domingo, 22 de agosto de 2021

A loja maçónica ou os 12 trabalhos de Hércules

A loja maçónica é o elemento base da maçonaria, onde se produz o trabalho maçónico. E todos os obreiros, seja qual for o cargo que ocupem, ou mesmo não ocupando nenhum, devem à loja o melhor do seu trabalho. Como é sabido, nós glorificamos o trabalho e não distinguimos trabalho manual de trabalho intelectual. 

E quando falamos em trabalho vêm-nos logo à memória as doze tarefas que Euristeu deu a Hércules para agradar a Hera. Ora, existe uma analogia entre os trabalhos de Hércules e os trabalhos em Loja.  

Tal como não se cria uma hierarquia em relação aos doze trabalhos de Hércules, também não deve haver uma hierarquia relativamente aos trabalhos em loja, pois todos dignificam o obreiro que os executa. 

Trabalhos em Loja que são, aliás, comparáveis aos trabalhos de Hércules, senão vejamos: 

A hidra de Lerna: A hidra de Lerna era uma serpente colossal que amedrontava a região de Lerna, no Peloponeso, destruindo rebanhos e plantações. A hidra possuía nove cabeças, mas cada vez que se decepava uma nasciam duas no seu lugar. Para levar a termo o seu trabalho, Hércules contou com a ajuda do seu fiel amigo Iolaus. Para evitar o contínuo ressurgimento Hércules decepava-as e Iolaus cauterizava com fogo o local, impedindo o aparecimento de novas cabeças. Após eliminar todas as cabeças mortais, Hércules levantou um enorme rochedo e com ele esmagou a última cabeça da hidra, queimando-a depois para que não ressurgisse. Livrar a loja de toda e qualquer hidra, quaisquer que sejam as cabeças que tenha, é trabalho do Venerável.

O leão de Nemeia: Um gigantesco leão aterrorizava a população da região de Nemeia, assustando e matando gado e pessoas. Como o animal se acoitava numa caverna com duas saídas, era muito difícil embosca-lo. Os caçadores da região pediram ajuda ao rei Euristeu, pois o animal revelava-se invulnerável, e este enviou Hércules para exterminar o leão. Este fechou uma das saídas da caverna, obrigando o animal a abandoná-la pelo outro lado. Então, desferiu-lhe um violento golpe com a sua clava, e percebendo que o animal ficara tonto, em rápida acção montou sobre ele, estrangulando-o até à morte. Decepou, depois, uma das garras do leão, e com ela conseguiu arrancar a dura pele do animal, passando a usar o seu resistente couro como capa protectora. Tal tarefa é assimilável à tarefa do Primeiro Vigilante. Tarefa difícil, a deste, que para além da direcção da loja, em conjunto com o Venerável e com o Segundo Vigilante, tem também o dever de substituir aquele nas suas faltas e impedimentos, tendo ainda a seu cargo a coluna dos companheiros. A sua tarefa é, sem dúvida, equiparada à de lidar com um leão difícil de esfolar.

Javali de Erimanto: Um javali aterrorizava as vizinhanças do monte Erimanto. Enorme e feroz, ele matava quem cruzasse o seu caminho. A tarefa era capturá-lo vivo. Ao fatigá-lo após persegui-lo durante horas, Hércules cercou-o e dominou-o. Euristeu, ao ver o animal ao ombro do herói, teve tamanho medo que se foi esconder dentro de uma ânfora de bronze.Com a coluna dos aprendizes a seu cargo, e dirigindo a loja em conjunto com o Venerável e o Primeiro Vigilante, bem fatigante é a tarefa do Segundo Vigilante, como se carregasse um javali às costas.

A corça Cerinéia: A corça de Cerinéia, animal lendário com chifres de ouro e pés de bronze, que corria com assombrosa rapidez e nunca se cansava, era Taígete, ninfa que foi transformada em animal por Artémis para fugir da perseguição de Zeus. Como ela tinha uma velocidade insuperável, Hércules perseguiu-a incansavelmente durante um ano até que um dia, exausta, a corça parou para beber água num riacho. Foi quando Hércules, aproveitando a oportunidade, lançou uma flecha certeira que atingiu a corça na pata dianteira, aprisionando-a de seguida. Correr a loja com pés de bronze, sem nunca se cansar, eis o trabalho do Mestre-de-Cerimónias.

Aves de Estínfale: Havia um pântano que era assolado por aves negras que possuíam asas, garras e bicos de ferro. O herói, primeiramente, usou um címbalo para as atrair e imediatamente todas as aves surgiram acima do pântano, bloqueando a luz do sol, transformando o dia em noite. Então Hércules acendeu uma tocha que chamou a atenção das aves, que começaram a descer violentamente contra ele para o atacar. Era o que ele pretendia, começando então a disparar flechas venenosas contra elas e abatendo a sua maioria. As que escaparam fugiram para países longínquos. O Orador é o nosso archeiro, cujo dever de fazer cumprir a lei é sagrado, nem que para isso tenha de usar dos meios mais persuasivos.

O touro de Creta: Poseidon, o Senhor das Águas, ofereceu a Minos, rei da ilha de Creta, um belíssimo touro branco, o qual se tornou furioso porque o rei não o ofereceu em sacrifício a Deus. O touro devastava os campos da região e Hércules foi até lá para dominá-lo. Após controlar o touro, montou-o e levou-o até Euristeu. O Secretário, como no trabalho do touro de Creta tem de organizar a devastação da linguagem oral, organizando-a de forma sintética e objectiva no relato do ocorrido em cada sessão.

Cavalariças de Áugias: Áugias, rei de Élida, tinha uma grande coudelaria de cavalos mas não cuidava dos seus estábulos, que acumularam uma colossal quantidade de estrume ao longo dos anos e que exalavam um cheiro mortal. Hércules conseguiu lavá-los num só dia, usando a água de dois rios cujos cursos desviou com a sua força. Bem tem de usar a sua força, neste caso força de organização, o Chanceler Arquivista, para manter devidamente conservados e catalogados os bens da oficina, com o correspondente inventário em dia. Mau arquivista será o que se portar como Áugias.

Éguas de Diomedes: Neste caso, tinha Hércules de ir até Diomedes, filho de Ares e rei da Trácia, para domesticar os seus terríveis cavalos carnívoros, que soltavam fogo pela boca. Como todos os filhos de Ares, Diomedes era um homem cruel que tinha como diversão lançar qualquer estrangeiro para servir de alimento aos seus cavalos. O herói seguiu em direcção a Trácia, onde procurou por Diomedes. Este lançou contra ele, de imediato os seus cavalos, que Hércules capturou. Mas, notando que estavam famintos serviu-lhes como refeição o próprio Diomedes. Ora a alimentação, seja do corpo seja do espírito, e quer simbolicamente represente alimentar os homens à custa dos animais ou alimentar os animais à custa dos homens, é o que compete ao irmão Hospitaleiro.

Cinto de Hipólita: Hipólita era a rainha das amazonas – tribo de mulheres guerreiras descendentes de Ares, as quais odiavam os homens. Grandes guerreiras, elas cortavam um dos seios para melhor manejar o arco e a flecha. Hipólita tinha um belo cinturão que lhe fora dado por Ares, seu pai. Este trabalho de Hércules era obter esse cinturão, desejado por Admete, filha de Euristeu. Hipólita, seduzida pelo belo e musculado herói entrega-lhe o objecto (noutra versão, o cinto é obtido depois de Hércules ter raptado a irmã de Hipólita, Menalite, pedindo o cinto como resgate). Mas a velha inimiga de Hércules, Hera, disfarçada como amazona, incita as mulheres a ataca-lo fazendo correr o boato de que este está lá para raptar a sua rainha. A deusa consegue cegar de raiva as mulheres e começa uma batalha feroz e sangrenta contra os heróis. Hipólita tenta intervir mas a ira e o tropel dos cavalos atrapalham as suas ordens. As amazonas então atacam Hércules, que tem de matar todas para fugir com o cinto. Lutar até ao fim pelos bens da loja, cobrando o que haja a cobrar, com objectividade, e defendendo o seu património, eis o trabalho do Tesoureiro.

Bois de Gerião: Gerião era um gigante, com três torsos num único par de pernas e possuía um numeroso rebanho de bois, que eram guardados por um pastor monstruoso, Eurítion, e seu cão de duas cabeças, Orto. Hércules facilmente matou esta dupla, mas foi surpreendido pelo próprio Gerião. Isso, porém, não causou nenhum temor ao herói, que após uma longa batalha percebeu que da cintura para baixo o gigante era exactamente como ele. Então, utilizando um poderoso golpe, atingiu uma das pernas do monstro e derrubou-o no chão, esmagando então, sem piedade, todos os três corpos do gigante, assim vencendo a batalha. Também o experto tem de perceber a qualidade dos visitantes que pretendam aceder ao templo, assegurando-se das suas qualidades maçónicas, observando com atenção quem seja exactamente como ele, maçons, ainda que com diferente grau ou qualidade.

O guardião de Hades: Cérbero, um cão de três cabeças e cauda de serpente, guardava a entrada de Hades, o mundo dos mortos, permitindo a entrada de todos mas não deixando ninguém sair. Hércules desceu o Hades e capturou-o, mas após tê-lo mostrado a Euristeus devolveu-o ao inferno para continuar a sua função de guardião. Como Cérbero, o Guarda Interno, qual guardião de Hades, há-de guardar o templo e preservá-lo de inimigos e de estranhos, sendo sua obrigação lutar até ao limite das suas forças para que o Templo não seja profanado.

Pomos de ouro: Euristeu queria as maçãs de Ouro que nasciam no jardim das Hespérides. Estas eram filhas de Atlas, um dos titãs que lutou contra os deuses e, depois de derrotado, foi condenado a carregar eternamente o Mundo nas suas costas. Hércules não conseguia encontrar os frutos e estava prestes a desistir, mas encontrou Atlas, a quem perguntou a localização da árvore. O titã, porém, não quis ceder a informação gratuitamente e então o herói ofereceu-se para carregar o mundo no seu lugar, enquanto ele fosse buscar os frutos dourados.

Depois de algum tempo carregando o Mundo às costas, Hercules sentiu como devia ser horrível a vida do titã, e finalmente viu-o retornar com as maças douradas, depois de matar o dragão que as guardava. Porém Atlas, sentindo-se aliviado, não se mostrava tentado a retomar o Mundo nas suas costas. Hercules teve de fingir que concordava, pedindo apenas que o deixasse acabar a sua missão de levar as maçãs a Euristeu. Atlas concordou, retomou o Mundo nas suas costas e Hércules foi-se embora com as maçãs e nunca mais voltou. Os irmãos nas colunas, temporariamente sem cargo, devem à loja o seu trabalho, os seus pomos de ouro, e têm tanto a obrigação de os ir buscar como a obrigação de ficar a carregar com o mundo às costas, com sacrifício, quando seja a vez de outro irmão ir colher os pomos de ouro. 

Moral da história: Esta parábola pretende destacar que numa loja maçónica não se compete por cargos, devendo antes trabalhar-se com afinco maçónico naquilo que é nossa função e obrigação em cada função em cada momento.

Agora que se aproximam eleições, e em que dos candidatos aos mais altos cargos nos vêm exemplos tão perturbadores de ocultas virtudes e falsas modéstias, esta prancha tenta contribuir para que todos pensemos naquilo que prometemos na nossa iniciação e nas virtudes a que estamos adstritos, como homens de bons costumes.


Autor: Bocage


quinta-feira, 12 de agosto de 2021

Cordão Nodoso

Depois de muito procurar, finamente encontrei a resposta sobre qual o símbolo deveria ser objeto de pesquisa e reflexão mais profunda nesta fase de aprendizagem da minha vida. Foi então que quase instantaneamente se fez luz e cresceu em mim um enorme entusiasmo para aprender sobre o cordão nodoso (corda com nós) que rodeia os templos maçónicos.

É pois, o Cordão Nodoso o tema desta minha prancha. Uma corda é um conjunto de fios de cânhamo, sisal ou de qualquer matéria filamentosa, torcidos ou entrelaçados juntos uns sobre os outros oque lhes aumenta a resistência. A corda é pois, o sinónimo de força obtida pela união.

Desde o seu aparecimento, a corda a que se acrescentavam nós equidistantes, foi usada como instrumento de medida por vários grupos profissionais incluindo os construtores. 

A medida utilizada era a distância que separava os vários nós (o côvado, por exemplo, que corresponde à distância entre o cotovelo e a extremidade do terceiro dedo, é mencionado na Bíblia a propósito das medidas do templo de Salomão).

A corda com nós servia também para obter relações de proporcionalidade na geometria como o demonstrou Pitágoras. A corda também é mencionada no Corão como elemento do socorro que qualquer crente pode pedir a Deus. Em Maçonaria o Cordão Nodoso delimita o templo na sua parte superior correspondente à base ou início da abóboda. Começa sobre a porta do ocidente, torneando-o pelo norte, oriente e sul, e regressa ao ocidente onde termina na mesma porta.

Tanto no princípio como no fim, a corda tem nas suas extremidades, borlas. Estas borlas terminam em franjas que lembram os fios que envolviam os capitéis ornamentados com romãs e com lótus no topo das colunas “J” e “B” à porta do templo de Salomão.

A abertura da corda com as referidas borlas posicionada na porta do templo, significa que a maçonaria está sempre disponível ao acolhimento de novos integrantes. A Maçonaria é pois dinâmica e progressista estando aberta a novas ideias que possam contribuir para o progresso do Homem e para a evolução racional da Humanidade.

O Cordão Nodoso é assim constituído por uma corda terminada em borlas e com um número variável de nós. Esses nós ou Laços de Amor representam os maçons unidos através do amor fraterno que deve existir entre todos mantendo contudo a sua individualidade. Podem igualmente ser entendidos como símbolo das dificuldades que a vida apresenta.

Os Laços de Amor estão nas cordas de doze e de oitenta um nós que delimitam os templos maçónicos e na corda do painel dos graus simbólicos.

A corda de doze nós tem feitos em si doze nós direitos que representam cada um o signo do zodíaco, enquanto imagem do universo e no seu conjunto representam o infinito. Marcam igualmente os solstícios de verão (festa do Conhecimento) e de inverno (Esperança) e os equinócios de outono e de primavera.

Desta corda também conhecida como corda dos druidas, existe uma variante com treze nós, seis de cada lado dum nó situado no oriente sobre o Venerável Mestre.

Na Corda de oitenta e um nós, o nó central fica por cima do trono do venerável, e representa o Número 1, a Unidade Indivisível, símbolo do GADU, princípio e fundamento do Universo. Os  demais distribuem-se nas duas laterais, quarenta nós equidistantes de cada lado, terminando em duas borlas caídas junto aos batentes da porta do templo. Estas borlas representam cada uma, Temperança, Coragem, Justiça e Prudência.

O número oitenta e um tem grande significado pois é um múltiplo de três e o quadrado de nove, números com um elevado simbolismo maçónico. A corda é mencionada nos rituais em vários graus simbólicos. Representa pois a união fraterna entre os maçons, a cadeia de união que os liga indissoluvelmente.

Em Maçonaria, o cordão nodoso surge ainda noutros contextos: Assim, a corda é usada na cerimónia de iniciação no rito escocês antigo e aceito em que o candidato a traz ao pescoço como símbolo de humildade e do estado de submissão ao mundo anterior em que ainda como profano se encontrava até receber a luz na altura em que é iniciado na ordem maçónica.

Quando o painel da loja era desenhado no chão costumava-se fazer o seu contorno com uma corda na qual se davam vários nós, em oito simples ou laços de amor, terminada em borla nas extremidades.

Esta corda é interpretada como elemento protetor do próprio templo separando as dimensões do profano e do sagrado cuja passagem era simbolicamente permitida através do espaço que separava as extremidades da corda.

Atualmente a corda que surge em torno do painel da loja apresenta um número variável de nós consoante o grau em que se realizam os trabalhos (no grau de aprendiz em número de três, no grau de companheiro cinco e no grau de mestre sete) e simboliza a cadeia de união espiritual que protege o templo.

A família única que todos os maçons da Terra devem formar é representada não só pelo Cordão Nodoso mas também pelo Pavimento Mosaico, pelas Romãs e pela Cadeia de União. O Pavimento dos templos, chão feito de mosaicos em xadrez de quadrados pretos e brancos, representa a diversidade do globo e das raças unidas pela maçonaria. Simboliza também a oposição dos contrários (bem/mal, espírito/corpo, luz e trevas). Este pavimento pode terminar em linha reta ou em cercadura / borda / orla dentada constituída por triângulos brancos e negros alternados. Esta borda dentada tem o mesmo significado que o cordão nodoso, que é a já referida cadeia de união espiritual que protege o templo.

A Romã é o símbolo dos maçons no mundo, unidos num ideal comum em perfeita harmonia, solidariedade e prosperidade entre eles, mas separados na sua individualidade e personalidade. Em número de três, as romãs decoram a parte superior do capitel das colunas “J” e “B”, e também surgem representadas no painel de loja no grau de aprendiz.

A Cadeia de União tem como representação material e permanente o cordão nodoso à volta do templo. Esta, é um ritual praticado em loja que tem lugar no encerramento das sessões ou nas sessões de iniciação, elevação ou exaltação de grau e que simboliza a união de todos os maçons. A Cadeia de União une-nos, maçons, no tempo e no espaço. Vem-nos do passado e tende para o futuro. Por ela nos ligamos aos Irmãos que outrora a formaram e por ela se devem unir todos os maçons de todos os países. 

A Cadeia de União é o único momento do ritual maçónico em que todos os Irmãos são verdadeiramente iguais entre si, em que a hierarquia deriva apenas da própria execução da Cadeia. Através da execução da referida Cadeia de União consegue-se o Laço Místico sendo este pois, a união entre os maçons que a compõem.

A Cadeia de União é assim a manifestação da verdadeira amizade comungada pelos obreiros que nela participam representando a “Lei do Amor Fraternal” base de toda a filosofia Maçónica. A Fraternidade, emblema da própria Ordem Maçónica, é como tal anunciada na abertura dos trabalhos mediante a aclamação em sintonia por todos os presentes: «Liberdade, Igualdade, Fraternidade».

A nobreza dos ideais maçónicos é indiscutível e os seus símbolos interrelacionam-se de tal forma que é impossível falar de cada um deles isoladamente, como acabou de acontecer.


Autor: João Bosco

quarta-feira, 14 de julho de 2021

As Antigas Obrigações e a Carta de Bolonha


O Preâmbulo:

Existe um vasto acervo de documentos históricos, profusamente anteriores à fundação da Grande Loja de Inglaterra, que serviram, em tempos idos, como estatutos e constituições para os denominados Maçons Operativos, os insuspeitos antecessores da maçonaria especulativa e que de facto exerciam a nobre profissão de construtores.

Estes escritos são referidos em Maçonaria de distintas formas, desde Antigos Manuscritos, Antigas Constituições, Lendas da Ordem, Manuscritos Góticos, Antigos Registos, entre outras; doravante consideremos a tradução mais próxima da nomenclatura original em língua inglesa de Old Charges e passemos a referir estes egrégios escritos como Antigas Obrigações.

Na sua fisionomia são encontrados na forma de papel manuscrito, rolos de pergaminho, laudas costuradas em forma de livro, e mesmo no formato impresso mais contemporâneo. Divergem em data de 1390 até o primeiro quarto do século XVIII, estando a sua maioria à guarda do Museu Britânico e da Biblioteca Maçónica de West Yorkshire, ambos em Inglaterra.

Estas Antigas Obrigações formam a base das constituições Maçónicas modernas e portanto da sua jurisprudência, acabando por estabelecer a continuidade da instituição maçónica por um período superior a cinco séculos, um testemunho de ancianidade que dificilmente se encontra noutras instituições. Acredita-se ainda que parte destas Antigas Obrigações eram utilizadas na iniciação dos maçons operativos e que, em muitos casos, funcionavam também como carta constitutiva destas lojas de operários.

O seu estudo sistemático começou apenas em meados do século passado, altura em que apenas eram reconhecidos em reduzido número, senão vejamos; em 1872 William Hughan listava 32 peças, em 1889 Gould listou 62 obras, e em 1895, novamente Hughan, tabulou 66 cópias manuscritas, 9 versões impressas e 11 versões perdidas. Esse número foi em crescendo até 1918, quando no Volume XXXI da publicação “Ars Quatuor Coronatorum”, são referenciadas 98 obras. Presentemente, e mantendo soberba controvérsia em torno quer da sua medida quer da sua virtude, as Antigas Obrigações já somam mais de 140 títulos.

Em epítome, a Maçonaria dispõe presentemente de um extenso leque de escritos, provenientes de distintos lugares e épocas, e com características tão variadas como intrincadas; muitos são essencialmente Cristãos, instruindo os deveres dos obreiros para com Deus, enquanto outros se limitam, e perdoem-me o eufemismo, a educar os obreiros sobre os preceitos necessários à sua vida quotidiana e  à sua profissão, elucidando-os dos deveres para com seus mestres, do modo de se comportarem nas assembleias, do método remuneratório, entre outros mandamentos.

É no entanto importante referir que, na sua generalidade, estes documentos carecem de conteúdo filosófico ou esotérico, distanciando-se em muito dos textos, manuais e rituais da Maçonaria moderna; pesa o facto de serem profusamente tradicionalistas, e portanto não devem, nem podem, ser lidos com a leviandade de uma banal história, mas antes ser alvo de um estudo cuidadoso e crítico, com o intuito de trazer mais luz sobre os primórdios da Maçonaria.

  

A História - um primeiro texto:

Mas comecemos como é cabido, isto é, pelo que julgamos ser o princípio; em 1757, o Rei George II outorgou ao Museu Britânico uma coleção de cerca de 12.000 volumes, que veio a ficar reputada como “A Biblioteca Real”. Entre estes livros constava um raro manuscrito de pergaminho, com 64 páginas de longuidão e com cerca de quatro por cinco polegadas de grandeza, que um catalogador, David Casley, registrou sob o título: “Um poema de Deveres Morais: aqui intitulado Constitutiones Artis Geometrie Secundem”.

Curiosamente, somente após ser redescoberto por um profano, de nome J. O. Halliwell, é que o até então aglomerado de folhas passou a ser reputado como um documento maçónico, firmando-se o seu destino com dois momentos distintos; quando em 1839 é lido um artigo pelo próprio perante a Sociedade de Antiquários, e quando 1940 é incluída uma sua transcrição na publicação intitulada História Antiga da Maçonaria na Inglaterra, também da autoria de J. O. Halliwell.

Conhecido como O Halliwell até à aproximadamente cinco décadas, é nessa ocasião rebatizado por Gould como Regius, em tributo à Biblioteca Real que desde cedo o acolheu, tomando então, e por fim, o nome de Poema Regius. Ainda que com elevado grau de incerteza, a maioria dos especialistas coloca a data de redação deste documento em torno de 1390.

De frisar que em 1889, um fac-símile  deste insigne manuscrito foi publicado no Volume I do Antigrapha da Loja Quatuor Coronati, evidência que terei todo o gáudio em partilhar.

Este manuscrito não é só único pela sua senioridade mas também por ser integralmente escrito em verso, substanciando o seu nome de Poema Regius. Na sua compostura tem cerca de 800 linhas, as primeiras 576 de conteúdo estritamente Maçónico e as restantes com um semblante sobre deveres morais, na qual existe uma clara veia Católica Romana, com referências explícitas aos sete pecados, à Virgem Maria e à água benta, razão pela qual alguns atribuam a sua escrita integral a um Eclesiástico Católico.

De regresso ao traçado das ditas 576 linhas, o documento fornece uma lista de quinze pontos e igual número de artigos, que na prática se traduzem em copiosas instruções sobre a conduta de um artesão, o que para muitos é considerado como sendo as obrigações de um iniciado à época, e o que acaba por sobressair como uma das mais relevantes qualidades desta obra.

O Poema Regius, sendo evidentemente um documento sobre a Maçonaria, levanta no entanto algumas questões pertinentes, nomeadamente no seu excerto relativo às questões morais; é de fácil entendimento que estas regras de decoro seriam de todo inaplicáveis aos maçons operativos dos séculos XIV e XV, por razões óbvias à época, o que nos levanta imediatamente uma questão; seriam estes preceitos destinados à própria nobreza do Séc. XIV ou, por outro lado, terão existido entre os artesãos um certo número de homens que, não estando envolvidos com o trabalho operativo, seriam o que agora descreveríamos de especulativos?

Se considerarmos que os eruditos à época se dedicavam também à arquitetura, não há nenhuma razão para não admitirmos a existência de membros de famílias nobres entre estes artesãos, ou mesmo que este conjunto de regras de bem-estar se destinava a preservar o decoro destes artífices quando assíduos de grandes casas, quer fossem da nobreza quer fossem do clero.

Deixemos esta minúcia da história da Maçonaria a coberto do seu véu de incerteza.

 

A História - e um segundo texto:

Ulteriormente ao Poema Regius, o documento mais pretérito reconhecido é o Manuscrito de Cooke, publicado por R. Spencer em 1861, mais uma vez em Inglaterra, e datado pela maioria dos entendedores entre 1450 e 1490. A origem deste nome não tem qualquer mistério e provém do facto de ter sido editado no séc. XIX por Matthew Cooke.

Um ingrediente de grande relevo, é o facto deste manuscrito ter estado na posse do irmão George Payne, enquanto Grão-­Mestre, o mesmo que em 1720 compilou os Regulamentos Gerais, que por sua vez Anderson incluiu na sua própria versão das Constituições de Anderson publicada em 1723… mas essa é uma história ainda por contar.

À imagem da anterior obra, a Loja Quatuor Coronati republicou este manuscrito em fac-símile no Vol. II da sua Antigraphaem 1890, documento que providenciarei a quem o ensejar.

Na sua substância, o Manuscrito de Cooke assemelha-se a uma transcrição de um documento ainda mais provecto e tudo leva a crer que desta vez tenha sido redigido por um Maçom, considerando que à época havia em circulação múltiplas versões do que se poderia batizar de As Obrigações dos Maçons.

Também esta peça de encontra faccionada em duas secções; a primeira presenteia-nos com uns pingos de História da Arte, e a segunda e última parte, não é mais do que uma versão das referidas obrigações, para muitos conhecedores, que não é o presente caso, a sua versão mais antiga e pura. O seu texto menciona nove artigos, que na época seriam tidos como obrigações legais, e nove pontos adicionais, que muito possivelmente não teriam vínculo jurídico, mas sim e apenas moral. 

 

A História - muitos outros textos:

O repertório de documentos não sessa nem sequer atenua com os anos e tão é extensa como impossível de analisar e até de detalhar neste texto, mas salientam-se ainda assim: o Manuscrito de Dowland de 1500, o Manuscrito de Landsdowne de 1560, o Manuscrito da Grande Loja de 1583, o Manuscrito de York nº1 de 1600, o Manuscrito de Harleian nº 2054 de 1625, o Manuscrito de Sloane nº 3848 de 1646, o Manuscrito de Sloane nº 3323 de 1659, o Manuscrito de Harleian nº 1942 de 1660, o Manuscrito de Aitcheson-Haven de 1666, o Manuscrito de Edinburgh-Kilwinning de 1670, o Manuscrito de York nº 5 de 1670, o Manuscrito de York nº 6 de 1670, o Manuscrito Lodge of Antiquity de 1686, o Manuscrito de York nº 2 de 1693, o Manuscrito de Alnwick de 1701, o Manuscrito de York nº 4 de 1704, o Manuscrito de Papworth de 1714, entre muitos, muitos outros.

Ainda antes de circunscrever este tópico, e viajando para a geografia dos Estados Unidos da América, há que mencionar uma das mais relevantes de todas as versões das ditas Antigas Obrigações;  em rigor, não se trata verdadeiramente de um original antigo, mas antes uma edição impressa publicada em 1722, e conhecida como Roberts, que se crê ser uma cópia de um documento pretérito, tal como havia sucedido com o Manuscrito de Cooke. Este pequeno volume é sem dúvida uma das mais valiosas propriedades literária da Maçonaria dos Estados Unidos da América, onde reside, no acervo na biblioteca da Grande Loja de Iowa.

O seu texto reveste-se de sublime importância pois acredita-se ter tido uma influência decisiva sobre a literatura e a jurisprudência Maçónicas, em boa parte por ter surgido num dos períodos mais interessantes e ricos da nossa Augusta Ordem, mais concretamente entre 1717, ano da organização da primeira Grande Loja, e 1723 ano da publicação das já anteriormente mencionadas Constituições de Anderson.

  

Um Desfecho:

E é precisamente nesta data de 1723, que encontramos o tão ensejado desfecho desta história de mais de uma centena de anos a coligir escritos com mais de seis séculos de ancestralidade; é pois o momento de esgrimir algumas palavras sobre as já por duas vezes supramencionadas Constituições de Anderson.

Composto o nome da obra, é prudente referenciar antes de mais o seu homónimo autor, James Anderson; sobre o próprio sabe-se pouco, até mesmo se terá sido o verdadeiro autor; acredita-se que tenha sido nato, educado e iniciado na Escócia, tendo-se estabelecido mais tarde em Londres como padre presbiteriano. A primeira referência real à sua existência Maçónica é apenas a quando dos Procedimentos da Grande Loja de Inglaterra de 29 de Setembro de 1721, no ato da sua nomeação pelo Grão-Mestre John Montagu, para examinar, revisar e organizar a história, as obrigações e as regras da Antiga Fraternidade, ofício esse anuído pela Grande Loja de Inglaterra em 29 de Setembro de 1723, ano em que James Anderson exercia o cargo de Segundo Grande Vigilante, já sob o Grão Mestrado de Philip, Duque de Wharton.

O post-scriptum foi subscrito pelos mais notáveis dignatários, entre os quais o próprio Grão-Mestre, o Vice-Grão-Mestre, os Grandes Vigilantes e pelos Veneráveis Mestres e Vigilantes das então 20 Lojas existentes; nele se pronuncia que Anderson, para realizar a hercúlea tarefa de que fora incumbido, esquadrinhou cópias várias de documentos manuscritos, com proveniências tão diversas como Itália, Escócia e Inglaterra assim como de vários outros antigos arquivos maçónicos.

O documento per si, principia com uma dedicatória ao Past Grão-Mestre, o Duque de Montagu, elaborada pelo Vice-Grão-Mestre em exercício, John Teophilus Desaguliers, e sobrevém com um artigo dedicado à História da Maçonaria, a que se apensam as alíneas devotadas às Obrigações dos Maçons e às Regras Gerais, cessando com um post-scriptum, com a aprovação e finalmente com letras e pautas musicais de odes maçónicas.

A fração dedicada à história da Maçonaria, não é mais do que uma compilação de documentos da maçonaria operativa, coligida e emendada por Anderson; a conclusão, dedicada à toada, hoje pouco mais interesse tem do que o de curiosidade; a dedicatória, o post-scriptum e a aprovação são textos quase exclusivamente protocolares.

São os capítulos dedicados às Obrigações dos Maçons e às Regras Gerais que se revestem de particular interesse; o seu folhear e estudo profundo permite neles detetar não só muitos dos escritos provenientes das Antigas Obrigações, como também a origem de profusas variantes dos chamados Landmarks, ou princípios fundamentais da Maçonaria, assim como de algumas das regras ainda hoje em uso prático no seio da nossa Augusta Ordem.

O que este extenso opusculo teve de relevo ao longo dos tempos, não deveu à sua imutabilidade; logo em 1738, ano imediatamente anterior à morte de James Anderson, surge uma segunda edição do próprio, sobejamente modificada e ampliada, e em 1756 surge uma terceira edição, desta vez por intermédio de John Entick, e assim por diante até 1888, ano em que já se contabilizavam vinte e duas variantes.

Com tanto de primordial como de controverso, esta obra serve até hoje como base de inúmeras Constituições das Grandes Lojas da Maçonaria Simbólica, e por isso o seu estudo é de capital importância, ou não estivessem muitas das falsas conceções da Maçonaria diretamente relacionadas com a sua má interpretação, intencional ou não.

Sem tirar grandeza ao escrito nem ao seu literato, há absoluta necessidade de enquadrar as Constituições de Anderson na época e contexto em que foram redigidas; não que as qualidades e virtudes nela inscritas sejam mutáveis com passar dos anos, mas devemos compreender que se trata de uma narrativa que reproduz factos históricos de confiabilidade relativa, mas que, em boa parte devido ao prestígio quer do autor quer dos signatários do texto, acabaram por ser aceites pelas gerações seguintes.

Fica desde já o repto para um próximo trabalho dedicado em exclusivo a este escrito, não invalidando a sua leitura interessada no Volume VII do Antigrapha da Loja Quatuor Coronati, de 1790.


O recomeço da história:

Concluído este ensejo de factos, referências e documentos históricos, de certo modo universalmente aceites no seio da Maçonaria, recuemos a 1248, à cidade de Bolonha, onde no acervo do Arquivo de Estado da Cidade se encontra um curioso documento intitulado Statuta Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamiis ou mais vulgarmente Carta de Bolonha; consta ter sido redigido originariamente em latim por um tabelião, por édito do Magistrado da cidade de Bolonha, Bonifacii De Cario, no dia 8 de Agosto de 1248.

A saber, à época todo corpo de ofício tinha a obrigação de publicar os seus estatutos de forma a lograr o reconhecimento do poder público, e a Carta de Bolonha conferia essa condição à sociedade dos Mestres da Construção e da Carpintaria, retratando fielmente a sua forma organizativa, com o intuito não só de proporcionar a enunciada existência legal, como de escudar o ofício nos planos financeiro, ético e moral.

O texto em si compõe-se de 61 artigos que descrevem detalhadamente as atividades e deveres daquela sociedade e dos seus membros nominando, entre outros preceitos, as regras de ingresso na sociedade, as sansões, os direitos, deveres e relações sociais entre os seus membros, a forma de divisão de tarefas, o comportamento nas assembleias, o tempo necessário ao grau de aprendiz, a escolha dos dirigentes e dos cargos, as contribuições pecuniárias e respetivas multas, os locais de reunião (na época aprazado como a Igreja de São Pedro, catedral de Bolonha), assim como um conjunto de regras quase de âmbito moral, contemplando a forma de auxílio na doença e na morte, a forma de homenagem aos membros falecidos, entre outros.

Uma minudência intrigante, prende-se com o facto de estes estatutos obrigarem os membros da associação a manter um caderno, deixando claro que estes possuíam a mestria dos instrumentos de escrita, elemento de proeminente relevo se considerarmos que à época a maioria da população seria iletrada.

Estabelecendo um traçado cronológico, estes estatutos de 1248 foram sucedidos pelos de 1254/1256, publicados somente em 1262, e posteriormente pelas revisões de 1335 e de 1336; este último documento teve uma longevidade extraordinária, mantendo-se em vigência e sem ser adulterado até 1797 na Sociedade dos Mestres Maçons, ano em que esta é enfim extinta por Napoleão Bonaparte.

A verdade é que a Carta de Bolonha é ignorada de forma quase incompreensível pelos estudiosos da história da Maçonaria, até que em 1899 esta acaba por ser finalmente publicada por A. Gaudenzi no nº 21 do Boletim do Instituto Histórico Italiano, sob o título As Sociedades das Artes de Bolonha - seus Estatutos e seus Membros.

Consciente da mais que provável relevância histórica deste documento, Eugenio Bonvicini, um Maçon, publica em 1982 o seu texto integral, inserido num ensaio de sua autoria, tendo inclusive formalizando a sua apresentação ao universo Maçónico no Congresso Nacional dos Sublimes Areópagos da Itália do Rito Escocês Antigo e Aceito, reunido naquele ano em Bolonha.

O conteúdo da Carta de Bolonha acaba por ser amplamente difundido através de três momentos distintos no tempo; em 1984 surge na Revista Pentalfa de Florença, mais tarde em 1986 desponta numa publicação de Carlo Manelli sob o título Maçonaria em Bolonha e em 1988, novamente pela mão de Eugenio Bonvicini, se inscreve numa publicação sob o título Maçonaria do Rito Escocês.

Em suma, e ainda que não formalmente reconhecido, a Carta de Bolonha aparenta ser o mais antigo documento maçónico sobre a Maçonaria Operativa, antecedendo em 142 anos o Poema Regius e em quase 200 anos o Manuscrito Cooke.

Para ao mais ousados, perdura uma transcrição integral deste manuscrito, adornada com retratos do documento original, num livro intitulado Em Bolonha, Arte e Sociedade, desde suas Origens até ao Século XVIII, publicado em 1981 pelo Collegio dei Costruttori Edili di Bologna, exemplar que poderei partilhar com todos os Irmãos.

 

Uma Conclusão:

Como sinopse, eis-nos defronte de um manuscrito, a citada Carta de Bolonha, com tanto de profuso valor histórico, como de questionável validade Maçónica, que antecede em quase um século e meio aos mais antigos documentos de referência até então conhecidos, e que não só comprova a existência da Maçonaria Operativa e a sua evolução histórica, como também ilustra a sua evolução social.

Será pois que este documento deva ser considerado como uma Antiga Obrigação, e muito em particular como a mais secular conhecida?

Fazendo uma análise com tanto de crítico como de especulativo, fica claro pelo conteúdo da Carta de Bolonha que a Maçonaria Operativa em Itália, além de ser muito vetusta e profundamente tradicional, continha uma sólida estrutura hierárquica; estando Bolonha a pouco mais de 300Km de distância de Roma, haverá alguma razão para duvidarmos de que essa antiga Associação de Construtores de Bolonha não possa ser a evolução natural de uma das Guildas Romanas?

Dos vários anexos da Carta de Bolonha, conserva-­se uma Lista de Matrícula, registrada em 1272, e que contém 371 nomes de Mestres Maçons, dos quais 2 eram escrivães públicos, outros 2 eram frades e 6 eram nobres; será esta uma aparente ser uma prova histórica, ainda que algo difusa, de que em pleno século XIII, já emanava algo de Especulativo de dentro da maçonaria Operativa? Seja como for, é um sussurro que indubitavelmente reforça a importância deste texto.

Mas a grande controvérsia em torno da Carta de Bolonha prende-se talvez com as razões pelas quais esta foi ignorada e desconsiderada no seio da Maçonaria moderna; poderá a verdade relacionar-se com o facto de este documento parecer indiciar que, e contrariamente ao que está escrito, a Maçonaria pré‐especulativa não teria surgido em Inglaterra, mas sim em Itália, país que não sofreu a desconstrução protestante e se manteve essencialmente Católico. Terá sido com o propósito de reforçar a origem Anglo Saxónica da maçonaria que a Carta de Bolonha foi esquecida todos estes séculos? Fica a incerteza.

Mas a sua importância não cessa na sua antiguidade; por casualidade, ou talvez não, o conteúdo da Carta de Bolonha acaba por ratificar vários pontos das Constituições de Anderson de 1723; recordemos que Anderson asseverou então tê-las redigido depois de consultar provectos documentos e regulamentos da Maçonaria Operativa de distintos países, incluindo Itália de onde a nossa carta é originária.

Reunindo os factos, parece ser evidente que não só a Carta de Bolonha é um dos documentos históricos mais importantes da nossa Instituição, como também fica patente a presença dos Aceitos na Maçonaria dos Antigos e Livres à pelo menos 800 anos, denote-se, em coexistência com a Ordem Templária.

 

Uma Contestação

Mas como bons especulativos, façamos agora uma análise crítica e mais aprofundada das Antigas Obrigações, pelo menos daquelas que são reconhecidas como tal, em antinomia com a Carta de Bolonha.

Os primeiros são manuscritos redigidos durante a Idade Média que contêm a história lendária e os regulamentos mais provectos dos Maçons Operativos. Neles encontra-se um grande número de interessantes informações sobre o quotidiano do trabalho na Idade Média, assim como muitas frases e expressões que têm claro paralelo nos rituais modernos.

Já a Carta de Bolonha parece estabelecer as regras a serem seguidas pelos mestres pedreiros e carpinteiros, pois a sociedade era formada por ambos os ofícios, pressagiando penalidades monetárias para os infringentes. No seu artigo sétimo, colidimos com o facto de que qualquer correspondente mestre pedreiro ou carpinteiro tinha direito de ingresso na sociedade, mediante o descomplicado emolumento de dez salários de Bolonha para os moradores da cidade ou do condado, e de vinte salários para aqueles que não o fossem, ficando isentos os descendentes dos já filiados na sociedade.

O facto de permitir a admissão a qualquer mestre artesão, de imiscuir as referências aos segredos profissionais da ordem, que indubitavelmente existiriam, assim como o facto de segregar uma qualquer história lendária do ofício, limitando-se a regulamentar o trabalho dos seus obreiros, poderá levar alguns a desclassificar este documento como uma Antiga Obrigação; tal conjetura é também perfeitamente válida.

  

Um Pensamento

Em maçonaria não há verdades absolutas, ou não fosse a maçonaria composta de homens, homens que anuem, cogitam, opinam, acertam e erram; homens que acima de tudo conjeturam, e talvez por isso o desfecho desta prosa deva ficar velado no arbítrio de cada um dos seus leitores.

Sejamos livres-pensadores, com a despretensão que deve caraterizar qualquer homem livre e de bons costumes, na forma das palavras de Álvaro de Campos na sua poesia maior Tabacaria:

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Autor: Álvaro de Campos