domingo, 23 de maio de 2021

Quadro "o Delta com o Olho que Tudo Vê”


Há 5 anos iniciei um percurso diferente na minha vida. Tive a oportunidade de aprender a pintar a acrílico e não a desperdicei. Então, rapidamente percebi que o que me aliciava era captar e projetar na tela a alma de quem retratava. Essa alma sentia-a no olhar pois, quando interagimos com alguém nos fixamos nos olhos do nosso interlocutor. Daí a facilidade e o meu enorme prazer de pintar os olhos dum rosto inspirador.

Faz agora 9 meses que abracei esta instituição, a maçonaria, que vou aprendendo a compreender e a integrar aperfeiçoando-me a mim próprio. A páginas tantas, surgiu espontaneamente em mim a vontade de pintar representando o Delta com o “olho que tudo vê”.

É este pois, o resultado desse impulso. Como para além dos irmãos maçons estão presentes muitos convidados, passo a explicar o significado do que aqui está representado:

Assim…
O Delta 4ª letra, em forma de triângulo, do alfabeto grego. símbolo da tripla força indivisível do poder supremo do divino e da natureza. Os 3 lados do triângulo representam a sabedoria, a força e a beleza. As suas 3 pontas têm a ver com o passado, o presente e o futuro. No seu conjunto, o triângulo, representa a eternidade.

O “olho que tudo vê”, simboliza o verbo, o princípio criador, a omnisciência da razão suprema, do dever e da consciência. Esse olho não manifesta qualquer orientação, não correspondendo, pois, nem ao lado direito (futuro) nem ao lado esquerdo (passado) sendo simétrico, centrado, equilibrado (transcendência do presente).

Com um especto humano, pode corresponder a um Ser superior que me observa, podendo igualmente ser eu próprio num processo de introspeção. Sou observado e observo-me.

O Compasso e o Esquadro, na maçonaria surgem sempre representados juntos como uma associação entre o espírito e a matéria. O compasso será a medida na pesquisa e o esquadro a medida na acção.

O Compasso representa a amplitude do pensamento. Símbolo da justiça agente da medição dos atos humanos e da infalibilidade e imparcialidade do divino. O Compasso com os braços abertos para o ocidente, mostra que a emanação do espírito e do conhecimento proveniente do oriente deve ter como alvo aqueles que aí (no ocidente) se encontram.

O Esquadro, resultado da união da linha vertical com a horizontal é o símbolo da retidão, e também da acção do Homem sobre a matéria e sobre si mesmo.
Simboliza também a equidade, a moralidade dos nossos atos revelando o rigor do carácter e identificando-se com a ideia do justo.

O Esquadro com as pontas voltadas para oriente significa que o trabalho do aprendiz não deve ser só especulativo, mas deve sim ter um reflexo útil no mundo material. Assim, o Compasso (símbolo do espírito, elemento activo) sobre o Esquadro (símbolo da matéria, elemento passivo) simbolizam a supremacia do conhecimento espiritual sobre a matéria representando, pois, o equilíbrio das virtudes maçónicas.

O Sol e Lua correspondendo ao princípio da dualidade presente na natureza (bem e mal, homem e mulher, dia e noite, quente e frio, positivo e negativo, activo e passivo, etc.), representam os conhecimentos que devem ser adquiridos pelo maçon tanto na luz como nas trevas.

O Sol fonte de luz e de calor é o símbolo da existência e da vida, da saúde, do equilíbrio, e da força.

A Lua como princípio passivo e feminino é símbolo da instabilidade, da mudança, da imaginação e da sensibilidade. A Lua em quarto crescente corresponde à adolescência, fase em que o Homem é sujeito à aprendizagem universal (representando igualmente o inconsciente coletivo e a memória).

Por último: A letra G surgiu na maçonaria como substituição da letra hebraica iod de Jheova (sinónimo de o princípio). Com vários significados, é a primeira 1ª letra de: God /Deus; Geometria, Geração - perpetua-se, Gravidade- força que determina o equilíbrio entre matéria e o seu movimento, Génio - capacidade que o homem tem de interligar ao mais alto nível, Gnose - conhecimento da moral e da ética, bases do progresso/evolução
humana Grande Arquiteto do Universo.


Autor: João Bosco

domingo, 9 de maio de 2021

O Valor Solidariedade nos Nossos Dias

O Estado moderno nasce com Maquiavel. O pensamento político medieval, herdeiro dos conceitos do Império Romano e da romanização dos Bárbaros, era subordinado à teologia, à filosofia e ao direito. Do ponto de vista social tinha gerado o Feudalismo. Com Maquiavel inaugura-se a ideia de estado absoluto, de predomínio do Príncipe sobre os cidadãos exercendo o poder de forma pragmática. Deste modo, o pensamento maquiavélico – historicista, antropocêntrico, pessimista, autoritário, laico e por vezes antirreligioso – separou historicamente a Igreja do Estado.

Do séc. XVI ao séc. XVIII o absolutismo foi-se desenvolvendo, a ponto de se chegar a legitimar de forma transcendente, pelo direito divino dos reis. A evolução política da França, a partir das guerras da religião do séc. XVI, documenta este processo: depois de Richelieu e Mazarino terem lançado os fundamentos do Estado central e enfrentado os resquícios das feudalidades, Luís XIV, ele próprio temperado pelas dificuldades da Fronda, traçou e cumpriu uma estratégia de engrandecimento e reforço do poder do estado sobre a sociedade e a nação francesas e do poder absoluto do monarca sobre o Estado.

Ao longo do séc. XVIII este modelo vem a vigorar na Áustria, Rússia, Prússia, Suécia, Dinamarca, Espanha, Portugal e Nápoles, em réplicas mais ou menos conseguidas. Esta asfixia dos povos e das nações deu origem a movimentos filosóficos de repúdio e a novas formas conceptuais de organização política, de que é exemplo modelar a teoria da separação de poderes de Montesquieu. É o início do Iluminismo, a entrada no Século das Luzes, no qual a Maçonaria tem um papel importante, senão o mais importante.

Da Revolução Francesa saem os três valores, que no fundo são nossos e ainda hoje celebramos: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Assim, o séc. XIX vem a ser o século dos Estados constitucionais liberais, os quais assumem uma forte neutralidade ideológica, porém num quadro jurídico de humanismo laico, ainda que, como observa Jaime Nogueira Pinto, se lhe possa assacar uma certa componente ideológica, ao defenderem “uma certa concepção de individualismo liberal oligárquico, uma espécie de democracia de notáveis em que a liberdade e a propriedade eram os valores fundamentais”.

No entanto, a partir de meados do séc. XIX a Revolução Industrial vem criar enormes concentrações de riqueza, possibilitando que famílias, ou mesmo indivíduos, tenham condições de concorrer com os Estados em importância e sobretudo em Poder. Por contraponto, e apercebendo-se do que será o futuro com esta receita (capitalismo selvagem, por um lado, Estado não intervencionista, por outro), Marx e Engels publicam em 1848 o Manifesto Comunista, propondo uma organização dos estados nova e completamente revolucionária.

Estas duas novas forças vão digladiar-se na primeira metade do séc. XX. Na Europa, Itália, Alemanha, Espanha e Portugal caem em regime de ditadura de Direita. E embora fascismo, nazismo, conservadorismo rural e corporativismo sejam realidades diferentes, às vezes mesmo muito diferentes, elas são organizáveis numa mesma categoria: regimes ditatoriais com prevalência do económico sobre o político. Por seu lado, a Rússia segue a via do comunismo, integrando como União Soviética uma série de Estados satélites. A França, como de costume, experimenta de tudo, desde Léon Blum à República de Vichy e à ocupação hitleriana.

No rescaldo da Segunda Guerra Mundial, no entanto, saem triunfantes os valores da liberdade, os nossos valores, os valorespor que lutaram os nossos irmãos antigos. Durante os trinta anos seguintes, os chamados anos dourados, a Europa é governada por forças moderadas, herdeiras do liberalismo democrático, com alternância entre a democracia cristã e a social-democracia.

Porém, com o advento da revolução tecnológica aconteceu algo semelhante ao que já acontecera na revolução industrial. O centro moderado esbateu-se. A Democracia Cristã, personalista e solidária, desapareceu algures no tempo, permitindo uma deriva para um liberalismo, ou neoliberalismo, desenfreado e novamente selvagem. A social-democracia, socialista e igualitária, em contraponto com a ditadura do proletariado do chamado socialismo científico, paradoxalmente perde a voz com a implosão da União Soviética, a que se seguiu a mudança de regime também na China, e deixa de contar como força política relevante, reduzindo-se a mero porta-voz de temas menores, embora importantes, como os direitos dos animais ou os direitos das minorias. A revolução tecnológica está a conduzir-nos, nestes tempos, de novo à prevalência do económico sobre o político, levando-nos a novas formas de exploração selvagem que nenhum modelo anterior pode ou sabe combater.

Estamos, portanto, num momento de transição em que iremos sair da Idade Contemporânea em direcção ao desconhecido. Ora, é neste momento que mais uma vez a Maçonaria, que sempre iluminou os grandes saltos históricos da evolução da Humanidade, tem uma palavra a dizer e um papel principal a desempenhar.

Observe-se que dos nossos valores iniciais, Liberdade, Igualdade e Fraternidade, a Liberdade está felizmente conquistada. A Fraternidade está disponível. Resta-nos cumprir a Igualdade. E a globalização pôs a nu o enorme atraso da Humanidade na promoção da Igualdade.Já foi aqui em Loja referido, há pouco tempo, como a revolução tecnológica, a robótica, a inteligência artificial e todas estas conquistas científicas estão a destruir milhões de postos de trabalho. Tentar defender os postos de trabalho contra o avanço tecnológico será como tentar desviar o curso de um rio com uma tábua.

Se, nesta conformidade queremos glorificar o direito e a justiça, queremos, enfim, fazer Maçonaria, temos de invocar um novo valor para nos nortear: a solidariedade. Este será o novo valor essencial para a promoção da igualdade entre os Homens.

Falta solidariedade quando se fecham fronteiras a quem, fugindo da guerra, só deseja uma oportunidade para, em paz, reiniciar a sua vida; Falta solidariedade quando se luta cinicamente na parte rica do mundo por 35 horas de trabalho semanal e nunca se tem uma palavra acerca daqueles que, na China, são obrigados a trabalhar 60 horas por semana para, apenas, sobreviver; Falta solidariedade quando se não critica o autêntico esbulho de matérias-primas a um continente inteiro – a África – sem que se promova que lá sejam instalados meios de produção que permitam um modo de vida condigno aos seus habitantes, aliás até há pouco chamados depreciativamente indígenas.

O mundo actual está a sofrer de um vergonhoso défice de solidariedade. É aqui que eu penso que nós, maçons, honrando os nossos antigos, temos uma palavra a dizer e nos devemos colocar na primeira fila da solidariedade, como forma privilegiada de combater pela igualdade contra a tirania, como é nossa obrigação.

Aqui têm, meus irmãos, as minhas reflexões acerca da viragem que o mundo enfrenta nos nossos dias. Infelizmente, porém, embora seja para mim claro que só através de uma porfiada lutaa favor da solidariedade poderemos cumprir os nossos ideais, não tenho mérito nem talento para ousar indicar um caminho, e por isso me desculpo por estas reflexões conterem mais dúvidas do que conclusões. Penso, no entanto, que estas reflexões são úteis para que todos possamos contribuir para aquilo que aqui nos reúne: combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o direito, a justiça, a verdade e a razão.

Com poucas certezas, estou porém certo e seguro relativamente à importância que o valor solidariedade hoje tem e continuará a ter para nós.


Autor: Bocage

 

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Abílio Mendes

Pretendo homenagear com este ato uma das primeiras pessoas que “vi” quando abri os olhos para o mundo profano e que me acompanhou durante toda a minha infância, o meu médico pediatra: Abílio Mendes. Era alguém com quem senti, desde muito novo, o que é ser Maçom. Alguém que contribuiu indiretamente para que Vos tenha hoje como Irmãos.

Durante a fase inicial de descoberta do mundo, em que tudo é novidade para uma criança, ir ao médico pode representar uma boa aventura. Primeiro, o passeio com a minha bisavó, sempre com a minha bisavó, até ao seu consultório na Av. António Augusto de Aguiar.

Depois, a brincadeira com os outros meninos na sala de espera. E finalmente, a consulta. Qual consulta qual quê! O momento em que dois adultos experientes estavam à conversa e trocavam conselhos sobre a vida. O momento em que um minorca como eu podia descobrir mais qualquer coisa sobre esse tal mundo completamente desconhecido da vida. Que privilégio. Acredito que deveria passar todo o tempo de olhos esbugalhados e de ouvidos bem abertos.

Abílio Mendes já tinha sido pediatra do meu pai e tios. Afinal já havia uma ligação de alguns anos à minha família. Era nosso amigo.

De vez em quando lá havia nova encontro. Agora, que eu já tinha outra consciência, aproveitava as consultas para ir conhecendo melhor a minha família e ia naturalmente apercebendo-me do carácter e da beleza interior enquanto ser humano do meu médico.

Era alguém com imensa autodisciplina. As consultas começavam às 14:00 e a essa hora abria-se a porta do consultório e lá aparecia ele de chapéu de feltro, com o seu bigodinho característico e com o seu ar ternurento.

Era uma pessoa que não apontava as fraquezas do ser humano, procurando ser um impulsionador da mudança pela positiva. Apercebi-me que durante vários anos procurou

fazer ver aos meus pais a importância de interromperem o consumo de drogas e de apostarem num projeto de vida.

Não escolheu a profissão pelo dinheiro. Movia-o o seu espírito de missão, o seu gosto constante em ajudar o outro e a ajudar a formar as mulheres e os homens do futuro. Havia inclusive casos de pessoas com menos posses que pagavam o que podiam pelas consultas. Hoje, se cada um dos seus pequenos pacientes doutrora fechar os olhos, sente por certo a sua enorme força presente.

Após ter deixado as suas consultas ainda ia sabendo novidades. O meu antigo pediatra recebia agora as visitas dos meus dois primos.

Anos mais tarde em 1992, tinha eu 15 anos, soube pelos meus avós e bisavó da triste notícia da sua morte. Na necrologia de um qualquer jornal era referido este triste acontecimento e era ainda feita nota a algo para mim desconhecido até ao momento. Estava anunciado que o seu corpo estaria em câmara ardente no Palácio Maçónico.

De imediato comecei a pesquisar mais sobre o Palácio, sobre a sua localização, sobre a Maçonaria, sobre o Grande Oriente Lusitano e claro, sobre Abílio Mendes.

Na altura, estudava no Conservatório Nacional, na Rua dos Caetanos. Lembro-me que a passagem pela Rua do Grémio Lusitano tornou-se obrigatória. Talvez tivesse sorte e a porta estivesse aberta. Num dos dias até vi os mosaicos brancos e pretos do chão.  Fiquei todo contente.

A perceção que tinha de si e das suas qualidades, graças ao contacto direto que tive com ele, veio a confirmar-se e a uma escala completamente diferente. Afinal, Abílio Mendes tinha tido um papel interventivo na Sociedade Portuguesa. Deixou marca.

A maioria dos factos que passarei de seguida a descrever foram apoiados na publicação intitulada “Abílio Mendes”, editada pela Comissão Municipal de Toponímia da Câmara Municipal de Lisboa, em junho de 2010, por altura da inauguração da Rua Abílio Mendes.

Abílio Mendes nasceu em 1911 na Maia. Fazia parte de uma família simples e era o mais novo de onze irmãos.

Estudou medicina, primeiro no Porto e depois em Lisboa, para onde se muda após ter sido referenciado pela imprensa como opositor ao Estado Novo.

Durante o seu percurso académico teve uma intensa atividade no movimento associativo estudantil como delegado de curso, membro da Direção da Associação de Estudantes e representante da Faculdade de Medicina no Bloco Académico Antifascista. Durante este período participou também ativamente nas revistas universitárias das duas Faculdades de Medicina onde estudou.

Em 1933 foi iniciado Maçom. Conforme assumiu, foi uma nova fase na sua vida. Conviveu com Eugénio Ferreira, Keil do Amaral, Ângelo Cortesão Casimiro, Orlando Juncal, Fernando Santos Silva e Alexandre Babo, entre outros.

Mais tarde veio a ter conhecimento de sua proposta de expulsão do curso pelo Ministro da Educação, quando apenas lhe faltava uma cadeira para terminar o curso. Valeu-lhe o apoio de alguns professores que convenceram o governante a deixá-lo terminar o curso.

Embora muitos dos seus companheiros das Lojas Maçónicas tenham entrado no Partido Comunista, Abílio Mendes nunca aderiu aos ideais da revolução soviética, perfilhando antes os ideais vindos da II Internacional. Fez parte da Acão Democrata e Social, do MUD, da Acão Socialista Portuguesa e mais tarde foi um dos fundadores do Partido Socialista. Já formado, concorreu por duas vezes aos Hospitais Civis de Lisboa e sempre bem classificado foi excluído por decisão ministerial, o que o impediu de entrar nos hospitais e na carreira universitária.

Obrigado a fazer a sua formação de Pediatra em regime de voluntariado, foi posteriormente convidado pelo professor de pediatria, Carlos Salazar de Sousa, para seu “assistente livre“.

Mesmo impedido pelo regime de entrar nos quadros dos hospitais, Abílio Mendes fez parte do grupo que abriu o serviço de Pediatria do Hospital de Santa Maria, onde dedicou muitos anos da sua vida profissional sem qualquer remuneração.

Conseguiu ao longo dos anos através da persistência, sabedoria e brilhantismo angariar um nome com grande reconhecimento nacional ao desenvolver a sua actividade como médico pediatra no consultório, tendo este sido o único meio de subsistência para si e para a sua família.

Aliou a sua vida profissional a uma constante preocupação pelo estudo e pela leitura dedicado sobretudo à Pedagogia e aos Filósofos do Socialismo.

Em 1982 aceitou o convite para Presidente da Liga Portuguesa dos Direitos Humanos e em 1990 foi agraciado com a condecoração de Grande Oficial da Ordem da Liberdade.

Foi ainda, nos últimos anos da sua vida, membro efetivo do Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite para Portugal.

Os elogios fúnebres, foram proferidos pelo seu correligionário e amigo José Magalhães e pelo então Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa, Ramon de La Féria, que recordou: “(...) Resistiu sempre contra o obscurantismo, contra a tirania e a ditadura Fascista que durante quase cinquenta anos tentou aniquilar o Grande Democrata e Republicano Doutor Abílio da Costa Mendes, e apesar de todos os obstáculos, traições e perseguições da PIDE conseguiu sobressair com tenacidade, vigor e real valor assumindo-se na Sociedade Portuguesa como Personalidade impar não só Cívica como Cientifica, como ainda fez sempre vingar o seu pendor Humanista e a Tolerância (...)”.

Referi, no início deste trabalho, que com Abílio Mendes tive o privilégio de sentir e ver o que é ser Maçom.

Acredito hoje, de forma veemente, que após o triste momento da sua morte iniciei o meu percurso consciente de aprendizagem e de trabalho da pedra bruta.


Autor: Abílio Mendes

A Humildade

“Acredito que o primeiro teste de um grande homem é a sua humildade. Não quero dizer com humildade, dúvida do seu poder. Mas os grandes homens têm um sentimento curioso de que a grandeza não é deles, mas por meio deles. E eles vêm algo divino em todos os outros homens e são infinitamente, totalmente e incrivelmente misericordiosos” – John Ruskin, 1819 - 1900.

Humildade, do latim humilis, o pequeno, o que está perto do húmus, isto é, do chão. Para Aristóteles, a virtude que conduz o indivíduo à consciência das suas limitações. Segundo a Bíblia, consiste em ter-se consciência das próprias limitações, ser manso e humilde de coração (Jo. 1, 16), não se apropriando dos dons e pondo-se ao serviço de todos, sendo a virtude oposta ao orgulho e a soberba, naquilo que em Maçonaria se costume esconder sob o título de eterno aprendiz.

É a característica que define uma pessoa modesta, alguém que não acredita ser melhor ou mais importante do que os outros de forma alguma. É a ausência de arrogância. Estabelecemos como ponto de partida quanto ao seu significado, o conhecimento das próprias fragilidades e limitações; bem como minimizar conquistas e virtudes, reconhecendo falhas e erros.

Para a colocar no quadro filosófico, cito brevemente a conceção díspar de humildade de Immanuel Kant, que afirmava: “a humildade é a virtude central da vida ao fornecer uma perspetiva apropriada sobre a moralidade” e Friedrich Nietzsche que, em contraste, considerou que a humildade “é uma falsa virtude que esconde as deceções de uma pessoa”. Para Nietzsche, a humildade ia contra o impulso vital.

Como tal, surgem-me algumas reflexões interessantes e de aparentes contradições, como o fato de que uma pessoa humilde deixa de o ser quando a autoproclama.

Do ponto de vista da evolução espiritual, a humildade é uma virtude do realismo, pois consiste em ter consciência das nossas limitações e inadequações e em agir de acordo com essa consciência. Mais exatamente, a humildade é a sabedoria de quem somos. Em outras palavras, é a sabedoria de aceitar nosso nível evolutivo real.

António de Oliveira Marques a define como característica maçónica, ligada a aprendizagem e ao aperfeiçoamento constante de todo obreiro, qualquer que seja seu grau. Na Maçonaria, parte-se do princípio de que todos têm a aprender com os seus irmãos e de que o convívio em loja, independente de quaisquer diferenças de idade, classe ou profissão, é um dos meios mais úteis dessa aprendizagem. A humildade aparece simbolizada em vários atos rituais, do primeiro ao último grau. Liga-se em parte, aos princípios da disciplina e da obediência que regem toda a organização maçónica e que não devem ser confundidos com despotismo e tirania 

Portanto, a humildade é o requisito imprescindível de todo aquele que percorre o Caminho Iniciático na busca da Verdade, pois grande parte da disciplina desse Caminho, baseia-se na consciência da limitação do seu saber, buscar ativamente e preencher-se em virtude dessa falta.

Em geral, a humildade é considerada como algo positivo, embora em sociedade se verifique que as nossas coberturas e conversas mediáticas não são feitas por pessoas humildes. 

A humildade não é algo que se encontre num estado natural nos homens, em vez disso, aparece exclusivamente num contexto social.

Se aprofundarmos a sua existência real, a reflexão que nos proporciona é que talvez o que realmente está subjacente a ela seja a empatia, a capacidade de se colocar na posição de outro ser e consequentemente ter consideração pelos seus sentimentos e emoções. O humilde não festeja com ostentação as conquistas para não ferir a sensibilidade de quem ficou na estrada. Antes sim, como princípio universal da maçonaria, estende a mão ao semelhante.

As qualidades gerais que contribuem sobre pessoas humildes é que são pessoas que não falam de si mesmas, não invejam, não se gabam.

Na sua obra "A Genealogia da Moralidade" Nietzsche argumenta sobre a origem da moralidade cristã, por meio da análise do contexto histórico e da psique humana, que o cristianismo não nasce do amor ao próximo, mas sim que sua gênese está no profundo ressentimento e ódio que os fracos têm pelos poderosos.

A humildade passa por maus bocados na nossa sociedade, em grande medida porque é uma qualidade incompreendida pela maioria das pessoas. As pessoas pensam nisso como um desprezo deliberado pela própria capacidade, uma abnegação que ignora o talento e a realização.

Não é!

Humildade é o ato de ter a Sabedoria de se retirar do centro do universo e reconhecer que os outros merecem amor tanto quanto nós. É a capacidade de fazer solicitações e não demandas, pois uma demanda é uma forma de dizer “Eu sou mais importante do que vós”. Um maçom não deve fazer essa afirmação, porque somos todos Irmãos, vivendo no Nível, onde nenhum homem é mais importante do que outro. 

A mente humilde é recetiva por natureza e, portanto, está mais disposta a ouvir e apreender. No caso oposto, há a mente arrogante que, por saber muito sobre algum assunto, se acredita capaz de discernir assuntos sobre os quais não conhece nem mesmo os princípios mais básicos, acreditando que está preparado para fazer julgamentos válidos sobre coisas que não tem a mínima ideia. Nessa falta de reconhecimento dos limites do seu saber, o arrogante constrói sua ilusão de ser mais importante que os outros.

O sucesso em servir aos outros vem da humildade; quanto mais humildes, maiores conquistas obteremos. Não pode haver benefício para o mundo sem humildade. Quando expressamos uma opinião, devemos fazê-lo com o coração e a mente abertos para aceitar as particularidades, força e sensibilidade de nós mesmos e dos outros.

Dizem, que uma vez um Aprendiz perguntou a um Mestre qual era a chave para se tornar um verdadeiro Maçom. Ele respondeu que estava no triplo "C", ou seja, Compromisso, Constância e Consciência. 

O Aprendiz perguntou: porque então havia tão poucos maçons verdadeiros, ao que o Mestre respondeu: que muitas vezes aqueles que entraram na Maçonaria procuraram satisfações materiais que os afastaram do caminho; que títulos bombásticos e reconhecimentos mal interpretados desencadearam os desejos descontrolados do Ego. O Mestre acrescentou, que à medida que se avança no caminho para a Luz, esses apetites são vencidos e o supérfluo desaparece, restando no final a simplicidade e a humildade, que conduzem ao serviço da Humanidade.

Ser Maçom é ensinar com responsabilidade e generosidade. Se temos de fazê-lo, se somos discípulos, aprender com humildade, sempre observando o princípio de ouvir e estar em silêncio.

A humildade é uma das virtudes exigidas ao maçom. A Maçonaria considera o homem como um ser imperfeito, o qual trabalha a pedra bruta com o estudo dos símbolos para se aperfeiçoar e irradiar as suas realizações para o mundo exterior. 

Portanto, a Maçonaria aceita a vaidade como situação de imperfeição, e à medida que a pedra é polida diminui em favor da Humildade, desde que não vá a extremos que a tornem uma imperfeição. É o que acontece com a falsa humildade, que é a pretensão de ser menor do que realmente sabemos que somos.

A Maçonaria deveria fechar as portas, a quem transfere do mundo profano, as suas ambições, soberba e vícios para a esfera da Ordem contaminando-a.

Para terminar, cito um pensamento de Cícero Rodrigues:

“O inútil vive de ódio; o hipócrita vive de mentiras; o idiota vive de ignorância, mas o humilde vive de amor, verdade e sabedoria”


Autor: Viktor Frankl

segunda-feira, 12 de abril de 2021

João Bosco

João Bosco (Giovanni Melchior Bosco 1815-1888) nasceu em 1815 em Castelnuovo/Piemonte num período tumultuoso da história pós-romana de Itália conhecido como "Il Risorgimento" ("O Ressurgimento"), em que esta se encontrava fragmentada em vários reinos e cidades-Estado (posteriormente unificada em 1861). 

Filho de humildes camponeses, ficou órfão de pai quando tinha apenas dois anos de idade. Devido à difícil situação económica, pela qual passava o norte da Itália, a sua infância foi marcada pela pobreza da família. Assim, viveu a juventude e a época dos primeiros estudos com enormes dificuldades. Durante algum tempo foi mesmo obrigado a mendigar. Fez toda a espécie de trabalhos: foi costureiro, sapateiro, ferreiro e carpinteiro.

Com 13 anos de idade começou a estudar e aos vinte, ingressou no Seminário. Foi ordenado sacerdote em 1841, altura em que se transfere para Turim. Cinco anos depois funda o Oratório de São Francisco de Sales (oratório era um tipo de obra assistencial da igreja Católica para jovens que incluía o lazer a educação e a catequese) ao qual se viria a juntar uma escola profissional, um ginásio e posteriormente um internato.

João Bosco pretendia organizar uma associação religiosa, mas o então difícil contexto político e revolucionário, da unificação da Itália, que incluía a luta pela separação entre Estado e Igreja, não era favorável à criação de uma ordem religiosa nos moldes tradicionais. Assim, optou por criar uma sociedade de cidadãos que se dedicasse às atividades educativas realizadas pelos oratórios, todavia em moldes civis.

Em 1859, com a adesão de seus companheiros padres, seminaristas e leigos, funda a Congregação Salesiana (Pia Sociedade São Francisco de Sales), que seria vista pelo Estado como uma associação de cidadãos, e pela Igreja, como uma associação de religiosos. Foi também cofundador da congregação das Filhas de Maria Auxiliadora, conhecidas por irmãs salesianas.

Quatro anos depois, além dos oratórios, os salesianos passam a dedicar-se também a colégios e escolas católicas destinados a meninos e jovens. Com a separação entre Estado e Igreja, houve nessa época uma forte procura por escolas católicas, fazendo com que esse tipo de instituição se propagasse rapidamente.

Faleceu em Turim em 1888, com 73 anos de idade. 

Em virtude de ser o padroeiro dos jovens, e dos aprendizes, foi aclamado por João Paulo II como o "Pai e Mestre da Juventude". 


João Bosco e o espírito salesiano:

O propósito de uma ordem ou congregação religiosa é viver o carisma ou espírito de seu fundador. Assim, o espírito salesiano resume-se na expressão "querer ser como Dom Bosco" (SDB). 

A essência de João Bosco expressa-se através de um modus vivendi que, nas perspetivas temporal e espiritual, educa pelo exemplo. Sendo assim, do modelo de João Bosco os salesianos extraem alguns aspetos que refletem a prática do carácter salesiano, a saber:

- O sentido cristão, tendo como ponto de partida o amor de Cristo pela humanidade, base do amor salesiano pelos jovens;

- O desenvolvimento da ação e vida salesianas na convivência interpessoal em comunidade, na diversidade de pontos de vista, e de culturas, na unidade da fé;

- O espírito alegre enraizado em S. Francisco de Sales que valoriza as novidades do mundo temporal, quando fontes de alegria, de interesse e de agrado para os jovens, desde que não firam a moral e os bons costumes: pela prática da alegria, aprende-se a distinguir entre o entusiasmo passageiro e a felicidade da vida cristã;

- Uma atitude em que não se lamenta, nem se perturba, perante a adversidade, mas que responde aos desafios com uma visão otimista da vida e com trabalho, de forma simples, direta e descomplicada;

- O espírito atento e criativo, com iniciativa, capaz de acompanhar e antecipar a história para estar perto da humanidade e sobretudo dos jovens;

- Diferentemente de outros modelos de espiritualidade cristã e católica, a vocação salesiana não se concretiza, nem pode ser vivida, em clausura absoluta. É próprio desta, reunir as pessoas em família em torno da missão de atender, cuidar, educar e amar a juventude.

Em síntese: historicamente o carácter salesiano concretiza-se de modo pleno na família salesiana, que é a comunidade maior que manifesta o espírito cristão de Dom Bosco para o mundo atual.


Espírito salesiano / Espírito maçónico:

A similaridade entre os espíritos salesiano e maçónico é evidente e frequente nos vários aspetos doutrinários, de atitude e de objetivos, senão vejamos:

- Segundo as Constituições de Anderson os maçons deverão ser “homens bons e leais, de honra e probidade”, (probidade é sinônimo de retidão, dignidade, decoro, decência, honestidade, honradez, integridade, respeitabilidade, seriedade), ou seja, homens livres e de bons costumes independentemente da denominação ou convicção que os possam distinguir;

- O maçom deve atender à moral, isto é, aos costumes, baseados em princípios éticos (a ética é o suporte da moral e esta a origem da norma);

- O maçom pode, e deve, pugnar pela evolução e melhoria da sociedade através de um comportamento exemplar;

- O maçom deve ser um homem de fé, em que os contornos e a estrutura da crença não é imposta aos demais, para que todos se encontrem no espaço comum da partilha de valores fundamentais, podemos dizer mesmo religiosos (no seu sentido etimológico “o que liga”), com a qual todos os homens concordem. Daí a expressão Grande Arquiteto do Universo, com a qual é possível designar a divindade em que cada um creia, independentemente de ser cristão, judeu, muçulmano, hindu, budista, etc.). Esta convicção religiosa teísta é conjugada com o princípio da tolerância (guardar “as opiniões pessoais para si próprios”);

- Outra caraterística essencial da Maçonaria é de uma instituição fraternal (“a Maçonaria será um centro de união e um meio de concretizar uma verdadeira amizade entre pessoas que de outra forma permaneceriam separadas”).

Assim, a essência da Maçonaria é ser uma organização baseada na Moral respeitando a legalidade vigentes, restrita a crentes, tolerante quanto às crenças individuais de cada um, agrupando homens livres e de bons costumes, de índole fraternal.


Conclusão:

A minha admiração por João Bosco advém de, como sacerdote católico, ter sido um renovador do sistema de educação da juventude e do ensino profissional (um dos criadores do sistema preventivo em educação) e pela dedicação de toda a sua vida aos jovens sobretudo aos órfãos que, então nas grandes cidades, eram explorados por empregadores sem escrúpulos.

As suas relações com políticos, e com pessoas influentes, bem como a amizade direta com Papas, ter-lhe-iam dado uma elevada importância política que este canalizou para a concretização dos seus ideais, sempre em benefício dos jovens desprotegidos e sem quaisquer perspetivas de futuro. Com empenho, sacrifício pessoal e dedicação permanente, João Bosco levou a cabo uma obra notável que, em 170 anos de existência, proporcionou uma melhor qualidade de vida a milhões de jovens, continuando a contribuir para o bem da humanidade e para o progresso da nossa sociedade.

À data da sua morte a Congregação Salesiana contava com 768 membros; 26 casas fundadas nas Américas; e 38 na Europa. Atualmente a sua atividade inclui Oratórios, Centros juvenis, Escolas profissionais, Internatos, Paróquias, Missões, Obras de promoção social e Comunicação social.

O meu profundo respeito, consideração e simpatia por João Bosco é consequência da minha própria experiência. Num período conturbado da minha vida pessoal e familiar (regresso do ultramar) tive a sorte de ter contactado, de muito perto, com a congregação salesiana do Estoril, e beneficiado do apoio direto da mesma pelo facto de aí ter um tio sacerdote. Esta proximidade contribuiu seguramente para moldar o meu carácter determinando a minha forma de estar na vida.

Esse apoio foi determinante para a minha formação profissional ao proporcionar-me algumas condições que me ajudaram a atingir os meus objetivos com o esforço e empenho pessoal.

O meu próprio pai também frequentou, nos anos 20, as oficinas de S. José em Campo de Ourique, destinadas à formação profissional de rapazes filhos de famílias com carências económicas (no pós 1ª Guerra Mundial).

Fraternidade é, pois, a palavra que exprime um dos principais valores que encontro em João Bosco e que me seduz no ideal maçónico.


Autor: João Bosco

terça-feira, 6 de abril de 2021

John Locke

O principal teórico do empirismo foi o filósofo inglês John Locke (1632 – 1704), que defendeu a ideia de que a mente humana é uma "folha em branco" ou uma "tabula rasa", onde são gravadas impressões externas. Por isso, não reconhece a existência de ideias natas, nem do conhecimento universal.

A Filosofia de John Locke tornou-se, desde sua época, conhecida como Liberalismo – a crença nos princípios da liberdade e da igualdade. As revoluções na América do Norte e na França, no final do século XVIII, tinham como base os ideais liberais. A Declaração de Independência e a Constituição norte-americana, via Thomas Jefferson, um dos seguidores de Locke, com ênfase na “proteção da vida, liberdade e propriedade”, podem ser diretamente identificados na sua filosofia daquele filho de puritanos que apoiaram a causa parlamentarista na Guerra Civil inglesa, eclodida em 1642 com uma série de conflitos gerados pelo temor que Carlos I tentasse introduzir o Absolutismo na Inglaterra.

Em 1661, Luís XIV deu início ao seu reinado absolutista na França, expresso na frase “L’État c’est moi”. Em 1689, a Declaração de Direitos inglesa assegurou os direitos do Parlamento e eleições livres de interferência da realeza. No Século XVIII, revoluções com participações populares levaram à criação de Repúblicas baseadas nos Princípios Liberais, progressistas naquela época.

Os motivos que me levaram na escolha de John Locke, prende-se ao facto de ter sido, não só um dos pioneiros do Empirismo, como também do Liberalismo, valores esses que coadunam com a minha forma de estar e de ser, enquanto individuo nesse contexto, o qual adotei de uma forma educacional e gradual. Posteriormente com a aprendizagem, e crescimento, no qual me fui revendo, e pretendo preservar tão valiosos conceitos, que, e de acordo com algumas adversidades que se cruzaram no meu percurso de vida, e de forma dolorosa, me fizeram valer mantendo uma postura enquadrada neste espirito, de carácter, atitude e compreensão, como base fundamental de minimizar, aceitar, respeitar e contribuir. Para que sejam referidos tais argumentos abaixo descritos, de realçar que ainda hoje são considerados pilares de uma sociedade mais justa, mais livre, igualitária, e mais tolerante, que se esperam um contributo necessário e constante do respeito pelo próximo.

Nesta breve reflexão, Locke inicia como argumento atacando a noção de que o entendimento possui princípios inatos e para sustentar isso, ao afirmar que qualquer homem pelo uso de suas faculdades pode ter acesso ao conhecimento sem o auxílio de ideias inatas. Segundo o mesmo, tudo isto constitui prova suficiente que o inatismo é falso.

Põe-se em posição contrária ao argumento do consentimento universal, o qual diz haver princípios que gozam de aceitação geral entre os homens. Mas, se isso for verdadeiro o argumento não se constitui numa prova para atestar o inatismo.

Utiliza outro argumento para apontar a falha do inatismo, é que ele parte da premissa que não pode haver conteúdos mentais sem que estes sejam percebidos. Sendo assim, não existem ideias inatas e que tenham consentimento universal, porque se assim fosse estas seriam conhecidas pelos idiotas e crianças. 

Vai-se de encontro ao argumento de que estas ideias são conhecidas na idade da razão. A razão não descobre estes princípios inatos, pois razão é “a faculdade de deduzir verdades desconhecidas de princípios ou proposições já conhecidos”. E mesmo se a razão descobrisse tais ideias isso só provaria a falsidade do inatismo. 

De acordo com as suas ideias, mostra que derivam de sensações 

A filosofia empírica (do grego empeiria = experiência) ganha formulação paradigmática, sistemática, metodológica e crítica consciente a partir de Locke.

Seguindo a linha tradicional do empirismo, que admite que todo conhecimento vem da experiência, portanto, dos sentidos, Locke busca compreender qual a gênese, a função e os limites do entendimento humano. Para isso, critica a noção cartesiana de sujeito como substância. “A mente é uma tabula rasa”, já diria Aristóteles, que é retomado aqui para evidenciar que nada não existe na mente que não estivesse antes nos sentidos.

A mente, segundo Locke, tem tanto o poder de operar combinações entre as ideias simples formando ideias complexas, como o de separar as ideias umas das outras formando ideias gerais.

Sendo uma teoria que se opõe ao Racionalismo, o empirismo critica a metafísica e conceitos como os de causa e substância. Ou seja, todo o processo do conhecer, do saber e do agir é aprendido pela experiência, pela tentativa e erro.

Locke foi o primeiro a articular os Princípios Liberais de Governo, a saber, que o propósito do governo era:
• preservar os direitos dos cidadãos à vida, à liberdade, e à propriedade,
• buscar o bem público, e
• punir quem violasse os direitos dos outros.

Numa luta contra o Estado absolutista, Locke foi favorável a um papel limitado para o governo:
• deveria proteger a propriedade privada das pessoas, uma conquista social contra os latifúndios aristocratas em época de predominância de uma sociedade rural.
• manteria também a paz, protegendo os cidadãos contra invasões estrangeiras, pois eram comuns as tentativas de conquista de territórios alheios como forma de acumulação de riqueza em uma sociedade rural.
• garantiria, assim, a produção de mercadorias para todo o povo.

O propósito governamental seria ajustar o que falta no Estado de Natureza para garantir a liberdade e a prosperidade do povo. Não haveria necessidade de escravizar as pessoas sob um governo absolutista. 



Autor: John Locke

quarta-feira, 31 de março de 2021

Quo Vadis Verdade

Quando iniciei as providências para discorrer sobre um “valor”, cedo me decidi pela “justiça”. É que a experiência profissional de três décadas a trabalhar na área do stresse fez-me perceber a importância da justiça na saúde da mente e do corpo, não olvidando as repercussões no que ao social diz respeito.

Com efeito, o ser humano, na sua essência bio-psico-social - seja na família, nas empresas, na sociedade, mas também na relação consigo mesmo -, é tingido pela virtude da justiça, no seu sentido lato relativo à equidade, imparcialidade e à integridade. Se ser tratado com justiça é um direito, relacionar-se com os outros de forma respeitosa e justa é um dever. 

Sobrevém que, a determinado momento da minha pesquisa e reflexão, me dei conta que a justiça não tem sentido sem “verdade”: ou será que pode haver justiça na mentira, na falsidade e na hipocrisia? Não creio, nem mesmo na mentira piedosa que muitos de nós preferem recorrer quando confrontados com situações relacionais difíceis.

Assim sendo, este escrito debruçar-se-á sobre aspetos do “valor verdade”. Digo “aspetos” porque, tratando-se de um conceito primordial da constituição do ser humano, é necessariamente abrangente, abraçando várias áreas do conhecimento, o que significa que as suas “hastes” podiam ser “pegadas” de vários vértices. 

Não tendo a pretensão de exaurir o assunto, no que seria uma jactância narcísica de abraçar o mito e a ilusão perfecionista de vislumbrar a verdade em todos os seus vértices, a minha escolha recai no lavrar terrenos em que me sinto mais confortável - e onde granjeei conhecimentos e experiência-, e que mais me cativam, a saber: os da subjetividade da mente humana, obviamente não desaproveitando a oportunidade de acostar, q.b., outros ângulos que se me afigurem importantes.

A “psicologia da verdade” pode ser vista como uma caixa preta de um avião, em que nela tudo fica registado. A mente também regista tudo, mas o sentido, a semântica dos registos, são filtrados pelas perceções decorrentes de sentimentos, afetos, emoções, pensamentos, crenças, sensações, linguagem (...). Assim, a verdade torna-se subjetiva, todavia nem por isso menos válida em relação à dita verdade objetiva.

Considerando que a busca da verdade constitui um dos problemas fundamentais da filosofia, não posso deixar de a realçar, porém, assumo conscientemente a opção por salientar a psicologia pois, como muito apropriadamente refere Donald Meltzer , um destacado psicanalista norte-americano, “toda a psicopatologia resulta de um autoengano”, por conseguinte encerrando na sua essência um dilema de verdade. 

Para além de Freud, que consolidou todo o edifício teórico-prático da psicanálise a partir da “falsificação mentirosa”, que as suas pacientes histéricas faziam das verdades reprimidas, também Wilfred Bion, um dos marcos da psicanálise, dedicou-se, a partir de 1958, no seu livro que traduzo por “Na Arrogância” , ao problema da verdade.

De acordo com este autor, que destacou os conceitos de verdade, falsidade, mentira e hipocrisia, o processo que leva à sua formação está intimamente associado à evasão do conhecimento das verdades. 

Pergunta: mas porque é que isto acontece se a criança está inatamente preparada para descobrir a verdade? Eis a resposta psicanalítica: por impedimentos principalmente emocionais, porque o ser humano está mais voltado para evadir e dominar as emoções difíceis do que propriamente para as enfrentar e, assim, promover um autêntico crescimento da personalidade. O ego, propugna a psicanálise, tem medo de conhecer as verdades porque elas estão associadas a intensos conflitos emergentes dos seus dramas e tragédias íntimas.      

Mas voltemos a Bion. Enquanto a falsificação configura um processo eminentemente inconsciente, na mentira predomina uma intenção consciente, ou pré-consciente, de produzir uma distorção da verdade. Já sobre a hipocrisia o psicanalista esclarece: “o facto de um indivíduo ter ódio à “não verdade”, não é o mesmo que ter amor à verdade”; e acrescenta, “a forma hipócrita de lidar com a verdade pode ser observada nas personalidades obsessivas, as quais, embora o façam de forma honesta, não toleram transgressões às verdades conhecidas, porém, a título de funcionarem como vestais da verdade, elas opõem-se tenazmente ao surgimento de outras faces ocultas dessa mesma verdade, ou de outras tantas intoleráveis” . 

Nas palavras do saudoso Carlos Amaral Dias - para quem, como psicanalista, mestre e amigo, tenho uma enorme dívida de gratidão-, estamos na presença de uma defesa psicológica inconsciente para não se ser “apanhado com as calças na mão”. Um exemplo delicioso disto mesmo foi muito bem popularizado por Herman José, na célebre figura do Diácono Remédios, que no seu discurso rançoso moralístico de índole religiosa, “não havia necessidade”, faz assomar, por trás de uma protocolar secretária, duas sedutoras, sexies e experientes donzelas, simulando o fellatio. Eis a verdade da mentira do colorido obsessivo, não necessariamente patológico, aliás muito bem conhecido e descrito pela psicanálise.

No que diz respeito à origem e conceção, três vocábulos se distinguem, cada um deles com uma aceção diferente de verdade: a palavra latina veritas, a hebraica emunah e a grega aletheia. 

Veritas refere-se à precisão do discurso, relacionando-se ao rigor exatidão de uma descrição ou relato, no qual se diz - com detalhes, pormenores e fidelidade -, o ocorrido. Emunah significa confiança; a verdade é uma crença com raiz na esperança e na confiança, por conseguinte relacionadas com o futuro, com o que será e com o que advirá. Por último, aletheia tem a ver com o não oculto, não escondido, não dissimulado, por conseguinte aquilo que se manifesta aos “olhos do corpo e do espírito”. 

Dito de outra forma:
- No predomínio do latim veritas considera-se que a verdade depende do rigor e da precisão da linguagem; 
- Quando prevalece o hebraico enumah, a verdade depende de um acordo ou de um pacto de confiança - histórico, político... -, que deve ser respeitado por todos: o que se combinou vai mesmo acontecer;  
- Na influência do grego aletheia considera-se que a verdade está na evidência, isto é, na visão intelectual e racional da realidade, tal como é em si mesma, alcançada pelas operações da nossa razão ou do nosso intelecto. 

De acordo com Paulo Guiraldelli (2001, p.2) , “quando dizemos aletheia estamos nos referindo ao não-oculto ou ao que não está dissimulado. Aletheia é o oposto de pseudo ( ), que é justamente o escondido, o que está encoberto. Não importa aqui se é o "olho do corpo" ou o "olho do espírito" que está olhando. O que importa aqui é que ambos, quando estão vendo o verdadeiro, estão diante de algo manifesto próprio das coisas. A verdade está nas coisas. Falar verdade é dizer o que está na realidade manifestada e não na realidade que não se manifesta, oculta, a que engana”.

Ainda sobre a etimologia da palavra aletheia, o psicanalista brasileiro António Rezende  faz umas considerações interessantes. Para ele esta palavra forma-se a partir dos étimos “a” (sem) + letheia (esquecer). À letra, aletheia poderá significar não esquecimento, não negação: neste sentido “ser verdadeiro é não esquecer as coisas que merecem ser pensadas, vivenciando-as na prática” (p. 157). De outro ponto de vista, refere o autor, verdade também aparece como “desvelamento”, “desnudamento” e “desmascaramento” (ibidem, 174) da máscara (do grego persona, e daqui a palavra personalidade) ou dos papéis mascarados, disfarçados e trasvestidos que representamos, e que nos identifica, socialmente, para não falar da dissimulação que contruímos para esconder, de nós mesmos, as verdades não admissíveis.

Trilhando este caminho, urge perguntar: “quem sou eu”?; “qual é a verdade de mim mesmo”?; “eu sou o que mostro”?; “a imagem que vejo ao espelho sou eu mesmo”?; “o comportamento e as atitudes que tenho em sociedade são autênticos e genuínos, ou fazem parte da mentira que adotei para me proteger dos meus sentimentos de insuficiência”?; “quando me olho ao espelho e questiono, há alguém mais belo, puro e sábio do que eu, estou a falar de mim ou de uma mentira que criei de mim?”. Para se ser justo e verdadeiro, primeiro para connosco mesmos, depois para com os outros, é indispensável que nos conheçamos, pelo que não surpreende a sábia verdade socrática “conhece-te a ti mesmo”, aliás o mesmo que proferiu o célebre paradoxo “só sei que nada sei ou sei uma coisa: que eu nada sei”.

Num livro delicioso, que aconselho a todos vós, Brené Brown , uma assistente social americana e investigadora, surpreende-nos com a frase “mostre-se como é de verdade. Essa é a única forma de viver a vida”, ou de consumir a vida, como diria Irvin Yalom no seu livro “Quando Nietzche Chorou” . 

Mas o que significa viver a vida, e não “ser vivido por ela” ; o que quer dizer viver com ousadia?; o que exprime escolher a vida e não ser escolhido por ela?

Na resposta a esta questão Brown cita Theodore Roosevelt, que num discurso sobre Cidadania na República, em 1910, disse: “Não é o crítico que conta; nem aquele que aponta para o homem forte que tropeça ou diz que os que realizaram algo o podiam ter feito melhor. O crédito pertence ao homem que está de facto na arena, com o rosto desfigurado pela poeira, suor e sangue; que se esforça com valentia; que erra, que falha vezes sem conta, pois não há esforço sem erros e falhas (p. 9)”. 

Cravam-nos - bem fundo -, na nossa mente, “pregos” supostamente indolores , que na arena da vida temos que ser, ou mostrar, que somos bons, perfeitos, bem-sucedidos, espertos, seguros, extraordinários (...), o que nos faz tropeçar na ratoeira de desejarmos secretamente ser super-homens, almejar sermos fortalezas inexpugnáveis e invencíveis. 
Será que estou a exagerar e a dramatizar? 

Evidentemente que estou a ser enfático! Obviamente que nunca assumiremos isto porque está em causa um sentimento no âmago de nós mesmos que passamos em surdina àqueles que amamos, como os nossos filhos. Ser vulnerável, nem pensar, mostrar vulnerabilidade, nunca jamais em tempo algum, porque a vulnerabilidade (definida comummente como a suscetibilidade de ser ferido; ser sujeito a ataque ou dano) é fraqueza, é colocarmo-nos a nu, é prestarmo-nos à humilhação, à vergonha pública, e dos fracos não reza a história, diz-se. 

Mas estar vivo não é ser vulnerável? Qual é a verdade e essência da natureza humana? Quando susteremos de nos mentir a nós mesmos? E não será isso uma verdadeira traição a nós mesmos, uma “traição do eu”, como diria Arno Gruen no seu livro com o mesmo nome? 

A pandemia deixou a nu a nossa vulnerabilidade. É uma verdadeira ferida no narcisismo humano. Se considerarmos os três verdadeiros golpes aludidos por Freud, seria a quarta: 1ª) a descoberta de que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário (Copérnico e a Galileu); 2ª a evolução biológica das espécies que retirou o carácter divino ao homem (Darwin); 3º a descoberta dos processos mentais inconscientes pela psicanálise, pelo que todo o comportamento não é por acaso (Freud).

Numa era digital, moldada pela internet - grande feito da inteligência humana, mas também o esgoto da humanidade -, e pelas redes sociais – verdadeiro big brother à escala planetária – o espetáculo, o ruído mediático da informação e contra informação, da notícia ténue, passageira, reativa e de consumo rápido, transformaram o mundo atual numa vacuidade promíscua, num vazio em que a verdade é um conceito destinado a desaparecer do léxico dos melhores dicionários, em que falar a verdade sobre a vida real dificilmente sobrevive à necessidade de consumir emoções rápidas, verdadeiro fast-food servido em pratos coloridos a sangue – sim o que interessa é fazer sangue, quanto mais melhor. E o que dizer das mensagens com que todos os dias somos bombardeados, verdadeiro terrorismo verbal que não só nos atordoa os ouvidos como entorpece e anestesia a mente, principalmente num momento em que a serenidade, lucidez e a verdade seriam mitigadoras do sofrimento humano?. Por último, o que dizer do processo intestino, autêntica diarreia mental verborreica, cuja repetição das mesmas coisas, e das mesmas palavras, até à exaustão, nos criam sensações de vómito, náusea e enjoo e sentimentos de ansiedade, depressão e desmoralização?

Não é só nos Estados Unidos da América que se vive a era da pós-verdade, como o refere Fareed Zacaria no programa GPS, emitido na RTP3 no passado dia 23 de janeiro. Também em Portugal, estou-me a referir à verdade sobre a realidade da pandemia nos hospitais que teima em não aparecer, grassa a pós-verdade. E não pensem que não há perigo para a democracia porque, como o refere Tim Snyder - professor de história em Yale, especialista em Holocasto e autoritarismo, autor do livro publicado recentemente On Tiranny -, a pós-verdade é o pré-fascismo. 

Mas o que é a pós-verdade? 
Trata-se de um “neologismo que descreve a situação na qual, na hora de criar e modelar a opinião pública, os factos objetivos têm menos influência que os apelos às emoções e às crenças pessoais” . Na pós-verdade aceitamos que só há uma opinião e não há verdade, é uma cultura que deixou desaparecer as fontes dos factos. Aqui, os critérios da evidência, ausência da contradição e da prova, verdadeiros critérios de verdade que permitem distinguir um juízo verdadeiro de um falso, não têm cabimento. 

E o que sucede neste tipo de cultura? 
Quando as pessoas não acreditam na verdade, e não há factos, diz Timothy Snyder, caímos na crença, cria-se um vazio que é preenchido pelo espetáculo e pelo mito. Quando não há verdade os políticos carismáticos preenchem esse vazio., remata o historiador.

Um mestre, sem mestrado, mas com muita arte e engenho neste tipo de fazer política foi, e ainda é, Donald Trump. De acordo com uma investigação do Whashigton Post, o ex-presidente dos EUA fez 30.529 declarações falsas ou enganosas durante os quatro anos que esteve na Casa Oval; contudo, diz Fareed Zacaria, o mais grave não é o ataque ao Capitólio mas, outrossim, a mentira indecorosa e indigna criada que, 75% dos republicanos, cerca 40% dos americanos, acreditam ser verdade, a saber: que Donald Trump perdeu as eleições porque foi escandalosamente roubado, não obstante as evidências em contrário. A grande dúvida atual nos EUA, acrescenta o jornalista, é como é que o país inteiro, não só a Casa Branca, volta à sinceridade, ou à verdade de um Estado de Direito e a todos os pilares de uma democracia saudável.

E o que acontece mais próximo de nós? 

Sem qualquer intenção de cariz político ou ideológico da minha parte, vejamos dois exemplos:

- Luís Marques Mendes, no espaço de opinião semanal na SIC, relativamente ao estado da pandemia em Portugal  dizia que “é preciso serenidade e verdade da parte dos governantes, porque o exemplo vem de cima”;

- Patrícia Pacheco, diretora de infeciologia do Hospital Amadora-Sintra, em entrevista ao Observador , sem rodeios e papas na língua, com um discurso duro de quem viu o hospital onde trabalha ser “virado do avesso” para se transformar numa “amálgama de gente dedicada à Covid 19”, disse que aquilo que mais se sente nos corredores do Amadora-Sintra é a “frustração e indignação”, e acusa o Governo de ter deitado tudo a perder ao “mentir” aos cidadãos e fazer uma gestão “errática” da pandemia. E acrescentou: “A falta de honestidade e de transparência perturba-me, acho que é o pior que um líder pode ter e é o pior que esta liderança do Ministério da Saúde tem: não ser transparente, desvalorizar sistematicamente os problemas que existem, em vez de os encarar, em vez de dizer de uma forma muito clara que nós temos limites e que não os devíamos ter ultrapassado”.

“A verdade é aquilo que resiste ao teste da experiência”, disse Einstein; “três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua e a verdade, afirmou Buda; “Sem a busca da verdade, a sociedade depressa decai”  , “alcançar a verdade é desdobrar a vida, é dar-lhe a mais ampla possibilidade de expressão. Para mim, a única meta, o único mundo que é eterno, (…) absoluto, é o mundo da verdade” , proferiu Krishnamurti; “(...) e a verdade vos libertará” (João 8,31-32).

 Permitam-me agora a audácia de questionar: aonde estão os homens e as Instituições de bem, como a Maçonaria, que poderiam, e deveriam, assomar à janela numa atitude de coragem, falando e defendendo a verdade, fazendo a verdadeira diferença neste marasmo caótico de vacuidade existencial? 

Considerando que o escrito já vai longo, e porque, como diz o ditado, “Falar muito e bem é talento de quem sabe; pouco e bem, é de carácter ajuizado; muito e mal, é vício do enfatuado; pouco e mal é condão do tolo”, permitam-me concluir apresentando a minha verdade, exprimindo algo que me engasga e tolda já há algum tempo. 

Segundo o Ritual do Grau do Aprendiz Maçom, “a maçonaria é uma sociedade de homens esclarecidos, unidos para trabalhar em comum para o aperfeiçoamento intelectual e moral da humanidade” (p. 93). O que está a maçonaria portuguesa, em geral, a nossa Loja e os irmãos, em particular, a fazer em prole da verdade que aludo neste trabalho?; Estamos a ser verdadeiros connosco mesmos, com o outro, nosso semelhante, e com os princípios que, todos nós, um dia, jurámos defender e prosseguir? 

Não consigo profetizar o meu futuro na Maçonaria. Os tempos não estão fáceis, grassando em mim desmotivação e descontentamento com o que entendo ser uma certa inércia e passividade geral. 

O que é que eu gostaria de ver? 

Mais verdade nas relações e na luta pelos princípios que são os nossos. 

Utopia? Ilusão? Talvez, mas não deixa de ser esta é a minha verdade, o meu desejo. Caso contrário vejo-me compelido a colocar uma máscara, fazer de conta, e isso é traição a mim mesmo. 


Autor: Jiddu Krishnamurti

 

segunda-feira, 22 de março de 2021

A Escravatura e a “Nova Escravatura”

A escravidão foi, desde tempos remotos, uma situação aceite e tornou-se essencial para a economia e para a sociedade de todas as civilizações antigas, embora fosse um tipo de organização muito pouco produtivo. A Mesopotâmia, a Índia, a China e os antigos egípcios e hebreus utilizaram escravos.

Na civilização grega, o trabalho escravo acontecia na mais variada sorte de funções: os escravos podiam ser domésticos, podiam trabalhar no campo, nas minas, na força policial de arqueiros da cidade, podiam ser ourives, remadores de barco, artesãos etc. Para os gregos, tanto as mulheres como os escravos não possuíam direito de voto. Muitos dos soldados do antigo Império Romano eram ex-escravos.

No Império Romano, o aumento de riqueza realizava-se mediante a conquista de novos territórios, capazes de fornecer escravos em maior número e mais impostos ao fisco. Contudo, arruinavam os pequenos proprietários livres, que, mobilizados pelo serviço militar obrigatório, eram obrigados a abandonar as suas terras, das quais acabavam por ser expulsos por dívidas, indo elas engrossar as grandes propriedades cultivadas por mão de obra escrava.

As novas conquistas e os novos escravos que elas propiciavam começaram a ser insuficientes para manter de pé o pesado corpo da administração romana. Os conflitos no seio das classes de "homens livres" começam a abalar as estruturas da sociedade romana, com as lutas entre os patrícios e a plebe, entre latifundiários e comerciantes, entre colectores de impostos e agricultores arruinados, aliados aos proletários das cidades. Ao mesmo tempo, começou a manifestar-se o movimento de revolta dos escravos contra os seus senhores e contra o sistema esclavagista, movimento que atingiu o auge com a revolta de Espártaco 73-71 a.C.. Desde o século II, a necessidade de ter receitas levava Roma a organizar grandes explorações de terra e a encorajar a concentração das propriedades agrícolas, desenvolvendo o tipo de exploração esclavagista.

E qual foi o papel de Portugal na escravatura?

“Os escravos pululam por toda a parte. Todo o serviço é feito por negros e mouros cativos. Portugal está a abarrotar com essa raça de gente. Estou quase em crer que só em Lisboa há mais escravos e escravas que portugueses de livre condição. Mal pus o pé em Évora, julguei-me transportado a uma cidade do Inferno: por toda a parte topava com negros, raça por que tenho tal aversão, que eles só por si bastariam para me fazer abalar daqui.”

Foi assim que o humanista flamengo Clenardus registou as suas primeiras impressões acerca de Portugal, pouco tempo depois da sua chegada, no ano de 1535. Para alguém como ele, vindo do norte, a instituição da própria escravatura deve ter surgido como algo de inédito, ainda que no sul da Europa os escravos obtidos no comércio com as regiões próximas do mar Negro e nas incessantes guerras contra os estados islâmicos tivessem já representado o seu papel ao longo da Idade Média. O que era verdadeiramente impressionante no Portugal dos séc. XV e XVI era o número de escravos negros, que formava uma das maiores concentrações de gente negra numa sociedade europeia, nos séculos que nos precederam, embora nunca ultrapassassem o número dos portugueses por nascimento, como Clenardus fantasiosamente supôs.

A sua presença era consequência das viagens efetuadas ao longo da costa ocidental africana, fomentadas pelo Infante D. Henrique durante a primeira metade do séc. XV. Por volta de 1440, os seus capitães começaram a trazer escravos negros, e, um século mais tarde, os escravos negros ultrapassavam muito provavelmente o número de mouros que tinham constituído o grosso da população escrava portuguesa nas épocas medievais. Desta feita, Portugal tornou-se a primeira sociedade europeia da época moderna em que a escravatura negra passou a ser usual.

Dificilmente se encontraria uma área da vida portuguesa - económica, social ou intelectual – que a escravatura não influenciasse de alguma forma. Tratou-se de uma influência crucial no papel histórico de Portugal enquanto descobridor, já que foi a possibilidade de arranjar escravos que ganhou apoio popular para as viagens que patrocinou o Infante D. Henrique para o sul, assim como a intenção d encontrar novos fornecedores de escravos, ou seja, novos territórios cuja população pudesse ser escravizada. Dali em diante, o tráfico de escravos constituiu o mais central vínculo comercial entre Portugal e a maioria dos reinos litorais de África, ao mesmo tempo que a reexportação de escravos para Espanha e para as Américas veio a tornar-se uma característica essencial da economia portuguesa.

O Império Português foi o primeiro a iniciar o comércio de escravos para o Novo Mundo no século XVI e outros logo o seguiram. Os donos dos navios negreiros consideravam os escravos como uma carga que deveria transportada para a América da maneira mais rápida e barata possível, para então serem vendidos para o trabalho escravo em lavouras de café, tabaco, cacau, açúcar e algodão, nas minas de ouro e prata, campos de arroz, na indústria de construção, corte de madeira e como empregados domésticos.

As razões para o emprego de escravos têm sido objeto de debates que remontam ao séc. XVI. Há quem considere que os escravos eram importados para compensar a perda dos homens idos para as colónias de além-mar. No entanto, as províncias nortenhas, que eram as que mais emigrantes forneçam, eram as que tinham menor número de escravos. Os escravos eram empregues sobretudo nas regiões em que o contingente local de trabalho livre não podia satisfazer a procura criada pelo aumento da economia. Era esta a situação de Lisboa e das províncias mais a sul, no entanto há dados que indicam que, por volta de meados do séc. XVI, o crescimento populacional começou a tornar desnecessária a mão de obra escrava, pelo menos no que se refere a Lisboa.

Ora isto traz-nos para os tempos atuais e para aquilo que eu chamo a “Escravatura Moderna”. A exemplo do que acontecia no séc. XVI, também hoje os países desenvolvidos da Europa recorrem aos imigrantes para fazer face à escassez de mão de obra local, especialmente em algumas profissões menos desejadas pelos naturais dos países. Muitos desses imigrantes provêm de países em guerra ou com precárias condições de vida e procuram a Europa para terem uma vida melhor, mas nem sempre é assim. Países há onde estes imigrantes vivem em condições desumanas, degradantes mesmo, em grandes cidades de países ditos desenvolvidos, como tive oportunidade de testemunhar há três anos atrás em pleno Paris.

E que dizer de proprietários agrícolas que contratam estrangeiros para trabalhos sazonais e depois, por vezes, vem-se a descobrir que não lhes pagam, apenas lhes dão de comer e mantêm-nos prisioneiros, sem sequer os deixar sair à rua. Até aqui em Portugal já foram relatadas situações destas.

E as redes de mendicidade, que põem mulheres e crianças a pedirem nas ruas, explorando-os e tratando-os, mais uma vez, como autênticos escravos.

Mas há situações menos graves que estas que espelham igualmente algo de escravatura, desta escravatura moderna: trabalhadores de algumas profissões, que só têm uma folga semanal, trabalhadores que fazem dois e três turnos seguidos mas não ganham horas extraordinárias, trabalhadores que são excluídos ou prejudicados por cumprirem apenas o seu horário de trabalho e não fazerem horas extra pro bono.

Atente-se também no que se passa em países menos desenvolvidos da Ásia, onde crianças são utilizadas em trabalhos muitas vezes pesados, onde trabalhadores trabalham em condições precárias para produzirem produtos de grandes marcas, que depois são vendidos nos mercados ocidentais com grandes ganhos.

Não serão estes alguns exemplos correntes de escravatura moderna? Ou para se ser considerado escravo tem de se andar acorrentado e sofrer castigos e sevícias? Onde está a liberdade? Onde está a igualdade? Onde está a fraternidade? Onde estão os Direitos Humanos?

Mas voltemos à História:

A Dinamarca, que tinha sido ativa no tráfico de escravos, foi o primeiro país a proibir o seu comércio através de uma legislação de 1792, que entrou em vigor em 1803. O Reino Unido proibiu o comércio de escravos em 1807, impondo pesadas multas para qualquer escravo encontrado a bordo de um navio britânico. A Marinha Real Britânica, que na época controlava os mares do mundo, começou a impedir que outras nações continuassem a praticar o comércio de escravos e declarou que o tráfico negreiro era igual a pirataria e era punível com a morte. O Congresso dos Estados Unidos aprovou a Lei de Comércio de Escravos de 1794, que proibiu a construção de navios nos Estados Unidos para o uso no comércio de escravos. Em 1807, o congresso proibiu a importação de escravos a partir de 1 de janeiro de 1808, a primeira data permitida pela Constituição dos Estados Unidos para tal proibição. No entanto isso não impediu que a escravatura nesse país continuasse a existir por mais 57 anos!

O último navio negreiro registado a atracar em solo americano foi o Clotilde, que em 1859 contrabandeou ilegalmente vários africanos na cidade de Mobile, no Alabama. Os africanos a bordo foram vendidos como escravos e a escravidão nos Estados Unidos só foi abolida cinco anos mais tarde, após o fim da Guerra Secessão, em 1865. O último país a proibir o comércio de escravos no Atlântico foi o Brasil, em 1888. Um comércio ilegal vibrante tinha continuado a enviar uma grande quantidade de pessoas escravizadas para o Brasil e também para Cuba, até a década de 1886, quando a pressão dos britânicos finalmente pôs fim ao comércio atlântico.

O historiador Walter Rodney afirma que foi uma queda na rentabilidade das operações triangulares que tornou possível a consolidação das críticas contra o tráfico negreiro no Atlântico. Rodney afirma que as mudanças na produtividade, na tecnologia e nos padrões de intercâmbio na Europa e na América impulsionou a decisão dos britânicos de acabar com a sua participação no comércio de escravos em 1807.

Em 1998, a UNESCO, das Nações Unidas designou o dia 23 de agosto como o "Dia Internacional de Recordação do Tráfico de Escravos e de sua Abolição". Desde então, tem havido uma série de eventos que reconhecem os efeitos da escravidão.

Em 30 de janeiro de 2006, Jacques Chirac (o então presidente francês) disse que 10 de maio seria, a partir de então, um dia nacional em memória das vítimas da escravidão promovida pela França, marcando o dia em 2001, quando o país aprovou uma lei que reconhecia a escravidão como um crime contra a humanidade.

Em 27 de novembro de 2006, Tony Blair, então primeiro-ministro britânico, fez um pedido de desculpas parcial pelo papel do Reino Unido no comércio de escravos africanos. No entanto ativistas dos direitos africanos denunciaram o discurso como "retórica vazia" que não conseguiu resolver o problema corretamente. Blair novamente pediu desculpas no dia 14 de março de 2007.

Em 31 de maio de 2007, o governador do Alabama, Bob Riley, assinou uma resolução expressando "profundo pesar" pelo papel do estado na escravidão e desculpas pelos erros e os efeitos remanescentes. O Alabama é o quarto estado do sul a fazer um pedido de desculpas formal pela escravidão, após Maryland, Virgínia e Carolina do Norte. Em 30 de julho de 2008, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma resolução pedindo desculpas pela escravidão e por leis discriminatórias posteriores. Em 18 de junho de 2009, o Senado dos Estados Unidos emitiu um comunicado pedindo desculpas condenando as "fundamentais injustiças, crueldades, brutalidades e desumanidades da escravidão".

Aparentemente tudo está bem, todos os países fazem mea culpa, pedem desculpas, lamentam o passado. Mas continuam hoje a existir homens mulheres e crianças a viver em condições de autêntica escravatura nos dias de hoje, e toda a gente olha para o lado, até nós, se calhar.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos diz, nos seus primeiros artigos:

Artigo 1.º: Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

Artigo 4.º: Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.

Artigo 5.º: Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes.

Quanta hipocrisia! Possamos nós, enquanto Maçons livres nunca pactuar com situações destas e defender sempre os valores da Liberdade, Igualdade e Fraternidade que defendemos.


Autor: António Egas Moniz