um cego objetos que este nunca pode ver? Como pedir a um surdo que entenda a diferença entre música e troada? Da mesma forma como eu próprio apenas tenho convicção da minha própria insciência, como qual apedeuta, daltónico e duro de ouvido, refugio-me nas palavras de um sublime humanista, Albert Schweitzer: “Ética não é mais do que a reverência pela vida. Isso é o que me dá o princípio fundamental da moralidade, nomeadamente, que o bem consiste em manter, promover e melhorar a vida, e que destruir, ferir, e limitar a vida é pura maldade”.

Da ética resta-me dizer que, como qual voluptuosa e casta mulher, que todos fabulizam amar incondicional e desinteressadamente e veneram como quem ansia que esta seja a sublime matriarca dos seus filhos, vejo que por vezes (ou quase sempre), são muitos (ou todos), os que a violentam como se a mais vulgar prostituta se tratasse, como se em algum momento fosse também ela merecedora de tal desgraça.

Moral e ética são assim por mim entendidos como dos mais importantes valores do homem livre, estando intrinsecamente ligadas ao respeito e reverência pela vida; mas o homem, provido de algo singular que se chama livre arbítrio, é ele próprio a personificação de todo o bem e de todo o mal deste mundo, e é do juízo ético que irá colher, dessa liberdade conquistada, o caminho da virtude.

Mas a citação que deu início a este texto tem ainda mais um termo, que em jeito de oração se desdobra em duas palavras; então em que medida se insere o ser consciente ou a consciência no meio destes dois vernáculos, moral e ética?

A verdade é que o que define o ser humano não são os seus instintos ou marcadores genéticos, tão semelhantes que são a outros animais, mas sim a nossa capacidade de decidir e inventar ações que nos transformam a nós e à realidade que nos circunda. Esta “liberdade”, a que chamarei pensamento consciente, é o fundamento do que consideramos a nossa dignidade racional, e as regras morais e o juízo ético, o fio condutor entre o nosso pensamento e a tomada de decisão.

Esta é a “centelha divina” que nos permite amar sem qualquer explicação racional, odiar por razões fúteis, sorrir por um gracejo, irar por simples capricho, mentir porque nos é profícuo, asseverar quando sabemos estar errados, matar ou escolher morrer … por simplesmente querer.

Mas não me entendam erradamente; não opino como Kant sobre a falta de fé na natureza humana, quando refere que não existe bondade natural e que por natureza somos egoístas, ambiciosos, destrutivos, agressivos, cruéis, ávidos de prazeres que nunca nos saciam e pelos quais matamos, mentimos e roubamos; apenas reafirmo que a nossa consciência nos dá liberdade de escolha, e que a moral e a ética guiam essa escolha.

E a minha inquietude é justamente de onde provém esta luz que nos torna tão especiais e que nos premeia com esta consciência livre; será uma consequência natural da teoria evolutiva? Será que este fulgor provém do espirito, como representação divina de Deus, um qualquer Deus, no consciente do homem?

Para quem não conhece “O Erro de Descartes” de António Damásio, Phineas Gage será apenas um nome de um comum mortal e na realidade é isso mesmo que ele foi, um jovem vulgar ainda que dotado de uma invulgar responsabilidade profissional; e precisamente no lavor do dia-a-dia, talvez no seu único momento de incúria, a prematura detonação de uma carga explosiva projeta uma ciclópica barra de ferro através sua face esquerda, trespassando a base do seu crânio e a parte anterior do cérebro e saindo pelo topo da cabeça. Por qualquer milagre, e verdadeiro milagre já que a ciência do século XIX pouco mais permitia nestes casos do que cuidados paliativos, Gage sobrevive e, à exceção da visão do olho esquerdo, recupera integralmente todas as suas capacidades físicas.

Mas esta dádiva vem em pouco tempo a revelar uma pessoa diferente; o outrora homem de hábitos moderados e de considerável energia de caráter, astuto e inteligente nos negócios e com uma mente equilibrada e persistente na execução de todos os seus planos, deu lugar a uma pessoa caprichosa e irreverente, que se mostra impaciente e com pouca deferência para com os seus colegas, socorrendo-se frequentemente de linguagem menos própria e parecendo ora obstinado ora caprichoso e vacilante, fazendo frequentemente planos para ações futuras sempre inconsequentes.

Nem o amparo dos médicos, nem a admoestação dos chefes, nem as achegas dos colegas, nem o socorro dos amigos, nem as lágrimas da família, nem a fé de todas as religiões, tiveram sucesso em redimir tão radical transformação. Este outrora homem de elevados padrões morais, não se tornou num individuo mau, nem violento, nem desrespeitador da lei, mas perdeu de forma inapelável parte essencial do seu juízo ético e de responsabilidade; é como se aquela barra de ferro, ao atravessar o seu crânio, tivesse uma mão divina que lhe apresou uma porção do espírito consciente e o arrebatou violentamente para longe do seu corpo.

Há muito que se aceitam distintas zonas do cérebro como alicerces da linguagem, da perceção e das funções motoras, mas o que este acontecimento funesto vem revelar é uma região muito particular, especialmente encarregue de propriedades humanas únicas associadas ao livre arbítrio, às dimensões pessoais e sociais do raciocínio e à observância das convenções sociais e das regras éticas previamente adquiridas, permitindo antever e planear o futuro e manter o sentido de responsabilidade, perante si próprio e perante os outros.

Como se já de si não fosse surpreendente constatar esta imagem corpórea do espírito consciente, eis que a mesma ciência nos conduz a um novo sobressalto; os vitupérios nesta tão particular região do cérebro pareciam também emudecer os sentimentos, fazendo-se perder a tristeza, a impaciência, a frustração, transformando até uma extemporânea explosão de raiva numa apatia sem rancor. Aventuro-me ao concluir com a convicção dos sentimentos que, sem estes, não poderia haver juízo ético, nem o proferido “ser consciente”; no fundo, não haveria humanidade, com todo o altruísmo e perversidade que a veste.

Recuperando de forma inusitada o primeiro parágrafo deste trecho, como quem não consegue abandonar o rumo do aborrecido homem de ciência, vislumbro longínqua a tão ambicionada inteligência artificial, pelo menos à nossa imagem; por mais flops de processamento e bytes de dados que se vertam numa máquina, esses dados transformar-se-ão simplesmente em excessiva informação, em acanhado ou desajustado conhecimento e em nenhuma decisão dotada de juízo ético, pois falta-lhe ainda o defeito dos sentimentos. Questiono-me … como poderá um fantoche agir com coragem se não sabe o que é o medo? Como poderá amar se desconhece a dor da perda? Como poderá decidir humanamente se não pode senão seguir a “moral” que lhe foi imposta em inúmeras linhas de código?

Feito este repto, como qual princípio de reflexão sobre o futuro da humanidade, regresso ao nós, para afirmar com a relutância da força das palavras que irei proferir, mas com a convicção que serão bem entendidas; não se pode ser maçon sem ter consciência ética. Reconhecendo a moral como parte integrante da vida de todos os homens em sociedade, é precisamente por fazer uso da ética no juízo da moral que o maçon está condenado a trabalhar em prol do bem comum, contestando as leis morais sempre que estas não respeitem os princípios fundamentais da maçonaria; a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

Em conclusão, recordo o que sempre intentei ser como homem, e agora como Maçon, na forma das palavras consentidas do meu testamento filosófico, a quando da minha admissão a esta Augusta Ordem; a família é a base da sociedade e o que esta tem de mais precioso e é pois no lar que se forjam as virtudes de um povo, seja no íntimo da minha casa, seja na reclusão do nosso templo. Deste último recinto sagrado, retiro a vontade em aprender, já que tão pouco ambiciono ensinar o que quer que seja; do primeiro, e em concreta mesura para com os meus filhos, aspiro apenas à vontade do querer conceder-lhes algo mais nobre do que bens materiais, na forma de valores como a honestidade, a bondade, a generosidade, a lealdade, a honra e o respeito. Mas acima de tudo, desejo ter a força de caráter para os ajudar forjar o seu próprio “espírito ético”, para que eles próprios possam ajuizar em consciência, e assim contribuir para uma sociedade melhor e mais justa.

Sem perder um hábito adquirido, tal saudável vício que ampara depois de uma árdua peleja, partilho um curto escrito de nome "A Educação do Estóico", da autoria não do meu homónimo Álvaro de Campos nem do seu Fernando Pessoa, mas de um quási desconhecido heterónimo, o Barão de Teive:

Não há maior tragédia do que a igual intensidade, na mesma alma ou no mesmo homem, do sentimento intelectual e do sentimento moral. Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral. Não sei que jogo ou ironia das coisas condena o homem à impossibilidade desta dualidade em grande. Por meu mal, ela dá-se em mim. Assim, por ter duas virtudes, nunca pude fazer nada de mim. Não foi o excesso de uma qualidade, mas o excesso de duas, que me matou para a vida.


Autor: Álvaro de Campos