segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Estrela Flamejante

Aquando, na quinta e última viagem que fiz no templo, fui confrontado numa posição firme e frontal, a contemplar uma estrela, não, não era uma estrela universal, comum, ou que tivesse a olhar para o céu, mas sim uma Estrela física e geométrica, que no interior das suas cinco pontas, encontrava-se uma letra G, não deixando que referir o seu interior, importa saber que os pitagóricos a usavam para representar.

O que me chamou à atenção, foi a sua dimensão, a sua geometria, e qual o seu significado, ao qual e de imediato relacionei as minhas findas cinco viagens, facto esse que me despertou o seu interesse. Implícita também no emblema da nossa respeitável loja, que também podemos correlacionar como as cinco luzes, ou sejam o Venerável, 1.º Vigilante, 2.º Vigilante, Orador e o Secretário. 

Depois de algum tempo de reflexão, fui percebendo o seu real significado dessa estrela, afinal era a Estrela Flamejante, também conhecida como Pentagrama (do grego antigo πεντάγραμμος). Senão vejamos o seu significado como símbolo pagão com muitas origens, assim como o que representa no espaço e no tempo.

O primeiro uso conhecido do pentagrama pode ser encontrado na antiga Mesopotâmia. Por volta do ano de 3500 a.C., a estrela aparece em múltiplas peças de cerâmica, e tinha, segundo alguns especialistas, um poder real, como uma força divina que se estendia para além dos quatro cantos do mundo. Era pois, um sinal de carácter positivo e relacionado com a natureza.

Viajemos agora até às terras dos druidas, a esses cenários celtas associados quase sempre ao poder da Terra, do Sol, da Lua e das criaturas das florestas. Como olharam eles para a estrela de 5 pontas?

Os pagãos celtas representaram no pentagrama o poder da natureza, das cinco correntes dos rios, dos 5 poços do conhecimento, e sobretudo dos 5 sentidos através dos quais se obtinha o conhecimento. A deusa associada ao uso e conhecimento do pentagrama era Morrigan.

Mas avancemos um pouco mais e até à religião hebraica. Que significado tem neste contexto? O pentagrama é um símbolo da verdade. 

Como se pode ver, de momento e nesta linha histórica inicial, a estrela representava algo nobre. Vejamos alguns exemplos:

Na antiga Grécia, para os pitagóricos o pentagrama era associado à perfeição.

Para os hindus e budistas, a estrela costuma aparecer na arte tântrica como uma representação positiva da perfeição, tal como fizeram os pitagóricos ou mesmo os gnósticos, para quem o pentagrama tinha uma conotação associada à origem e fim da raça humana. E para além disso, era um meio para alcançar a redenção do ser humano.

Um pentagrama “com a ponta virada para cima” (ao contrário do invertido) representava a supremacia do homem sobre os quatro elementos naturais: terra, água, fogo e ar.

Com a chegada da Idade Média, a ideia que representava as 5 chagas de Cristo começou a mudar, deixando de se olhar para esse sinal não como de verdade, deidade e natureza, mas para passar a estar associado ao paganismo e ao satanismo:

Esse símbolo representava a verdade e a proteção contra os demônios ou maus espíritos. Para os medievais adeptos do Cristianismo, o pentagrama era atribuído aos seus estigmas.

Por outro lado, ao longo da idade média, começaram também a surgir grupos secretos e sociedades eruditas associadas à alquimia. Na sua filosofia oculta era habitual encontrar a referida estrela.

Podemos ainda dizer que até à chegada da inquisição, que essa estrela tinha sempre um significado nobre. 

Lentamente e ao longo da história iremos continuar a ver este símbolo a renascer em muitos movimentos conhecidos como os seguintes:

Na maçonaria o pentágono ou estrela de cinco pontas é um símbolo de grande poder.

Também o encontramos na Cabala, associada à natureza de Deus, do universo divino, da moral e das verdades ocultas ao homem.

Em 1966 Anton LaVey fundou a sua Igreja de Satã, um momento chave em que a estrela ficou para sempre marcada pela tendência mais escura, com o uso da magia negra do pentagrama invertido, com o vértice para baixo e que nos sugere a figura de um bode…

É também de salientar que a estrela, passou por uma curiosa evolução em que andou sempre de mãos dadas com diferentes abordagens de conhecimento e religião.

Os homens fazem uso dos símbolos muitas vezes de acordo com os seus próprios interesses, daí a confusão de se conseguir delimitar uma origem clara e específica. Não obstante, o tema não deixa de ser interessante. 

A estrela flamejante ou pentagrama é um símbolo comummente associado à mitologia, à magia, à astronomia, natureza, e também à religião. Maioritariamente escolhido por se tratar de um símbolo associado à luz divina que guia e ilumina o caminho do bem e atrai a proteção celestial tem muitas outras atribuições que lhe são defendidas. 

Também na magia cerimonial as ligações que lhe são atribuídas associam-se um pouco às defendidas pela religião pois representa os quatro elementos  (água, terra, fogo e ar) coordenados por um espírito ou um Deus que tudo coordena. 

A estrela, também chamada geralmente de pentagrama, foi usada durante milhares de anos por uma grande variedade de culturas. A maioria do seu uso na sociedade ocidental descende das tradições ocultas ocidentais. 

Ela é a forma mais simples de estrela, que deve ser traçada com uma única linha, sendo consequentemente chamado de Laço Infinito. Em tempos medievais, o Laço Infinito era o símbolo da verdade e da proteção contra demónios.  

Antes da Inquisição não havia nenhuma associação maligna ao pentagrama; pelo contrário, era a representação da verdade implícita, do misticismo religioso e do trabalho do Criador. 

Ocultistas têm associado o pentagrama às crenças das pessoas: 

A Humanidade ou o corpo humano, representando dois braços não desenhados, os dois pés e a cabeça; 

Os cinco sentidos físicos: visão, audição, tacto, cheiro e gosto; 

Os cinco elementos: terra, ar, fogo, água e espírito. 

Os Cinco ciclos da vida

O pentagrama é o símbolo da união e da síntese, na medida em que o número dos dedos de uma extremidade corresponde ao número dos nossos sentidos.

O pentagrama, uma estrela de cinco pontas, tem sido associado, desde muito tempo, ao mistério e à magia. Esse símbolo é, sem dúvida, o mais reconhecido por todos os seguidores do paganismo, sendo tão antigo que sua origem é desconhecida. No geral, o pentagrama tem sido utilizado em todas as épocas como talismã.

Dessa maneira, na antiga Mesopotâmia, esse símbolo representava o poder imperial. Para os pitagóricos, simbolizava a saúde e o conhecimento. Entre os egípcios, o pentagrama possuía relação com as pirâmides, uma vez que representava o útero da Terra.

Na cultura hebraica, o pentagrama representava a verdade e os cinco livros “Pentateuco” (cinco rolos), que para os judeus tem o nome de Torá, a "lei escrita" revelada por Deus.

Para os druidas, simbolizava o divino, mais precisamente, a cabeça de Deus. Para os celtas, representava a divindade Morrigham, deusa do amor e a da guerra.

Na numerologia, o pentagrama corresponde à soma dos elementos: dois femininos e três masculinos.

Para as correntes esotéricas, o pentagrama é formado por cinco extremidades cercadas por um círculo que representam os cinco elementos, também como no ocultismo acima referido.

Para os chineses, o pentagrama representa o ciclo da destruição, a base filosófica da medicina tradicional chinesa.

Cada extremidade do pentagrama simboliza um elemento: terra, água, fogo, madeira e metal. Cada elemento é gerado pelo outro, por exemplo, a madeira é gerada pela terra, o que dará origem a um ciclo de criação.

Para que haja o equilíbrio, faz-se necessário a presença de um elemento inibidor, que nesse caso, torna-se seu oposto, ou seja, a água que inibe o fogo.

Contudo, o Pentagrama aparece na pintura de Leonardo da Vinci (1452-1519). O “Homem Vitruviano” surge dentro de um círculo, o que demostra o ciclo de todas as coisas.

Note-se que, quando o pentagrama é desenhado dentro de um círculo, a sua função é unir todos os aspetos do homem.

Por fim, o pentagrama também pode simbolizar o Microcosmo, na medida em que representa o símbolo do "Homem de Pitágoras". Figura esta em que os braços e pernas abertas, ou seja, disposto em cinco partes em forma de cruz (o homem individual).

A mesma representação simboliza também o Macrocosmo (o Homem Universal) e é um símbolo de ordem e perfeição, a Verdade Divina.

Misteriosamente, a Estrela Flamejante, sempre foi, desde há muito tempo, aos dias de hoje, o distintivo de muitos militares, cujo as suas representações prendem-se aos atributos como a capacidade de decisão, o enfrentar desafios, honra, bravura, disposição para a batalha, expressão de vitória e de conquista, visivelmente patente nas “divisas”, de forma hierárquica, que corresponde na pratica militar á expressão de superioridade em relação aos demais. Expressa também a busca de igualdade perante os grandes. 

Na Maçonaria, o Laço Infinito (como também era conhecido o pentagrama, por ser traçado com uma mesma linha) era o emblema da virtude e do dever. O homem microcósmico era associado ao Pentalpha (a estrela de cinco pontas), sendo o símbolo entrelaçado ao trono do mestre da Loja.

Importa saber que a Estrela Flamejante traduz a luz interna do Companheiro, ou que representa o próprio homem Maçon dotado da luz que lhe foi transmitida.

O caminho do Companheiro é sinuoso e difícil. O Companheiro passa das asperezas terrenas para as belezas astrais, isto é, para o transcendental (Cosmo, Universo).

Diz-se também que o Grau de Companheiro também é dedicado à direção da mocidade, a felicidade possível, por meio do trabalho, da virtude, e das ciências que lhe são recomendadas.

Um dos principais objetivos do Companheiro é saber semear a dúvida na sua mente, não admitindo senão que possa ser provado e satisfaça a sua razão. 

O Companheiro deve deixar-se guiar pelo valor, pela energia e pela Inteligência, as três forças que poderão salvá-lo da ignorância, do fanatismo e da superstição fazendo-lhe abandonar o ilusório pela realidade.

Devem os Irmãos compreender definitivamente, que a sublime instituição não é somente o reino da tolerância, pois é acima de tudo uma ordem a serviço da verdade em movimento.

Para finalizar, é de realçar que, se o trabalho é uma característica primordial da Maçonaria, mais ainda o é no Grau de Companheiro, que a ele se dedica, como se dedica às ciências, à filosofia e às artes, ouvindo sempre, falando quando necessário e trabalhando bem e muito, dentro dos melhores princípios maçónicos.

Trabalhar, principalmente como Companheiro, é dedicar-se à construção do seu Templo Interior, num processo contínuo, no qual o sentido de “vencer as paixões e submeter as nossas vontades” acentua se mais no presente.

Pouco a pouco, com a perseverança do trabalho e o uso adequado das ferramentas, e sobretudo unido, o Companheiro entrega-se à construção do edifício, dentro de si, mas com o objetivo de se projetar para fora, para a sociedade, num processo sociológico que pretende exteriorizar e transmitir para outros indivíduos as conquistas espirituais que constituem a argamassa e os demais materiais utilizados na ação de construir.


Autor: John Locke

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O Sol e a Lua

INTERLÚDIO 
Anteriormente à existência de qualquer planeta, galáxia ou universo, antes a qualquer vida ou espírito, dois astros vagueavam pelo vazio. Solitários e sem brilho, desconheciam da existência um do outro; sem saber o que era o sentir, deambulavam em total escuridão, incertos se os seus olhos estavam abertos ou cerrados.
Tantas vezes pareceram íntimos, de tão próximos que se cruzavam, mas eram incapazes de ver ou sentir a força e a magia um do outro; momentos houve em que quase se tocaram, quase se notaram… mas sempre só quase.
Contudo, num desses instantes frugais, ainda mesmo antes do tempo existir, tropeçaram no nada e chocaram de frente; abriram os olhos e, como algo de magia, reconheceram-se e sorriram com a presença um do outro.
Hoje vivem assim, separados; o sol finge que é feliz, a lua não consegue esconder que é triste.
  
PREFÁCIO 
Também no templo maçónico vivem reclusos estes dois símbolos, inscritos na parede mais a oriente; ele do lado direito de quem entra, ela do lado oposto. Talvez não seja por acaso que, neste amor proibido, o sol seja associado ao princípio ativo, ao masculino, ao poder criador e a lua ao princípio passivo, ao feminino, à fecundidade.
Mas nem sempre foi assim; ainda que a perseverança destes símbolos no recinto maçónico já pouco tenha a ver com crenças pagãs ou religiosidades primitivas, ambos têm aí a sua gênese.
Recuemos no tempo.
  
A HISTÓRIA 
No período Paleolítico o sol surge, não como uma conceção do masculino, mas da deusa, figurino que de alguma forma perdura através do Neolítico, em representações da divindade feminina com um espectro solar em câmaras fúnebres e, mesmo muito mais tarde, nas línguas célticas e germânicas.
Estas representações físicas do culto solar permanecem pela idade do bronze, não só através do exemplo mais óbvio do complexo arqueológico de Stonehenge, e da sua associação aos solstícios de verão e de inverno, como através do nosso Cromeleque dos Almendres, e dos seus monólitos datados de entre o 5º e o 3º milênio a. C., que detêm não só um caráter mágico-religioso, mas uma solene ligação à astronomia.
Movem-se os séculos e a geografia, e eis que no antigo Egipto surge Osíris, cujo caráter solar advém do deus Rá, de cujas lágrimas nasceram os homens; este é assassinado por Seth, seu irmão, e logo ressuscitado por Ísis, sua esposa, passando esta desde então a simbolizar a fecundidade e a fertilidade; será presumivelmente a mais primordial alusão á lua no feminino?
E se os Sumérios, Babilónios e Assírios, nos seus atos contemplativos do universo, foram os primeiros a determinar o equinócio da primavera, foi do lado oposto do oceano que os Maias, os grandes precursores da astronomia, mapearam a passagem de incontáveis objetos celestes com inigualável precisão, entre eles o nosso astro do dia e o nosso satélite da noite.
Já no velho continente, nascem com os Gregos novas lendas e heróis mitológicos, invariavelmente inspirados na abóboda celeste, herança que é transmitida a Romanos e Árabes e que com eles se difunde por toda a Europa; é assim através do gládio dos Romanos que o culto de Mitra, oriundo da Pérsia, se estende pelo ocidente.
Questionar-me-ão porventura sobre a relevância de tal idolatria… este rito transfigura a religião do Deus numa teologia de mistérios, outorgando uma notável importância aos rituais iniciáticos. Também não nos é inusitada a data da natividade de Mitra, 25 de Dezembro, nem o acaso de esta ter nascido numa gruta. Este figurino da caverna como local de eleição para os rituais em honra de Mitra e como símbolo do renascimento, num paralelismo pouco inocente com a Maçonaria, remete-nos de forma ecuménica para a câmara de reflexões e para o ato iniciático, mas muito em particular para a perceção de VITRIOL, Visita Interiora Terrae, Rectificando, Invenies Occultum Lapidem.
Com o advento do Cristianismo, a Igreja empenha-se fortemente no erradicar dos cultos pagãos associados ao sol e á lua. À época, e na nossa procedência, relevamos S. Martinho de Dume, ou de Braga, que combate fervorosamente as práticas pagãs de adoração aos rios, árvores, fontes, nascentes e astros, por ele considerados demoníacos. O insucesso de ambos fez com que a Igreja Cristã decida em parte assimilá-los, sendo a Virgem Maria a principal herdeira dos atributos das deusas lunares, suas predecessoras.
Os exemplares talvez mais óbvios desta simbiose serão os solstícios; o tempo do solstício de verão é como uma hierofania à qual se associaram diversas crenças e rituais pagãos, tais como os Santos Populares e o culto de S. João, cujo tributo se estende, imagine-se, entre muçulmanos.
Mas não é apenas quando o sol se apresenta no seu máximo esplendor que este é celebrado, também o é no seu declínio, no tempo do solstício de Inverno, eternizado através dos rituais do Natal, do Ano Novo e do Dia de Reis. Não obstante, o mesmo solstício de Inverno está intrinsecamente ligado a cultos pagãos, tais como os nascimentos de Krishna na Índia, de Osíris no Egito, de Melcarte na Fenícia e, da já referida Mitra na Pérsia.
E hoje, como vislumbramos estes astros?
 
O SIMBOLISMO CONTEMPORÂNEO 
O sol, como figura central do sistema solar, vê resignadamente os restantes corpos celestes a gravitar em torno de si; já lua, enquanto único satélite natural da terra, embora traje de negro em termos astronómicos, é em alguns momentos o astro mais brilhante no céu, fruto reflexão da luz do sol.
Estas duas forças complementares, mas fundamentalmente opostas, são comumente associadas ao yin-yang, conceito do taoismo que procura representar a dualidade de tudo que existe no universo, e que aqui alude à lua enquanto yin, princípio do feminino e da passividade, e ao sol enquanto yang, princípio do masculino e da atividade.
Em jeito de resenha, eis que o sol e a lua procuram simbolizar o dia e a noite, a luz direta e a luz reflexa, a ação e a reflexão, a atividade (ou trabalho) e o descanso, o dinâmico e o estático.
São insígnias que nos recordam que nada é tão descomplicado e óbvio como possa parecer à primeira vista, que as aparências exteriores, essas que brilham de forma evidente como se da luz do sol se tratassem, encobrem a natureza interior, mais difícil de vislumbrar, como uma se fora uma enigmática metáfora da pálida luz da lua. 
Isto remete-nos para algo mais familiar; mais íntimo com este espaço onde nos encontramos.
 
ENQUADRAMENTO MAÇÓNICO 
O sol espelha a luz, símbolo da vida, mas também transfigura a morte, quando está ocluso nesse ínterim que é a sua meia existência; estas irradiações entre o que é claridade e o que são trevas, transcendem a compreensão humana e, talvez por isso, o sol se tenha tornado a efígie da ressurreição e, de um modo geral, de um novo começo.
Por seu lado a lua, desempenha um papel significante no pensamento simbólico, fruto do seu declínio a cada mês lunar, cujos três dias de refúgio servem de preludio para uma resplandecente renovação em porte e em brilho; é com esta mutação de figurino que a lua se apresenta para o homem como o símbolo da passagem da vida à morte e da morte à vida; esta viagem é, segundo certas crenças, privilégio de soberanos, de heróis e… de iniciados.
Mas recordemos que a lua, privada de luz, é apenas um reflexo do sol; a constante metamorfose na sua forma, que comummente associámos à periodicidade e renovação e, por fim, aos ritmos biológicos, apenas existe graças ao astro rei; esta subserviência da lua enquanto símbolo do conhecimento indireto e discursivo, que evoca metaforicamente a beleza, entra em contraposição com o sol, símbolo do conhecimento e do esclarecimento mental, enquanto alegoria da força.
E se duvidas subsistissem sobre a importância cardinal destes símbolos em maçonaria, é nesta dialética entre o sol e a lua que, de forma despretensiosa, encontramos os sinónimos de força, de beleza e de sabedoria, os três grandes pilares que sustentam a loja maçónica.
E é assim que, além do plano celeste, o sol e a lua parecem perseverar como figuras centrais no campo terreno do sagrado, nesse espaço que chamamos templo.
 
SIMBOLISMO NO TEMPLO MAÇÓNICO 
Como já antes presumimos, este recinto físico é um retrato da natureza e os seus rituais estão repletos da simbologia pagã que nos remete para os fenómenos do universo; é através dessa figuração que erigimos o nosso templo, orientado de acordo com os pontos cardeais, e em harmonia com o zénite e com o nadir do astro rei, o mesmo que se inscreve no flanco direito do retábulo do oriente, em representação do dia, por oposição à lua, inscrita no lado contrário, em representação da noite.
Esta narrativa astronómica tem a sua génese em 1717, junto dos anciãos fundadores da Grande Loja de Londres que, no decurso dos seus trabalhos, iluminavam três círios, por eles designados de três grandes luzes; e faziam-no não só aludindo às três posições conquistadas pelo sol no seu trajeto de dia, mas também como expressão dele próprio, da lua e do Venerável da Loja.
Este enredo é-nos familiar no íntimo do nosso próprio R∴E∴A∴A∴, onde os oficiais que dirigem a loja fruem a designação de luzes e estão colocados nos pontos cardeais correspondentes ao seu nascer, a oriente, ao seu ocaso, a ocidente e ao seu apogeu, a sul; a norte, a extensão mais parcamente iluminada do templo, não se encontra figurada nenhuma luz; é por isso que neste setentrião se sentam os aprendizes, que labutam penosamente com a escassa claridade que a lua reflete do sol. Na coluna sul, mais amplamente iluminada, têm assento os companheiros e, no meão entre o sol e a lua, encontra-se o V∴M∴, que dirige os trabalhos do meio-dia, quando o sol está no seu apogeu, à meia-noite, quando este está no seu nadir, momento em que se supõe que a lua esteja no seu esplendor maior.
O orador, enquanto guardião da lei, e qual anáfora simbólica do conhecimento, tem assento sob o sol do oriente, de onde provém a luz; enquanto o secretário toma assento sob o luar, já que este reflete nos seus escritos a luz que provém do seu irmão orador. Quanto à anástrofe deste figurino que vislumbramos na N:.R:.Loja, permitam-me que o relegue para uma futura reflexão.
De regresso à sapiência dos antigos, eis que estes notaram que o sol não principia todos os dias em igual paragem, divergência que assinalaram erguendo vetustas colunas de pedra, para prontamente escordar as estações do ano, os solstícios e os equinócios; a memória dessas fragas solsticiais ainda hoje parece perdurar no recinto maçónico, na forma das colunas B e J.
E se na demanda da luz e do conhecimento transpomos esse pórtico, no nosso trajeto logo circundamos o painel da loja, que no seu grau primeiro nos permite vislumbrar três janelas; a primeira a oriente no momento do nascer do sol, outra ao meio-dia, no seu meridiano, e a terceira a ocidente, no findar do dia, momento em que a lua surge para crescer em brilho, e dominar a noite; a sua forma crescente, parece querer ensinar-nos que a escala iniciática do obreiro se faz sempre das trevas para a luz.
E sem perder o semblante do aprendiz, vejamos como o sol e a lua guiam a sua jornada.
  
SIMBOLISMO INICIÁTICO 
No ato de meditar sobre a relação entre estes dois símbolos, o maçom deverá inferir que há tempo de agir e tempo de refletir; há tempo de forjar e tempo de descansar; há tempo de aprender e tempo de ensinar; há ação e há contemplação. Todas estas dualidades, que integram a realidade, são afinal os pilares constituintes dessa mesma existência.
Estas duas insígnias relembram-nos que em nenhum momento do nosso percurso iniciático nos devemos cingir a um único aspeto da realidade, a um só tema de estudos; a espiritualidade é cardinal, mas não menos importante é a materialidade. Espírito e matéria não se opõem, completam-se, tal como o sol e a lua não se erradicam, mas antes repartem entre si o dia e a noite.
Em epítome, o trajeto marcado por estes dois astros, expressa o aperfeiçoamento do candidato desde o momento em que, sob o poder contemplativo da lua, é ocluso na câmara de reflexões, até que, enquanto iniciado, percorre o caminho do conhecimento, na persecução do esclarecimento da luz, simbolizada pelo sol a oriente.
 
CONCLUSÃO 
A Maçonaria encerra na sua ideologia uma série incalculável de princípios e ensinamentos, que traduzem a essência do próprio pensamento humano; é uma doutrina filosófica e moral que tomou por empréstimo a consciência humana desde os primórdios das civilizações, procurando dar vida própria aos seus símbolos, sempre sem vilipendiar o seu valor moral. De entre esta miríade de ícones, hoje procurámos prestar homenagem o sol e à lua.
E como nenhuma história merece cair em esquecimento sem o seu de epílogo, recordemos o advento deste escrito, desta narrativa simbólica.
 
EPÍLOGO 
Contemplativos, reencontramos os nossos protagonistas; ao sol, mais forte e omnipotente, foi concedido o caminho da solitude; à lua, mais fraca e singela, foi-lhe oferecida a companhia das estrelas; parece ser assim que o sol e a lua perseguem seu destino; ele, só mas vigoroso; ela, acompanhada mas franzina.
E como o homem dificilmente se consegue imiscuir de cobiçar o que é belo, tal como o sol, de tempos em tempos também nós tentamos conquistar a lua, como se tal fosse possível; na verdade, nenhum dos dois realmente a conseguiu subjugar, por mais que achassem que sim.
Sucede que, como nenhum amor é impossível, o indubitável acaso astronómico propiciou o eclipse; e é assim que hoje o sol e a lua convivem, na expetativa desse ensejo de reencontro, como se fora um símbolo desse único momento fortuito que lhes fora concedido.
Sempre e quando olhamos o céu e vislumbrarmos a lua a encobrir o sol, teremos fantasiado que este se deleitou sobre ela, num gesto de personificação do seu amor; o brilho deste êxtase é tão imenso que nesse preciso instante nenhum homem pode fitar o céu, sob pena de cegar.
Talvez este seja o retrato da única ocasião em o contemplar da luz obriga a uma venda, até mesmo para os iniciados.
 
PENSAMENTOS FINAIS 
Como tenho feito hábito nos meus escritos, partilho convosco alguns versos de Fernando Pessoa, ou antes de Alberto Caeiro, mas não sem antes vos confidenciar que, para quem nunca foi iniciado, Fernando Pessoa parece ter sempre uma palavra, uma frase, um qualquer ensinamento sobre Maçonaria.
 
Não tenho pressa: não a têm o sol e a lua.
Ninguém anda mais depressa do que as pernas que tem.
Se onde quero estar é longe, não estou lá num momento.
Sim: existo dentro do meu corpo.
Não trago o sol nem a lua na algibeira.
Não quero conquistar mundos porque dormi mal,
Nem almoçar o mundo por causa do estômago.
Indiferente?
Não: filho da terra, que se der um salto, está em falso,
Um momento no ar que não é para nós,
E só contente quando os pés lhe batem outra vez na terra,
Traz! na realidade que não falta!
 
 
Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passe adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salte por cima da sombra.
Não; não tenho pressa.
Se estendo o braço, chego exatamente aonde o meu braço chega
Nem um centímetro mais longe.
Toco só aonde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E somos vadios do nosso corpo.
E estamos sempre fora dele porque estamos aqui.

Autor: Álvaro de Campos

domingo, 7 de agosto de 2022

A Trolha


No seguimento do caminho percorrido nas viagens aquando da passagem entre colunas no caminho para a Luz na busca e construção de um Mundo mais justo e perfeito efectuamos Cinco  Viagens e somos introduzidos às ferramentas que o Companheiro utiliza para o polimento da pedra bruta desbastada pelo/como Aprendiz.   
Na Primeira Viagem que é dedicada aos Cinco Sentidos é-nos confiado o Maço e o Cinzel (para desbastar a Pedra Bruta), na Segunda Viagem que é alusiva às Artes o Esquadro e o Compasso (emblemas da Rectidão e Exactidão, Justiça e Verdade), as Ciências abordadas na Terceira Viagem trazem consigo a Régua e a Alavanca simbolizando a o Juizo Recto e o Poder do Trabalho, na Quarta Viagem temos o Nível que simboliza a igualdade Social relacionando-se dessa forma com os Beneméritos da Sociedade, finalmente na Quinta e ultima Viagem nesta   passagem entre colunas Glorificamos o Trabalho o que é simbolizado através da Trolha.

Irei nesta Prancha tentar abordar com maior detalhe este ultimo símbolo face à sua relação com a Glorificação do Trabalho, relação que me despertou algum interesse pois faz parte da minha formação de base enquanto Cidadão estando a Glorificação do Trabalho relacionada até com a escolha do meu Nome Simbólico, e por coincidência escrevo estas linhas no dia primeiro de Maio de 2017.

Como já referi numa prancha anterior a Maçonaria como a conhecemos actualmente é Especulativa ou Filosófica e assim vincadamente Simbólica e somos igualmente uma Ordem Ritualista, como Arnaut refere as nossas “reuniões obedecem a determinados ritos, que traduzem simbolicamente, sínteses e sabedoria, remontando aos tempos mais recuados”, importa assim verificar a origem deste símbolo.

Trolha (tro·lha) tem a sua origem no Latim trulla. Tem diversos significados correntes sendo uma espécie de pá em que o pedreiro tem a argamassa de que se vai servindo (colher de Pedreiro), pode ser o servente de pedreiro ou o Pedreiro, um operário que assenta e conserta telhados, pintor de brocha ou até no calão ser utilizado para definir um homem sem importância ou sem préstimo e até violência física.

Qual a sua relação com a Maçonaria?

Verificamos que tem uma relação directa com a Maçonaria Operativa pois estamos perante a conhecida colher de pedreiro, ferramenta da Construção que é utilizada para misturar, separar, colocar ou até projectar argamassa nas diversas superfícies da obra em curso, é utilizada igualmente para alisar e uniformizar essa superfície com vista a aperfeiçoar e terminar a obra.

É exactamente na transposição desta sua função que facilmente percebemos um dos seus significados na Maçonaria Especulativa, terminar a obra e aperfeiçoa-la. Começando na Pedra Bruta desbastada pelo Maço e Cinzel e após aplicação na obra através do Esquadro, Compasso, Régua, Alavanca e Nível utilizamos a Trolha para a finalização do Trabalho.

Qual a sua relação com a Glorificação do Trabalho?

Em Maçonaria o Trabalho reveste-se de especial importância pois o mesmo é constante, o Obreiro trabalha numa Obra que não terminará, no seu intimo com o objetivo de evoluir e contribuir sempre que possível para um Mundo melhor mais Justo e Perfeito. É através deste Trabalho constante que conseguiremos moldar o mundo para melhor, mais equitativo e fraterno.

Assim Glorifica-se a importância do Trabalho e não só apenas do Trabalhador Individual, pois como a Trolha consegue uniformizar uma superfície também aqui se pode fazer a transposição para a uniformização dos Trabalhadores independentemente da importância relativa que possam ter em determinado momento em Loja, dessa forma a colocar todos os Obreiros em igualdade nos permite sermos pares e Fraternos. Desta Fraternidade não é indissociável o altruísmo e a solidariedade com os que ainda não laboram por ainda não ter chegado a sua hora e os que por algum motivo já não podem trabalhar, desta Fraternidade podemos fazer uma transposição para o Mundo Profano com a formação necessária para formar Cidadão, a manutenção de sistemas de protecção de quem já não pode trabalhar e até na defesa das condições de trabalho dos trabalhadores aos seus mais diversos níveis.

São estes os únicos simbolismos Maçónicos da Trolha?

Não, em “A Simbólica Maçónica” Jules Boucher recorrendo aos autores Plantageneta e Wirth remete-nos para outro significado relacionado com a característica dessa ferramenta uniformizar e unificar Argamassa que é simbolizar a Benevolência, a Fraternidade e a Tolerância sendo o símbolo do Amor Fraterno que une todos os Maçons entre si.     Da mesma forma que a Trolha faz com que desapareçam as irregularidades numa superfície unificando a mesma e parecendo una, devemos nós utilizar a mesma em Maçonaria de forma a mesmo sendo distintos entre nós como as sementes das Romãs que ornamentam as Colunas separadas na sua individualidade mas que se unem num todo, nós por essa diferença podemos ter perspetivas diferentes da realidade e caso surjam discórdias entre Obreiros devemos utilizar a Trolha como um elemento unificador e conciliador, passando a trolha sobre o assunto, pois por sermos Maçons Livres em Lojas Livres será usual pontos de vista discordantes e por vezes uma defesa mais acalorada de uma posição pedirá a utilização da Trolha Maçónica com vista ao restabelecimento da união fraterna .

É a Trolha uma Ferramenta do Companheiro?

Como Aprendiz as ferramentas utilizadas para o desbaste da Pedra Bruta são o Maço e o Cinzel sendo na passagem ao Grau de Companheiro feita a introdução às restantes ferramentas nas Viagens como referido anteriormente (Esquadro, Compasso, Régua, Alavanca, Nível e Trolha), pelo que sim já será uma das ferramentas utilizadas pelo Companheiro no aperfeiçoamento da Pedra Bruta com vista à sua transformação na Pedra Cúbica, no entanto podemos considerar que a Trolha pelo que vimos é uma ferramenta de utilização complexa pelo que demorará o seu tempo e orientação dos seus irmãos até que o Companheiro a maneje com Mestria. 


Autor: Armindo Matias