
Começou por militar nas fileiras dos “dissidentes” de José Alpoim, o grupo de “esquerda” monárquica que progressivamente se ia arredando das hostes da realeza para se aproximar das fileiras republicanas. O seu feitio intrépido valera-lhe já, por parte dos camaradas de escola, a alcunha de “Presidente da República do Cartaxo”… a sua adesão à causa republicana e a sua rápida e fulgurante carreira de conspirador e carbonário resultaram da oposição à ditadura franquista, iniciada em 1907 e rematada com o regicídio de 1 de Fevereiro de 1908. Pela mão de um oficial chamado Serejo Júnior entra para a Carbonária Portuguesa ficando logo em contacto com os chefes máximos da conspiração que se avolumava, entre eles Cândido dos Reis e João Chagas. Machado Santos, introduz por seu turno, centenas de recrutas, civis, nas lojas carbonárias, as chamadas “choças” onde os “bons primos” tramam activa e tenazmente a insurreição armada geral.
Membro da Alta Venda Carbonária, o comissário naval esteve na preparação de toda acção conspirativa contra o regime monárquico nestes dois anos que se seguiram. Nas vésperas de se ordenar o início da acção revolucionária, está ausente da reunião decisiva, por considerar que o desentendimento entre os chefes levaria a uma resistência acobardada ou a um novo adiamento inglório, por isso, prepara-se para encetar sozinho o plano combinado.
Veste-se de uniforme de gala como quem vai para uma festa ou para a morte. Chegado ao centro republicano de Santa Isabel, ali encontra os revolucionários que aguardam o começo da acção. Encabeça o grupo de carbonários civis que caminham para o seu objectivo, tomar o quartel de Infantaria 16. De madrugada, o quartel é tomado sem grande dificuldade. Com uma centena de soldados de Infantaria 16, dirige-se então para o segundo objectivo – O Regimento de Artilharia 1, de Campolide, sublevado pelo capitão Pala. Com estas forças conjuntas, a coluna revoltosa segue para a “Rotunda da Avenida da Liberdade” e é doravante aqui, como no Tejo, que se há-de jogar o essencial do duelo entre monárquicos e republicanos.

Triunfante o regime republicano, a vida daquele que o fundara foi cheia de vicissitudes, rematando a sua curta carreira terrena, aos 46 anos de idade, alvejado pelas espingardas do “comando” de um outro marujo, o cabo Abel Olímpio, O Dente de Oiro, criminoso a soldo de monárquicos que não perdoaram a Machado Santos a madrugada redentora do 5 de Outubro de 1910. O marujo que vencera a monarquia na Rotunda pagava com a sua própria vida o ter feito baquear o rei. Um comando monárquico, fazendo-se transportar na “camioneta fantasma” durante a “noite sangrenta” que sucedeu à revolução radical de 19 de Outubro de 1921, procedia a algumas liquidações de proeminentes figuras republicanas como o herói da Rotunda, António Granjo e Carlos Maia. Levado de casa Machado Santos foi fuzilado no Largo do Intendente, sendo o seu cadáver transportado depois para a Morgue de Lisboa!
Como disse o seu honrado pai, que, ao irem dizer-lhe, no dia 4 de Outubro, quem comandava as tropas da Rotunda, encolheu os ombros, sorrindo, teve esta frase profética: - Então temo-la tramada, porque quando ele se mete numa coisa leva-a ao fim… Mas é maluco, o meu António, porque, ou deixa lá a pele, ou vai servir de degrau aos outros, pensando em todos e esquecendo-se de si.
Autor: Júlio Verne - Baseado em: Machado Santos, o republicano recalcitrante, por João Medina, História Crítica, Lisboa 1980
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