terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Fio de Prumo

Em mais este passo de caminhada para o Conhecimento, a tarefa que me foi atribuída foi a de vos trazer uma prancha sobre um dos Símbolos da Nossa Ordem.

A simbologia é de importância fundamental, estando presente em todos os rituais e objectos usados. Eles contêm um significado próprio e não imediato, que os torna representações de conceitos mais profundos e ricos. O estudo dos nossos símbolos é assim primordial para aceder aos conhecimentos ancestrais em que se assenta a Nossa Ordem e que nos guiam na caminhada em que procuramos rectificar a Pedra Bruta de que somos constituídos na almejada Pedra Cúbica.  

Devo dizer que a escolha foi imediata: o Fio de Prumo.

Razão: porque, ainda sem mais pesquisa nem entendimento simbólico, associava este símbolo ao conceito de verticalidade de carácter, que pretendo ser característica da minha forma de estar.

Dito isto, falhei redondamente nesta tarefa.

Com efeito, ao buscar mais conhecimento sobre este Símbolo e seus significados, percebi que não só ele só pode ser entendido na plenitude quando associado ao Nível, como, olhando mais atentamente, percebemos que ele é um elemento do próprio Nível, já que este Símbolo é composto de um Fio de Prumo e um Esquadro.

Assim, optei por alargar o traçado desta prancha, alcançando a descrição e o meu entendimento sobre cada um deles e o seu efeito combinado. Reconhecendo que qualquer deles são símbolos de um Grau que ainda não atingi, assumo que está limitada a minha capacidade para aceder à plenitude do entendimento sobre os mesmos, mas permitam-me que, não obstante estes constrangimentos, me lance a esta obra, a qual irei maturar e evoluir à medida que aceda a mais e melhor conhecimento sobre cada um destes símbolos.

Começando então com o Fio de Prumo, é provavelmente o mais singelo dos instrumentos de um Maçon. Bastará atar um qualquer objecto pesado que sirva de pêndulo na ponta de um cordel e a força da gravidade tratará de nos garantir a preciosa indicação da vertical, fundamental à construção de um edifício sólido. Menos óbvio, mas igualmente importante é o facto de o Fio de Prumo nos dar a projecção de um ponto do edifício ao plano horizontal, também isso fundamental para garantir um edifício justo e perfeito (referes-te ao Nosso plano interior?).

Do ponto de vista simbólico este símbolo da joia que adorna o 2º Vigilante representa a profundidade do conhecimento e sua verticalidade, bem como a relação como o Alto, nessa ligação entre a profundeza de onde emana a força gravítica, até à vastidão da Abóboda Celeste (conforme encontramos em A Simbólica Maçónica - Jules Boucher). É com a orientação do Fio de Prumo que poderemos descer à profundeza do nosso interior para nos descobrirmos, onde devemos buscar o aperfeiçoamento, para de seguida poder subir aos altos graus de conhecimento e espiritualidade.

Existe também uma conotação com verticalidade de carácter que se espera de um Maçon que, como disse atrás, foi a razão inicial para a escolha deste símbolo para esta prancha.

Olhando agora ao Nível, ele é constituído por algo que permita assentar em dois pontos de uma recta, com um fio de prumo a mostrar que ambos estão nivelados quando o mesmo encontra na em ângulo recto com a linha definida pelos pontos onde o nível está assente. 

Esta configuração permite aferir a horizontalidade dos pontos em que está assente, sendo de fundamental importância para o correcto alinhamento das superfícies durante a sua construção.

A representação varia consoante a bibliografia, mas a que considero mais rica do ponto de vista simbólico é a que se faz através da conjugação do Esquadro de braços iguais e do Fio de Prumo. É, de resto, essa que podemos encontrar, por exemplo, na escadaria do nosso Palácio Maçónico ou na joia que adorna o 1º Vigilante. 

Do ponto de vista simbólico, ele representa a Igualdade, não do que somos, pois existe sempre o espaço à individualidade, mas dos direitos e responsabilidades que temos enquanto seres humanos e Maçons (Plantageneta citado por Jules Boucher em A Simbólica Maçónica).

É para mim interessante que seja este o símbolo da joia que adorna o 1º Vigilante. 

Existe uma corrente, expressa pelo autor já citado, que defende que, pelo facto de conter ele próprio um Fio de Prumo, o Nível é um instrumento mais completo, logo mais adequado a adornar o único em Loja que pode substituir o V∴ M∴ na ausência deste.  

Ainda que sem ter encontrado referências, depreendo que, por ser uma combinação das joias que adornam 2º Vigilante (o Fio de Prumo) e o Venerável (Esquadro), ele representa a síntese une as três principais luzes da Loja  num contínuo.  

Interrogo-me também se a escolha do símbolo da igualdade não estará ligada ao exemplo a passar aos Companheiros que o 1º Vigilante acompanha, os quais, estando a avançar no seu caminho de conhecimento, não podem deixar de vista a humildade de lembrar que, na base somos todos iguais e todos os Homens merecem o mesmo respeito, independentemente do caminho que seguem e das oportunidades que têm.

Analisados que estão estes dois símbolos individualmente, queria olhar para eles de forma combinada. 

A vertical e horizontal, associadas a cada um destes símbolos, são exemplos das polaridades universais que, sendo opostas, interagem entre si e se complementam. 

Assim acontece com os símbolos que as representam; juntando os dois, vemos que é formada uma Cruz, a qual carrega todo um simbolismo que irá para além daquilo que me proponho traçar nesta prancha. É no entanto um símbolo que transmite a noção de equilíbrio, conjugando os conceitos de igualdade e verticalidade num todo que representa o Homem.

Tratando-se dos Símbolos que adornam ambos os Vigilantes, principais auxiliares do Venerável na condução da Loja, a correlação de ambos é também expectável. Ambos trabalham em conjunto pelas mesmas causas olhando por colunas ortogonais entre si, e assim complementando-se, um representado pelo Vertical (Activo) e outro pelo horizontal (Passivo), também aqui com a representação das polaridades opostas. 

Por fim, e uma vez que o Esquadro aparece como elemento constitutivo do Nível, quero debruçar esta análise sobre este símbolo que adorna o Venerável Mestre, completando assim a tríade que dirige os trabalhos da Loja. 

Composto por dois segmentos de recta formando um ângulo de 90º, o Esquadro é, segundo Ragon, o instrumento que permite tornar os corpos quadrados. 

Ele representa Matéria (daí ser um símbolo passivo) e a acção do Homem sobre a mesma para a rectificar, com um directo paralelo para a acção do Homem sobre si mesmo com o objectivo de caminhar no sentido de se tornar justo e perfeito.

Esta joia é a que adorna o Venerável Mestre, pois representa a missão deste ajudar os maçons da loja na busca da melhoria no caminho nunca alcançado da perfeição, pelo que é necessário a rectidão providenciada pelo Esquadro para permitir desbastar a Pedra Bruta para a transformar em Pedra Cúbica. 

Nesta joia os braços do esquadro não são iguais, antes têm uma relação de três por quatro, que alude directamente ao Triângulo Pitagórico, ficando o lado mais comprido para o lado direito para simbolizar a predominância do activo (lado direito) sobre o passivo (lado esquerdo).

É igualmente interessante observar que com dois esquadros podemos formar uma Cruz ou um Quadrado, mas estes são temas que, como atrás mencionado, não irei aprofundar nesta prancha

Certo de que não terei trazido nada de fundamentalmente novo, ficarei satisfeito se este traçado tiver servido para reavivar nos Vossos espíritos a riqueza deste símbolos.  É com a utilização combinada deles que se consegue erguer um templo mais alto, belo e sólido, capaz de enfrentar os abalos do mundo exterior. E se assim é na representação do que é a nossa Loja, também o é, necessariamente, no nosso Templo Interior. 

Autor: Damião de Goes

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

Quem foi José Liberato Freire de Carvalho

José Liberato Freire de Carvalho, nasceu na Quinta de Monte São, freguesia de S. Martinho do Bispo, próximo de Coimbra, em 20 de Julho de 1772, era filho do Dr. Aires António Antunes Freire, Mordomo-Mor da Universidade de Coimbra,  e de sua esposa Maria Joaquina Freire de Carvalho.

Por influência de seus pais, mas também de seu irmão D. António da Visitação Freire de Carvalho, ingressou em 1787, com 15 anos de idade, na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde estudou Filosofia e Teologia, contudo manteve-se atento ao que acontecia na Europa, nomeadamente aos ecos da Revolução Francesa, através do contacto com um seu irmão frade do Convento de Grijó.

Sem particular vocação para a vida monástica, pediu e obteve transferência para o Mosteiro de Refoios do Lima, um ambiente bem menos disciplinador.

Terminados os estudos teológicos em 1795, recebeu em Braga as primeiras Ordens Sacras, sendo oficiante D. Frei Caetano Brandão, e adoptando o nome religioso de D. José do Loreto.

Permaneceu no Mosteiro de Refoios do Lima, até ao ano de 1800, ano em que foi nomeado professor de Lógica na escola anexa ao Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa.

Esta nomeação foi conseguida por influência de seu irmão D. António da Visitação Freire de Carvalho, que era ali professor.

Chegado a Lisboa ganhou acesso à excelente biblioteca do Convento de São Vicente de Fora, estabeleceu contactos com a melhor da intelectualidade da época, tendo privado, entre outros, com Gomes Freire de Andrade, Bento Pereira do Carmo e Manuel Maria Barbosa du Bocage.

As suas ideias libertárias levaram-no a integrar-se nos círculos pró-liberais e maçónicos, filiando-se na Loja Fortaleza do Grande Oriente Lusitano, onde significativamente, adoptou o nome simbólico de Spartacus.

Nos anos imediatos, dedicou-se com afinco aos estudos filosóficos, lendo os autores contemporâneos e desenvolvendo as suas capacidades intelectuais. Para além da Lógica passou a ensinar Retórica e Eloquência. Este processo foi interrompido em 1804 pela doença e morte do seu irmão D. António da Visitação, vítima de uma pneumonia. Este acontecimento causou-lhe grande consternação e obrigou-o a uma estadia com familiares em Coimbra e na Figueira da Foz, onde fez uma cura de banhos de mar.

Regressado a Lisboa, assumiu as funções de Grande Orador do Grande Oriente Lusitano, que entretanto se organizara para enquadrar as Lojas maçónicas existentes.

Em 21 de Novembro de 1804 foi feito sócio da Academia Real das Ciências de Lisboa, sucedendo no lugar ao seu falecido irmão, contudo, a sua permanência em Lisboa foi curta, pois o seu relacionamento com Hipólito José da Costa, acabou por atrair as atenções da Santa Inquisição e foi obrigado a abandonar o Mosteiro de São Vicente de Fora e recolher-se no Mosteiro de Grijó, em cujo Convento permaneceu até 1808, exilado por ordem da Intendência da Polícia de Lisboa, apesar das inúmeras diligências feitas junto dos poderes políticos e mesmo junto do Príncipe Regente D. João.

Desencadeada a Guerra Peninsular com a invasão de Portugal pelas tropas francesas e tendo ocorrido a transferência da corte portuguesa para o Brasil (1808-1821), foi finalmente autorizado a regressar a Lisboa, onde encontrou o Mosteiro de São Vicente de Fora a servir de alojamento a numerosos oficiais franceses.

Conhecedor da língua francesa, teve um papel importante no relacionamento entre a Ordem e as autoridades de ocupação francesas, relacionamento este, que criou a fama de ser pró-francês, razão pela qual após a Convenção de Sintra, o obrigou a procurar refúgio junto dos seus familiares em Coimbra, onde permaneceu até 1810, alegando doença, ano em que, por ser membro da maçonaria foi incluído na lista dos presos da “Setembrizada” em que foram embarcados e desterrados para a Ilha Terceira, contudo ficou impedido de regressar a Lisboa temendo ser preso e deportado.

No entanto após a Batalha do Buçaco foi feito refém em Coimbra pelas forças do general Massená e forçado a acompanhar o exército francês até Pombal e Condeixa, conseguindo em finais de Março de 1811 fugir aos seus captores quando pernoitava em Foz de Arouce.

Pouco tempo depois foi preso e encarcerado na Prisão da Universidade de Coimbra, acusado de ter acompanhado os franceses, após ter sido libertado passou a viver com os seus familiares em Coimbra, mas pouco tempo depois volta a ser preso por ordem da Regência do Reino e colocado incomunicável no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra até 1813, aproveitando o tempo a fazer uma tradução portuguesa dos Anais de Tácito.

Em Agosto de 1813, sem nunca ter sido julgado, foi mandado para o Mosteiro de Refoios do Lima e proibido de contactar qualquer pessoa fora da comunidade de frades que ali habitava.

Quando passava pelo Porto a caminho do Mosteiro, por sugestão e com a ajuda de José Pinto Basto, recebeu um passaporte passado em nome de um pretenso criado de um negociante inglês e com ele chegou à Corunha onde embarcou com destino a Londres.

Na Corunha havia recebido um novo passaporte passado pelo Cônsul Britânico, escolhendo então o nome de José Liberato Freire de Carvalho, nome que conservaria para o resto da vida. A adição do nome de Liberato marcou a sua alforria, que acompanhou pelo abandono dos títulos eclesiásticos, considerando-se daí em diante desobrigado dos seus votos e do nome de D. José do Loreto.

Em Londres dedicou-se ao jornalismo e em 1814 passou a ser redactor de “O Investigador Português em Inglaterra”, um periódico de grande influência entre os emigrados portugueses no Reino Unido e mesmo junto das elites portuguesas. Quando o Duque de Palmela pretendeu fazer do periódico o órgão oficial do governo português no exilio, recusou, o que levou á suspensão da comparticipação que o mantinha. Fundou então o Campeão Português, um periódico que ganhou extrema importância durante o período que antecedeu a Revolução Liberal do Porto.

Após a implantação do regime liberal em Portugal, chegou a Lisboa em 1821, sendo convidado para ingressar na carreira diplomática. Não aceitou, optando por um lugar de adido no Ministério dos Negócios Estrangeiros, cargo que manteve por pouco tempo. Entretanto reingressou no Grande Oriente Lusitano, adoptando o nome simbólico de “Camarino Dirceu” .

Fundou em Lisboa o periódico que intitulou de O Campeão Português em Lisboa, manifestando grande independência editorial. Nele deu voz ás suas criticas ás circunstâncias que haviam conduzido a independência do Brasil e ao papel que nelas tivera o Príncipe D. Pedro de Bragança, futuro D. Pedro IV.

Feito deputado para as Cortes de 1822-1823, pelo círculo de Viseu, tendo prestado juramento em 22 de Novembro de 1822. Contudo na sequência da Vilafrancada foi enviado para a sua casa da Quinta de Monte São, em São Martinho do Bispo, com residência fixa. Foi indultado em 1824, mas recusou qualquer participação na vida política até 1826. Retomou o lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros e foi nomeado redactor da Gazeta de Lisboa, órgão oficial do governo português.

Com a subida ao poder do Rei D. Miguel, foi obrigado a passar á clandestinidade , mantendo-se assim até 1828, ano em que conseguiu regressar ao exilio em Londres, dedicando-se ao jornalismo e assumindo um papel determinante na mobilização dos emigrados liberais em Inglaterra no período inicial da Guerra Civil (1828-1834. Passou depois na companhia de Saldanha, a Paris, tendo integrado as forças liberais que vieram a reforçar os liberais sitiados no Porto, onde chegou em princípios de 1833.

Terminada a Guerra Civil, regressou a Lisboa, onde foi nomeado 2º. Grão-Mestre Interino do Oriente de Saldanha, ou Grande Oriente Lusitano da Maçonaria do Sul, de aliança “Saldanhista”, cargo que exerceu nos anos de 1834-1835. Em 1835 passou a ser membro da Sociedade Patriótica Lisbonense. Simultaneamente foi eleito deputado ás Cortes pelo círculo da Madeira para a legislatura que começou em 15 de Agosto de 1934 e terminou a 4 de Junho de 1836. Nesta legislatura destacou-se na discussão da lei de liberdade de imprensa, recusando a interferência dos poderes públicos no jornalismo e foi encarregado de redigir o Auto de Exclusão de D. Miguel.

Até á Revolução de Setembro de 1836, foi arquivista da Câmara dos Pares do Reino, sendo nomeado por Passos Manuel, presidente da Comissão Administrativa da Imprensa Nacional, cargo que exerceu até 1838. Após a revolução, foi eleito deputado ás Cortes Constituintes (1837-1838) pelo círculo de Lisboa, tendo participado activamente na discussão da Constituição Portuguesa de 1838, votando com a fracção mais radical.

Apesar de ter sido eleito deputado pelo círculo de Lisboa para a legislatura de 1838-1840, a partir de 1838 retirou-se progressivamente da vida pública, dedicando-se ás letras e á Academia Real das Ciências de Lisboa, de que foi um dos mais assíduos académicos. Ainda Assim, subscreveu com outros deputados setembristas, uma proposta de lei visando alterar a lei eleitoral vigente.

Destacando-se pela sua independência e desapego aos bens materiais, rejeitou todas as prebendas e vantagens  que lhe foram oferecidas tendo morrido pobre em Lisboa aos 82 anos de idade,  no dia 31 de Março de 1855.

Deixou uma vasta obra histórica, política e autobiográfica, sendo considerado como um dos principais ideólogos do primeiro liberalismo português, particularmente pela sua influência sobre a imprensa durante a fase da emigração liberal para Inglaterra e França.

Autor: Fernando Valle

domingo, 26 de novembro de 2023

A Alavanca

Um Símbolo consiste na representação visível de uma ideia ou de uma força nele ocultado. É fundamental procurar em cada símbolo o seu significado maçônico, aquele sentido que nos pode levar ao aperfeiçoamento moral e ético e que nos ajude a ter consciência das imperfeições da Pedra Bruta que somos para que as possamos corrigir.

Foi no decurso da cerimónia de aumento de salário que tomei consciência de que muito pouco ou quase nada sabia sobre a Alavanca, importante símbolo da Maçonaria. Senti então vontade, ou melhor, necessidade de conhecer exaustivamente o significado e tudo o mais que a ele se refere. É, pois, este o resultado do meu trabalho de pesquisa na procura do conhecimento do muito que diz respeito a este símbolo.

Na cerimónia de iniciação, o neófito, renascendo espiritualmente, começa um longo percurso da sua nova vida com a aprendizagem gradual dos segredos maçónicos, saindo da escuridão em que se encontrava passando para a “luz” do conhecimento que até então lhe era vedado.
Nesta celebração o candidato é submetido a três viagens, iniciando um processo de transformação pessoal pelo esforço contínuo de reflexão visando o aperfeiçoamento do conhecimento e da sua mente pela evolução intelectual, moral e espiritual.
O iniciado é sim, o que vive verdadeiramente a iniciação e não apenas o que ritualmente por ela passou.

Agora Aprendiz Maçon, tem como tarefa árdua o estudo e a assimilação do conhecimento referente a todos os símbolos que encontra dentro do Templo. 
O Aprendiz no seu processo de crescimento interior, filosoficamente começa simplesmente por aprender a desbastar a sua Pedra Bruta sendo simultaneamente a matéria-prima, a obra e o seu autor. Funciona assim a psicologia do desenvolvimento maçônico. Simbolicamente, começa por libertar-se de paixões, erros e vícios, passando de Aprendiz a Companheiro, deixando o três para assimilar o cinco.
 Alcançado esse objetivo é proposto para elevação ao grau de Companheiro, o segundo dos três Graus Simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito. 

Já não sendo Aprendiz e sem ainda ter alcançado a posição de Mestre, como Companheiro assumirá então o importante estatuto de laço de união entre aqueles dois graus.
No ritual de aumento de salário, o recipiendário é acompanhado pelo Irmão Experto em cinco viagens equivalentes aos cinco anos de preparação que os discípulos de Pitágoras (mestre nas antigas iniciações) teriam de ter para que se tornassem capazes de ensinar e serem dignos de serem ouvidos.

Tal como nessas viagens, assim acontece com o nosso percurso   intelectual em direção à Verdade e ao Conhecimento tal como com a marcha moral rumo a um ideal de perfeição, que se revela cada vez   com maior clareza à medida que avançamos na direção que nos conduzirá à sua realização. No início de cada uma delas o recipiendário recebe os respetivos instrumentos que os devolve no final da mesma, sendo-lhe então explicado o seu significado bem como o da viagem então efetuada.

Para a primeira viagem são-lhe entregues o maço e o cinzel, para a segunda o esquadro e o compasso, para a terceira a alavanca e a régua, para a quarta o nível e finalmente para a quinta viagem recebe a trolha. 

Agora no 2º grau maçónico, o Companheiro (etimologicamente é aquele que faz parte de um grupo que reparte entre si o mesmo pão) passou da perpendicular ao nível, conhecendo o esquadro o nível e o prumo. A pedra que era bruta passa nesta fase a ser polida, pois o Aprendiz amadureceu evoluindo para um estado no qual se apresenta pronto a examinar os aspetos mais profundos do seu processo psicológico e da sua própria consciência.

Na terceira viagem de elevação a Companheiro, através de aquisição de conhecimentos científicos é encetado o estudo da Natureza. Nela, o recipiendário recebe para além da Régua e por substituição do Compasso, a Alavanca. Estes dois últimos têm em comum o facto de possuírem três pontos (apoio, a potência e a resistência) que determinam a sua funcionalidade como instrumentos ativos na maçonaria operacional ou filosófica. A Régua, que permite traçar linhas retas que poderão ser prolongadas infinitamente, é o símbolo da lei moral no que ela tem de imutável e rigoroso.
   
Foi, pois, na 3ª viagem da minha Elevação ao 2º Grau da Maçonaria, que tive o primeiro contacto com a Alavanca, instrumento do Grau de Companheiro cujo significado me propus aprofundar.

Em Física, a alavanca é uma máquina simples constituída por um objeto rígido que, utilizando um ponto fixo de apoio (fulcro), consegue multiplicar a força mecânica que é aplicada (força potente) a um outro objeto (resistência / força resistente).   Esta forma de aumento de força constitui o conceito de ”vantagem mecânica”.

Dependendo da relação espacial destes três pontos (fulcro, força aplicada e resistência), assim se classificam os tipos de alavancas: interfixas, interpotentes e inter-resistentes. Quando o ponto de apoio (fulcro) está entre a força aplicada e a força resistente, a alavanca é interfixa (exemplo: tesoura). Se a força resistente estiver entre o ponto de apoio e a força aplicada, a alavanca é inter-resistente (exemplo: quebra nozes). Caso a força aplicada esteja entre o ponto de apoio e a força resistente, então a alavanca é interpotente (exemplo: pinça).

O ponto de apoio deve ser tão ou mais resistente que a própria alavanca para que não comprometa o processo por ineficácia. Da mesma forma é de fundamental importância a Força Potente, força esta que é exercida em determinado ponto da alavanca para que a Força Resistente seja vencida.

“Deem-me um ponto de apoio e moverei a Terra”, terá sido dito   por Arquimedes no século III a.C. ao compreender a Lei da Alavanca. Trata-se duma manifestação filosófica que salienta a enorme importância e valor do "ponto de apoio".

A palavra Alavanca (do latim levare) refere-se ao início da ação de levantar alguma coisa. Tem como princípio básico a possibilidade de poder mover grandes cargas pela aplicação de pequenas forças utilizando sempre um ponto de apoio.

Se na primeira e na segunda viagens o Maçon desbastou a pedra bruta, criando a partir desta, peças mais perfeitas e passíveis de se adaptarem, é na terceira viagem, com a ação da Régua e da Alavanca (instrumento de colocação a par da trolha) que as pedras já se podem unir, começando assim verdadeiramente a edificação do Templo. 

A Alavanca pode representar o desenvolvimento da nossa inteligência e consequente compreensão para regular e dominar a inércia da matéria, levantando-a e movendo-a em direção ao lugar que lhe está destinado na construção do nosso Templo Individual. 

Metaforicamente a Alavanca representa a energia criadora do Homem, a força do trabalho e da vontade, que através da sapiência é posta ao serviço de toda a humanidade. Simboliza o controlo e o domínio da força em ação, movimento que permite vencer os obstáculos, a resistência moral ou material, assim como ultrapassar medos e fraquezas, sempre na condição de ser capaz de encontrar o seu ponto de apoio.   

Na Maçonaria cada irmão constitui um “ponto de apoio”, e todos unidos representam a Alavanca e a sua força. Há pois, que aprender a usar esse enorme poder que a Maçonaria proporciona.

Tendo sempre presente o significado metafórico da Alavanca, os maçons deverão ser resolutos, decididos e persistentes no seu esforço permanente visando ultrapassar os desafios que surgem constantemente, perante os quais é imprescindível exercer a flexibilidade na prática contínua da Tolerância.


Autor: João Bosco