terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Quem foi José Liberato Freire de Carvalho

José Liberato Freire de Carvalho, nasceu na Quinta de Monte São, freguesia de S. Martinho do Bispo, próximo de Coimbra, em 20 de Julho de 1772, era filho do Dr. Aires António Antunes Freire, Mordomo-Mor da Universidade de Coimbra,  e de sua esposa Maria Joaquina Freire de Carvalho.

Por influência de seus pais, mas também de seu irmão D. António da Visitação Freire de Carvalho, ingressou em 1787, com 15 anos de idade, na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde estudou Filosofia e Teologia, contudo manteve-se atento ao que acontecia na Europa, nomeadamente aos ecos da Revolução Francesa, através do contacto com um seu irmão frade do Convento de Grijó.

Sem particular vocação para a vida monástica, pediu e obteve transferência para o Mosteiro de Refoios do Lima, um ambiente bem menos disciplinador.

Terminados os estudos teológicos em 1795, recebeu em Braga as primeiras Ordens Sacras, sendo oficiante D. Frei Caetano Brandão, e adoptando o nome religioso de D. José do Loreto.

Permaneceu no Mosteiro de Refoios do Lima, até ao ano de 1800, ano em que foi nomeado professor de Lógica na escola anexa ao Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Esta nomeação foi conseguida por influência de seu irmão D. António da Visitação Freire de Carvalho, que era ali professor.

Chegado a Lisboa ganhou acesso à excelente biblioteca do Convento de São Vicente de Fora, estabeleceu contactos com a melhor da intelectualidade da época, tendo privado, entre outros, com Gomes Freire de Andrade, Bento Pereira do Carmo e Manuel Maria Barbosa du Bocage.

As suas ideias libertárias levaram-no a integrar-se nos círculos pró-liberais e maçónicos, filiando-se na Loja Fortaleza do Grande Oriente Lusitano, onde significativamente, adoptou o nome simbólico de Spartacus.

Nos anos imediatos, dedicou-se com afinco aos estudos filosóficos, lendo os autores contemporâneos e desenvolvendo as suas capacidades intelectuais. Para além da Lógica passou a ensinar Retórica e Eloquência. Este processo foi interrompido em 1804 pela doença e morte do seu irmão D. António da Visitação, vítima de uma pneumonia. Este acontecimento causou-lhe grande consternação e obrigou-o a uma estadia com familiares em Coimbra e na Figueira da Foz, onde fez uma cura de banhos de mar.

Regressado a Lisboa, assumiu as funções de Grande Orador do Grande Oriente Lusitano, que entretanto se organizara para enquadrar as Lojas maçónicas existentes.

Em 21 de Novembro de 1804 foi feito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, sucedendo no lugar ao seu falecido irmão, contudo, a sua permanência em Lisboa foi curta, pois o seu relacionamento com Hipólito José da Costa, acabou por atrair as atenções da Santa Inquisição e foi obrigado a abandonar o Mosteiro de São Vicente de Fora e recolher-se no Mosteiro de Grijó, em cujo Convento permaneceu até 1808, exilado por ordem da Intendência da Polícia de Lisboa, apesar das inúmeras diligências feitas junto dos poderes políticos e mesmo junto do Príncipe Regente D. João.

Desencadeada a Guerra Peninsular com a invasão de Portugal pelas tropas francesas e tendo ocorrido a transferência da corte portuguesa para o Brasil (1808-1821), foi finalmente autorizado a regressar a Lisboa, onde encontrou o Mosteiro de São Vicente de Fora a servir de alojamento a numerosos oficiais franceses.

Conhecedor da língua francesa, teve um papel importante no relacionamento entre a Ordem e as autoridades de ocupação francesas, relacionamento este, que criou a fama de ser pró-francês, razão pela qual após a Convenção de Sintra, o obrigou a procurar refúgio junto dos seus familiares em Coimbra, onde permaneceu até 1810, alegando doença, ano em que, por ser membro da maçonaria foi incluído na lista dos presos da “Setembrizada” em que foram embarcados e desterrados para a Ilha Terceira, contudo ficou impedido de regressar a Lisboa temendo ser preso e deportado.

No entanto após a Batalha do Buçaco foi feito refém em Coimbra pelas forças do general Massená e forçado a acompanhar o exército francês até Pombal e Condeixa, conseguindo em finais de Março de 1811 fugir aos seus captores quando pernoitava em Foz de Arouce.

Pouco tempo depois foi preso e encarcerado na Prisão da Universidade de Coimbra, acusado de ter acompanhado os franceses, após ter sido libertado passou a viver com os seus familiares em Coimbra, mas pouco tempo depois volta a ser preso por ordem da Regência do Reino e colocado incomunicável no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra até 1813, aproveitando o tempo a fazer uma tradução portuguesa dos Anais de Tácito.

Em Agosto de 1813, sem nunca ter sido julgado, foi mandado para o Mosteiro de Refoios do Lima e proibido de contactar qualquer pessoa fora da comunidade de frades que ali habitava.

Quando passava pelo Porto a caminho do Mosteiro, por sugestão e com a ajuda de José Pinto Basto, recebeu um passaporte passado em nome de um pretenso criado de um negociante inglês e com ele chegou à Corunha onde embarcou com destino a Londres.

Na Corunha havia recebido um novo passaporte passado pelo Cônsul Britânico, escolhendo então o nome de José Liberato Freire de Carvalho, nome que conservaria para o resto da vida. A adição do nome de Liberato marcou a sua alforria, que acompanhou pelo abandono dos títulos eclesiásticos, considerando-se daí em diante desobrigado dos seus votos e do nome de D. José do Loreto.

Em Londres dedicou-se ao jornalismo e em 1814 passou a ser redactor de “O Investigador Português em Inglaterra”, um periódico de grande influência entre os emigrados portugueses no Reino Unido e mesmo junto das elites portuguesas. Quando o Duque de Palmela pretendeu fazer do periódico o órgão oficial do governo português no exilio, recusou, o que levou á suspensão da comparticipação que o mantinha. Fundou então o Campeão Português, um periódico que ganhou extrema importância durante o período que antecedeu a Revolução Liberal do Porto.

Após a implantação do regime liberal em Portugal, chegou a Lisboa em 1821, sendo convidado para ingressar na carreira diplomática. Não aceitou, optando por um lugar de adido no Ministério dos Negócios Estrangeiros, cargo que manteve por pouco tempo. Entretanto reingressou no Grande Oriente Lusitano, adoptando o nome simbólico de “Camarino Dirceu” .

Fundou em Lisboa o periódico que intitulou de O Campeão Português em Lisboa, manifestando grande independência editorial. Nele deu voz ás suas criticas ás circunstâncias que haviam conduzido a independência do Brasil e ao papel que nelas tivera o Príncipe D. Pedro de Bragança, futuro D. Pedro IV.

Feito deputado para as Cortes de 1822-1823, pelo círculo de Viseu, tendo prestado juramento em 22 de Novembro de 1822. Contudo na sequência da Vilafrancada foi enviado para a sua casa da Quinta de Monte São, em São Martinho do Bispo, com residência fixa. Foi indultado em 1824, mas recusou qualquer participação na vida política até 1826. Retomou o lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros e foi nomeado redactor da Gazeta de Lisboa, órgão oficial do governo português.

Com a subida ao poder do Rei D. Miguel, foi obrigado a passar á clandestinidade , mantendo-se assim até 1828, ano em que conseguiu regressar ao exilio em Londres, dedicando-se ao jornalismo e assumindo um papel determinante na mobilização dos emigrados liberais em Inglaterra no período inicial da Guerra Civil (1828-1834. Passou depois na companhia de Saldanha, a Paris, tendo integrado as forças liberais que vieram a reforçar os liberais sitiados no Porto, onde chegou em princípios de 1833.

Terminada a Guerra Civil, regressou a Lisboa, onde foi nomeado 2º. Grão-Mestre Interino do Oriente de Saldanha, ou Grande Oriente Lusitano da Maçonaria do Sul, de aliança “Saldanhista”, cargo que exerceu nos anos de 1834-1835. Em 1835 passou a ser membro da Sociedade Patriótica Lisbonense. Simultaneamente foi eleito deputado ás Cortes pelo círculo da Madeira para a legislatura que começou em 15 de Agosto de 1934 e terminou a 4 de Junho de 1836. Nesta legislatura destacou-se na discussão da lei de liberdade de imprensa, recusando a interferência dos poderes públicos no jornalismo e foi encarregado de redigir o Auto de Exclusão de D. Miguel.

Até á Revolução de Setembro de 1836, foi arquivista da Câmara dos Pares do Reino, sendo nomeado por Passos Manuel, presidente da Comissão Administrativa da Imprensa Nacional, cargo que exerceu até 1838. Após a revolução, foi eleito deputado ás Cortes Constituintes (1837-1838) pelo círculo de Lisboa, tendo participado activamente na discussão da Constituição Portuguesa de 1838, votando com a fracção mais radical.

Apesar de ter sido eleito deputado pelo círculo de Lisboa para a legislatura de 1838-1840, a partir de 1838 retirou-se progressivamente da vida pública, dedicando-se ás letras e á Academia Real das Ciências de Lisboa, de que foi um dos mais assíduos académicos. Ainda Assim, subscreveu com outros deputados setembristas, uma proposta de lei visando alterar a lei eleitoral vigente.

Destacando-se pela sua independência e desapego aos bens materiais, rejeitou todas as prebendas e vantagens  que lhe foram oferecidas tendo morrido pobre em Lisboa aos 82 anos de idade,  no dia 31 de Março de 1855.

Deixou uma vasta obra histórica, política e autobiográfica, sendo considerado como um dos principais ideólogos do primeiro liberalismo português, particularmente pela sua influência sobre a imprensa durante a fase da emigração liberal para Inglaterra e França.

Autor: Fernando Valle

domingo, 26 de novembro de 2023

A Alavanca

Um Símbolo consiste na representação visível de uma ideia ou de uma força nele ocultado. É fundamental procurar em cada símbolo o seu significado maçônico, aquele sentido que nos pode levar ao aperfeiçoamento moral e ético e que nos ajude a ter consciência das imperfeições da Pedra Bruta que somos para que as possamos corrigir.

Foi no decurso da cerimónia de aumento de salário que tomei consciência de que muito pouco ou quase nada sabia sobre a Alavanca, importante símbolo da Maçonaria. Senti então vontade, ou melhor, necessidade de conhecer exaustivamente o significado e tudo o mais que a ele se refere. É, pois, este o resultado do meu trabalho de pesquisa na procura do conhecimento do muito que diz respeito a este símbolo.

Na cerimónia de iniciação, o neófito, renascendo espiritualmente, começa um longo percurso da sua nova vida com a aprendizagem gradual dos segredos maçónicos, saindo da escuridão em que se encontrava passando para a “luz” do conhecimento que até então lhe era vedado.
Nesta celebração o candidato é submetido a três viagens, iniciando um processo de transformação pessoal pelo esforço contínuo de reflexão visando o aperfeiçoamento do conhecimento e da sua mente pela evolução intelectual, moral e espiritual.
O iniciado é sim, o que vive verdadeiramente a iniciação e não apenas o que ritualmente por ela passou.

Agora Aprendiz Maçon, tem como tarefa árdua o estudo e a assimilação do conhecimento referente a todos os símbolos que encontra dentro do Templo. 
O Aprendiz no seu processo de crescimento interior, filosoficamente começa simplesmente por aprender a desbastar a sua Pedra Bruta sendo simultaneamente a matéria-prima, a obra e o seu autor. Funciona assim a psicologia do desenvolvimento maçônico. Simbolicamente, começa por libertar-se de paixões, erros e vícios, passando de Aprendiz a Companheiro, deixando o três para assimilar o cinco.
 Alcançado esse objetivo é proposto para elevação ao grau de Companheiro, o segundo dos três Graus Simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito. 

Já não sendo Aprendiz e sem ainda ter alcançado a posição de Mestre, como Companheiro assumirá então o importante estatuto de laço de união entre aqueles dois graus.
No ritual de aumento de salário, o recipiendário é acompanhado pelo Irmão Experto em cinco viagens equivalentes aos cinco anos de preparação que os discípulos de Pitágoras (mestre nas antigas iniciações) teriam de ter para que se tornassem capazes de ensinar e serem dignos de serem ouvidos.

Tal como nessas viagens, assim acontece com o nosso percurso   intelectual em direção à Verdade e ao Conhecimento tal como com a marcha moral rumo a um ideal de perfeição, que se revela cada vez   com maior clareza à medida que avançamos na direção que nos conduzirá à sua realização. No início de cada uma delas o recipiendário recebe os respetivos instrumentos que os devolve no final da mesma, sendo-lhe então explicado o seu significado bem como o da viagem então efetuada.

Para a primeira viagem são-lhe entregues o maço e o cinzel, para a segunda o esquadro e o compasso, para a terceira a alavanca e a régua, para a quarta o nível e finalmente para a quinta viagem recebe a trolha. 

Agora no 2º grau maçónico, o Companheiro (etimologicamente é aquele que faz parte de um grupo que reparte entre si o mesmo pão) passou da perpendicular ao nível, conhecendo o esquadro o nível e o prumo. A pedra que era bruta passa nesta fase a ser polida, pois o Aprendiz amadureceu evoluindo para um estado no qual se apresenta pronto a examinar os aspetos mais profundos do seu processo psicológico e da sua própria consciência.

Na terceira viagem de elevação a Companheiro, através de aquisição de conhecimentos científicos é encetado o estudo da Natureza. Nela, o recipiendário recebe para além da Régua e por substituição do Compasso, a Alavanca. Estes dois últimos têm em comum o facto de possuírem três pontos (apoio, a potência e a resistência) que determinam a sua funcionalidade como instrumentos ativos na maçonaria operacional ou filosófica. A Régua, que permite traçar linhas retas que poderão ser prolongadas infinitamente, é o símbolo da lei moral no que ela tem de imutável e rigoroso.
   
Foi, pois, na 3ª viagem da minha Elevação ao 2º Grau da Maçonaria, que tive o primeiro contacto com a Alavanca, instrumento do Grau de Companheiro cujo significado me propus aprofundar.

Em Física, a alavanca é uma máquina simples constituída por um objeto rígido que, utilizando um ponto fixo de apoio (fulcro), consegue multiplicar a força mecânica que é aplicada (força potente) a um outro objeto (resistência / força resistente).   Esta forma de aumento de força constitui o conceito de ”vantagem mecânica”.

Dependendo da relação espacial destes três pontos (fulcro, força aplicada e resistência), assim se classificam os tipos de alavancas: interfixas, interpotentes e inter-resistentes. Quando o ponto de apoio (fulcro) está entre a força aplicada e a força resistente, a alavanca é interfixa (exemplo: tesoura). Se a força resistente estiver entre o ponto de apoio e a força aplicada, a alavanca é inter-resistente (exemplo: quebra nozes). Caso a força aplicada esteja entre o ponto de apoio e a força resistente, então a alavanca é interpotente (exemplo: pinça).

O ponto de apoio deve ser tão ou mais resistente que a própria alavanca para que não comprometa o processo por ineficácia. Da mesma forma é de fundamental importância a Força Potente, força esta que é exercida em determinado ponto da alavanca para que a Força Resistente seja vencida.

“Deem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, terá sido dito   por Arquimedes no século III a.C. ao compreender a Lei da Alavanca. Trata-se duma manifestação filosófica que salienta a enorme importância e valor do "ponto de apoio".

A palavra Alavanca (do latim levare) refere-se ao início da ação de levantar alguma coisa. Tem como princípio básico a possibilidade de poder mover grandes cargas pela aplicação de pequenas forças utilizando sempre um ponto de apoio.

Se na primeira e na segunda viagens o Maçon desbastou a pedra bruta, criando a partir desta, peças mais perfeitas e passíveis de se adaptarem, é na terceira viagem, com a ação da Régua e da Alavanca (instrumento de colocação a par da trolha) que as pedras já se podem unir, começando assim verdadeiramente a edificação do Templo. 

A Alavanca pode representar o desenvolvimento da nossa inteligência e consequente compreensão para regular e dominar a inércia da matéria, levantando-a e movendo-a em direção ao lugar que lhe está destinado na construção do nosso Templo Individual. 

Metaforicamente a Alavanca representa a energia criadora do Homem, a força do trabalho e da vontade, que através da sapiência é posta ao serviço de toda a humanidade. Simboliza o controlo e o domínio da força em ação, movimento que permite vencer os obstáculos, a resistência moral ou material, assim como ultrapassar medos e fraquezas, sempre na condição de ser capaz de encontrar o seu ponto de apoio.   

Na Maçonaria cada irmão constitui um “ponto de apoio”, e todos unidos representam a Alavanca e a sua força. Há pois, que aprender a usar esse enorme poder que a Maçonaria proporciona.

Tendo sempre presente o significado metafórico da Alavanca, os maçons deverão ser resolutos, decididos e persistentes no seu esforço permanente visando ultrapassar os desafios que surgem constantemente, perante os quais é imprescindível exercer a flexibilidade na prática contínua da Tolerância.


Autor: João Bosco

sábado, 11 de novembro de 2023

O Nível

É largamente consensual que a Maçonaria especulativa tem a sua origem na Maçonaria operativa e que foi ganhando expressão à medida que a última ia perdendo fulgor. As lojas operativas deixaram de ser compostas exclusivamente por pedreiros livres e começaram a receber cada vez mais profissionais e pensadores oriundos de outras disciplinas do saber.

A essência destas lojas mistas deixou progressivamente de ser a partilha de técnicas de construção de edifícios monumentais e de templos para se transformar na partilha de técnicas de construção do templo interior, presente em cada um dos irmãos que as compunha.

Durante esta conversão progressiva das lojas operativas em especulativas, muitos dos costumes e ferramentas foram tomados de empréstimo, mas revestidos de uma nova e enorme carga simbólica. O Nível, tema desta prancha, não é excepção.

No mundo profano, o Nível pode ser definido como o “instrumento que serve para determinar a horizontalidade de algo…”, ou ainda como a “linha ou conjunto de pontos que define um plano horizontal” . Era este o uso que lhe era destinado pelos maçons operativos.

Passemos agora ao mundo ritualístico da Maçonaria especulativa. O Nível é a jóia do Primeiro Vigilante e uma das jóias móveis da loja, em conjunto com o Esquadro e o Prumo.

O Nível é habitualmente representado por um triângulo isósceles, com um prumo suspenso no vértice oposto à sua base. O prumo divide, desta forma, o triângulo em dois pequenos esquadros.

A um olhar minimamente atento não passará com certeza despercebido que o Nível, a jóia do Primeiro Vigilante, é formada pelo conjunto das jóias do Venerável Mestre - o Esquadro - e do Segundo Vigilante - o Prumo.

Quanto ao simbolismo associado ao Nível, vejamos o que diz o Segundo Vigilante ao ainda Aprendiz, durante a cerimónia de aumento de salário a Companheiro.

“Meu irmão, o nível de que fostes portador nesta viagem simboliza a igualdade social. Esta igualdade não consiste somente na paridade dos direitos e na equivalência dos deveres entre os membros da sociedade: implica o levantamento dos fracos, o melhoramento dos deserdados da sorte e dos desgraçados.” 

Deduzimos, então, da anterior citação que o Nível representa simbolicamente a igualdade social.

Recuemos agora ao momento da nossa iniciação maçónica. Nesse dia, cada um de nós jurou o solene compromisso de constantemente aperfeiçoar a arte da transformação da pedra bruta em pedra cúbica. Iniciámos esse trabalho, focados na pedra, enquanto Aprendizes, com o auxílio do maço, do cinzel e da régua de 24 polegadas.

Progredimos nesse trabalho enquanto Companheiros. O desafio é diferente. Não estamos concentrados numa pedra, na unidade, mas sim no seu conjunto e - de forma a garantirmos que são construídas superfícies estáveis, niveladas e equilibradas - socorremo-nos de uma nova ferramenta, do Nível. 

Retiramos daqui que o Nível também está associado ao equilíbrio. O equilíbrio é uma consequência do atingimento da igualdade, pois, na prática, só atingimos o equilíbrio se conseguirmos garantir a igualdade entre duas forças antagónicas.

Nada melhor do que este antigo texto maçónico, de cerca de 1790, para nos ajudar a compreender o verdadeiro sentido dado pela nossa Ordem à igualdade:

“Entre nós o que há mais agradavel, além de contar com tantos Irmãos, quantos Mações, he a igoaldade que se observa, e que se simboliza ao Nivel. Luiz 14, Frederico, e Ganganelli tinhão entre nós o mesmo lugar que qualquer outro. Á meza tinhão a mesma obediencia. Cantavão, se os mandavão, e bebião a saude que se lhes propunha com a mesma allegria, sem soberania, nem distinção. Todos somos igoais. (...)

E em breve vos tenho dito tudo o essencial da Maçonaria; de resto tudo são acidentes, de graos, e significações, que embelezão mas que não mudão a Substancia: por isso ouvireis falar de grao de Mestre Companheiro etcª que não são mais que adições de mais brilhante ornato, e distinção, e que alguns factos celebres da historia lhe derão origem, mas que tudo recorre em ser o Maçon hum homem honrado, e verdadeiro Irmão dos seus Irmãos.” 

O Nível deve inspirar-nos a agir de “... forma imparcial, tolerante e harmoniosa, mantendo a rectitude e igualdade entre todos obreiros perante as leis e morais maçónicas (apesar das funções ou “qualidade” que estes detenham, pois tudo é efémero!), vivenciando estas com cordialidade no trato, carinho, educação e respeito entre todos, seja entre aquele que de momento ocupa o mais elevado grau na Ordem, seja sobre aquele que ainda agora foi iniciado nos nossos mistérios… Desta forma o Nível relembra que ninguém deve dominar outrem.

– Até porque todos nós teremos o mesmo fim. Tempus fugit… -.” 

Mas porquê esta prancha sobre o Nível, sobre a igualdade e o equilíbrio? Porque até a pessoa mais desatenta constata que, na actualidade, estes valores estão a ser relegados para um qualquer plano muito irrelevante. Estamos numa época de decadência civilizacional, que se manifesta num retrocesso em muitos campos. O mundo está cada vez mais desigual. Temos de parar, reflectir e corrigir o rumo.

É necessário recolocarmos valores inalienáveis como estes no centro das preocupações e cada Maçon pode e deve fazer a diferença. Não nos esqueçamos que, ao longo dos tempos, Irmãos Nossos verdadeiramente iluminados assumiram papéis determinantes na luta pelas igualdades. Cabe-nos agora a nós, os maçons de hoje, esse dever.

É somente através da igualdade, proporcionada pelo respeito e pela aceitação, que a verdadeira fraternidade é possível de ser alcançada.

Tomo de empréstimo as palavras de Balzac, com as quais ele nos transmite que “A igualdade pode ser um direito, mas não há poder sobre a Terra capaz de a tornar um facto”.

Jurámos trabalhar incessantemente para alcançarmos um mundo cada vez mais justo, melhor e mais igualitário. Mas este trabalho não pode aguardar uns dias, tem de ser feito ontem. Mãos à obra!


Autor: Abílio Mendes