sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Damião de Goes

A temática da adopção de um nome simbólico é ela própria um tema interessante e que merecia ser mais explorada em prancha a isso dedicada.

A raíz histórica que encontrei desta prática remontam ao Rito Adonhiramita, praticado no Brasil, mas foi adoptado por outros Ritos e Obediências, em particular aqueles que trabalham em contextos em que a pertença à Maçonaria é mal quista e alvo de perseguições, para proteger a identidade dos Maçons no mundo profano.

O Nome Simbólico é escolhido pelo neófito entre personagens virtuosos, Maçons ou não, que se encontrem no Oriente Eterno e que tenham contribuído para a Humanidade, a Pátria, a Sociedade ou a Maçonaria. A pessoa escolhida torna-se o patrono do novo Maçom, que em Loja só será conhecido por este nome.

Esotericamente, ao receber seu Nome Simbólico, o Maçon Adonhiramita passa a ter a guarda, a proteção e o exemplo de um espírito luminoso, com ricos exemplos de virtudes, e que será como uma espécie de Anjo da Guarda, mensageiro do GADU.’.

Permitam-me então que vos fale um pouco sobre Damião de Goes.

Nascido em Alenquer a 2 de Fevereiro de 1502 de um pai com ligações à aristocracia e mãe descendente de 3ª geração de fidalgos flamengos estabelecidos em Portugal, contava apenas nove anos quando entrou ao serviço da Corte como pajem de lança, onde travou amizade com o princepe D. João (futuro D. João III), ambos da mesma idade. Em 1518 recebeu moradia como moço de câmara de D. Manuel I.

A sua formação na corte deu-lhe a oportunidade de tomar contacto com diferentes áreas do saber, das letras, onde estudou latim e os clássicos gregos, à música, passando pela matemática; conheceu também políticos e diplomatas que o prepararam para as missões de representação do país que viria a ser chamado a desempenhar muito cedo na sua carreira.

Em 1523, aos 20 anos, D. João III nomeou-o para o lugar de secretário da Feitoria Portuguesa de Antuérpia - um dos centros do movimento humanista europeu - onde a sua ascendência flamenga e ao seu domínio do latim, à época a língua usada nos meio diplomáticos, lhe permitiram desempenhar o cargo com reconhecida eficácia e sucesso.

Entre 1528 e 1531 efectuou várias missões diplomáticas e comerciais na Europa, conhecendo a Inglaterra, Danzig e o Grão-Ducado da Lituânia, na região do Báltico, Poznań e visitado demoradamente a Corte de Cracóvia na actual Polónia.

Na missão à Dinamarca e Polónia realizada em 1531, visitou Lübeck e Wittenberg, cidade onde travou conhecimento com Martinho Lutero e Philipp Melanchthon, dois dos principais impulsionadores da reforma protestante.

Em 1532 matriculou-se na Universidade de Lovaina (Leuven), um dos principais centros de conhecimento da Europa, período no qual traduziu para latim o livro da embaixada do Imperador da Etiópia a D. Manuel I, que publicou com o título Legatio Magni Indorum Imperatoris Presbyteri Joannis ad Emanuelem Lusitaniae Regem in 1513. Nesse mesmo ano visitou Friburgo, cidade onde conheceu Desidério Erasmo, mais conhecido por Erasmo de Roterdão, e Basileia onde se encontrou com Sebastian Münster, matemático, professor de hebreu e conhecido luterano, e com Simon Grynaeus, humanista, latinista, helenista, teólogo e filósofo ligado ao movimento de reforma protestante na Alemanha.

Em 1533, em Paris, conviveu com o frade franciscano frei Roque de Almeida, também ele ligado à defesa das ideias da reforma protestante.

De regresso a Portugal foi convidado por D. João III para tesoureiro da Casa da Índia, cargo que não aceitou, deixando o serviço da corte para ir em peregrinação a Santiago de Compostela e, de seguida, para Estrasburgo e Basileia onde se dedicou a tempo inteiro ao estudo e ao aprofundamento dos ideais humanistas. Mudou-se em 1934 para Friburgo, onde partilhou casa com o humanista holandês Erasmo de Roterdão que o guiou nos estudos e influenciou nos escritos. Neste período manteve um grave conflito com o jesuíta português Simão Rodrigues, que acusava Damião de Goes de estar próximo das visões heréticas (entenda-se reformistas) e contra a doutrina católica.

Entre 1534 e 1538 frequentou a Universidade de Pádua, onde pode travar conhecimento próximo com os humanistas italianos Pietro Bembo, um futuro cardeal, Lazzaro Buonamico e Jacopo Sadoleto, outro influente humanista e bispo, defensor da conciliação com as facções mais moderadas da Reforma. Para além de contactar com as grandes figuras do humanismo do seu tempo, visitou Veneza, Roma e a Itália de norte a sul.

Conheceu também Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, que foi propositadamente de Veneza a Pádua para se desculpar do comportamento desrespeitoso de Simão Rodrigues, ficando ele e os companheiros hospedados na sua casa.

Terminados os estudos em Pádua, em 1538 regressou a Lovaina. Nesse mesmo ano, com autorização do rei D. João III, casou com Johanna van Hargen, nascida por volta de 1515 em 's-Gravenzande (Holanda), com quem viveu até ela falecer em 1569 e teve nove filhos.

O casal permaneceu em Lovaina durante seis anos, entre 1539 e 1542, durante os quais, publica vários opúsculos de temática humanista e historiográfica, entre os quais Commentarii rerum gestarum in India (1539) e Fides, religio moresque Aethioporum sub imperio Preciosi Joanni (1540).

Neste período, totalmente integrado na comunidade, participou activamente na defesa da cidade de Lovaina, tendo sido feito prisioneiro durante a invasão francesa da Flandres. Após um ano de cativeiro em França, às ordens do rei Francisco I de França, foi libertado em 1544 por intervenção de D. João III de Portugal, regressando a Lovaina onde pública Aliquot Opuscula.

O imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico, quis expressar o seu reconhecimento pelos serviços prestados, elevando-o a fidalgo de cota de armas da Flandres, honra que lhe foi confirmada por el-rei D. Sebastião de Portugal.

Em 1545 a convite do rei D. João III, regressou a Portugal com a família para ser mestre do príncipe D. João. Apesar do prestígio pelo seu percurso intelectual e pelas amizades que contraíra na Europa e da evidente protecção régia, foram-lhe no entanto movidos dois processos no Tribunal do Santo Ofício, o primeiro dos quais, logo em 1545, ao ser acusado de heterodoxia e denunciado à Inquisição pelo seu antigo companheiro de estudos, o padre Simão Rodrigues, ao tempo o preceptor do príncipe herdeiro D. João e pouco depois nomeado por Inácio de Loyola como primeiro provincial da Província Portuguesa da ordem Jesuita. Beneficiando da protecção de D. João III, os processos da Inquisição foram arquivados.

Em 1546 publicou em Lisboa a obra Urbis Lovaniensis obsidio.

A 3 de junho de 1548 foi nomeado 11º guarda-mor dos arquivos reais da Torre do Tombo, cargo que ocupou até 1571.

Em 1554 publicou, em Évora, a obra Urbis Olisiponensis Descriptio.

Em 1558 foi escolhido pelo cardeal-infante D. Henrique para escrever a crónica oficial do reinado de D. Manuel I de Portugal. Tendo à sua disposição as fontes documentais do arquivo régio, Damião de Góis deu início à sua obra de cronista, completando o trabalho em 1565. Em 1566 saíram a primeira e segunda partes da Crónica do Felícissimo Rei D. Manuel. Em 1567 saíram as terceira e quarta partes e foi impressa a Crónica do Príncipe Dom João.

Versátil e culto, para além de cronista e escritor, fez-se músico, compositor, colecionador de arte e mecenas. Entre as obras por si coleccionadas é frequentemente atribuído o tríptico de As Tentações de Santo Antão, do pintor holandês Hieronymus Bosch.

As suas obras humanistas e historiográficas foram amplamente reconhecidas na esfera intelectual europeia que frequentou, sendo editadas em várias cidades europeias, o que lhes conferiu ampla difusão.

Em Portugal, no entanto, a sua visão humanista e, em particular, os seus contactos com reformadores e intelectuais considerados heréticos, levantaram profunda suspeição junto do clero português, que não aceitou os seus escritos.

A Crónica do Felícissimo Rei D. Manuel apesar do rigor historiográfico, gerou grandes animosidades junto de algumas famílias da nobreza, que se consideraram diminuídas pela narração do autor. A sua publicação marca o início do declínio da reputação de Damião de Goes. Em 1567 foi reimpressa a primeira parte da crónica, com revisões que marcam a vitória dos cortesãos sobre o cronista.

Pouco depois, em 1571, já sem a protecção do seu amigo El-Rei D. João III, e com muitas inimizades e invejas na corte, regressam os problemas com o Tribunal do Santo Ofício. Foi preso em condições degradantes que lhe causaram um acelerado declínio físico.

Com 69 anos de idade, prisioneiro, sente-se, cito, muito velho e doente, tão cheio de feridas e sarna por todo o corpo que me falta pouco para me julgarem leproso e quase não tenho já forças para me suster sobre as pernas.

No isolamento do cárcere, não deixa de conservar o seu espírito de homem culto e de letras rogando aos carcereiros que me mandem emprestar um livro em latim para ler, qual lhes parecer, porque estou apodrecendo de ociosidade e com o ler se me passam muitos pensamentos.

Sujeito a um longo e penoso processo e em outubro de 1572 condenado a cárcere perpétuo

como hereje, luterano, pertinaz e negativo. Transferido para o Mosteiro da Batalha, esteve preso de Abril de 1571 a Dezembro de 1572, em condições particularmente duras, sendo-lhe confiscados todos os bens.

Veio a falecer em Alenquer a 30 de Janeiro de 1574. A sua partida para o Oriente Eterno está ainda hoje envolta em obscuridade e não existem registos fidedignos dos seus derradeiros anos.

Presume-se que nos seus últimos dias foi liberto do cárcere e retornado Alenquer, sua terra natal, despojado de bens e da sua relevância social. Diz-se, com fraco suporte documental, que foi encontrado morto junto a uma lareira com uma lesão craniana.

Investigações recentes revelaram, no entanto, que o crânio que se encontrava em seu túmulo, o qual apresentava marcas de uma fissura horizontal no occipital que lhe teria causado a morte, não tem correspondência genética com um presumível descendente dos nossos dias.

Terá sido acidente, assassinato pelos seus inimigos, a própria Inquisição a queima-lo na fogueira, depois de não o ter conseguido condenar à fogueira inquisitorial por intervenção de alguns amigos de Damião que gozavam de influência?

Tudo isso é irrelevante face à grandeza deste Português que, abrindo-se ao Mundo e nele buscando o conhecimento que cá ainda não encontrava, se tornou maior que a Pátria de vistas curtas que honrou e tornou mais reconhecida, não somente como terra de homens valentes que deram novos mundos ao mundo e dele trouxeram novos sabores, vestes e demais riquezas com que inundaram as principais cortes europeias, mas também como uma terra de conhecimento e cultura.

Foi a memória deste Homem que eu humildemente tento honrar e reavivar com a escolha do seu nome para meu Nome Simbólico. Porque também eu Português, tive o privilégio de ter uma educação cuidada e completa onde pude cultivar o gosto por adquirir conhecimento em áreas muito díspares e abrangentes; mas foi ao abrir-me a experiências fora das nossas fronteiras que senti o meu espírito a alargar-se; que intuí a riqueza de saberes que estão ao nosso alcance ao abraçar sem preconceitos a forma de olhar o mundo de outros povos e credos; que assimilei verdadeiramente (ou iniciei o meu caminho para assimilar) que os Homens são fundamentalmente todos iguais no que desejam e procuram e que os cambiantes com que cada cadinho cultural nos tinge, mais do que dividir-nos, dão-nos uma oportunidade única de nos somarmos e enriquecermos, desde que mantenhamos um espírito aberto à diferença e livre de preconceitos e dogmas.

Que o espírito livre de Damião de Goes me ilumine, nesta caminhada que agora estou a iniciar.


Autor: Damião de Goes




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